Sunday, May 10, 2009
As feridas permanecem. Com o tempo, a mente, protegendo sua sanidade, as cobre com tecidos de cicatrizes e a dor diminui, mas nunca se vai”.
Rose Kennedy
Abri os olhos devagar e uma claridade muito forte me forçou a fechá-los novamente. Demorei até tornar a abri-los, mas aos poucos ia me acostumando a claridade que aquelas paredes brancas traziam ao lugar e me mexi desconfortável na cama, mas não consegui levantar. Percebi então que estava presa debaixo de um lençol, completamente empacotada por ele, e quando tentei me soltar ouvi o barulho de alguém se mexendo perto de mim.
- Calma, o lençol está preso – Philipe falou se aproximando e puxando o pano da cama – A enfermeira prendeu com medo de você rolar e cair.
- Enfermeira? – perguntei confusa. Minha cabeça ainda latejava um pouco – Estou em um hospital?
- Você não se lembra de nada? – ele perguntou com uma cara esquisita.
- Eu sofri um acidente com o Johnny, um caminhão bateu no nosso carro ontem.
- Não foi ontem, Bia – Philipe se aproximou mais e segurou a minha mão – Já fazem 3 dias.
- Eu dormi 3 dias?? – perguntei assustada e senti uma pressão na minha cabeça – E o Johnny? Onde ele está?
- Você estava em coma, sua família está desesperada – ele explicou paciente – A turma toda já passou aqui pra te ver, deixaram cartões e flores.
- Onde está o Johnny? Ele está bem? – perguntei outra vez – Lembro dele dizendo que o socorro já estava chegando e que estava bem antes de desmaiar.
Philipe ficou estranho de repente e apertou minha mão com mais força, me encarando com um olhar de pena. Sem soltar minha mão, Philipe puxou um banco para perto da cama e sentou.
- Bia, o Johnny... Ele não... – Philipe fez uma pausa e senti sua mão ficar gelada – O Johnny morreu, Bia. Quando encontraram vocês, ele já tinha morrido.
- Não, não é verdade! – fiquei agitada e tentei levantar, mas ele me segurou – Ele falou comigo, disse que estava bem, que eu tinha que ser forte. Ele estava bem, não pode ter morrido!
- Ele não pode ter falado com você, meu amor. Os médicos disseram que ele morreu na hora do impacto, que você teve muita sorte de ter sobrevivido.
- Mas eu falei com ele – disse já me desesperando, as lágrimas escorrendo por todo meu rosto enquanto Philipe o segurava com as duas mãos, tentando seca-las – Ele me disse que o socorro já estava vindo, que eu ia ficar bem. Phil, ele não pode ter ido embora!
- Eu sei, eu sei – ele repetia, tentando me acalmar – Eu acredito que ele tenha falado com você.
- Você acredita em mim?
- Sim, eu acredito. PJ foi quem encontrou vocês primeiro e ele disse que só voltou naquela rua porque ouviu a voz do Johnny chamando ele – reagi ao ouvir aquilo e ele soltou meu rosto, mas segurou minha mão – Ele disse que Johnny gritava por ele, pedindo que voltasse porque era importante. Ele achou que estava maluco, mas decidiu voltar. Quando chegou lá encontrou o carro de cabeça pra baixo, Johnny morto e você desacordada. Ele entrou em desespero e chamou uma ambulância, ficou lá do seu lado esperando o socorro chegar.
- Ele falou comigo, Phil... Ele não queria que eu ficasse desesperada com o acidente.
- Sim, ele estava cuidando de você.
- O que eu vou fazer sem ele? – comecei a chorar outra vez e Philipe alisou meu rosto, beijando minha testa.
- Eu vou ficar do seu lado, não se preocupe.
Fechei os olhos outra vez, deixando caírem muitas outras lágrimas enquanto Philipe mantinha minha cabeça em seu ombro. Senti um aperto no coração tão intenso que impressão que tinha era de que ele ia explodir de tanta dor. Meus pais entraram no quarto um tempo depois e ficaram aliviados de ver que eu estava acordada, mas logo os sorrisos desapareceram e deram lugar a mais lágrimas quando descobri que meu irmão já havia sido enterrado e não tive a chance de me despedir pela última vez. Quando olhei para a porta do quarto, vi o rosto do PJ me olhando pelo vidro, mas ele sumiu quando viu que eu tinha o visto. Queria falar com ele, poder agradecer por ter voltado, mas não conseguia. Era inevitável pensar que meu irmão favorito havia morrido e aquele com quem nunca me dei bem estava andando pelo corredor do hospital, vivo e sem nenhum arranhão, porque saiu do carro minutos antes. Pensar aquilo me fazia se sentir extremamente mal, mas o que magoava mais era saber que Pierre devia estar pensando a mesma coisa. E não devia estar se sentindo culpado por isso.
Wednesday, April 22, 2009
- Johnny, está todo mundo olhando! – puxei-o pelo braço e ele sentou outra vez, rindo.
- EUGENE, NÓS TE AMAMOS! – Johnny gritou outra vez rindo alto e me abraçou quando tentei me esconder dos olhares que nos cercavam – Relaxa maninha, Eugène está adorando a tietagem!
- Você é muito miqueiro... – comentei fazendo careta e ele riu mais ainda.
- Chata – revidou me empurrando de brincadeira.
- Imbecil – retruquei.
- Cabelo rebelde! – ele passou as duas mãos nos meus cabelos e os arrepiou todo, algo que odiava.
- Argh, seu idiota!
Voei para cima dele revoltada, ao mesmo tempo em que tentava abaixar os cabelos arrepiados. Johnny se esquivava dos meus tapas dando risada e as pessoas em volta da gente não paravam de olhar assustados, até que ele se desequilibrou e caiu do banco, rolando alguns degraus na arquibancada e me puxando junto. Paramos quando batemos na grade de proteção e a sombra do treinador Perrineau nos cobriu.
- Vocês estão atrapalhando o treino – ele disse com sua voz grave que assustava até meu pai – Vou ter que pedir que se retirem.
- Mas eu não tenho culpa, foi o Johnny, senhor Perrineau – tentei me safar, mas não colou.
- Johnny Latour... – ele falou meio que sorrindo, mas sem perder a pose séria – Meu jogador mais problemático, mas também o mais talentoso. Vejo que não mudou nada.
- Treinador – meu irmão apertou sua mão, sorrindo – Desculpe a bagunça, não queríamos atrapalhar.
- Estão desculpados, mas mantenho minha decisão de pedir que se retirem. Eugène precisa se concentrar e não está conseguindo com vocês dois fazendo escândalo da arquibancada.
- Muito justo – ele me abraçou limpando a grama da roupa e acenou para Eugène, que assistia a tudo de longe, achando graça - Voltamos para buscar nosso irmão quando o treino acabar.
Deixamos o campo de quadribol da liga infantil sob o olhar curioso das pessoas que acompanhavam o treino. Algumas nos olhavam pela exibição patética de briga entre irmãos minutos antes, outras olhavam para o astro do quadribol abraçado a mim. Johnny chamava atenção por onde andava e já estava acostumada com os olhares e cochichos que o acompanhavam. Atravessamos a rua e entramos em uma sorveteria aberta para esperar a hora de levar Eugène para casa. O dono da sorveteria veio pessoalmente nos atender e voltou para o balcão com um autógrafo do meu irmão misturado aos nossos pedidos.
- Você não terminou de me contar no que deu o protesto do Marcel, Bia - Johnny perguntou depois que trouxeram nossos sorvetes.
- Ah sim, o diretor prometeu estudar a idéia, disse que iria apresentar ao conselho de Beauxbatons - falei esperançosa - Agora só podemos cruzar os dedos e esperar. Mas os garotos já estão a postos para uma manifestação maior, anunciada até na rádio, caso nos enrolem demais.
- Ah bom, não podem desistir. Conheço o velho Charleston, basta ele se sentir pressionado que as coisas fluem com mais facilidade - ele piscou, dando a dica - E por falar em pressão, tenho entradas para o jogo do Testrálios de Olympique x Gigantes de Lyon. Quer ir?
- Claro! - respondi empolgada - Pierre contou que os jogadores andaram se estranhando, vai ser uma briga boa em campo!
Ele sorriu animado e terminamos nossos sorvetes conversando sobre amenidades, esperando o tempo passar. Como sentia falta de conversar com ele na escola, era sempre tão fácil. Johnny e eu brigávamos como qualquer irmão, mas as brigas nunca duravam mais que alguns segundos e logo estávamos rindo de nós mesmos, fazendo piada da situação. E apesar de ser o maior astro de quadribol da França da atualidade, não mudara nada. Era o mesmo Johnny bobalhão que gostava de bagunçar meus cabelos para me ver irritada, que escondia as cuecas limpas de Pierre no canil dos cachorros e que ensinava brincadeiras de mal gosto a Eugène, para o desespero de nossa mãe.
