Saturday, December 31, 2005

3...2...1... FOGO!

Da caderneta velha de Samuel Berbenott

SB: Amarra isso firme Ian! Não está me parecendo muito confiável essa fita!

IL: Relaxa Samuel... Quando acendermos esse pavio, todos vão explodir juntos!

O dia estava claro já e ouvíamos as vozes de estudantes empolgados fora da barraca que faziam planos para o próximo ano e sorriam deliberadamente. Os professores haviam saído cedo para arrumar os preparativos da virada de ano que seria na beira do rio. Eles haviam preparado muitos tipos de comidas e bebidas, e o clima de animação contagiava todo o acampamento.

Eu e Ian estávamos camuflados na barraca amarrando um grupo de fogos de artifício juntos. É claro que a nossa virada de ano não passaria em liso não é? Não é só porque estamos no meio do nada (como diz a Isa) que não podemos ter nosso show pirotécnico.

Estávamos tão concentrados em amarrar corretamente os bastões que nem vimos quando Dominique e Bernard entraram na barraca...

DC: Nossa! O que estão fazendo aqui? As garotas hoje estão bem “sociáveis” por assim dizer... A noite vai render! O que é isso?

BL: Ah não, vocês não estão pensando em soltar esses fogos não é mesmo? Vocês sabem soltar isso? E se não forem iguais aos Filibusteiros?

SB: Bernard, nós não estamos pensando... Nós vamos soltar esses fogos! E são todos iguais... Basta acender o pavio e tomar distância!

IL: Querem ajudar? Tem uns ali que ainda precisam ser amarrados, se nos fazem esse favor...

BL: Não, eu fico com a minha leitura! Agradeço a chance...

DC: Ah Bernard, alivia... Vamos alegrar um pouco! Imagina a felicidade de todo mundo com os fogos? São esses para amarrar não é Ian?

Não se passaram nem dois minutos e Bernard se convenceu de que não adiantaria protestar e argumentar e ajudou Dominique a amarrar o restante dos fogos. Deixamos tudo pronto para lançar e saímos para aproveitar o restante do dia...

A expectativa aumentou quando o sol se pôs e todos foram se arrumar. A maioria dos alunos já tinha se dirigido para a beira do rio, para onde os professores os conduziam. Quando não escutávamos mais passos de ninguém e nem conversas, saímos da barraca carregando a caixa de fogos, cada um segurando uma das pontas e andando o mais silenciosamente possível.

Depositamos a caixa atrás de um grupo de árvores, nas proximidades de onde todos estavam... Marie e Antoine que estavam por ali, nos viram saindo de trás das árvores e nos olhando desconfiados se aproximaram...

ML: O que vocês estão aprontando?

IL: Nós? Nada...

ML: Ian, conheço muito bem essa sua cara e ela não me convenceu nada!

IL: Bom, então permaneça com a sua desconfiança!

AG: O que esconderam atrás das árvores?

SB: Nada que seja do interesse de alguém por enquanto... Logo saberão!

ML: Ah, então tem coisa! Espero que não seja mais uma daquelas brincadeiras delinqüentes de vocês senão...

DC: Senão?

ML: Vamos Antoine, vamos deixá-los aí...

Marie se virou de mãos dadas com Antoine e seguiu para onde o resto dos estudantes se encontravam festejando. Ian os encarava com um olhar mortífero e Bernard os olhava sensatamente e sem comentar nada. Fomos até a aglomeração e nos sentamos na areia enquanto bebíamos quentões...

Dominique que até então estava conosco, levantou-se e foi até um grupo de garotas do sexto ano que conversavam animadas. Logo o vimos com uma das meninas em um canto mais afastado conversando.

Ficamos ali papeando e rindo até quando faltavam aproximadamente 10 minutos para a virada do ano, e então, fazendo sinal para Dominique, nos dirigimos novamente até as árvores afastadas... O show ia começar!

Porém, ao chegarmos ao lugar onde a caixa deveria estar pousada não havia nada... Procuramos ao redor e não a encontramos... Quando já estávamos a ponto de amaldiçoar o infeliz que a tinha recolhido, novamente Marie e Antoine surgem com sorrisos de satisfação estampados nos rostos.

ML: Ah, vocês vão soltar fogos! Que coisa mais linda...

BL: Onde está a caixa Marie?

AG: Aqui está...

Antoine apontou para atrás de uma grande rocha ao lado onde a caixa estava escondida e corremos até lá!

ML: Porque não nos contaram logo? Tivemos que abri-la para descobrir!

IL: Fez muito mal sabia? Porque abriu? A curiosidade matou o gato Marie...

ML: O que houve Ian?

BL: Nada, tenho certeza que Ian está ótimo... É só uma tensão momentânea! Vamos nos apressar ou os fogos só serão lançados na próxima hora!

Enfileiramos os bastões de fogos atrás da rocha e nos preparamos para o lançamento. Cada um de nós ficou responsável por um grupo e só o lançaríamos após o término de todos os fogos do antecedente. Marie e Antoine ficaram em pé ao lado aguardando o momento e então pudemos escutar muitas vozes gritarem em uníssono...

5...4...3...2...1...

SB: FOGO!

Eu que era o primeiro da ordem, acendi o pavio e tomei distância... O grupo de fogos subiu fazendo um zunido fino e então, nas alturas, um de cada vez estourou no céu negro e limpo. Assim que o primeiro explodiu, todos aplaudiram e gritaram muito. Os fogos acabaram e pude ver Bernard acender o pavio e correr para onde eu estava... Após os de Bernard foi a vez de Dominique. A platéia aplaudia o espetáculo! Todos gritavam, se abraçavam, choravam, sorriam muito e pulavam. Quando o último fogo de Dominique tomou conta do visual, Ian acendeu o pavio com o fósforo, porém não tomou distância! Ficamos olhando abismados para ele e gritando para que corresse, mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, ele jogou um toco de fósforo para onde Marie e Antoine estavam e correu.

Foi certeiro... O toco de fósforo que estava aceso atingiu a barra da calça de Antoine e começou a queimar. O fogo estava baixo e os dois olhavam para o céu presenciando o último grupo de fogos ser explodido que nem perceberam o fogo subindo e aumentando o ritmo. Ao perceber que sua calça estava em chamas, Antoine correu desesperado para o rio e mergulhou. Marie olhava assustada para a cena e depois nos encarou furiosa.

Ian se contorcia de rir no chão, e nós segurávamos as risadas quando ela veio pisando firme e nervosa para nossa direção.

ML: IAN! Você colocou fogo nas vestes do Antoine! Podia ter machucado ele sabia? Para de rir! Ai, como você é infantil...

SB: Marie, foi um acidente, nós vimos!

ML: Acidente, acidente... Hunf!

Bernard abriu a boca para falar algo, mas desistiu. A menina virou as costas e foi ao encontro de Antoine que estava encharcado da cabeça aos pés, e com metade da barra direita da calça totalmente queimada!

Dominique rindo da situação se afastou desejando Feliz Ano Novo, indo ao encontro da garota. Bernard e eu sentamo-nos e esperamos Ian se acalmar... Ele estava prestes a entrar em crise a qualquer momento, não parava de se contorcer no chão rindo.

Foi assim a nossa virada de ano... Tirando esse “pequeno” incidente, voltamos a festa depois e ficamos nos divertindo até o nascer do sol. Sentamos com Isa e Morgan... Bernard logo se afastou para conversar com o professor Pierre e Adhara e Bel estavam próximas também! Marie e Antoine ficaram olhando atravessado para Ian e esse retribuía um olhar mais frio e seco ainda... O importante é que o nosso show foi ótimo, todos adoraram e aplaudiram, e não ficamos excluídos do resto do mundo sem uma queima de fogos decente!

Adeus Ano Velho... Feliz Ano Novo!

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Friday, December 30, 2005

Encerrando o ano com chave de ouro

Das lembranças de Gabriel Graham Storm

- Não quero ouvir nem a voz de vocês!
- E contentem-se em apenas ouvir os fogos, porque ninguém sai daí ate amanhecer!

A porta do quarto bateu e ficamos na escuridão total. Estava amarrado em uma cadeira, de frente para os meus dois primos, Lucas e Letícia, que também estavam amarrados. Estávamos os três de castigo por tempo indeterminado e perderíamos a queima de fogos na praia, por causa de um acidente com fogos de artifício. Vou explicar o que aconteceu.

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Dia 31 de Dezembro de 1996, 18hs.

LM: Estou entediado...
GS: E o que eu tenho com isso?
LM: Quero fazer alguma coisa, anda! – disse atirando uma pedrinha no livro que eu lia.
GS: Vai ler, faz bem e não atrofia o cérebro...
LM: Você é chato, vamos brincar de alguma coisa!
GS: Não estou com vontade, porque não vai importunar a Letícia? Olha ela chegando ai...

Um táxi parou em frente à casa e tio Julian, tia Chelsea e a filha deles, Letícia, desembarcaram. Eles estavam vindo de Londres para passar a virada do ano no Brasil conosco e ficar uns dias. Lucas, que era filho da tia Susan, levantou logo e veio arrastando nossa prima ate a arvore onde estava sentado. Meus tios entraram para falar com nossas mães e ficamos no jardim.

LM: Letícia, por favor, me salva! O Gabriel é um chato, não quer fazer nada!
GS: Chato é você! É algum crime querer ler um pouco ao invés de criar confusão?
LS: Ei parem vocês dois! Que coisa irritante, brigam 24hs por dia! Acabei de chegar de viagem e vou ficar poucos dias, portanto decreto o fim da leitura e das brigas idiotas e digo que vamos dar uma volta para achar algo de útil pra fazer!

Letícia arrancou o livro da minha mão, atirando ele na grama e saiu andando pela rua. Como ela não conhecia a vizinhança nova, fomos atrás dela. E como eu já havia previsto, não tinha nada pra se fazer na véspera do ano novo, todos estavam ou viajando ou trancados dentro de casa terminando de arrumar as coisas pra festa. Lucas então parou, como se lembrasse de algo, e traçou uma reta uma velha casa na arvore que tinha em seu quintal. Não subia naquilo há uns cinco anos, nem sabia se ainda passava na porta. Quando chegamos lá em cima, meu queixo caiu: um verdadeiro estoque de fogos de artifício estava guardado lá, bombas de todos os tipos e tamanhos.

LS: Como você arrumou tudo isso??
LM: Anos e anos pegando uns e outros dos que papai compra pra festa de fim de ano. Acho que junto isso há seis anos!
GS: Ele sabe que você rouba os fogos dele?
LM: Não roubei nada, só escondi. E não, ele não sabe. Querem soltar uns?
GS: Não!
LS: Claro!

Olhei piedoso para Letícia, mas os olhos dela já estavam brilhando. Lucas veio arrastando uma caixa contendo morteiros, rojões e flechas árvore abaixo e seguimos para um campo de futebol deserto ao lado da casa dele. Nossos pais estavam tão entretidos botando os assuntos em dia que ignoraram os sons de explosões vindo do terreno ao lado.

A caixa já estava quase vazia quando escureceu. Entramos para nos arrumar e voltamos ao campo para soltar as ultimas bombas. E foi ai que se deu a tragédia. Ao lado do campinho tinha uma igrejinha, onde acontecia uma animada festa de Reveillon, com fitas de papel douradas e prateadas penduradas por toda a extensão do pátio. Subimos no muro com a intenção de soltar a ultima flecha e o ultimo rojão ao mesmo tempo e querendo que eles estourassem mais alto. A garrafa estava presa, ou ao menos era o que pensávamos, no ferro que tinha no muro e acendi o pavio. O idiota do Lucas soltou uma bombinha no mato ao lado e me assustei, chutando a garrafa. Ela girou e com medo daquilo explodir em cima de mim, pulei do muro e corremos rua abaixo. Só que a garrafa não caiu no chão e sim parou deitada, apontando para a festa da igreja.

Não deu tempo de fazer muita coisa a não ser subir no muro de novo e se desesperar. A flecha saiu da garrafa com o rojão amarrado e passou cortando as fitinhas coloridas, ateando fogo nelas. As pessoas pararam para olhar assustados e começaram a gritar quando o rojão se soltou da flecha e deu inicio aos seus estouros no meio do pátio. Eu tinha as mãos no rosto em pânico, observando o estrago. Letícia chorava do meu lado dizendo que tínhamos explodido a festa e Lucas não dizia nada, se concentrava em rir da confusão, alheio ao perigo de alguém se queimar.