A hora de castigo fora do campo passou e voltamos para buscar nosso irmão mais novo, voltando para casa ouvindo-o contar do treino que perdemos e do jogo que teriam no fim de semana contra um time de Rennes. Passamos toda a tarde jogando jogos de tabuleiro com ele e quando anoiteceu, sai com Johnny e Pierre para o jogo. Pierre era locutor esportivo e quando chegamos ao estádio, se separou da gente indo para a cabine da rádio, enquanto eu ia com Johnny para a tribuna de honra.
A partida foi espetacular. Com os egos feridos por causa da troca de ofensas durante a semana, os times abandonaram qualquer tipo de diplomacia e partiram pra cima, usando todas as armas que possuíam e sem economizar nas faltas. Depois de mais de duas horas de jogo, Ian Moretz capturou o pomo e a partida terminou em 470 x 380 para os Testrálios de Olympique. A torcida na arquibancada fazia a maior festa e aproveitamos para sair antes que todos decidissem deixar o estádio ao mesmo tempo. Pierre já nos esperava ao lado do carro quando chegamos ao estacionamento.
- Preciso de uma carona até a casa da Sophie – disse já se apoderando do banco da frente quando Johnny abriu a porta.
- Por que você não aparata até lá? – perguntei azeda, sentando no banco de trás.
- Estou sem a minha licença, esqueceu? – respondeu revoltado – Só porque aparatei dentro da sala do Ministro, foi sem querer.
- É um idiota mesmo – Johnny implicou e ele riu, o que me deixou irritada. Se aquele comentário partisse de mim, geraria uma briga – Sophie é qual das suas namoradas?
- A ruiva – Pierre respondeu sorrindo presunçoso.
- Você é um porco mesmo – não me agüentei – Um dia elas vão descobrir que você tem três namoradas.
- Não se mete, garota, que coisa chata – Pierre retrucou.
- Parem vocês dois, será que não conseguem conversar sem brigar? – Johnny se meteu.
- Culpa dele, que acha que pode mandar em mim! – respondi já quase gritando
- Sou seu irmão mais velho, tenho um pouco de direito! – Pierre respondeu no mesmo tom.
- Você disse bem, é meu IRMÃO, não é meu pai! Não tem direito nenhum de mandar em mim, cale a sua boca!
- Não me manda calar a boca! – Pierre virou para o banco de trás com a face vermelha de raiva e Johnny o puxou de volta, achando que ele fosse encostar a mão em mim.
- PJ, a casa da Sophie fica a duas quadras daqui, você pode ir andando – Johnny parou o carro de repente e aprontou a varinha para a porta do carona, a abrindo – Estou de folga do trabalho e quero paz na companhia dos meus irmãos, mas se vocês não querem cooperar, então me vejo obrigado a botar ordem na casa. Pode descer, porque não quero gritaria no meu carro.
- É, eu posso ir andando mesmo – Pierre tirou o cinto e saiu do carro irritado, mas não sem antes olhar para trás e apontar o dedo pra mim – Nunca mais me mande calar a boca, ouviu?
Pierre bateu a porta com raiva e atravessou a rua sem nem olhar para trás. Johnny olhou para mim severo e torci o nariz, pulando para o banco da frente sem falar nada. Ele ligou o carro outra vez e voltamos para a estrada.
- Vocês dois, viu... – comentou depois de um longo período de silencio – Não entendo como brigam por qualquer coisa. Já vi vocês conversando tão bem!
- Quando eu volto da escola, depois de muito tempo longe, conversamos numa boa. Eu falo das aulas, ele me conta dos jogos, mas não demora muito e alguma coisa vira motivo para discussão. Sempre foi assim, sempre vai ser. Pierre é um porco machista e não vai mudar.
- PJ não é tão mal assim, Bia. Você só precisa dar uma chance a ele.
- Ele é um imbecil, isso sim – respondi ainda chateada – Eu não tenho dois irmãos mais velhos e um pai, mas sim um irmão mais velho e dois pais!
- Bia, nem sempre vou estar perto pra apartar as brigas e acalmar os ânimos. O que vai acontecer numa próxima vez que discutirem? Vai se atacar como dois animais, como estava prestes a acontecer agora pouco?
- Por que ele não é o astro de quadribol que está sempre fora e você o locutor que dorme em casa todos os dias? – perguntei inconformada e ele riu.
- Porque PJ como jogador de quadribol é um excelente locutor esportivo – ele respondeu e rimos alto – Quando você jogar profissionalmente vai dar um...
- JOHNNY, CUIDADO!
Gritei desesperada levando a mão ao rosto quando vi um caminhão vindo de encontro ao nosso carro e Johnny virou o volante depressa, mas já era tarde demais. Vi uma luz muito forte em cima da gente, ouvi uma buzina alta e no instante seguinte o carro levantou vôo, capotando várias vezes e parando de cabeça para baixo do outro lado da estrada. Como estava presa pelo cinto, fiquei pendurada por ele e sentia a cabeça muito pesada, vendo algumas gotas de sangue pingando da minha testa. Fazia um esforço absurdo para manter meus olhos abertos, minha cabeça rodava e sentia vontade de me render ao cansaço e apenas dormir, mas lutei contra essa vontade. Olhei para o lado assustada e não conseguia ver o rosto de meu irmão, somente seu braço estirado no chão, sujo de sangue.
- Johnny?? Johnny?? – chamei-o chorando, tentando me soltar do cinto – Johnny, você está me ouvindo??
- Eu estou aqui, estou bem – ouvi meu irmão responder perto de mim, embora ainda não pudesse ver seu rosto – Tudo vai ficar bem, o socorro já vai chegar. Estou aqui do seu lado, seja forte.
- Ok... – respondi engolindo o choro.
Ouvir a voz de meu irmão me reconfortou e pude respirar aliviada. Sabendo que ele estava bem e do meu lado, parei de lutar contra o cansaço e deixei que meus olhos fechassem. No mesmo instante, tudo ficou escuro e silencioso, e a dor que sentia já não existia mais. Johnny disse que tudo ia ficar bem, e ele nunca mentiu pra mim.
Wednesday, April 15, 2009
Uma chama verde esmeralda o envolveu e segundos depois ele desapareceu, deixando a lareira da estação vazia. Olívia contou até 10 e pegou sua mochila, repetindo os passos do irmão. Esperava sempre 10 segundos, pois era o tempo que seus pais tinham de receber Andreas e deixaram a sala livre para que ela pudesse passar sem ser incomodada. Quando era pequena Olívia se incomodava com a falta de atenção dos pais, mas com o tempo aprendeu a não se importar com a clara preferência deles por seu irmão gêmeo. Agora, ao invés de se chatear, ela apenas retribuía na mesma moeda.
- Ah, ela chegou! – Olívia surgiu na lareira de sua casa e ouviu a voz de seu pai.
- Querida, por que demorou tanto? – ela ouviu sua mãe e procurou o olhar do irmão, confusa. Andreas sufocava uma risada ao lado dos pais, mas deu de ombros quando ela o encarou – Seu pai e eu já estávamos preocupados, ele ia agora mesmo até a estação!
- Eu esperei um pouco, para não... – mas não chegou a terminar a frase, pois seu pai a puxou para um abraço.
- Andreas, pegue a mochila de sua irmã, está pesada! – ordenou e o garoto correu para pegar a mochila de Olívia, subindo as escadas em seguida.
- O jantar vai ser servido, vamos para a sala – sua mãe a abraçou animada.
- Preciso trocar de roupa antes, passei o dia inteiro com essa – Olívia se esquivou do abraço da mãe – Já vou para a sala.
- Ok, mas não demore! E chame seu irmão também, quero a família toda reunida!
Olívia sorriu desconfortável para a mãe e subiu as escadas apressada, olhando para trás com uma expressão confusa. Seus pais ainda a observavam do pé da escada e quando acenaram desaparecendo pela porta que levava a sala de estar, Olívia correu na direção contraria e entrou no quarto do irmão gêmeo, que trocava de roupa.
- O que está acontecendo? – Olívia perguntou assustada, fechando a porta e jogando o corpo contra ela, como se pudesse impedir seus pais de entrarem – Caímos na lareira errada?
- Não, estamos na nossa casa mesmo, mas parece que ao avesso... – Andreas respondeu tão confuso quanto sua irmã, embora parecesse estar se divertindo.
- Então quem são aquelas pessoas lá embaixo e o que fizeram com nossos pais?