LS: temos que fazer alguma coisa! Faz alguma coisa Gabriel!
GS: Você quer que eu faça o que? Tenho cara de caminhão de bombeiro???
LS: Usa sua varinha, apaga o fogo!
GS: Não posso fazer mágica fora da escola... Melhor chamar minha mãe!
LM: NÃO! Tia Louise vai nos devorar vivos. Deixa que os fogos apaguem sozinhos.
LS: Alguém pode se queimar seu maníaco!!

Letícia agarrou a camisa de Lucas e começou a sacudir ele quando ouvimos passos amassando a grama atrás da gente. Minha mãe e meus tios estavam parados logo atrás, chocados com a cena. Aparentemente os gritos os atraíram e dando falta de nós três, vieram correndo. Foi só somar dois mais dois pra saber que estávamos envolvidos com a gritaria e as explosões. Não preciso nem dizer que levamos o sermão do século e saímos rebocados de volta pra casa pendurados pelas orelhas não é? Eles nem pararam para ouvir as argumentações de que foi um acidente, pois não tínhamos autorização para mexer nos fogos de artifício do tio Rogério e muito menos soltar eles pra cima de pessoas. Fomos atirados dentro do quarto de Lucas e proibidos de sair ate o dia clarear. Já que fizemos nossa própria exibição pirotécnica, não precisávamos ver os da praia.

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Pois é, ainda estou aqui, mas agora sem as cordas. Lucas é o menor e mais magrinho, se soltou fácil e depois nos desamarrou. Agora ele esta pendurado na janela gritando no escuro, assustando as pessoas que passam na rua. E esta funcionando, pois alguém sempre grita e depois reclama com ele na rua. Letícia e eu estamos sentados no chão rindo dele. Já são 23h59min, só mais uns segundos pra 1997. Não era o reveillon que eu pretendia ter, mas ao menos da pra ouvir os fogos na praia aqui perto. Fazer o que não é? Feliz Ano Novo de qualquer forma...

Monday, December 26, 2005

Meu natal foi pro brejo, literalmente!

Do diário de Isa McCallister

Longe de casa,
Há mais de uma semana,
Milhas e milhas distante do meu amor...

Momento depressivo? Desde que cheguei no meio desse nada que só tenho momentos como esse! Não que isso esteja com um clima de enterro, longe disso... Ian e Samuel declararam uma verdadeira guerra contra a Bel e Adhara, e isso já me renderam boas gargalhadas. Além disso, Morgan e Marienne fazem de tudo para que eu me divirta aqui também. Já decorei as músicas da viagem, já enfeitamos nossa barraca para o espírito das festas e já descolei algumas roupas com elas. Usar roupas da Bel e ter que alternar três pares de roupas para três semanas não vale, é covardia...

O que está me deprimindo é a falta da minha casa, do meu pai. Tantos planos feitos para nosso fim de ano e estamos à milhas de distância... Se é que podemos medir nossa distância por milhas... Provavelmente ele deve estar estacionado em algum lugar da lua, ou pesquisando vida em Marte.

Será que ela está me esperando,
Eu fico aqui sonhando,
Eu vôo alto, chego perto do céu...

O pior não é pensar no que eu poderia estar fazendo nesse momento, caso meus planos tivessem dado certo, é pensar no que os mosquitos estão fazendo por meus planos definitivamente não terem dado certo! Tenho a impressão de estar no meio de uma sociedade de mosquitos, abelhas, formigas e todos os outros insetos... Quase uma colônia isso aqui. Não sei se já teve a impressão de ser o banquete, mas é essa que tenho! Me sinto como o último ser com sangue doce da face da Terra. Isso aqui é um inferno o dia todo...

E quando saio à noite,
Vou andando sozinho,
Mas não entro em qualquer barra,
Sigo o meu caminho...

Sábado, véspera de Natal, acordei agoniada com o ataque mórfico dos pernilongos. Ainda estava cedo, mal o sol tinha nascido, e todos ainda dormiam... Levantei e fui até uma torneira lavar o rosto. Professor Pierre estava atiçando uma fogueira para preparar o café da manhã, e sorriu quando me aproximei...

PC: Bom dia senhorita McCallister... Porque levantou tão cedo? Ansiosa pelo Natal?

IM: Não exatamente professor! É que sofri um ataque de pernilongos essa noite e estou até ardendo de tanto coçar...

PC: Ah sim, eu entendo... Ai Merlin, não acredito!

IM: O que foi professor?

PC: Esqueci a caixa com comidas dentro do ônibus! Não dá pra fazer o café da manhã só com a fogueira! Vou ter que ir lá pegar...

Ele levantou e de repente parou, me olhou com expressão de alívio e ao mesmo tempo resposta para o dilema dele...

PC: Isabel, você se importaria de ir até o ônibus pegar essa caixa para mim? Ele não fica muito longe daqui...

IM: Hum, claro que não! Por onde devo ir?

PC: Bom, seguindo aquele caminho ali entre as árvores, lá no final, na bifurcação dele, siga pela esquerda e o ônibus vai estar parado no fim! Enquanto isso esquento alguma água...

IM: Tudo bem!

De repente rola uma canção,
E ela me faz lembrar você,
Fico louco de emoção,
E eu já não sei o que vou fazer...

Entrei pelo caminho e as árvores o circulavam... A cada passo que dava, ia ficando mais escuro e silencioso. Continuei pelo caminho um tempo, até chegar à bifurcação... Então parei! A pergunta X veio na minha cabeça: E agora? Tudo bem que o professor Pierre tinha dito em qual deveria ir, mas e quem disse que eu lembrei? Estava tão distraída pensando no que poderia ter naquele mato que esqueci completamente que caminho tomar!

Fui pela intuição, acreditando que o sexto sentido feminino nunca se engana. Pensei comigo: Entre o esquerdo e o direito, eu iria pelo direito, sou destra não é verdade? Lá fui eu, segui pelo direito. As árvores cada vez mais próximas, e a escuridão quase total, sem poder usar varinha... Ia me apoiando nas árvores e não ouvia nada até que...

Ruable! Ruable! Ruable!

As árvores onde me apoiava na lateral de repente sumiram... Mergulhei meu pé em uma gosma grossa e ouvi o coaxar de pelo menos uns duzentos sapos desordenadamente. Ruable! Ruable! Ruable! Aquele som constante e aquela gosma no pé que tinha um efeito de me puxar mais para dentro daquilo... Lutei contra aquele líquido e consegui sair quase ilesa, me apoiando novamente em uma árvore!

Amaldiçoando o Professor Pierre com todos os argumentos que conseguia encontrar, e fazendo vômitos para a minha situação, peguei a varinha e iluminei um pouco o local! Me encontrava na beira de um grande pântano, onde não duzentos, mas pelo menos quinhentos sapos de todos os tamanhos e estilos se aglomeravam. Sai correndo dali, a lama do meu pé me fazendo escorregar, mas eu queria ir bem pra longe daquele local...

Quando cheguei novamente à bifurcação, tomei o caminho da esquerda e corri. Logo as árvores foram se distanciando e estava tudo claro, e lá, no final do caminho, estava o ônibus estacionado.

Com raiva e me sentindo pregada de sujeira, peguei a caixa e voltei ao acampamento. Muitos já tinham levantado e o professor Pierre estava olhando ansioso esperando minha volta.

PC: Ih, pelo visto a senhorita tomou o caminho errado não é?

IM: Sim. Aqui está!

PC: Obrigado...

IM: Não há de quer!

Sai bufando e resmungando e fui novamente até a torneira lavar os pés que estavam grudando... Passamos a noite de Natal em volta de uma fogueira, comendo sanduíches e cantando as mesmas músicas de acampamento e algumas histórias de terror. Meu esmalte já era, mais uma vez, estou dentro de uma barraca sendo atacada pelos pernilongos, com insônia e ouvindo o coaxar daquelas criaturas que ficou impregnado na minha cabeça!

Estou a dois passos do paraíso
Não sei se vou voltar,
Estou a dois passos do paraíso
Talvez eu volte ou fique por lá,

Não sei por que eu fui dizer:
Bye, bye, bye, bye...

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Música: Planta e Raiz - A dois passos do paraíso

N.A.: A música não tem quase nada a ver com o texto, mas quis colocar uma e lembrei a da propaganda! O Ruable é o barulho de sapos que a Mone sugeriu e eu aderi, e o texto é baseado em um fato real!

Saturday, December 24, 2005

NATAL CIGANO

Do subconsciente de Amaralina Bourbon du Montserrat

AMOR CIGANO
No silencio da noite,
No brilho das estrelas
Recordei-te...
Abri a porta da imaginação
A brisa da noite de leve
Tocou em meu coração
Trazendo de volta as lembranças
De um passado remoto...
Meio que entre nuvens
Entre uma verdade e um sonho
Encontro-me em seus braços
Sinto seu beijo em meus lábios
As estrelas e a lua são testemunhas
Desta noite de amor tão intensa
De um amor tão verdadeiro
Tão real, sinto suas mãos
Tocarem-me como num toque
Do destino, como num passe de mágica
Num mundo cigano, sem enganos
Sem tempestades, somente nosso amor
Noite após noite perdida em seus braços
Sem querer que o tempo passe...
Foi assim que nos conhecemos...
Como um passe de magia,
Ao som do vento e a brisa da noite
Nos envolvemos e nos amamos...
Como em uma vida cigana...
Um destino duas vidas...
Quem sabe um dia...
Como dizem os ciganos
Nos encontramos a rumo...
De nosso destino...


Acordei com Pablo ao meu lado, cutucando levemente meu braço. Demorei alguns instantes até voltar do sonho, daquela lembrança incauta de uma outra vida que brotara sem pedir licença em minhas entranhas. Abracei meu irmão, há quase dois anos não nos víamos. Pablo é domador de elefantes, e nas últimas férias da escola, ele estivera nas longínquas savanas africanas. Estava com 21 anos e havia se tornado um belo cigano, o meu irmão. Conversamos alguns instantes, mas logo fomos interrompidos. A festa de Natal já havia começado no dia anterior, e hoje era o dia do Renascimento. Esta noite o ritual seria mais uma vez executado, e os cânticos que remetem nosso clã aos mais primórdios antepassados soariam em nossos ouvidos. O Ritual do Renascimento teria início às onze horas e trinta minutos, e durante meia hora Johann e eu dançaríamos sob as mãos de Abraim, oferecendo a ele nossas almas e pedindo estima, proteção e graças a todo o nosso povo. A cigana-mãe estava de pé à nossa frente, e ordenou a Pablo que me deixasse sozinha.

Estava tudo preparado. Todo o povo estava em êxtase, as mulheres cozinhavam, as crianças cuidavam da decoração, os homens afinavam os instrumentos e preparavam as oferendas. Johann e eu havíamos passado os dois dias que antecederam o início das comemorações ensaiando nossa cerimônia de consagração. O primeiro dia de festa foi esplendoroso. Havia muita comida, música e dança em torno da fogueira. A alegria era visível em cada um dos rostos ali presentes. Tudo era muito bonito. Quando faltavam dez minutos para a meia noite, as mulheres mais velhas do nosso clã me levaram para dentro de uma tenda branca. Johann foi levado por nosso pai e pelos velhos conselheiros a uma tenda semelhantes, do outro lado do acampamento.O retiro para a consagração estava começando.

Passei a noite ali, acompanhada de Kalinka e mais duas mulheres, a sacerdotisa e a cigana-mãe da nossa tribo. Vesti uma túnica branca e um véu foi colocado sobre a minha cabeça. Fiz vários exercícios de meditação, com a ajuda de pedras rúnicas e incensos, entoei mantras e recitei orações, buscando a pureza e a paz da minha alma. As mulheres murmuravam preces em voz baixa enquanto eu cantava. Senti a luz das estrelas tomar posse do meu corpo, e entrei em transe. Elas então me deixaram sozinha. Era o momento da entrega, momento em que o cósmico passava a viver em mim e meu espírito viajava pelo céu. Depois disso, adormeci.

Fui despertada pela presença de Pablo que, entretanto, não pôde permanecer comigo mais de três minutos. A cigana-mãe havia permitido a entrada dele na tenda da purificação por alguns poucos instantes, apenas para que pudéssemos nos ver. Ela o conduziu para fora, então, e me deu um grande cálice fumegante para beber. Ao contrário do que imaginei, porém, a bebida era extremamente fria. Senti minha língua arder, mas continuei a tragar o líquido sob o olhar intransigente da cigana.

Tão logo esvaziei o cálice, senti meu espírito abandonar o corpo novamente. A velha cigana entoou um mantra de libertação aos meus ouvidos. A beberragem agora aquecia minhas entranhas, e eu experimentei sensações que jamais imaginara sentir, mas que sem dúvida me levaram ao êxtase, a uma profunda e inigualável paz interior.

Eu podia ouvir a música e as vozes do meu povo que festejava lá fora. Entretanto, tudo aprecia tão distante, tão insignificante frente à liberdade espiritual incondicional a que eu estava submetida, que não hesitei em prolongar ao máximo o tempo do retiro.

Às nove horas da noite, Kalinka e a sacerdotisa voltaram à tenda, com os braços repletos de objetos das mais diversas qualidades. O retiro para a consagração culminava em um banho em pétalas de rosas brancas. Elas banharam o meu corpo, deram-me uma taça de leite de cabra para beber, retiraram o véu branco da minha cabeça e cuidaram dos meus cabelos. A tradição assim mandava, eu deveria manter meu subconsciente o mais afastado possível das coisas mundanas. O perfume das rosas impregnou-se de tal forma à minha pele que eu duvidada que algum dia deixaria de senti-lo em mim. Era o um odor agradável, inebriante. A cigana-mãe trouxe o vestido que eu deveria usar, branco e cravado de cristais. A saia longa, fundamental nos costumes ciganos, trazia uma inscrição rúnica bordada com diamantes. Kalinka ocupou-se em escolher as jóias que eu usaria. Brincos, colares, pulseiras e anéis, todos do mais puro ouro, uma das maiores riquezas do clã.

Fui então conduzida para o exterior da tenda, onde quatro homens, entre eles meu pai, Pablo e Ellyat, carregavam a liteira de madeira nobre. A sacerdotisa pôs-me sentada na condução e os homens a ergueram sobre os ombros. Eu fechei os olhos enquanto vencíamos o pequeno percurso até o centro do acampamento. Só tornei a abrir os olhos quando o silêncio que havia se estabelecido foi quebrado pelos vivas que festejavam a minha chegada. No Natal, os ciganos põem a mesa no chão, com uma toalha branca. Havia uma infinidade de fartos manjares e as mais diversas guloseimas sobre a toalha.

Uma grande fogueira marcava o centro do acampamento, e todo o povo cigano encontrava-se em torno desta, deixando livre uma faixa de aproximadamente 5 metros, formando um imenso circulo humano. De pé, ao lado da fogueira, estava Johann, meu mestre, companheiro, amigo... irmão. Ele trajava magníficas vestes também brancas, e havia em sua camisa, como no meu vestido, a incrustação de diamantes formando uma expressão rúnica digna daquele momento. A liteira foi colocada no chão e então o silêncio novamente tomou conta do local. Apenas o crepitar das chamas podia ser ouvido. Lentamente Johann se aproximou e, depois de curvar-se, estendeu a mão direita, que eu aceitei com um sorriso.

Nossos olhos se encontraram por alguns instantes e vi que meu irmão também sorria, orgulhoso. Os címbalos retiniram e o som da orquestra ecoou. Johann conduziu meus passos em uma espécie de cumprimento a todo o povo reunido. Depois, como em oferecimento a Abraim, ele me tomou nos braços e, com um giro, lançou-me às alturas. A dança cigana é repleta de encanto, liberdade e espontaneidade. Cada movimento, cada rodopio é composto de sentimento, levado pelo ritmo dançando a vida, causa um enorme fascínio a todos que a apreciam. Traduzindo emoções em movimentos, o Rito do Renascimento deixa sua marca pelos seus mistérios, pelo encanto, pela magia, deixando exalar uma energia cativante e contagiante, através dos dedos das mãos, da sedução do olhar, dos giros, das saias, da batida dos pés, das castanholas ao som dos violinos, acordeon, pandeiros e violões. É a dança cigana, é dança presente, é dança viva! Não há quem não seja contagiado pela sua energia, seu magnetismo, sua força.

No fim, quando apenas o som do violino e dos címbalos eram ouvidos, denotando a entrega da alma e a ligação espiritual entre Abraim e cada um dos ciganos, os sinos da Igreja de Le Chambon-sur-Lignon foram ouvidos por toda a cidade. Um festival de luzes surgiu no céu, o que serviu para coroar o Ritual do Renascimento. Os olhares dos ciganos foram voltados para o magnífico espetáculo celeste. As doze badaladas retiniam com poder e glória, anunciando a aurora do Filho de Deus. Era meia noite. Johann me abraçava e olhava para o céu. Em um instante eu olhei seu rosto e ele encontrou meus olhos, e sorriu. Senti meu peito arder em chamas, como se meu coração fosse consumido pela fogueira à nossa frente. "Amor, amor meu. É teu. Somente teu. O meu amor". A décima segunda badalada soou. E só então eu entendi o que a cartomante havia me dito. Ali estava o meu amor. Eu havia pedido a Abraim que me fizesse conhecer o amor que estava tão próximo a mim. E Abraim acabava de realizar o meu desejo. O amor realmente estava bem à minha frente. Johann. Meu próprio irmão.

Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo


Senti as lágrimas tomando conta dos meus olhos, e o pranto inundou cada milímetro da minha alma que até então estava em paz. Sentia uma dor terrível, profunda, incomparável. Era piro do que ter mil facas rasgando minha carne. Meu coração ardia, e meu espírito também. Johann me olhou, percebeu minhas lágrimas e, pensando que eu estava emocionada por termos cumprido o ritual, enxugou meus olhos com suas mãos e beijou meus cabelos. Senti as trevas dentro de mim, o calor do amor que eu tanto ansiara por aquecer meu coração transformava-se em um castelo de gelo. Culpa. Frio. Arrependimento. Medo. Me desvencilhei dos braços de meu irmão, e corri para a tenda de meu pai. A pequena rainha transformava-se em sapo. Eu era a criatura mais suja e indigna sobre a face da Terra. Tinha vergonha do que acabara de descobrir. Mas finalmente tudo fazia sentido. Era por isso que eu não conseguia prever o meu próprio futuro. O destino havia me pregado uma peça, e eu tinha mergulhado nele sem precaução alguma. Percebi que a linha do amor na palma da minha mão estava mais nítida, mas se confundia com a linha do destino, e as duas entrelaçavam-se formando uma terceira. A linha da morte.

Mesmo sem querer eu vou lembrar
Coisas impossíveis de apagar
É pra mim difícil entender
A vida sem você


Johann continuaria sendo meu irmão, mestre e amigo. Mas somente isso. Nunca poderá ocupar o lugar que meu coração clama. Temos o mesmo sangue nas veias, e cultura nenhuma, nem mesmo a cigana, permite o casamento entre irmãos. Essa idéia – irmãos – causava-me náuseas. Seríamos apedrejados até a morte. E eu passaria pelo que fosse preciso pra ver meu irmão vivo.

Vida minha,vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de
me querer


Este seria o meu segredo. Ninguém no mundo jamais iria sequer desconfiar na tempestade que se formava dentro de mim.


~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~
N.A.: Poema “Amor Cigano”, de autoria de Fafá Lima; Música “Amor Cigano”, de Fafá de Belém

Thursday, December 22, 2005

Corram que as formigas vêm aí!

Das lembranças de Ian Lucas Renoir Lafayette

O incidente da poção ilusória me deixou furioso, a escola quase inteira riu da nossa cara quando a gravação dos gritos ecoou pelo acampamento. Com a nossa moral lá embaixo, precisávamos dar o troco na rabugenta engraçadinha. Bernard avisou que não queria se envolver na nossa briga, pois estava disposta a aprender alguma coisa com a viagem. Já Dominique disse que até topava ajudar a bolar os contra-ataques, mas que também não queria se meter. Segundo ele, havia muitas coisas mais interessantes a se fazer num acampamento cheio de garotas com medo de inseto.

Éramos então dois x dois, já que a namoradinha do Bernard estava dando apoio à esquentadinha. Sai da barraca naquela manha com os garotos para nos juntarmos ao resto dos alunos para a aula pratica de Zoologia e Botânica com a cabeça na revanche. Segundo o roteiro do professor, hoje iríamos aprender sobre a vida das formigas que viviam naquela mata. A perspectiva de passar o dia observando formigas tombarem para carregar folhas e segui-las ate seus formigueiros não era animadora, mas fez surgir uma idéia. Ta, era um pouco arriscada, mas valia a pena...

Coloquei Samuel em dia com minhas maluquices e assim que a aula se encerrou, partimos para dentro da floresta, munidos de um pedaço de chocolate, uma jarra de vidro, pedaços de madeira para acertar qualquer coisa que pulasse em cima de nós e nossas varinhas, atrás do ator principal da brincadeira...

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Todos os alunos estavam reunidos em volta da fogueira contando historias idiotas que supostamente deveriam dar medo. O trabalho de Dominique e Bernard era manter todos presos ali com qualquer historia absurda que eles iam inventar, o importante era não deixar ninguém sair ate que Samuel e eu estivéssemos de volta.

Entramos na área onde as barracas estavam montadas e logo achamos a de Adhara e Anabel, era a única sem enfeites pendurados. Samuel abriu o zíper com cuidado e entramos. O processo durou apenas alguns minutos e assim que fiz um pequeno furo na parte de trás dela, saímos depressa, nos juntando ao grupo que prestava atenção nas baboseiras de Dominique, atentos.

O professor logo ordenou que nos recolhêssemos e todos seguiram para suas barracas sem questionar. Fingíamos que também estávamos indo, mas ao invés de entrarmos, pegamos o pote de vidro que levamos para a floresta e esperamos escondidos no mato.

Adhara e Bel entraram na barraca e dava para ver a sombra delas se arrumando para entrarem nos sacos de dormir. Samuel correu ate a brecha que havíamos feito e abriu o vidro, liberando milhares de formigas de todas as espécies que conseguimos encontrar, fazendo todas entrarem na barraca. A qualquer momento agora...

- Aaaaaaaaaaaaargh QUE PORCARIA É ESSA?
- Ecaaaaa, ta grudando! Ai que nojo, o que é isso???
- Calma Bel, é chocolate derretido...
- Quem passou chocolate nos nossos sacos de dormir??
- Ah, eu tenho uma vaga idéia...
- Adhara? Adhara... ADHARA! – Bel falava enquanto puxava a manga do pijama da amiga.
- O QUE FOI?

Bel apontou para o chão e gritou ao ver todas as formigas que soltamos subindo em suas pernas e nas de Adhara. O chocolate que passamos por todos os cantos as atraiu e em questão de segundos a barraca amarela delas ficou preta. Pela luz da fogueira ainda acesa dava para ver as duas correndo de um lado para o outro, sacudindo os cabelos e gritando, pois algumas eram daquela espécie que morde e deixa marca. Uma delas tentou abrir a barraca, mas as trancamos lá. Quanto mais elas esfregavam a mão nos braços e pernas para tirá-las, mais espalhavam o chocolate que havia grudado nelas dentro dos sacos de dormir e mais formigas surgiam.

Acho que foram mais ou menos 5 minutos de gritaria e pânico, onde podíamos ouvir Adhara falar todo o vocabulário de palavrões que conhecia e Bel berrar desesperada que suas pernas estavam coçando, quando corri ate a barraca e soltei o lacre. As duas saíram em disparada lá de dentro, se atirando direto no lago para se livrar da pasta e das formigas. A essa altura a escola inteira já havia acordado com os gritos e todos riam abertamente ao verem as duas saírem de pijama do lago, ensopadas e empoladas.