- Eles estão esquisitos mesmo, mas por que não relaxa e curte o momento? – Andreas vestiu um casaco por cima da camisa amassada e levantou da cama – Vai dizer que nunca quis saber como é ser o filho preferido? – Olívia hesitou e ele riu – Então! Aproveite e explore-os um pouco. Vai ser bom não ter os dois no meu pé por pelo menos uma semana... Vamos jantar? Estou faminto!
Olívia não se moveu por alguns segundos, mas acabou cedendo. Andreas estava certo. Apesar de estranho, ela não podia negar que havia gostado da atenção inusitada que seus pais lhe dedicaram. E já que não sabia o que a motivou e muito menos por quanto tempo ia durar, a melhor solução era aproveitar.
O recesso de páscoa já estava chegando ao fim e o clima na casa dos Casiraghi continuava estranho. Olívia era constantemente paparicada pela mãe, que não a deixava sozinha por mais que 15 minutos, sempre querendo saber como estava indo na escola, dos amigos, dos planos para as férias e até sobre sua formatura. A garota não agüentava mais responder aos questionamentos da mãe, mas então lembrava de seu pai, que a cercava nos intervalos em que sua mãe a perdia de vista querendo conversar sobre os planos para o futuro. De repente, seu sonho de se tornar escritora não parecia mais algo absurdo do ponto de vista do pai. Era como se de uma hora pra outra ele aceitasse que sua única filha não tinha pretensão de ter como carreira ser esposa de alguém. Aquilo, embora satisfizesse Olívia, estava deixando-a desconfiada.
Era a ultima refeição com a família reunida antes de Andreas e Olívia voltarem à escola. Andreas contava sobre o fim de semana dos pais que a escola promovia todos os anos no mês de Maio e que seus pais sempre evitavam comparecer. Dessa vez, no entanto, ambos estavam animados por terem a chance de visitar Beauxbatons e conversar com os professores de seus filhos.
- Vai ser no segundo sábado de Maio. Quem está organizando as coisas na Lux é a Danielle, mas Olívia está ajudando, não é Lívia?
- Sim, estamos preparando uma recepção para os pais dos alunos da Lux no nosso salão comunal, algo mais reservado e separado do banquete oferecido pela escola.
- Isso é excelente! Estamos ansiosos, não vejo a hora de poder conversar com os pais do rapaz! – a mãe falou empolgada e Olívia percebeu o olhar severo de seu pai a ela.
- Que rapaz? – perguntou olhando de um para o outro.
- Ora Benoit, não me olhe assim, como se Olívia não soubesse de nada! – Cecile reclamou – Pois se é ela quem está namorando, como não pode saber que aprovamos?
- Do que vocês estão falando? – Andreas não se conteve e perguntou, vendo que Olívia encarava os dois sem dizer nada.
- Já sabemos que sua irmã está namorando o Príncipe Marcel, está em todos os jornais – Benoit explicou e sua esposa confirmou com a cabeça – Olívia, por que não nos contou? Estava com medo de alguma coisa?
- Bobagem! Medo do que? Marcel é um excelente rapaz! Eu, como uma mãe zelosa, não poderia estar mais satisfeita em saber que minha filha está em tão boas mãos!
Andreas deixou o suco de uva sair pelo nariz ao tentar abafar uma risada escandalosa e seu pai o olhou com ar de reprovação, logo desviando a atenção para a filha, assim como sua esposa. Ambos sorriam felizes e Olívia os encarava incrédula, sem palavras. Finalmente tudo fazia sentido. Todo aquele tratamento com ela, as boas vindas na lareira e as gentilezas constantes, não passavam de interesse. Seus pais achavam que ela ia se casar com o futuro Rei de Mônaco e queriam garantir que desfrutariam dos benefícios, pois sabiam que se continuassem a ignorar a filha, ela jamais permitiria que eles fossem morar no castelo.
- E então, minha querida? – a voz de sua mãe a tirou do transe – Por que não nos contou antes sobre o Marcel?
- Estava esperando para contar pessoalmente, mas acho que acabei esquecendo. Desculpe. – Olívia sorriu, mentindo.
Foi sua primeira mentira, e saiu sem que ela planejasse, sem que percebesse que estava confirmando aquilo que a faz brigar com Marcel uma semana antes. Ela não entendeu, naquele momento, porque havia mentido, mas de repente percebeu que havia gostado de toda a atenção que recebeu dos pais durante a semana e não queria que aquilo acabasse. Seus amigos haviam dito que ela devia relaxar e aproveitar os 15 minutos de fama e era isso que ela faria. O único problema era que eventualmente ele iria acabar, bastava que Marcel arrumasse uma namorada de verdade. E embora ainda pouco acostumada a todos os mimos que teve durante o feriado, Olívia ainda não estava preparada para voltar a ser ignorada pelos pais.
Monday, April 13, 2009
- Derek está animado com o manifesto – Andreas comunicou os amigos, seus pés descansando em cima da mesinha – Disse que podemos anunciar uma paralisação, se ela for necessária, através da rádio.
- Nem pensar, não vão usar a rádio para um ato de rebelião! – Kwon protestou de imediato – Se o diretor encrencar, pode mandar fecha-la!
- Relaxa, National Kid – Marcel falou ajeitando o cabelo e os outros riram – Se a escola inteira se mobilizar, ele vai ser obrigado a ceder e só através da rádio podemos fazer todos nos ouvirem. Ele não vai fechar nada, fica tranqüilo.
- É, Kwon, fique tranqüilo – Bianca apertou seus ombros brincando e ele relaxou – E não vamos sair convocando a escola inteira agora. Vamos aguardar mais um pouco, até depois do feriado de páscoa acabar. Certo? – perguntou esperando uma confirmação dos amigos e eles assentiram com a cabeça.
- Está certo, vou confiar em vocês – Kwon cedeu, ainda um pouco contrariado – Tenho que falar com a Jules, ela disse que também quer jogar quadribol e tem algumas idéias já.
- Jules... – Philipe falou zombeteiro, cutucando Andreas e Marcel – É a loirinha da Nox, não é?
- É uma amiga... – Kwon disse cauteloso, mas não adiantou.
- Amiga, sei... – Andreas caçoou – O discurso é sempre o mesmo!
- Alguém viu a Ollie? – Danielle perguntou notando a ausência da amiga – Ela disse que viria depois, mas isso foi há algumas horas...
A pergunta de Danielle foi respondida antes que alguém se propusesse a isso. A porta da cabine se abriu e uma enfurecida Olívia entrou, amassando uma folha de jornal na mão. Traçando uma reta até Marcel, atirou o jornal em seu rosto e cruzou os braços, esperando uma explicação. O garoto correu o olho pela página e soltou uma gargalhada, o que acabou irritando ainda mais a garota, mas ele não notou.
- Eles são ridículos – Marcel comentou ainda rindo, passando o jornal para Philipe – Semestre passado era a Natalie, da Mannaz. Até acho que ela gostou da fama, mas não tinha nada a ver.
- MARCEL! – Olívia o recriminou – Esse jornal está dizendo que sou sua namorada! Como você acha graça nisso?
- Por que é sempre a mesma história, Ollie. Eles não podem me ver sozinho com uma garota que já deduzem que é a minha “escolhida”. Em agosto eu completo a maioridade, eles esperam que eu escolha em breve quem vai ocupar o lugar da minha mãe no trono. Não ligue pra isso, daqui a pouco eles mudam o alvo, basta me verem com alguma outra garota.
- Mas... – Olívia tentou argumentar, mas ainda estava processando o que ouvira e não conseguiu formar uma sentença.
- Ah Olívia, você queria o que também? – Anabela leu rápido o que dizia o jornal e olhou para a amiga rindo – Você foi fotografada com o Marcel almoçando com a família Real na Torre Eiffel e no dia dos namorados! Depois foi ao baile com ele e estão sempre juntos! É pedir demais que eles não imaginem coisa!
- Estamos sempre juntos porque estou tentando fazer com que entre um pouco de História da Magia Francesa nessa cabeça oca! – Olívia protestou, batendo de leve na cabeça de Marcel.
- É só um pedaço de papel, por que está tão irritada? – Danielle perguntou rindo.
- Porque é uma mentira e vocês sabem que eu odeio mentira.
- É verdade, minha irmã nunca mentiu – Andreas defendeu Olívia.
- Isso até que uma mentira venha a calhar para ela, aí eu duvido que Olívia não minta pela primeira vez! – Bianca brincou e todos riram, concordando.
- Está dizendo que vou ter que aceitar essa mentira? – Ela perguntou indignada
- Sim, vai. Sinto muito. Se eu me pronunciar dizendo que você é apenas minha amiga, é como se fosse uma confirmação pra eles de que, na verdade, já estamos até com a data do casamento marcada! – Marcel falou se divertindo e todos riram, menos Olívia.