Samuel e eu estávamos deitados no chão, rolando de rir da cara de ódio que Adhara lançava a nós dois. O professor expulsou todos dali, dizendo que o show tinha terminado, e as duas voltaram para a barraca ainda preta de tanta formiga para começarem a limpar a sujeira. A noite delas vai ser longa...

Wednesday, December 21, 2005

Em casa, finalmente!

alguns pensamentos de Ty McGregor

Cheguei de trem na estação de Glasgow, e a primeira coisa que fiz foi puxar o ar para dentro dos pulmões com força: O cheiro da minha terra.
Eu estava em casa, por alguns dias e nada poderia atrapalhar isso. Quer dizer, quase nada, pois avistei meu primo Riven, andando atrás de meu pai.
Nunca nos demos bem quando pequenos e piorou quando eu tinha uns oito anos e ele tentou me matar afogado no lago Ness. Sim, porque aquilo foi tentativa de homicídio, eu já estava ficando sem ar, e ele não deixava eu ir para a superfície. Por sorte, meu tio Ian nos viu e antes que eu perdesse os sentidos, vi uma luz branca, me puxar com toda a força do lago. Claro que Riven além de ficar de castigo por um longo tempo, tomou uns bons tapas do pai dele, e acho que esta humilhação foi a pior, desde então nos toleramos. Por sorte ele estuda em Durmstrang.
AM-Filho, já estava ficando preocupada. - dando um estalado beijo na bochecha. Apesar de odiar estas demonstrações em público e já ter falado com mamãe sobre isto, ela insiste. E tá, eu admito: sinto falta quando ela não faz isso.
TM-O trem atrasou mamãe, e não tinha como enviar uma coruja avisando; sabe que os trouxas neste ponto são... Atrasados.
Ia dizendo enquanto abraçava forte meu pai. Era engraçado, mesmo com a última carta dele, em ele dizia estar bravo comigo, sempre que nos víamos era assim: abraços de ambas as partes, e minha mãe olhando coruja para nós.
Olhei firme para meu primo e abanei a cabeça, como um cumprimento e ele respondeu da mesma forma. Logo entrávamos no carro, e nos dirigíamos para as montanhas, pois as festas de fim de ano eram passadas na casa da minha avó.Estava tudo coberto de neve, e eu adorava isto tudo.
Meu pai e minha mãe iam contando sobre as coisas que haviam acontecido nestes cinco meses que eu estava longe. Ao chegar na casa da vovó, ela veio nos receber toda sorridente, e nesta hora meu pai costuma ficar meio reservado. Mas a carranca sumiu, pois meu padrinho estava lá, e logo começamos a nos divertir, pois a casa estava cheia. Tenho um monte de primos e primas de todos os graus possíveis, e logo estávamos cotando as novidades, pois alguns estudam em Durmstrang, outros em Hogwarts, tenho até uns primos irlandeses, que estudam em Ballyhara. Vi quando minha mãe falou algo com meu pai e ele veio com a idéia:
KM-Eu gostaria de voar um pouco, quem sabe um quadribol para esquentar?- e todos adoramos a idéia.
SM-É podemos fazer fácil dois times aqui.
Logo estávamos em volta deles, querendo dar palpite nos times, quando mamãe veio com um vaso e mandou que puséssemos nossos nomes. Papai e Sergei foram tirando os nomes e eu fiquei no time do meu padrinho e Riven caiu com meu pai. Até, nesta hora, ele faz aquele olhar do:
eu sou o bom. Patético.
Fomos para o quintal atrás da casa, e levantamos vôo. Eu jogava com meu padrinho e meu pai com meu primo, peguei a goles e ia marcar ponto, quando alguma coisa atingiu minha vassoura e eu ouvi o som de alguma coisa se partindo, enquanto caía. Meu pai, apontou-me a varinha e gritou rápido: Corpus Levitatus, e levitei em segurança até o chão.
KM-Você está bem filho? - nem respondi, pois já estava indo pra cima do meu primo.
TM-Riven o que deu em você? Tá pensando que ta jogando com os brutamontes da sua escola é?
RM-Isso é uma jogada comum lá, não pensei que o bebezinho fosse ficar bravo. - provocou
TM-Pelo que eu saiba, você sequer está no time da escola, então deve ter aprendido esta jogada errada. - acertei seu ponto fraco. (Ele nunca conseguiu jogar pela casa dele e eu adorava lembrá-lo disso).
RM-Cala a boca, seu idiota.
TM-Que foi? A verdade dói é? - e dei risada.
E começamos com os empurrões, e antes que começássemos a brigar pra valer, meu pai nos separou pelas vestes, dizendo:
KM-Podem parar vocês dois. Foi um acidente, isso acontece. Não quero brigas entre vocês.
Se eu já soubesse fazer as azarações silenciosas....- pensava e logo meu padrinho trouxe a vassoura, quer dizer... o que sobrou dela.
SM-Ty, a vassoura quebrou, e não tô achando a outra parte.
Aquilo me doeu tanto. Foi presente do meu pai, quando escrevi contando que tinha passado nos testes do quadribol.
Passei o dia remoendo uma raiva danada daquele idiota. Mas eu vou aprontar alguma pra você Riven, ah se vou.... Você não perde por esperar.

Mudanças inesperadas

Das lembranças de Gabriel Graham Storm

Desembarquei no porto em Paris e como de costume, meu tio George estava a minha espera pra me levar ate o aeroporto. E também, como de costume, chegamos lá quando já estavam fazendo a ultima chamada para o vôo e quase solicitando minha presença nele.

- Atenção! Passageiros do vôo 5496 com destino ao Rio de Janeiro, Brasil. Embarque imediato no portão 3B. Ultima chamada.
- Tem certeza que não pode ir?
- Infelizmente não... Diga a sua mãe que darei um jeito de vê-la antes de Julho.
- Ta bom... Tchau tio George, até a volta!

Despedi-me do meu tio e atravessei o portão correndo, largando meu cartão de embarque às pressas na mão da aeromoça e derrubando o resto que ela segurava. Todos os passageiros já estavam acomodados e tracei uma reta ate meu assento, evitando os olhares estressados que a maioria lançava em minha direção. Ainda bem que não havia trazido meu malão, não teria tempo para despachá-lo. Amassei minha mochila nos compartimentos acima dos assentos e me afundei na poltrona, permitindo que o avião decolasse.

Sai de Beauxbatons para passar as festas de fim de ano em casa decidido: iria convencer minha mãe a me apresentar ao meu pai. Venho pedindo isso já faz uns anos e tenho sempre o apoio do meu padrinho na causa, mas ela sempre escorrega com uma boa desculpa. Tio Scott já ate se ofereceu para fazer isso no lugar dela, mas mamãe jurou que nunca mais falaria com ele se ele ousasse fazer isso. Como ela parecia falar serio, ele desistiu. Mas dessa vez ela não poderia dizer não, tinha todo um discurso preparado, que vinha ensaiando há algumas semanas. Só esperaria passar uns dois dias.

Acordei com alguém me sacudindo e uma aeromoça morena apareceu meio fora de foco quando abri os olhos, os óculos tortos no meu rosto. Já havia chegado, depois de 11 horas de viagem e uma escala chata em São Paulo. Estava tão cansado que consegui dormir de novo nos 45 minutos restantes de vôo. Catei minha mochila e sai do avião quando já não havia ninguém dentro dele. Meu padrinho já estava a minha espera no desembarque e carregava uma caixa que parecia ser de chocolate.

SF: Quanto tempo garoto! Porque demorou tanto?
GS: Dormi no vôo, só sai porque me acordaram...
SF: Isso é pra você, melhor comer no carro antes de sua mãe chegar ou ela acaba comigo.
GS: Obrigado tio Scott! Mamãe não esta casa?
SF: Não, ainda esta presa no hospital, me pediu para buscá-lo. Ela nos encontra lá.

Assim que atingimos a orla do Rio de Janeiro, me senti em casa novamente. Todo mundo diz que se sente em casa na escola, mas eu não, nem um pouco. Aqui é meu lar. Nessa época está nevando na França enquanto aqui está um sol de rachar, é verão. Fui tirando os casacos dentro do carro antes que derretesse, enquanto admirava a paisagem a caminho de casa. Morava com a minha mãe em um apartamento na Lagoa e meu padrinho no mesmo prédio, qualquer coisa era só subir as escadas. Fui direto para a casa dele, esperar até que ela chegasse do trabalho. Adorava ficar lá, era sempre divertido. Tio Scott é solteiro e tem uma coleção completa dos melhores jogos de videogame que existem. Sem contar o estoque de porcarias pra se comer na geladeira. Mamãe fica louca toda vez que passo tempo demais aqui, ela diz que ele me estraga.

Estávamos na 5ª rodada de um jogo violento, quando a porta se abriu e a tela da TV ficou preta. Mamãe estava parada ao lado dela e olhava ao nosso redor. Baldes de sorvete jaziam no chão, junto com pacotes de biscoito amassados e latas de refrigerante vazias. Não foi bem uma recepção calorosa que eu tive ao revê-la depois de quase cinco meses longe...

LS: Que zona é essa? E que coisa horrorosa é essa na TV Scott? Já não falei que não quero o meu filho jogando essas porcarias?
SF: Ora Lou, relaxa! Não é um joguinho inocente que vai estragar o garoto!
GS: Oi mamãe, também senti sua falta!

Ela estava furiosa, mas eu tinha meus meios de amolecê-la. Sarah, minha madrinha, me disse uma vez que tenho o sorriso idêntico ao do meu pai e minha mãe nunca resistiu a ele. Então para desarmá-la, bastava sorrir. E foi o que fiz. Ela se derretia toda sempre que sorria para ela e veio logo me abraçar, esquecendo o jogo brutal que tio Scott escondia debaixo do sofá para ela não atira-lo pela janela.

LS: Vamos pra casa, tenho que conversar com você e acho que vai gostar.

Sai da casa do tio Scott curioso. O que ela teria pra me dizer? Mamãe estava estranha, mas não era um estranho ruim. Ela parecia feliz, mais do que o normal, como se algo realmente bom tivesse acontecido ou estivesse pra acontecer. Entrei e fui logo sentando no sofá, esperando que ela dissesse o que tinha em mente. Mamãe pegou algo que não consegui ver o que era na estante e se sentou ao meu lado, ainda sorrindo.

GS: O que é isso? – disse pegando a pasta da mão dela e olhando fotos de uma casa.
LS: Nossa nova casa.
GS: Vamos nos mudar? Por quê? Eu gosto daqui!
LS: Não vamos nos mudar, é só por um tempo. Vamos morar nela durante suas férias de verão.

Olhei outra vez as fotos, sem entender. A casa não parecia com nenhuma aqui do Rio, não reconhecia o bairro. Uma folha que parecia uma escritura cai do meio delas e peguei para ler. O endereço dizia que a casa ficava em Londres. Li pelo menos duas vezes ate a ficha cair e olhei para minha mãe, pedindo uma explicação.

GS: Pensei que você não quisesse mais pisar em Londres...
LS: Algumas coisas mudaram. Tenho conversado com Scott sobre o rumo que as coisas estão tomando e percebi que não posso mais continuar aqui, fingindo que nada aconteceu.
GS: E por acaso você contando a verdade ao meu pai ta incluído nisso tudo?
LS: Sim. Quando o ano letivo terminar, você vai direto para a casa de George, encontrarei você lá e daremos um fim a isso. O que acha?

Não consegui responder o que achava, apenas pulei no pescoço dela, a abraçando. Enfim, todo o discurso que havia preparado não seria necessário. Ia ter o que queria em seis meses, e desde já começaria a contar os dias...

Tuesday, December 20, 2005

Diversão garantida ou ....

Do diário de Morgan O’Hara

Voldemort matou um, Voldemort matou um. É um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou dois, Voldemort matou dois. É dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou três, Voldemort matou três. É três, é dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort...