- Ah Ollie, relaxa e curte seus 15 minutos de fama – Bianca puxou a amiga pela mão, a forçando a sentar nas almofadas – Esquece isso e fica aqui com a gente.
- Se eu não tenho escolha... – disse revirando os olhos – Do que estavam falando?
- Da namorada do Kwon – Andreas anunciou debochado – Jules Blanchar, não é esse o sobrenome dela?
- Ela NÃO é minha namorada! – Kwon disse irritado – Se ela fosse, eu diria!
- Se estiver mentindo, Kwon, pode magoar a menina. Se estiverem namorando, assuma logo – Anabela falou em um tom de voz estranho, o que resultou nas atenções sendo voltadas para ela.
- Desde quando você se preocupa com quem nem conhece direito, Bela? – Marcel perguntou desconfiado
- Obrigada por me chamar de insensível – retrucou azeda
- Deixem a Anabela em paz, gente – Kalani defendeu a amiga e ela sorriu agradecida.
- E você, Kal? – Danielle mudou o foco para Kalani – Alguma menina na área? Já está aqui há 8 meses e é bonitão, duvido que não tenha surgido nenhuma candidata...
- Boa pergunta, Dani. E não minta, Kalani, por que acho que é impossível você não ter se interessado por nenhuma menina ainda! – Philipe engrossou o coro
- Nenhuma ao meu alcance – Kalani respondeu direto, sorrindo um pouco sem graça.
- Seu cachorro, está de olho em uma garota comprometida?? – Andreas bateu com a mão no braço do sofá, rindo alto.
- São sempre os mais quietos, impressionante... – Philipe riu também, batendo no ombro do irmão – Quem diria, Kalani Haili querendo entrar numa relação a três!
- Eu não disse nada disso – tentou se defender
- Quem é a garota? – Marcel pressionou o garoto e todos encararam Kalani, curiosos.
- Esqueçam, não vou dizer – ele riu.
- Não acredito que vai nos deixar curiosos! – Bianca falou indignada e todos concordaram com a cabeça, mas Kalani riu um pouco sem graça e abaixou a cabeça.
- Deixem ele em paz, gente – Olívia percebeu o desconforto do garoto e o defendeu.
Mesmo contrariados, todos desistiram de arrancar alguma informação valiosa de Kalani e voltaram a conversar sobre os rumos do campeonato de quadribol da escola. Quando o sol já estava se pondo, o barco atracou em Paris e todos desembarcaram. Marcel procurou Charlotte e foram escoltados por seus seguranças até um carro, Anabela, Danielle, Olívia e Andreas desapareceram pela lareira da estação, Nani, Philipe, Kalani e Kwon foram recebidos por seus pais e Bianca foi recebida por seu irmão Johnny, que estava cercado de fãs quando a garota desembarcou do trem. Ele atendeu a todos com paciência, mas quando localizou Bianca pediu licença e foi ao seu encontro, desaparatando com a garota em seguida, para uma semana inteira de folga e muitas novidades para contar.
Sunday, March 22, 2009
- Algum problema, Bacellar? – Philipe encarou o colega curioso.
- Sim, Perrineau! – Alphonse respondeu irritado, lançando um olhar rápido a mesa da Sapientai – O diretor vai anular a partida contra a Sapientai, vão tirar os nossos pontos e passar pra eles!
- O QUE? – Marcel ficou de pé na mesa, irritado – Que história é essa? Por que isso agora? A partida foi em Janeiro!
- Mas só agora eles caíram pra terceiro na tabela – Philipe comentou balançando a cabeça – Isso tudo por que escalei Bianca?
- Parece que sim. O capitão deles foi reclamar que a partida estava fora das regras da escola.
- Eu vou arrebentar a cara daquele idiota do Derkier! – Marcel ameaçou ir até a mesa da Sapientai, mas Kwon e Andreas o seguraram.
- Você não vai fazer nada, Marcel – Philipe também levantou e falou em tom de aviso – Vou conversar com o diretor, tentar encontrar outra forma de punição, mas não vamos partir pra ignorância.
- Já estou arrependida de ter aceitado jogar – Bianca disse desanimada e Philipe segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.
- Não se culpe, a decisão foi minha e não me arrependo, faria outra vez se tivesse a chance.
- Esse seu namoradinho, hein Dani? – Marcel cutucou a amiga, encarando a mesa da Sapientai de lado.
- Não meta o Henri nessa confusão, ele não é o capitão do time e não foi dele a decisão de reivindicar os pontos! – Danielle defendeu o namorado, olhando feio para Marcel.
- Mas aposto que está adorando isso tudo e apoiando o capitão de meia tigela.
- Parem os dois – Philipe olhou severo para os amigos – Nossa situação já não está boa, vai piorar se começar a ter briga entre nós.
- Meu irmão está certo, não precisamos começar a brigar, não é assim que vamos resolver as coisas – Kwon apoiou Philipe e olhou com reprovação para Marcel e Danielle.
- Desculpa Dani – Marcel desfez a cara de irritação e sorriu para a amiga – Sei que a culpa não é do Renoir. Exagerei um pouco – Danielle sorriu de volta e ele pegou a mochila na mesa – Mas isso não vai ficar assim, não vou deixar que a casa perca os pontos.
- O que vai fazer, Marcel? – Philipe segurou o braço do amigo, o impedindo de sair – Nada de brigar.
- Não vou brigar, relaxa – Marcel sorriu maroto – Confiem em mim.
Philipe soltou seu braço e deixou que o amigo saísse, mas não o perdeu de vista até que tivesse certeza que não iria até a mesa da Sapientai. Se bem conheciam Marcel, sabiam que ele ia aprontar alguma coisa muito em breve.
O dia de aulas já estava quase no fim e Marcel ainda não dava pistas do que estava aprontando para evitar que a Lux perdesse os pontos da partida contra a Sapientai. Cada movimento seu era observado com atenção pelos amigos e todos ficaram apreensivos quando ele se levantou de repente no meio da aula de poções, mas relaxaram ao perceberem que ele só pretendia usar o banheiro. Já estavam no 5º tempo de aula, História da Magia Francesa, e Anabela convencera a todos que Marcel já havia esperado demais, se pretendesse fazer qualquer coisa ainda naquele dia já teria feito. Convencidos de que Marcel não faria nada, se dividiram em prestar atenção a aula, dormir ou simplesmente conversar em voz baixa. Mas 30 segundos de distração era tudo que Marcel precisava.
O garoto se levantou e, rápido como um gato, subiu na mesa, sentando de pernas cruzadas por cima do pergaminho que deveria estar sendo usado para copiar a matéria. Os olhares de toda a turma se voltaram para ele e se dividiam entre observá-lo sentado em cima da mesa e observar a professora Cordelia de costas para a turma, alheia a novidade. Mas as conversas paralelas e as risadas que aos poucos se formavam logo chamaram sua atenção. Ela se virou irritada com o falatório e seus olhos pararam em Marcel. Ele sustentou o olhar da professora, sem se abalar.
- Monsieur Grimaldi, o que pensa que está fazendo? – perguntou em tom de irritação – Desça já dessa mesa. Defossez não ensinou que lugar de sentar é na cadeira?
- Estou protestando contra o time da Sapientai – Marcel respondeu tranqüilo.
- Perdão? – Cordelia cruzou os braços, impaciente.
- Querem anular uma partida porque uma garota jogou no nosso time. Não aceitam terem perdido para uma mulher e querem anular o jogo.
- E o que a minha aula tem a ver com isso?
- Nada, mas achei o momento propicio, já que ninguém estava mesmo prestando atenção – a turma inteira riu e Cordelia bufou.
- Saia daí agora ou irei chamar o diretor! – ameaçou
- Faça esse favor, sim? Quero que ele venha até aqui!
- Não reivindicamos os pontos por termos perdido para uma garota! – Erik Derkier, capitão da Sapientai, se levantou ofendido – As regras são claras, garotas não podem jogar.
- Então por que demoraram 2 meses para reclamar isso? – Alphonse também ficou de pé e subiu na mesa – Também vou protestar.
- Acho que as garotas deveriam ter o mesmo direito dos garotos. Se elas quiserem jogar no time das casas, deviam ter permissão – Anabela também se levantou e ficou de pé na mesa – Chega dessa ditadura machista!
- Direitos iguais sim – Bianca também se sentou em cima da mesa – Quero poder jogar no time da minha casa, tenho capacidade para jogar de igual pra igual com os garotos, acho que já pude provar isso.