MD-Que música viciante....
MOH-Sim, nunca pensei que acampamento trouxa fosse tão animado. Nunca fui em um.
MOH-Isa, sei que é difícil, mas fique à vontade. Pode usar o que precisar....
MD-É Isa, o que te servir pode pegar.
Dizíamos para Isa, que tinha ficado sem sua mala para o acampamento, tentávamos animá-la.
MOH-Afinal podia ser pior, pensou se além de tudo suas unhas estivessem lascadas? E ela olhava preocupada para as mãos.
Bem, o que estou fazendo aqui? Você deve estar se perguntando, afinal tenho um noivo lindo, estou de férias... Mas nem tudo é como a gente espera. Desembarquei em Londres, e encontrei Carlinhos na estação, me esperando.
CW-Oi, amor que saudades. - me beijou, enquanto me erguia do chão.
MOH-Vamos para a casa dos seus pais?
CW-Morgan... Eu vou ter que viajar a serviço da Ordem... E não tenho dia pra voltar.
MOH-Sei... E eles não têm outra pessoa pra mandar não?
CW-Não, Morgan. Vou junto com o Schakelbolt e nosso trem sai daqui a meia hora.
Eu olhava para ele e estava ficando irritada à medida que ia sabendo das coisas.
MOH-Então é uma missão perigosa, senão o "gigante da Adhara" não ia junto. Eu posso ir e ajudar.
CW-Não! Você não vai. Quero que fique com meus pais ou junto com Bertha. Não quero me distrair e ter que pensar em sua segurança.
MOH-Desculpe, não sabia que eu o distraio tanto. Não vou ficar com seus pais, eles não são minha família, e Bertha, está com os parentes do falecido marido, em Dublin, pois eu disse a ela que passaria as festas com você. - e saí andando em direção ao guichê para comprar uma passagem.
CW-Onde vai?
MOH-Voltar para a França. Vou fazer algo que me dê algum prazer.
CW-Sozinha? – e notei que havia chamado sua atenção, pois seu rosto estava ficando vermelho.
MOH-Talvez....
Ele só ficou olhando enquanto eu pagava a passagem. Por dentro eu queria que ele viesse atrás de mim, e sei lá... Brigasse, fizesse alguma coisa. Mas ele ficou parado. Dei sorte e meu trem para Paris sairia em 15 minutos, pois havia sobrado um lugar.
CW-Tchau. - disse por fim.
MOH-Tchau. - Parecia que ele não estava ligando a mínima.
Fiquei sem chão. O que estava acontecendo? Nós estávamos brigando? Iríamos ficar quatro semanas separados e deste jeito?
Virei-me para ir embora e vi ele levantar a mão para me segurar, mas isto durou alguns segundos, logo ele a abaixou. Voltei a caminhar, quando...
CW-Droga.- e logo ele me alcançava e me beijava. Eu virei o rosto, mas ele segurou minha cabeça com força, até que passei a corresponder. Ficamos abraçados por um tempo, até que ouvi a ultima chamada para meu trem.
CW-Assim, que eu voltar eu vou te ver ok? É importante que eu vá nesta missão, e mais importante ainda que você fique bem.
MOH-Vou ficar.
Entrei no vagão e logo vi Schackelbolt se aproximar dele. Antes de fechar a porta do trem, ele gritou:
CW-O que você vai fazer?- e pude ver a enorme interrogação estampada em seu rosto. Eu devia deixá-lo se roer de curiosidade, mas aí ele poderia se descuidar da própria segurança, e eu não queria isto de jeito nenhum.
MOH-Vou ver se consigo ir ao acampamento trouxa da escola. - respondi, enquanto o trem ia ganhando velocidade, mas deu pra ouvir quando ele gritou: Divirta-se.

Por sorte, consegui me inscrever a tempo e quando entrei no ônibus, fui logo para perto do Ian e dos seus amigos com a Marienne, sabia que seria diversão garantida. E não deu outra: cantei, regi a"orquestra", rimos muito de Adhara e Bel, que parecem ser as únicas que não estão se divertindo, comemos besteiras, ouvimos histórias de fantasmas, já teve correria no acampamento por medo de assombração e amanhã só quero ver o que o professor vai nos mostrar.
Será que vai ter musiquinha de novo? De quem será agora?

Voldemort matou um, Voldemort matou um. É um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou dois, Voldemort matou dois. É dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou três, Voldemort matou três. É três, é dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort...

..........................
QS- Contou a ela?
CW-Não.
QS-Porque não? - quis saber o gigante de voz grossa.
CW-Você contou alguma coisa pra Adhara? - devolveu a pergunta.
QS-Enlouqueceu? Seu eu falo sobre a nossa missão ela moveria montanhas para vir junto.
CW-Agora você entende, porque eu não disse para a Morgan que vamos atrás do assassino dos pais dela, não é?
QS-É... Adhara não ficou feliz em ter que ir ao acampamento da escola, ouvirei muita reclamação quando ela voltar e acho que você também Carlinhos. - e ambos riram.
CW-Vamos, nosso trem para Paris já vai partir.

Outra vez, entre os meus

*do subconsciente de Amaralina Bourbon de Montserrat*

Dentro de mim
Mora uma cigana
Rebelde, confusa,
Sequiosa de liberdade!
Sai de vez em quando a bailar
E suas mãos exprimem o que
Lhe vai na alma...
Essa alma cigana que
A nada se prende...
Ama a liberdade e isso é
A razão de seu viver...
Tem ainda outra cigana
A zelar pela romi que dança
O bailar da alegria
Enquanto esta sangrando
Seu próprio coração...
Ah, coração cigano,
És ainda tu que me fazes voltar
Em busca desse louco sonho meu!
Liberdade, liberdade `a alma
Aprisionada no preconceito humano!
Quem prenderá o pássaro que nasceu
Para voar, em companhia do vento?
Ah, coração cigano,
És ainda tu que me fazes voltar
Inda uma vez mais...

Depois da tempestade, o dia sempre acaba amanhecendo com o sol brilhando no horizonte, por mais longa que tenha sido a noite de espera. Ali estava eu, às margens do Rio Sena, e respirava minha tão sonhada liberdade. Liberdade essa que duraria pouco mais de duas semanas, mas o que me interessava era o presente, rever meu tão querido pai e meus extraordinários irmãos. Nenhum deles imaginava quanta falta me faziam. Eu fiz questão de vestir os trajes que meu coração clamava, e que eram tantas vezes rejeitados na escola onde eu vivia. Usava a saia vermelha que Pablo mandara no meu último aniversário, uma bata branca, longos brincos e vários colares de contas.

Assim que o barco de Beauxbatons desapareceu no grande rio, avistei os conhecidos e tão amados rostos. Eles não haviam esquecido de mim. Ellyat e Johann estavam à minha espera. Kalinka também estava com eles, acompanhada do esposo e de Meneghal, seu primeiro filho, nascido há pouco mais de um mês. Senti meu peito arder de tanta felicidade, e corri para abraçá-los. Ellyat me tomou em seus braços e me rodopiou no ar, como fazia desde os tempos mais primórdios, quando eu mal conseguia equilibrar-me sobre as pernas. Kalinka, a maior e melhor amiga que Abraim poderia ter colocado em meu caminho, abraçou-me com ternura e seu sorriso esplendoroso manifestava a alegria de sua alma. O bebê dormia tranqüilamente em seus braços, e eu dei-lhe um beijo na testa, pedindo aos deuses que o tornassem um homem forte e valente. Então, olhei para Johann. Meu irmão querido, metade de minha alma, aquele que conhecia todos os meus segredos e em quem eu depositava toda minha admiração e meu mais sublime amor. Ele colocou uma coroa de flores brancas em meus cabelos e me envolveu em seus braços, o que fez uma imensa paz tomar conta de meu corpo. Era como estar no céu. Como se minha mãe estivesse comigo. Finalmente eu me sentia protegida.

Ellyat tomou minha mochila e a pôs nas costas. Estava entusiasmado, querendo saber tudo sobre a escola. Era ele o responsável por me manter em Beauxbatons. Meu irmão vais velho dedicava todos seus esforços e preces à minha formação. Demonstrava um orgulho imenso, quase que veneração, pela magia que havia em mim, e não poupava esforços para que eu atingisse a perfeição. Eu tinha consciência que deveria terminar a escola em consideração a ele. Mesmo sabendo que minha vida, minha alma, pertencia ao meu povo cigano, eu iria estudar tudo que fosse preciso. Chegaria até o fim, daria tudo de mim para ver o brilho nos olhos do meu irmão. Brilho que expressava sua luta, sua fé, sua dedicação... Sua missão cumprida.

Johann caminhava ao meu lado, um de seus braços em torno de meus ombros. Conforme manda a tradição cigana, as mulheres da tribo não devem andar desacompanhadas. Estão sempre submetidas à proteção do pai, do esposo, ou, nesse caso, de um irmão. Ele tinha uma vivacidade fervorosa no olhar. Seus olhos, que para mim sempre foram a janela de sua alma, contagiavam todo o meu ser por uma estranha e atordoante alegria.

Kalinka seguia ao meu lado, e nós conversávamos como há muito não fazíamos. Havíamos crescido juntas, e no entanto, ela havia permanecido na nossa cultura, no nosso povo. Seguira obendientemente a tradição, e casara-se aos quatorze anos com o noivo eleito por seu pai. O homem que caminhava ao seu lado a amava intensa e verdadeiramente. Podia ver em seu semblante que minha irmã de alma era feliz. Tinha nos braços o maior presente que uma mulher pode ter. Ali, com pouco mais de cinqüenta centímetros, dormindo o sono dos anjos, estava o fruto de seu amor, aquele que seria para sempre a prova viva de sua união, que levaria às gerações futuras seu sangue e sua conduta. Para minha alegria, fiquei sabendo que nosso povo estava acampado no sul da França, quase fronteira com a Suíça. Não pude conter o ritmo do meu coração. A cidade onde eu havia nascido.

Pouco mais de três horas de viagem nos levaram a Le Chambon-sur-Lignon. Uma lágrima rolou de meus olhos e misturou-se à poeira na estrada. Eu era fruto daquela terra, todo meu destino havia sido traçado ali, no momento em que mamãe me entregou ao mundo. Logo avistei o acampamento. As tendas armadas, os panos coloridos e o som da nossa música eram inconfundíveis. Eu via, ouvia, respirava e revivia minha infância. Meu pai estava no meio da estrada, com os braços abertos, sorrindo para mim. Johhan soltou meus ombros e eu corri ao encontro do meu rei. Lancei-me em seus braços como um cordeirinho que acaba de fugir da presa e refugia-se no calor do ventre materno. A respiração de meu pai era ofegante, e as rugas de seu rosto imediatamente se desfizeram. Vi meu pai, meu herói, meu rei dos reis rejuvenescer duas décadas frente a mim. Eu me sentia extasiada, plena. A princesa voltava ao abrigo de seu pai. A pequena rainha estava de volta ao seu império. Se Abraim me chamasse para sua companhia naquele exato momento, eu ria realmente feliz.

Mas Abraim sabia que aquilo que eu achava ser a felicidade perpétua, na verdade era apenas uma finíssima fatia do imenso bolo que o destino havia reservado para mim. Fui recebida pelo meu povo com alegria e entusiasmo. Não cabia em mim de contentamento. Percebi que cada um deles tinha na mente uma recordação minha, e todos ansiavam pelo meu retorno.

Faltavam apenas dois dias para o início da comemoração do Natal. O Natal é a festa mais importante do ano, e a cerimônia dura três dias. Os preparativos já haviam começado. Muita comida, bebida, música, dança, rituais. O mais importante deles era o Ritual do Renascimento, que acontece exatamente à meia noite do dia 24 de dezembro. É neste ritual que todas as almas ciganas se encontram e se renovam. Vão ao céu e atingem o limite da perfeição que é concedida aos humanos. O Ritual do Renascimento consiste em uma dança de entrega. Entrega do corpo, da alma e do coração.

A cada ano um casal é indicado pelos superiores da tribo para a execução dessa dança magicamente magnífica. Neste Natal, os escolhidos foram Johann e eu. A euforia tomou conta de minhas veias. Mesmo estando há tanto tempo afastada dos meus entes queridos, carregava em meu espírito cada nota entoada por aqueles que eu tanto amava. A dança era minha vida, tudo que eu ansiava e desejava em minha existência. A melodia que invade a alma, penetra cada poro de nossos corpos, tornando-nos livres e beirando a imortalidade. Eu iria dançar novamente com meu mestre, meu par, meu irmão. Aquele que conhecia meus medos e meus desejos. Meu anjo da guarda. E estava sendo agraciada por poder partilhar com ele este momento único em minha vida.