- Não tem nada a ver isso que estão falando, só agimos de acordo com as regras e nela garotas não podem jogar! – Derkier tentou se defender mais uma vez, mas ouviu um coro de vaias da maioria das garotas.
- Vamos protestar pelo direito das garotas jogarem no time das casas! – Andreas ficou de pé com o braço erguido e se juntou aos amigos, sentando-se à mesa.
Philipe e Kwon se olharam rindo e também se levantaram, seguidos por Olívia e Danielle. Um a um, todos os alunos da sala foram levantando e ocupando suas mesas, até restarem apenas os jogadores do time da Lux. Danielle lançou um olhar de decepção para Henri que surtiu efeito, pois o garoto foi o primeiro do time adversário e se levantar e também sentar a mesa. Ao ver que seus amigos não fariam o mesmo, deu um soco de leve nos braços de Edmond e Enrico, que mesmo contrariados, também ficaram de pé. Cordelia saiu da sala irritada e voltou minutos depois arrastando o diretor pelo braço, apontando Marcel como o agitador do protesto.
- O que está acontecendo aqui? – o diretor perguntou mantendo a calma e todos começaram a falar ao mesmo tempo – Silencio! Monsieur Grimaldi, queira explicar-se, por obsequio.
- Queremos que garotas possam jogar no time das casas, elas têm o mesmo direito que nós temos – Marcel explicou em um tom de voz tranqüilo.
- As regras da escola são essas desde sua fundação – o diretor replicou – Por que deveria mudar agora?
- Porque os tempos estão mudando. Agora as garotas de Beauxbatons querem jogar e são impedidas por regras bestas.
- As regras não são bestas, foram feitas para manter a ordem.
- Bom, está claro que essa regra não está mantendo a ordem – Marcel disse sarcástico e alguns alunos sufocaram risadas.
- Monsieur Grimaldi, não pense que por ser filho do Rei de Mônaco será poupado de suas gracinhas. Posso lhe dar uma detenção pesada por esse comentário debochado.
- Jamais esperei imparcialidade por conta da minha posição na sociedade. Estou aqui, sentado em cima da mesa, lutando pela igualdade de direitos como um aluno qualquer. Que é o que sou nessa escola, um aluno como outro qualquer.
- Com licença, diretor. Posso falar? – Bianca levantou a mão e o diretor assentiu com a cabeça – Sou fascinada por quadribol, minha família inteira é envolvida com o esporte, e só queria o direito de poder mostrar que posso jogar pelo time da minha casa. Philipe me deu essa chance e provei que garotas podem sim jogar no meio de garotos e se sair muito bem. Não é justo que culpe o time por isso e tirem os pontos conquistados na partida.
- Pontos conquistados por mérito do time, diga-se de passagem – Marcel completou – Bianca jogou melhor que todos nós, deveria ter permissão de jogar. Derkier decidiu reclamar dos pontos 2 meses depois, porque seu time caiu para terceiro lugar na tabela.
- Isso não é verdade! – Derkier ficou de pé, irritado.
- Se não fosse verdade, teria reclamado logo que a partida terminou! – Philipe se irritou também e o acusou – Aceite que perderam para uma garota. Aceite que é contra times mistos por saberem que vão perder sempre – todas as meninas da sala aplaudiram Philipe e deram inicio a uma discussão cruzada com Derkier.
- Já chega! – o diretor falou com a voz grave e todos se calaram – Os pontos da Lux serão mantidos, se alegam injustiça na anulação da partida – os alunos comemoraram e ele pediu silencio outra vez – Quanto a garotas jogarem nos times, mantenho minha posição de não mudar as regras da escola.
- Mas isso é ridículo! – Marcel exclamou exaltado – Voltamos a 1920!
- Monsieur Grimaldi, é meu ultimo aviso, pare imediatamente! – ele olhou severo para Marcel, que se calou, mas manteve a expressão desafiadora – As regras não podem ser mudadas sem um consenso geral dos antigos diretores da escola e do Ministério da Magia. Não cabe somente a mim mudar uma regra imposta desde a fundação de Beauxbatons.
- Então convoque uma reunião com eles! – Marcel tornou a falar, inconformado.
- E não cabe ao senhor me dizer o que fazer, mas garanto que qualquer decisão tomada será comunicada a vocês. Por enquanto, as regras são mantidas. E esse protesto termina aqui. Quem permanecer em cima da mesa pelos próximos 30 segundos terá 20 pontos descontados. Assunto encerrado!
O diretor saiu da sala e rapidamente os alunos desceram das mesas, até mesmo Marcel. A aula já estava encerrada e Cordelia liberou a turma, saindo da sala impaciente com toda aquela confusão.
- Muito bom, Marcel! – Philipe deu três tapas em suas costas – Não perdemos os pontos, você conseguiu.
- É, mas ainda não consegui a permissão para que Bianca faça parte do time.
- Mas chegamos perto – Bianca animou o amigo – Ele deu a entender que vai haver uma reunião com o conselho. Quem sabe não nos liberam?
- Não temos nada a perder em ter esperança nisso, então vamos ficar confiantes, ok? – Anabela falou também animada – E se nada se resolver, podemos organizar outro protesto. Quem sabe até com a escola toda? Aposto que muitas garotas querem esse direito também.
- É, quem sabe... – Marcel falou pensativo, sorrindo mais animado.
O diretor agora sabia que muitos alunos eram contra a proibição de que garotas jogassem no time das casas e cabia a ele mudar isso. E aos interessados, só restava aguardar uma resposta.
Friday, February 13, 2009
Assim que o barco ancorou no porto embaixo da Pont Neuf, o grupo se dispersou. Saíram tão apressados que Marcel não conseguiu ver a direção que seus amigos seguiam ao atravessar a barreira mágica e ficou esperando Olívia desembarcar, consultando o relógio.
- Para onde foram todos? – perguntou curioso quando a garota saiu e parou ao seu lado – Acho que ficamos de fora dos planos de hoje.
- É dia dos namorados, Marcel – Olívia respondeu entediada – Bianca está com Philipe e Danielle com Henri, vão passar o dia juntos.
- Mas e os outros?
- Kwon e Nani iam almoçar com a mãe deles e depois ele ia levá-la para conhecer a cidade, já que ela não conhece nada. E meu irmão saiu com Kalani, Anabela, Edmond e Enrico. Mas não faço idéia do que foram fazer.
- Melhor nem saber mesmo... – Marcel riu e Olívia o olhou desconfiada, mas não perguntou – E você? O que vai fazer?
- Nada. Odeio dia dos namorados, nunca tem nada pra fazer – ela respondeu azeda e Marcel riu outra vez, mas parou quando ela o olhou atravessado.
- Ainda não entendi porque você recusou o convite dele para fazer parte da novela – os dois começaram a caminhar para fora da barreira e os dois seguranças os seguiam de perto – Vocês iam passar mais tempo juntos!
- Marcel, já pedi que não entre nesse assunto, não quero falar sobre isso.
- Ok, ok, parei. Eu tenho que encontrar meus pais e meus irmãos pra almoçar, quer ir também? Não tem graça você ficar sozinha o dia inteiro.
- Almoço de família e eu de intrusa? Que graça isso.
- Bobagem, minha mãe adora você, sem contar Charlotte e Remy. E se você não for vai me fazer perder o compromisso, não vou deixá-la vagando sozinha por Paris.
- Mas vou ficar sem graça...
- Olívia, nos conhecemos desde que tínhamos 3 anos, freqüentamos a casa um do outro desde então, é impossível isso.
- Tudo bem, eu vou com você. Você não vai desistir mesmo... – disse sorrindo e ele estendeu o braço para ela segurar.
Os dois atravessaram a barreira juntos e os seguranças empurraram os dois para dentro de um carro preto que já os aguardava na saída. Entraram logo depois e fecharam a porta, um deles falou algo para o motorista e o carro seguiu viagem.
- E a sua irmã? – Olívia perguntou quando não viu Charlotte no veiculo – Ela não ia também?
- Charlie está em outro carro, nunca andamos juntos – Marcel explicou pacientemente – Tem um carro para cada um de nós, assim caso algum atentado aconteça, sempre vai ter alguém pra assumir o lugar no trono.
- Ai, credo, parece até que alguém vai jogar uma bomba na gente.
- Nunca se sabe... Precaução acima de tudo.
Marcel sorriu desviando o olhar para a janela e Olívia sentiu o estomago embrulhar. Era verdade que estava acostumada a andar com Marcel e todas as medidas de segurança que o acompanhavam, mas eram sempre em Mônaco, onde as pessoas estavam acostumadas a ter a presença dele e dos outros membros da família nas ruas. Nunca lhe ocorreu a idéia de que havia pessoas que poderiam querer derrubar toda a família e, consequentemente, poderiam derrubar também que estivesse no lugar errado e na hora errada.
- Chegamos – ela sentiu a mão dele bater em sua perna e saiu do transe.
Estavam em frente à Torre Eiffel. Embora frio, o dia estava ensolarado e fazia com que muitos parisienses circulassem pelo jardim que cercava a torre, aproveitando o que poderia ser o único dia de sol até o fim do inverno descansando deitados na grama. Mas os dois não saíram do carro. Permaneceram sentados, sem que ela soubesse o porquê, até que um dos seguranças saiu primeiro e abriu a porta. Marcel foi o primeiro a sair e assim que Olívia pisou no chão, se viu cercada por homens usando terno preto que formavam uma barreira entre Marcel e as pessoas na rua. Muitos curiosos levantaram para olhar e ela pode ver de relance, enquanto era empurrada pelos homens e tentava não soltar da mão do amigo, flashes de câmeras os seguindo. Olívia sentiu um enorme alivio quando entraram no elevador da torre e um dos funcionários o fechou apenas para eles e mais dois seguranças.
- Se assustou, não foi? – Marcel perguntou rindo, enquanto caminhavam pelo andar do restaurante.
- Sim! Achei que fossem carregar você embora! – respondeu ainda assustada
- Estou acostumado, já não me impressiono mais. Ah, lá estão eles.
Marcel apontou para uma mesa perto da janela e seus pais acenaram, sorrindo. Os dois caminharam até lá e sua mãe levantou depressa, abraçando Olívia primeiro, para só depois falar com o filho. Charlotte chegou logo em seguida e sorriu ao ver que a amiga do irmão estava na mesa. Ela era uma das poucas pessoas que Charlotte realmente gostava e que não a achava fútil. E Olívia, que achava que se sentiria deslocada, sequer percebeu o dia passar na companhia do amigo e de sua família. Somente quando o sol começou a se pôr a garota percebeu que o dia havia ido embora. Os seguranças novamente se postaram ao lado de Marcel e Charlotte e os escoltaram de volta para os carros que os levariam ao barco da escola.
- Ei! – Andreas, Anabela e Kalani entraram por último no barco e se atiraram nos bancos vazios atrás de Marcel e Olívia – Fizeram algo de bom hoje?
- Ollie almoçou comigo e meus pais, já que vocês a largaram sozinha hoje – Marcel respondeu brincando com o amigo.
- É, por onde vocês andaram hein? – Olívia virou para trás zangada – Nem mesmo se despediram.
- Fomos mostrar Paris para o Kalani, ele não conhece – Anabela respondeu depressa, mas não soou convincente.
- E Edmond e Enrico também não conhecem Paris? – Olívia insistiu
- Gente, vocês não vão acreditar no que aconteceu! – Bianca e Danielle chegaram correndo com Philipe e Henri atrás, interrompendo o papo.
Andreas, Anabela e Kalani trocaram um olhar aliviado e Olívia não teve mais chance de questionar o paradeiro dos três, pois as meninas levaram toda a viagem para relatar uma confusão ocorrida na Champs-Elyisée e assim que desembarcaram, os três correram para dentro do castelo. Bianca desceu do barco puxando a amiga pela mão e voltaram com Danielle para começarem a se arrumar para o baile, que começaria em duas horas.
- Ah, achei que nunca iam descer – Marcel comentou com Philipe quando viram Bianca, Olívia e Danielle descendo as escadas do dormitório.
- Você está linda, amor – Philipe beijou a mão de Bianca e ela sorriu apaixonada – Vamos?
- Henri está lhe esperando lá fora, Dani – Marcel avisou quando Bianca passou com Philipe e Danielle sorriu agradecendo, saindo com os dois
- E você? – Olívia ficou sozinha e encarou o amigo – Está esperando quem?
- Você – respondeu já estendendo o braço, mas ela não o segurou.
- Eu? – se espantou – Você não tem par?
- Não convidei ninguém. E como você também não tem par – ela o olhou de lado, mas ele não deixou que ela interrompesse – Não adianta olhar assim, você não tem. Vou fazer companhia a você. Vamos?
Olívia ainda pensou alguns segundos, mas acabou cedendo e segurando o braço do amigo, saindo com ele para o baile. O salão estava todo decorado com panos de cor rosa claro, balões em forma de coração, cupidos encantados que flutuavam de um lado para o outro e algumas bolhas de sabão entre eles. No palco havia alguns instrumentos e um dos garotos da banda já afinava sua guitarra e testava os microfones. Ao canto do salão, uma enorme mesa havia sido montada com um banquete e do outro lado, algumas mesinhas para as pessoas sentarem. No centro, uma enorme tábua de madeira lisa demarcava a pista de dança.
A banda não demorou a começar o show. A pista logo se encheu, e uma relutante Olívia aceitou dançar as músicas lentas impostas pelo diretor. E enquanto dançava com Marcel, observava os demais casais na pista. Philipe e Bianca dançavam de olhos fechados, sem se importar com mais ninguém em volta. Danielle e Henri não estavam muito diferentes, mas conversaram entre si e trocavam sorrisos cúmplices. Kalani, Anabela e Andreas, que não haviam convidado ninguém, não saíram da mesa. Mantinham as cadeiras viradas para a pista e conversavam apontando para os casais, enquanto davam risadas.
- O que foi? – Marcel perguntou vendo Olívia olhar distraída para os lados
- Nada – respondeu vaga e o encarou – Me distrai com a música.
- Também não vi Kwon no salão – ele respondeu como se pudesse ler a mente dela
- Quem disse que estou procurando ele? – Olívia se afastou aborrecida
- Ninguém, só a sua testa.
- Não me amole! – Olívia respondeu na defensiva e se irritou ainda mais quando Marcel riu – Vou voltar pra mesa!
Olívia se soltou das mãos de Marcel e virou de costas, mas congelou. Kwon estava a menos de 10 passos dela, e beijava uma menina loira que ela reconheceu como aluna da Nox, do mesmo ano que eles. Era como se alguém a tivesse jogado um balde de água fria. Não conseguia se mover, nem tampouco esboçar reação. Continuou parada encarando os dois e sentiu uma mão apertar seu ombro.
- Sinto muito – ela ouviu a voz de Marcel e se virou para ele, abraçando o amigo e escondendo o rosto em seu ombro. Ele passou a mão nos cabelos da garota e a abraçou apertado. Ela não percebeu, mas Marcel não conseguiu evitar sorrir ao ver Kwon com outra garota e Olívia recebendo consolo em seus braços. Na verdade, nem mesmo Marcel percebeu o que estava sentindo naquele momento.
Everybody finds somebody someplace
There's no telling where love may appear
Something in my heart keeps saying
That my someplace is here
Frank Sinatra – Everybody Loves Somebody
Friday, February 06, 2009
- Oi Kwon, não vi você ai. Não devia estar na radio? – A garota sorriu para o amigo.
- O salão está cheio mesmo, acho que a neve espantou todo mundo dos jardins – Ele ajeitou os livros na mão e sorriu de volta – E sim, deveria estar lá, mas precisava falar com você antes.
- Claro. O que é?
- Fico meio sem graça em te pedir isso, mas é que... – Marcel, que estava deitado na poltrona lendo um livro sobre quadribol, sentou atento – Bom, queria saber se você quer me ajudar na rádio.
- Como é? – Olívia, que havia ficado esperançosa, quase não conseguiu disfarçar a decepção.
- É que está faltando uma menina pra fechar o elenco da rádio novela e pensei que você talvez fosse gostar de ajudar. Tudo que tem que fazer é ler o texto no ar. Ensaiamos algumas vezes antes, mas nada demais.
- Ah Kwon, obrigada pelo convite, mas não dá – Olívia respondeu desanimada e Marcel arregalou os olhos no sofá – O jornal tem consumido demais o meu tempo, não vou me dedicar como deveria e acabar prejudicando vocês. Desculpe.
- Tudo bem, não precisa se desculpar – ele sorriu pra ela, sem parecer desapontado – Só ofereci a vaga pra você porque pensei que pudesse querer, mas vou encontrar outra pessoa então. Agora tenho que ir, Jude está sozinha lá.
Kwon se despediu da amiga sumindo pela multidão que ocupava o salão comunal e não viu quando Marcel levantou indignado do sofá e foi questionar Olívia, e tampouco quando a garota fez um gesto impaciente e repeliu o amigo, subindo as pressas para o dormitório.
- E terminamos a transmissão de hoje atendendo ao pedido de alguns ouvintes, com a música I Wak the Line, do Johnny Cash. Boa noite e até amanha!