Cada cigano, durante o ritual, recebe uma graça de Abraim, o imaculado rei dos céus. Para alguns, ele promove a fartura. Para outros, a harmonia. Outros recebem a tranqüilidade ou a sabedoria. Outros são tomados por um infortúnio sentimento de pesar, e sentem a necessidade urgente de compartilhar seus feitos com aqueles que os rodeiam. E outros sentem o peito arder em chamas, e descobrem o verdadeiro amor. Era isso que eu esperava. Não havia conseguido apagar da memória as frases daquela cartomante em Paris. Estava angustiada, e esperava que Abraim me concedesse a virtude de perceber o amor que estava tão próximo a mim.

Já era muito tarde quando me recolhi. Sentia-me viva novamente, em paz com meu eu interior. Fiz as preces a Abraim, pedi a benção a meu pai e passei muito tempo olhando as estrelas que brilhavam impetuosamente no céu. Adormeci sentindo as mãos de mamãe acariciando meus cabelos, e vi seu rosto sorrindo para mim. Sua alma entoava um cântico de graças. Eu estava em casa.

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N.A.: O poema citado no início do texto chama-se "A um coração cigano", retirado do orkut, da comunidade "Coração Cigano".

Histórias da meia noite

"Em uma cidade do interior morreu um pai de família muito querido. A viúva mandou chamar a única fotógrafa da cidade para tirar fotos do morto para poder colocar no cemitério.
A fotógrafa ao chegar ao velório viu o morto dentro do caixão e começou a fotografá-lo. Para seu espanto, toda vez que olhava pelo visor da máquina fotográfica via o morto olhando para ela com os olhos abertos. Quando tirava a máquina fotográfica de sua frente, olhava para o morto e o via com os olhos fechados. Várias fotos foram tiradas e, quando reveladas mostraram que realmente o morto a via com os olhos abertos."


Um garoto do sexto ano havia terminado de contar sua história. A maioria dos alunos já havia se recolhido, apenas pouco mais de meia dúzia ainda estava reunida em torno da fogueira. Adhara atirava pedaços de uma gosma roxa na fogueira de tempos em tempos, que fazia o fogo crepitar e causava pequenas explosões, assustando os colegas mais atentos às histórias.

AM: Que horror!
IM: É só uma história, Anabel! Pensei que seus neurônios super-estimulados soubessem distinguir uma coisa da outra...
IL: Toma cuidado, senão o defunto do Jack vai vir puxar seu pé essa noite.

Ian e os amigos caíram na gargalhada. O professor de zoologia olhou para o relógio trouxa que tinha no pulso esquerdo e, percebendo que já havia passado das duas horas da manhã, ordenou que todos fossem para suas barracas. Adhara e Bel seguiram com cara de pouquíssimos amigos, enquanto Ian e Samuel rumavam para o outro lado do acampamento.

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Adhara entrou em seu saco de dormir e ficou olhando pro teto da barraca, fungando. Não conseguia pregar os olhos, seu cérebro fervilhava. Bel a olhava intrigada. De repente, a garota levantou, vestiu a capa e rumou para fora.

AD: Adhara, tem certeza?? Ta tão escuro lá fora...
AB: Bel, se não quiser vir, não precisa. Deixa que eu vou sozinha.
AD: Não... também não quero ficar aqui sozinha. Eu vou com você!
AB: Coloca isso na cabeça e traz sua varinha.

As duas seguiram silenciosamente por entre as barracas. Bel não sabia onde estavam indo, mas a idéia de ficar sozinha naquela escuridão, ainda mais depois da sugestão de Ian, acusava-lhe calafrios. Pé ante pé, as duas meninas se aproximaram da barraca dos garotos, os intragáveis sem cérebro, apelido carinhoso que Adhara dera a Ian e Samuel.

Estava tudo escuro. Os dois garotos deviam estar dormindo... O sono dos inocentes. Adhara cochichou alguma coisa no ouvido de Bel, que, um tanto resignada, concordou com a cabeça e se afastou cerca de dez passos do local onde a amiga estava. Então, dentro da barraca, Ian e Sameul ouviram um estrondo. Assustados, os dois ergueram-se dos sacos de dormir. Uma luz verde cobria uma das paredes da barraca, e um vulto esquelético pairava alguns centímetros acima do chão. Uma risada cadavérica ecoou nos ouvidos dos garotos, e Samuel correu em direção à porta de lona. Sentiu o sangue gelar em suas veias quando não encontrou a saída. Estavam presos dentro daquele mausoléu de lona. Ian arrancou a varinha de dentro do bolso do pijama, os olhos arregalados. Samuel tentou esconder-se atrás do amigo, mas o vulto da mulher o perseguia. Ian desferiu uma dezena de feitiços que teoricamente derrubariam um hipogrifo, mas que pareciam fazer nada mais que cócegas no fantasma daquela mulher horrorosa. As sombras que agora tomavam conta da barraca pareciam sinistramente vivas, e o cheiro de mofo e podridão inundava o local.

A risada cadavérica ressoou novamente, fazendo as pernas de Ian tremer de pavor. Então, os dois garotos viram-se transportados a um velho sobrado abandonado, escuro e muito sujo. Samuel procurou sua varinha, mas não a encontrou. Eles se moviam, contra a vontade – como se uma força invisível os empurrasse - em direção a uma porta escancarada.

Havia teias de aranha por todo o lugar, sem falar no cheiro de carniça em decomposição, parecia abandonado há anos. Mas algo estranho, muito estranho aconteceu.

Uma luz de vela brilhava no aposento ao lado. Os dois garotos ficaram hipnotizados e foram em direção àquela luz. Ao chegar ao aposento, Ian gritou. Havia uma mulher sentada numa cadeira empoeirada com uma caixa ao seu lado. Ela era feia, vestia uma camisola verde claro, como aquelas usadas em hospital. Era a mesma mulher da barraca do acampamento. Ficou mais surpreso ainda quando ela me chamou pelo nome: "Ian! Será que você pode ma ajudar?"

A voz era esganiçada e sombria. Ele e Samuel tentaram conter o temor. "Não tenham medo. Eu sei que o senhor precisa de dinheiro, senhor Berbenott... eu pago bem aos senhores se me ajudar com esta caixa. Eu já cansei de pedir, mas ninguém me ajuda", disse a figura.

Samuel tentou recusar, mas sentiu um desejo tão grande de pegar aquela caixa que quando percebeu, ele e Ian já a tinha nas mãos. Somente perguntaram para onde deveriam levá-la.

A mulher estava logo atrás dos dois, pois iria ensinar o caminho. No início não notaram nada de errado, mas de repente, comeos dois garotos começaram a sentir um cheiro estranho, muito estranho, vindo da caixa...um cheiro de morte!

A mulher continuava falando, mas Samuel não via mais a sombra dela no chão. Nesse momento, Ian olhou de soslaio para onde ela deveria estar, mas não estava! Ambos começaram a ficar com medo. Pararam um instante e Ian pensou em abrir a caixa, mas foi interrompido pela voz da mulher: "Não abra a caixa! Vocês terão que ir até o fim!!! Já paguei adiantado pelo serviço." O pavor tomou conta dos dois amigos. Samuel debatia-se, tentando se convencer que era um pesadelo e logo iria acordar, e cravou suas unhas no punho esquerdo. Deu um grito de dor. E então percebeu que não era um pesadelo... estava acordado, era real. As mentes confusas, não sabiam o que fazer. Não sabiam mais de onde vinha a famigerada voz. Ian imaginava que viesse da caixa, mas não quis arriscar. "Não parem, Ian e Samuel! Eu quero chegar logo!" Agora não tinhas mais dúvidas. A voz vinha realmente da caixa.

Ian pensou em atirá-la no bueiro mais próximo, mas não conseguiu tirá-la da mão, parecia colada. Samuel tentou de todo jeito se livrar daquele artefato das trevas, mas não teve sucesso. Os dois amigos tremiam como varas expostas a um vendaval. Acabaram levando a caixa ao tal destino.

Haviam chegado em uma bela casa. Um homem bem apanhado os atendeu, e Ian deixou a caixa na chão. O individuo, meio sem saber o que fazer, pegou a caixa e começou a abri-la. Samuel não agüentou a curiosidade e deu uma olhada para dentro dela.

Assim que ele abriu, o fundo se rompeu e um monte de ossos velhos, sangue e carne em decomposição esparramou-se pelo assoalho da casa. A cabeça da mulher rolou pela sala de visitas, e novamente sua voz repugnante ecoou: "Eu voltei para você, meu querido! Muahahahahahuahua!!"

Ian e Samuel berravam, verdadeiramente apavorados. A risada sinistra do fantasma da mulher e o cheiro de seu corpo podre invadia penetrava seus poros. A náusea e o desespero dominavam-nos completamente. Lentamente, o vulto da mulher levou-os de volta ao acampamento. Estavam novamente dentro da barraca com a parede iluminada por uma estranha luz esverdeada. Mais uma vez, a voz esganiçada e sombria do cadáver foi ouvida.

"O homem que vocês viram era meu marido e me envenenou há anos, escondendo meu cadáver naquele sobrado abandonado. Vocês serviram de 'Mensageiros do Cão', levando aquela encomenda macabra para o antigo dono. Muahahahaha!".

Então, exatamente como surgiu, o fantasma desapareceu. A barraca voltou a ficar na mais completa e silenciosa escuridão. Ian e Samuel suavam frio. Estavam pálidos e gelados. Então ouviram passos e risos do lado de fora da barraca. Tremendo, Samuel conseguiu abrir a fechadura na lona. Quando saíram, encontraram Adhara às gargalhadas, com a varinha em uma das mãos e alguns frascos de poção ilusória vaporizada na outra. A garota sorria marotamente, com ares de triunfo. Anabel aproximou-se do grupo, sorridente, com um gravador nas mãos.

AM: Prontinho, Adhara! Tudo registrado.
AB: Pensei que as duas mocinhas ia fazer xixi nas calças. Vamos nos divertir muito com nossos corajosos amigos aqui berrando "Socooooorro!! Por favor, não me machuque!" em voz de falsete. Medo de assombração, Ian?

Ian e Samuel precisaram de vários minutos até perceberem que haviam sido vítima de uma brincadeira das garotas.

SB: Isso não vai ficar assim.
AM: Toma cuidado, senão o fantasma vai vir puxar o pé de vocês essa noite.
AB: É, se eu fosse vocês, pensaria duas vezes antes de pregar os olhos. Ah, e já que vocês gostam tanto de cantar, uma musica suave vai tocar a noite inteira pra vocês.

Cuide do seu nariz
Você fala demais
Não fui eu que pedi,
Se o teu conselho fosse bom tu vendia
Eu não quero ouvir
Onde foi que eu errei
Não foi assim que eu quis
Infelizmente foi em você que eu me espelhei

(...)

Agora preste atenção
E me deixe falar
Aprendi a dizer não
já chegou a hora de me libertar
Hey não dá
Esse papo de faça como eu
Tuas palavras ecoam no meu destino

(...)

Não sou ovelha negra, e qualquer
Menina da vida da vida,não
Tentar esconder
Pra não ter que ver
Onde dói a ferida da vida, da vida, é
Não sou qualquer menina da vida!

Muahahahaha!

Com um riso irônico e debochado, Adhara puxou Bel pelo braço, e as duas voltaram aos seus sacos de dormir, não sem antes certificarem-se que a risada que tanto atemorizou os garotos ecoaria durante toda a madrugada, cessando apenas com o raiar do sol.

**********************
N.A.:
1. As histórias de terror foram retiradas do site www.assustador.com, e devidamente adaptadas.
2. A música citada é Próprias Mentiras, de Deborah Blando.

Nem queria ter vindo MESMO...

Do diário de uma frustrada Isabel McCallister


Ai, quanto sonhei em estar deitada na minha cama em Nova York, na minha casinha, com meu pai e somente meu pai como companhia! Ao contrário dos meus sonhos eu estou a quilômetros de lá, meu pai deve estar atravessando a barreira da via Láctea com um ônibus espacial e eu tenho pelo menos mais 100 pessoas como companhia...