Kwon apertou o botão para colocar a música no ar e desligou o microfone, girando na cadeira e parando de frente para Jude, que arrumava o seu lado da mesa e desligava seu microfone. Ficaram conversando sobre a programação do dia seguinte e desligaram os aparelhos quando a música chegou ao fim, saindo da rádio. Jude voltou logo para o salão comunal da Sapientai e Kwon ficou para trás trancando a porta. Já as guardava no bolso quando saltou assustado ao sentir uma mão segurando seu braço, deixando cair o que tinha na mão. Nani recuou alguns passos, também assustada com a reação dele.
- Desculpa! – a garota falou arrependida de ter o abordado daquela forma – Não tinha a intenção de assustar você.
- Tudo bem, Nani, calma – ele riu dela – É que não é normal alguém além de Jude e eu estar fora dos dormitórios até essa hora. O que faz aqui tão tarde?
- Estava no escritório da diretora, conversando sobre minha adaptação aqui.
- E como está indo? – Kwon finalmente guardou as chaves no bolso e caminhava com a irmã adotiva pelo corredor – Não temos nos visto muito e até peço desculpas, porque é minha culpa. O quadribol e a rádio tomam todo o meu tempo, mas devia encontrar um espaço para ajudar você com o que precisasse.
- Ainda não me acostumei bem – Nani respondeu com um tom desanimado na voz – É tudo muito diferente pra mim, as pessoas me olham de lado por não falar francês fluente, não consigo entender todas as aulas e sinto falta das minhas amigas.
- Quando entrei em Beauxbatons algumas pessoas também me olhavam de lado, para mim e Philipe, por sermos irmãos e não nos parecermos em nada. Preconceito idiota, mas não dê importância. Você é uma garota legal, quando te conhecerem melhor, vão se arrepender. Mas não se feche tanto. Pode sempre contar comigo, Philipe e seu irmão, mas você precisa de amigos da sua idade também.
- Eu sei, eu tento, mas me incomodam os olhares. É tão patético ver as meninas da turma babando em cima da tal Charlotte, só porque ela é uma princesa. Ficam bajulando ela o dia inteiro.
- Charlotte não gosta que a bajulem, pode ter certeza – Kwon riu outra vez – Ela acha que não tem nenhuma amiga de verdade na escola, porque não sabe se estão sendo legais com ela porque gostam dela de verdade ou se é porque é uma princesa. Tenta conversar com ela, acho que se dariam muito bem.
- Duvido muito disso – Nani respondeu descrente – E também tem esses créditos. A diretora disse que preciso deles pra me formar, mas não entendi muito bem como funcionam.
- Os créditos não são necessariamente obrigatórios, mas se você quiser um bom estágio quando se formar, sem eles é impossível conseguir um – Kwon explicou pacientemente, e já chegavam ao corredor que dava acesso ao salão comunal da Fidei – Tem varias atividades que dão créditos, mas as melhores são o jornal, a rádio e o quadribol.
- Não sou boa escritora e muito menos sei jogar quadribol.
- Bom, tem uma vaga na rádio, se quiser – Kwon disse animado – Precisamos de uma menina pra completar o elenco da novela, tudo que tem que fazer é ler suas falas no ar.
- Acho que consigo fazer isso... – Nani sorriu mais animada
- Ótimo! Amanha de manha falo com a Jude, ela é a responsável pelo elenco e vai te procurar pra conversar sobre a personagem.
Os dois pararam em frente ao quadro da fada e Nani disse a senha, fazendo a passagem secreta ser revelada. Ainda era possível ouvir o barulho das conversas animadas lá dentro, embora passasse das 22hs.
- Obrigada Kwon – Nani abraçou o irmão e beijou seu rosto – Estava mesmo precisando conversar um pouco.
- Sempre que quiser conversar, pode me procurar. Irmão mais velho serve pra isso também.
- Vou cobrar isso – ela disse sorrindo e sumiu pelo buraco do quadro.
Kwon continuou parado encarando o lugar por onde Nani havia acabado de desaparecer, sem perceber que sorria. Mas quando percebeu, fechou a cara e sacudiu a cabeça. Por um momento, ele se vislumbrou abraçado a ela, acariciando seus cabelos. E aquela imagem o assustou mais que tudo.
Wednesday, January 28, 2009
Pisávamos em cima de ovos, para não irritá-la e parecia estar funcionando, porque aos poucos ela estava voltando a ser a mesma Millie de sempre. Outro dia a vi verificando o trabalho de latim do AJ, não que ele não soubesse a matéria, mas ele tinha mania de esquecer de revisar e verificar acentos, e como o professor Chevalier que achava que Latim era a coisa mais importante do mundo, mais até que o ar que respirávamos, isso era fatal. Por sorte, eu tinha facilidade com línguas estrangeiras, e me saia bem, mas em Botânica eu penava, e com o humor que Millicent andava, eu não tinha a quem recorrer, senão aos livros e algumas vezes ao AJ, mas ele andava diferente... Talvez fosse a preocupação com as esquisitices do irmão, mas havia algo mais, ele andava reflexivo demais.
Era o ultimo tempo de aula de Historia da Magia e a professora após nos dizer a matéria do dia, nos mandou abrir os pergaminhos para anotar suas palavras. AJ estava atrasado, o que não era comum.
- Que cheiro é este?- perguntei quando vi AJ sentando do meu lado, quando entrou na sala escorregando devagar sem ser notado, pois nossa carteira era a última e a porta havia ficado aberta.
- Nada. - ele respondeu sem me olhar nos olhos.
Aproximei-me dele e aspirei atentamente:
- Isso é perfume!- falei um pouco alto e alguns colegas nos olharam e a professora Cordelia Blanchard, fez um hein, hein na frente da sala, para que ficássemos quietos, enquanto a lousa ia se enchendo magicamente com as anotações sobre Barbero Bragge, chefe do Conselho de Bruxos que, em 1269, ofereceu um prêmio de cinquenta galeões ao bruxo que capturasse um Pomorim Dourado durante uma partida de Quadribol.
- Você vai se encontrar com alguém? - perguntei baixo.
- Estou ocupado...
- Você me contaria se tivesse um encontro não é? Eu sei que sim... Vai me conta, quem é a gatinha?- insisti.
- Não estou a fim de receber uma detenção com a Cordélia hoje, deixa para nos falarmos depois. - disse sério e isso foi um balde água fria em mim.
AJ e eu dividíamos segredos e aventuras desde quando entramos na escola e nos tornamos tão amigos que eu o considerava meu irmão, e após alguns dias Millie se juntou a nós, ela era a outra parte do trio de esquisitos que achou um lugar naquela escola, o que estava diferente agora?
Ao final da aula ele saiu da carteira rápido, sem me esperar e se aproximou da Millie que conversava com a Jude, e falou alguma coisa no ouvido dela e ela sorriu como antes para ele e saíram da sala juntos. Ele segurava o material dela, e saíram sem nem olhar para mim, pareciam mais próximos que nunca, pareciam...
Um casal!
Eu deveria ficar feliz se meus melhores amigos formassem um casal não é? Isso seria o correto, mas porque eu não me sentia assim? Porque eu queria que ela voltasse a ser a Millie de sempre, que me ouvia, dava bronca quando necessário, ria das minhas brincadeiras e quando alguma coisa ruim acontecia comigo, ela estava ao meu lado, mesmo que derramasse algumas lágrimas. Eu odiava vê-la chorando ¬¬...
E porque eu sinto vontade de arrebentar a cara do AJ por ver a forma que ele toca nela, ele é muito assanhado, Millie não é uma qualquer, ela é... Especial.
Observei-os andarem na minha frente e pela primeira vez desde que a conheci, eu me dei conta de que nunca parei para ver o que devia ter visto: Millicent ela era uma garota que me atraia e se não fosse a nossa amizade, eu já teria saído com ela. O que me preocupa agora é que meu melhor amigo está saindo com ela.
Esperei por AJ no corredor pouco usado pelos alunos, que levava à Lux, e ele apareceu caminhando tranqüilo, parou quando me viu e sorriu:
- Hey Tristan, me esperando aqui a esta hora? Deve ter bolado alguma coisa...
- Cadê a Millie?- perguntei seco.
- Está no dormitório dela, acabamos de nos despedir e...
- Você a beijou?- perguntei me aproximando dele de forma ofensiva, AJ que me conhecia bem o bastante, se preparou:
- Porque quer saber?
- Responde logo: você a beijou ou não?
- Beijei!
Pow!
Foi o barulho do soco que dei nele, e logo estávamos rolando no chão trocando socos e ficamos nos batendo por um tempo, e embora cansados não desistíamos. Mal sentimos dois pares de mãos nos puxarem e nos afastarem um do outro, eram Derek e Marcel, que lutaram para nos separar.