Um terço da minha frustração é por isso, os outros dois terços eu explico já! Sábado de manhã eu separava no armário algumas roupas para fechar a mala, afinal, segundo meus devaneios, deveria voltar para casa na manhã de ontem. Amaralina também estava no dormitório juntando suas coisas para voltar para casa e o humor não poderia estar melhor.

Quando achei que estava tudo preparado e descia para o almoço, uma coruja branca com manchas caramelo entrou no quarto e voou até o meu encontro. Morgana havia voltado de sua viagem, finalmente... Fazia duas semanas que a tinha mandado para casa avisando papai do dia do meu retorno para casa, e a hora que deveria desembarcar na cidade para ele me pegar. Esperava uma resposta de confirmação de sua parte, porém, o que me foi entregue foi algo bem diferente...

Querida filha, tudo bem? Eu estou indo muito bem, melhor impossível eu diria... Hoje, assim que Morgana chegou, eu tinha acabando de voltar do escritório com uma novidade maravilhosa! Lembra-se do meu projeto, o que andei trabalhando o ano todo junto com David? Acaba de ser aprovado... Sairemos em vôo teste nele na próxima semana! Estava tão empolgado com o seu regresso filha, e de repente me cai esse balde de água gelada. A notícia é maravilhosa, mas você sabe o tanto que esses vôos testes demoram... Acho que só voltaremos em três ou quatro semanas, possivelmente. Tentei adiar isso para o inicio de janeiro, mas não consegui. Isa, me desculpa, você terá que ficar no castelo nessas festas de fim de ano. Estou morrendo de saudades, mas finalmente todo o meu trabalho foi reconhecido e não posso desperdiçar uma oportunidade dessas. Te recompensarei, eu prometo! Fique bem, e a não ser que consiga uma coruja astronauta, não me mande cartas até eu avisar a minha volta! Beijos do seu pai que te ama, Richard.

Se isso foi frustrante? Não, nem um pouco... Imagina você fazer planos e mais planos para seu fim de ano com seu pai, estar fechando a mala e contando os segundos para o outro dia nascer e receber uma notícia dessas. Seria menos frustrante para mim saber que a Anabel não iria ao acampamento de estudo do que essa carta de papai... Claro, eu fiquei super mega giga feliz com a notícia que ele me deu do trabalho, afinal, ele desenhou cada parafuso do ônibus espacial, mas em circunstância foi como se alguém tivesse me tirado um vestido de seda da mão na hora em que o encostei.

Foi por ficar com algumas visões na cabeça que me lembrei do que viria pela frente. Os alunos de quinto, sexto, e sétimos anos que permaneceriam no castelo iriam para o acampamento do Lago Moliets estudar mais abertamente e naturalmente as aulas de Botânica e Zoologia. Claro que não era uma obrigação, quem quisesse ficar no castelo que se sentisse a vontade, mas então conclui que entre ir para o acampamento onde alguns conhecidos estariam e ficar no castelo um mês sozinha e trancafiada, seria melhor embarcar no ônibus com o resto do pessoal enfrentando o mato, os mosquitos, a terra, e a falta de civilização.

Desci decidida... Iria almoçar e logo depois iria à sala do professor Pierre, me inscrever para o acampamento. Estava concentrada na minha salada de bacalhau que nem vi quando Samuel sentou-se ao meu lado e me cumprimentava...

SB: Oi Isa... Tudo bem?

IM: Indo, e você Samuel?

SB: Melhor impossível! Estou empolgado com a viagem amanhã...

IM: Eu estava também, mas enfim... Vai passar as festas com a família?

SB: Não, eu e mais alguns amigos concordamos que seria melhor não voltar para casa agora... Nossas famílias ainda devem se reter na nossa brincadeira dos Comensais. Vou para o acampamento, você não vai?

IM: Ponto positivo para ele... Bom, não ia, mas fui praticamente empurrada para lá, e vou sim, se as inscrições ainda estiverem abertas... Pensei que ficaria sozinha, Amaralina vai para sua terra passar o fim de ano com seu povo... Ainda bem que você vai!

SB: Ah, você nunca ficaria sozinha por muito tempo lá não é mesmo? Conhece tanta gente... De qualquer maneira, se quiser que guarde um lugar no ônibus próximo de mim e dos meus outros amigos pra você, eu guardo sem problema algum... Você vai gostar deles!

IM: Ok, obrigada... Eu estou indo Samuca, vou até a sala do Pierre tentar me inscrever... A gente se vê, certo?

SB: Com certeza!

Samuel é um garoto da Nox que conheci um pouco depois de chegar ao castelo... Havia se mostrado um menino muito legal e um ótimo amigo, e se meu sexto sentido não me enganasse, era apaixonado na Lina, o que fazia que nossa aproximação se intensificasse. Segui até a sala do professor Pierre que organizava alguns papéis da mesa, e tinha uma mala trouxa aberta em cima de uma cadeira. Por sorte eu ainda consegui preencher a ficha de inscrição e o entregar, o que ele disse ter sido muita sorte realmente, uma vez que as inscrições estavam quase se encerrando.

O resto do dia passou sem qualquer expectativa. Acordamos no domingo, e carregamos as malas para baixo. Após tomar o café me despedi desanimada de Lina e segui para a entrada onde alguns ônibus amarelos daqueles típicos para passeios trouxas estavam estacionados e nos esperavam.

Mal havia entrado no ônibus e avistei Bel e Adhara nas poltronas da frente, com caras de quem tinha comido e não gostado.

IM: É, pelo visto essa viagem não está sendo indesejada só para mim não é mesmo?

BM: Eu até estava animada em ir estudar Isabel, mas esperava ficar um mês longe de você e desse seu cabelo colorido. Some da minha frente...

A gentileza da minha irmã para comigo é realmente de se espelhar em qualquer outra relação. Sentei-me ao fundo, onde Morgan estava sentada com uma menina. Samuel e seus amigos ainda não haviam chegado, e só foram aparecer quando o ônibus se preparava para partir. Após ser apresentada para todos, o professor Pierre (para minha total felicidade, uma vez que eu me recusava a ir ao mesmo ônibus da professora Milenna) entrou e se sentou junto ao motorista. A estrada começou a ser percorrida.

A viagem foi até divertida... Samuel e seus amigos começaram uma série de canções e após um tempo quase todos do ônibus estavam embalados e concentrados nela. Bel estava prestes a cometer um suicídio e Adhara prestes a cometer um homicídio conjunto quando paramos e todos começaram a descer.

Terça parte da minha frustração começou nesse momento. Descemos e nos encaminhamos para o bagageiro, para apanhar as malas. Vem mala de cá, vai mala pra lá quando todos se afastaram com suas devidas bagagens e me aproximei para apanhar a minha. Uma onda de total desespero invadiu meu coração no momento que olhei o bagageiro totalmente vazio... Onde está a minha mala???

O motorista não soube me responder e então sai procurando ela com o olhar em todos os lugares mas nenhum sinal de uma mala rosa perdida e solitária buscando a sua dona. Após garantir que ela não estava com ninguém, o motorista constatou que a porta do bagageiro estava aberta quando chegamos, ele não entendia o porquê, mas se despreocupou quando todos encontraram suas malas. Deu para perceber a minha tamanha sorte? No meio do mato, no meio do nada, sem querer estar ali, e sem a minha mala, as minhas roupas, os meus produtos, os meus objetos... Apenas eu, a roupa que estava usando no corpo, os mosquitos e... a Bel e sua mala! Pensar na hipótese de ter que pedir para Bel me emprestar algumas roupas para eu passar o acampamento era torturante... Não pelo fato de pedir, mas de pensar nas roupas da Bel...

Agora deu pra você entender meu estado não é? Merlin ao menos iluminou...

MO: Isa, nós soubemos o que aconteceu... Que pena e falta de sorte hein? Não poderiam usar um feitiço convocatório da mala?

IM: Acho que não Morgan... Estamos em território trouxa e seria um choque uma mala voando não é? Não sei o que fazer...

MO: Bom, pra começar você pode ficar na barraca comigo e a Marienne. Ela é grande pra nós duas mesmo... Vamos montar ela?

IM: Vamos! Não sei nem como agradecer Morgan... Teria que dormir com a Bel e Adhara, imagina isso...

MO: No mínimo uma iria sair degolando a outra lá!

Foi assim que minha viagem começou. Eu, Marienne (que por sinal é muito simpática) e Morgan colocamos nossa barraca em pé. Eu não havia acampado muitas vezes com papai ainda, mas tinha uma breve noção de como montar uma barraca e com mais algumas conclusões das meninas ela saiu reta e paralela. Os estudos começaram essa manhã, mas eu estava bem distraída e alheia a eles. O resto das tardes de ontem e hoje, fomos desvendar o local e bolar algumas coisas para se fazer nesse lugar.

Após as súplicas que fiz para Bel, ela me cedeu dois conjuntos de roupas para que eu alternasse todos os dias, e é isso... Não sei como esse acampamento pode acabar bem, mas pior do que já está, não fica!

Monday, December 19, 2005

Salve-se quem puder, porque o bicho vai pegar!

Das memórias de Ian Lucas Renoir Lafayette

- Vamos, andem, ultima vez que estou chamando, quem não entrar no ônibus vai ficar para trás!

O professor de Zoologia berrava pendurado na porta de um dos grandes ônibus amarelos que ele havia conseguido para nossa viagem. Eram ônibus trouxas, muito diferentes do Noitebus, que tinha três andares. Peguei minha mochila largada na grama e embarquei junto com meus amigos. O ônibus já estava lotado, mas por sorte os bancos no fundo dele ainda estavam vagos, permitindo que nos acomodássemos bem lá atrás, um lugar muito estratégico pra esse tipo de viagem.

Estava pondo os pés no banco da frente, começando a rasgar folhas de papel e amassa-las em formatos de bolas, quando a viagem que prometia ser divertida de repente se tornou maravilhosa, melhor impossível: Adhara Black entrava com cara de poucos amigos no ônibus arrastando sua mochila como o Lino, um garotinho de um desenho trouxa que anda arrastando um cobertor até pra ir ao banheiro. Pelo visto os planos dela de passar o natal em casa fora por água abaixo, permitindo que nosso acampamento se tornasse algo memorável.

Os primeiros 15 minutos na estrada correram sem incidentes. Mas foi só terminarmos de abastecer os bolsos para um verdadeiro bombardeio ter inicio. Começamos escolhendo um alvo: o faraó sentado a três bancos de distancia. A bola de papel voou tão rápida ate sua cabeça que ele não conseguiu descobrir o que o acertou. Ainda procurando o atirador, outra bola voou, dessa vez acertando a cabeça de uma menina da Lux que gritou na mesma hora. O terceiro alvo foi Adhara, obvio. Nós quatro atiramos as bolas ao mesmo tempo, acertando todas em sua cabeça. A garota saltou do banco já sacando a varinha e disfarçamos. Claro que ela sabia que éramos os autores da brincadeira, mas não viu e não podia provar. Adhara apanhou as bolas do chão e devolveu furiosa, nos acertando. A guerra havia começado! Éramos nós quatro contra ela, que enfeitiçava as bolas para que voltassem com a mesma rapidez que as acertava.

A batalha só teve fim quando o professor pareceu ouvir os gritos dos alunos no meio do bombardeio e interveio, confiscando todos os papeis que encontrou no ônibus, até o higiênico. Sem munição para atacar o resto dos passageiros, desatamos a cantar canções irritantes.

...Um hipogrifo incomoda muita gente, dois hipogrifos incomodam, incomodam muito maaaaais. Três hipogrifos incomodam muita gente, quatro hipogrifos incomodam, incomodam, incomodam, incomodam muito maaaaaiis...

...53 hipogrifos incomodam muita genteee, 54 hipogrifos incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam...

- CALEM A BOCA PELO AMOR DE MERLIN!

Adhara estava de pé de novo, com as mãos tampando os ouvidos e com cara de quem chupou limão. Anabel também estava em pé ao seu lado sacudindo a cabeça com os dedos enfiados no ouvido, na tentativa de abafar o som que àquela altura já tinha contagiado metade do ônibus.

- Até você Morgan?? – Bel falou quase chorando ao ver a amiga cantarolando animada ao meu lado, regendo o resto dos alunos com sua batuta invisível.
- Parem com essa musica dos infernos ou faço vocês engolirem cada um desses malditos 54 hipogrifos!
- Por favor, cantem outra coisa...
- Não, não... NÃO CANTEM MAIS NADA!

Samuel coçou a garganta com um sonoro “ham, ham” e tomando o lugar de Morgan na regência, começou a entoar uma musica que não conhecia, mas de letra fácil e que rapidamente aprendemos. Em questão de segundos 80% dos passageiros, incluindo o professor, cantavam com empolgação e devoção.

... Voldemort matou um, Voldemort matou um. É um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou dois, Voldemort matou dois. É dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou três, Voldemort matou três. É três, é dois, é um, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort...

... Voldemort matou 30, Voldemort matou 30. É 30, é 29, é 28, é 27, é 26... É 5, é 4, é 3, é 2, é 1, é morte. Viva Voldemort, Viva Voldemort! Voldemort matou 31, Voldemort matou 31. É 31, é 30, é 29, é 28, é...


- Me mata agora Adhara, por favor...
- PAROU A PALHAÇADA! MORGAN, LARGA ESSE MICROFONE DE PAPEL! O PROXIMO QUE CANTAR QUALQUER MUSICA, PODE SER ATÉ A DO PAPAI NOEL, MORRE!

Uma enorme vaia começou a ecoar no ônibus e as bolas de papel confiscadas pelo professor saltaram do bolso dele quando mais de 10 feitiços expulsórios foram pronunciados e todas voaram em direção a Adhara, que caiu sentada no banco por cima de Bel. O professor, sentindo a tensão e a guerra de vontades que estava prestes a começar, pediu que encerrássemos o coral de Beauxbatons por um tempo, para darmos preferência a contar piadas ou historias de terror, pois eram mais silenciosas. Ele passou recolhendo as bolinhas e fazendo todas evaporarem, sentando-se ao lado do motorista de olhos atentos no fundo do ônibus.

O resto da viagem foi um porre, pois estávamos proibidos de cantar e atirar papel. Logo chegamos ao lago Moliets, dando inicio a montagem das barracas, sem magia. Não precisa nem dizer que a minha barraca era uma das mais tortas, remendada com fita adesiva trouxa que o professor emprestou. Os arquitetos Samuel, Bernard, Dominique e eu demos uma boa olhada na nossa obra de arte e ao constatarmos que ela não iria desabar na madrugada, nos alojamos. Adhara passou por nós esbarrando em mim de propósito enquanto pisava nos gravetos que Dominique tinha colhido pra nossa fogueira e triturando todos eles. Olhei bem pra cara dela, cutucando Samuel: estava declarada a guerra do século!

Wednesday, December 07, 2005

Dias melhores

Do diário, ou melhor, caderno de pensamentos de Bel Damulakis

- Sr. LA FAYETTE, runa é o nome dado a cada uma das letras do alfabeto rúnico, utilizado no noroeste da Europa, especialmente na Escandinávia e nas Ilhas Britânicas, entre os séculos III e XVII. Portanto, o nosso objetivo é decifrá-las e...Sr. LA FAYETTE, o senhor ouviu alguma palavra do que eu disse?!

Comecei tentando explicar o básico para o garoto de meio palmo de altura que estava sentado no banquinho na minha frente, mas ele estava há exatamente meia hora encarando a porta da biblioteca com a boca aberta e uma cara de quem acabou de acordar...sendo que eram 5 da tarde! Fulminei o menino com o melhor olhar assassino que consegui fazer e tive que agradecer mentalmente a Isabel por me dar tantas oportunidades de treiná-lo com ela.

- Uhnn...eu acho que sim...- respondeu o garotinho, tremendo da cabeça aos pés – Eu só estava um pouco distraído...
- Jura? Estava contando os segundos para o senhor engolir aquela mosca! Confesso que já vi gente distraída, mas o senhor é o primeiro que consegue perder completamente o foco da atenção olhando para a porta da biblioteca!

O menino demorou alguns segundos para processar a chuva de informações. Ele sim devia ser o irmão gêmeo da Isabel! A mesma cara de quem precisa de tratamento médico urgente, com direito a terapias de choque e tudo.

- Moça, eu realmente não gosto de estudar esses desenhos estranhos...eu só estou aqui porque a professora Catharine mandou e...

Ok, hora de treinar a cara de quem acabou de engolir um limão azedo com casca e tudo. Obrigada, Isa!

- DESENHOS ESTRANHOS?! COMO OUSA FALAR ASSIM DAS RUNAS? Fique sabendo que eu vou passar essa informação para senhora Muller e que o senhor será devidamente castigado! Que ultraje!
- O que é ultraje? – o garotinho deixou escapar antes que pudesse se conter, mas quando percebeu que eu estava começando a ficar ligeiramente verde, balançou rápido os braços, indicando que não queria ter dito aquilo ou se protegendo de um ataque iminente... – Tudo bem, tudo bem, eu sei o que é ultraje! E já estou indo embora, sua maluca! E por que raios você fica me chamando de senhor?! Eu só tenho 12 anos!

Eu já tinha segurado o menino pela gola da capa e estava considerando as possibilidades de ser presa se lançasse uma maldição cruciatus, quando meu castigo pessoal entrou na biblioteca parecendo um pavão enfeitado para o carnaval. Literalmente, aliás, já que ela tinha descoberto uma nova utilidade para a pena, que já devia estar atrofiando por falta de uso: um penteado feito com várias penas multicoloridas.

- Anabel, que você era louca eu já sabia, mas bater em crianças já é demais! Vai, menininho, estão distribuindo pirulito grátis lá no salão.

O garoto saiu correndo o mais rápido que pode, sem nem olhar para trás, enquanto Isabel me encarava parecendo 1% preocupada e 99% aterrorizada.

- Por que você sempre se intromete nos meus assuntos? Eu ia dar uma boa lição naquele menino abusado!
- Anabel, eu nunca pensei que teria que falar isso, mas você precisa urgentemente sentar e ler um bom livro! Nunca te vi tão estressada! Eu já falei que uma boa massagem relaxante resolve qualquer coisa, mas em vez de se contentar em SÓ estudar para os NOMS você ainda resolveu virar babá desses pirralhos!

Santa ignorância...bem, imagino que deva ser melhor ouvir isso do que ser surda...

- Não é babá! Eu sou m-o-n-i-t-o-r-a!!! É uma responsabilidade gigantesca que a professora Catherine...
- Quem aquela louca com sotaque estranho?! E você é completamente obcecada pelo cérebro dela! Como vai o fã clube?

Uhnn...pode esquecer aquela história sobre ser surda, sim?

- Qual? O seu da Barbie? A professora Catherine é alemã! Ela só tem dificuldades de se adaptar ao mundo francês...
- Vocês duas têm dificuldades para se adaptar ao planeta Terra! Ela consegue deixar runas ainda mais insuportável...o que parecia impossível!
- Isabel, se você falar mais uma palavra, faço seu cabelo virar uma palha de aço antes que você consiga implorar por piedade...

A coisa parou por alguns segundos, considerando que não valia a pena arriscar os galeões do salão de beleza por tão pouco. Era impressionante como a França não tinha feito nada bem para a cabeça dela. Continuava o mesmo ser petulante, enxerido, mas agora vestida de seda! De qualquer forma, ela fez sua saída teatral, deixando a biblioteca cheia de pluminhas que caíram de seus cabelos, fazendo com que o cenário lembrasse ligeiramente um estouro de galinhas.

- Ahh, Bel...
- O QUE FOI?! – resmunguei revoltada. Será que o mundo tinha tirado o dia para encher a minha paciência? Mas era o Bernanrd...coitado, pela cara de pavor dele, devo ter sido um pouquinho grossa, mas tentei me redimir. – Ah, oi, Bernard. O que você quer?
- Uhnn...eu acho que esqueci – balbuciou o garoto, ainda assustado – Ah, sim, foi para perguntar se você vai ao acampamento no Lago Moliets.
- Claro que sim! – respondi, radiante. – O que eu não daria por alguns dias longe de Beauxbatons só estudando botânica. E, segundo meu lema, eu estou onde a Isabel não está...como eu tenho certeza que ela não vai...podem reservar meu lugar no ônibus.
- Por que você tem tanta certeza de que ela não vai? – perguntou Bernard, sorrindo.
- A Isabel? Se ela passar um dia no meio do mato, com bichos e plantas, sai dali direto para o hospício. Acredita que ela não entrou no Louvre porque disse que tinha claustrofobia? O lugar é um mundo!! Acho que ela tem alergia a lugares com excesso de informação...o pequeno cérebro dela entra em colapso. Bom, vai ser um Natal feliz! Melhor que isso só se tivessem me trancado na sala da Mona Lisa. Eu passaria a eternidade naquele lugar! – Interrompi meu monólogo por um segundo, já que a professora Muller e seus 2 metros de altura tinham acabado de entrar na biblioteca conduzindo uma garotinha.
- Anabel, poderia me ajudar com a senhorita BOIS-REYMOND? – perguntou com um forte sotaque alemão.
- Claro, senhora Muller!!! –respondi, virando as costas para o Bernard. Com certeza, teria tempo de falar com ele depois. A menininha, que se chamava Anna, tinha grandes olhos azuis e parecia estar enfrentando a morte. Era engraçado como esses estudantes desesperados me lembravam da Isa. Parecia a própria no dia que fomos visitar a Gi e eu disse para ela passar alguma coisa no rosto e esconder as olheiras.
Anna sentou no banquinho e começou a chorar.
- Por favor, senhora!! O Peter me contou o que a senhora fez com ele. Eu juro que gosto de runas!! Gosto mesmo! Eu sei o alfabeto inteiro!!!

Bernard segurou o riso e levantou do banquinho.

- Bom, acho que agora eu vou deixar as duas sozinhas...

A garotinha resmungou e disse – Você tem mesmo que ir...- mas parou quando eu levantei o livro pesado e abri com um estrondo em cima da mesa. Acho que ela pensou que eu iria atirar o livro na cabeça dela...não que isso fosse uma má idéia, é claro.

­- Srta. BOIS-REYMOND, runa é o nome dado a cada uma das letras do alfabeto rúnico, utilizado no noroeste da Europa, especialmente na Escandinávia e nas...

E assim continuei até a noite cair. Tentei ensinar runas a mais uns dois projetos de seres humanos, mas quando o último ameaçou me denunciar para a Madame Maxime por maltratar criancinhas inocentes, achei que era melhor voltar para o salão comunal. Sentei na poltrona perto da lareira e Adhara veio conversar comigo.

- Oi, Bel! Não te vejo há anos! Onde você estava?
- Uhnn...na minha sessão de castigos semanais. Estou pagando pelos pecados dessa e de todas as outras vidas.
- E eu que pensava que você já tinha sido bem castigada – disse Adhara imitando Isabel à tarde, quando parecia estar desfilando a nova coleção de Inverno francesa para um bando de garotinhas que davam gritinhos a cada capa que Isa vestia.
- Pois é...algumas pessoas simplesmente não tem sorte – disse, me levantando do sofá para ir dormir. Estava exausta e tinha que acordar cedo no domingo para estudar Mitologia.
Estava com uma grande sensação de dever cumprido, mas me se sentia cada dia mais enjoada de estar vivendo os mesmos dias durante o ano inteiro. Estava cansada de só ter como companhia os livros, estava cansada da falta de novidades, estava cansada de não entender muito bem porque todos pareciam estar vivendo no paraíso, enquanto eu me se sentia tão sufocada. Estava cansada dos pares de olhos que me encaravam com uma expressão estranha, apesar disso ser extremamente engraçado. Minha cabeça girava e eu passei uns 40 minutos rolando na cama até conseguir pegar no sono. Os NOMS realmente estavam me matando, a monitoria, as aulas, tudo! Além disso, sentia muita saudade de Hogwarts. Não me sentia em casa na Beaux, apesar de ser um ótimo colégio. Enfim, acho que estava um tanto quanto cansada de ser Anabel Damulakis. Mas amanhã é um novo dia, e, se as previsões da Amaralina estiverem corretas ( o que eu duvido muito) e Plutão ficar alinhando com Saturno ou algo do gênero, dias melhores virão.