- Vocês beberam?
- Brigando no corredor, querem ser expulsos?
Eu e AJ ficamos nos encarando ofegantes e ele disse:
- Não sabia que você gostava dela a este ponto.
- Você não sabe do que fala... Você estava se aproveitando dela...
- Não fiz nada de que me envergonhar. Eu quero minha amiga de volta, tão difícil entender? Nós saímos como amigos. - e eu comecei a me acalmar, Marcel e Derek nos olhavam com atenção achando que íamos voar no pescoço um do outro se nos soltassem. Quando viram que estávamos mais calmos nos largaram e ficaram esperando nossas explicações:
- Ela gosta de você? E você gosta dela a sério?- perguntei e Derek zombou:
- Falei que era por causa de mulher, pode ir pagando, Marcel. - e mais ouvi do que vi o som de uma moeda sendo passada de um para o outro.
- Eu me sinto atraído por ela, ela é minha melhor amiga e eu a acho muito bonita, você sabe disso... - rosnei, mas ele me ignorou e continuou:
- Se você ia ficar com todo este ciúme, porque não saiu com ela antes?
- Porque eu não pensei nisso, mas agora é tarde ela está com você eu não vou disputar uma garota com o meu melhor amigo.
- Deixa de ser idiota, aqui não tem disputa nenhuma, ela gosta de outro.
- De quem? Do Dubois? Não vai durar, ele é patético.
- Não, seu lesado, ela já terminou com ele, porque gosta de outra pessoa, ficamos o tempo todo conversando sobre isso. - ele disse e eu passei a mão no rosto para ver se sangrava, ou era apenas o suor da luta, e comentei:
- Seu 'Jab' ta mais forte, quase me rasga o supercílio.
- Não virei o pulso para ter maior impacto, porque não queria estragar sua carinha bonita. - ele zombou e eu ri, parecia que a briga nunca havia acontecido.
- Eu perdi alguma coisa aqui? Vocês estavam se espancando, e agora são amiguinhos? Cadê o sangue? Cadê o drama? - perguntou Derek, nós rimos e eu olhei para AJ e perguntei:
- Este cara que ela gosta...Ele é legal? Tipo, não vai fazer ela sofrer não é?- e AJ depois de olhar para Derek e Marcel, disse sacudindo a cabeça:
- Depende de você.
- Como?- perguntei confuso e Derek perguntou a Marcel:
- É este o cara que é a minha maior concorrência com as gatinhas? Um tanto devagar não é?
- As pancadas afetaram o cérebro dele, vamos dar um desconto. - e AJ depois de rir disse:
- A Millie gosta de você Tristan, e pelo jeito você é o único nesta escola que não sabia disso. E se você gosta dela, devia abrir os olhos e tomar uma atitude, porque ela não vai esperar para sempre. Venha, vamos à cozinha pegar uns bifes para por nestes machucados, porque já estão começando a arroxear. - e Marcel e Derek nos acompanharam e enquanto eu os ouvia conversando e rindo, eu pensava no que acabava de descobrir e senti um certo medo me invadir.
Será que eu seria bom o bastante para fazer Millie feliz sem estragar nossa amizade? E será que ela gostava de mim o suficiente para acreditar que eu levaria isso a sério?
When a boy like me meets a girl like you
Then I must believe wishes come true
I just look at you and I touch your hand
And this ordinary world becomes a wonderland
There are many girls I have met before
But I pass them by because I knew
There would be this magic moment,
One to last a lifetime through
When a boy like me meets a girl like you
N.Autora: A boy like me, a girl like you, Elvis Presley.
Thursday, January 15, 2009
-- Antoine de St. Exupéry
O relógio de parede pendurado em cima da lareira do salão comunal da Lux marcava 2 horas da manha e apenas uma pessoa ainda mantinha a luz do lampião acessa. Marcel apoiava a cabeça com uma das mãos, e a outra se mantinha ocupada escrevendo em um rolo de pergaminho. Ao lado dos livros espalhados pela mesa, uma caneca com café e uma caixa de sapos de chocolate. Seus olhos começaram a fechar lentamente e seu queixo escorregou da mão, fazendo o garoto saltar da cadeira assustado quando sua testa bateu com força na mesa.
- Machucou? – a voz de Olívia o fez olhar pra trás assustado – O que foi?
- Você me assustou – disse com um ar cansado, e voltou a se virar para frente.
- Desculpe, não era a minha intenção – ela riu, se aproximando. Usava um robe de cetim vermelho por cima do pijama – Sai para ir ao banheiro e vi que ainda tinha luz aqui embaixo. O que faz acordado essa hora?
- A velha cachaceira passou dever extra pra mim, por ter dormido na aula – Marcel respondeu fazendo careta e indicou os livros na mesa – Tenho que entregar amanha um resumo sobre a Revolução dos Gigantes de 1473.
- A revolução que ocorreu em Reims? – Olívia puxou um dos livros pra si e abriu, interessada – Foi um grande acontecimento, realmente... Os gigantes dizimaram quase toda a população da cidade. Saíram das montanhas quando anoiteceu e pela hora em que o sol saiu outra vez, já quase não restavam sobreviventes – ela parou de falar quando percebeu que ele a fitava com uma expressão perplexa – O que foi?
- Você gosta de História da Magia – ele dizia como se constatasse que ela tinha uma doença grave – Você sabe tudo sobre essa revolução, não sabe?
- Sim, eu gosto de História – respondeu um pouco ofendida pelo tom que ele usou – Não é tão ruim assim, talvez se experimentasse não dormir em aula, aprendesse a gostar também.
- Duvido muito – ele fez outra careta e ela riu – Ollie, me ajuda, por favor! Se ler mais uma linha desses livros, vou dormir! Mas se você me contar a história dela, vou conseguir escrever esse resumo ainda hoje.
- Não sei, Marcel... – ela devolveu o livro à mesa – Está tarde, e é uma história muito longa. Você já está sonolento, vai acabar dormindo e me deixar irritada.
- Não, eu não vou dormir – ele agarrou as mãos dela, desesperado – Juro pra você que vou prestar atenção! Não posso tirar nota baixa, meu pai come o meu fígado. E a velha cachaceira está só esperando por essa oportunidade! Por favor, Olívia. Se você for minha amiga de verdade, não vai me deixar na mão!
- Chantagem barata, boa jogada, Grimaldi – Olívia riu balançando a cabeça e tornou a pegar o livro – Ok, vamos lá. Mas se você dormir...
Marcel sorriu fazendo uma cruz com os dedos e beijando-os em seguida, e se ajeitou na cadeira para ouvi-la contar a história da Revolução dos Gigantes de 1473. Quando Olívia terminou, meia hora depois, Marcel conseguiu começar seu resumo. Terminou quase 4 horas da manha, sob a supervisão da amiga, e foram dormir sabendo que restavam apenas duas horas para levantarem, mas ele estava satisfeito. Ainda não era dessa vez que Cordelia Blanchard ia derrubá-lo.
As aulas de quinta-feira já haviam terminado e os alunos aguardavam famintos que o jantar fosse servido. Olívia conversava com Danielle na mesa da Lux sobre a aula de botânica que tiveram horas antes quando Marcel apareceu ao seu lado. Tinha um sorriso de satisfação estampado no rosto e abriu a pasta, tirando um pergaminho de dentro e entregando a amiga.
- “O”! – Olívia olhou para o pergaminho e sorriu radiante para o amigo – Marcel, você tirou “O”! Parabéns!
- Graças a você – ele sentou no banco ao seu lado e lhe deu um beijo no rosto – Você é a melhor, Olívia. A cachaceira gostou tanto do resumo que chegou a achar que havia colado, de “tão perfeito que está” – as garotas riram – Palavras dela.
- Uau Ollie, você conseguiu fazer o Marcel entender História da Magia! – Danielle falou chocada – Deve ser mesmo uma professora e tanto!
- A melhor do mundo, Dani – ele falou sorrindo e ela corou – Sem ela, estaria perdido.
- Não seja exagerado, Marcel – Olívia falou sem graça – Tudo que fiz foi contar a história da revolução e impedir que você dormisse.
- Mesmo assim, fez um excelente trabalho – ele parou de rir e encarou-a sério – Estava pensando, se você quiser e não for dar muito trabalho, será que poderia me dar umas aulas? História da Magia e Literatura, meus dois pontos fracos. Sei que são suas matérias favoritas e com o simulado dos NOMs cada vez mais próximo, preciso começar a entender o que é dito em sala.
- Já tentou prestar atenção? – Danielle sugeriu, rindo.
- Já, mas não deu certo – ele sacudiu a cabeça, dramático – É muita gente na sala, qualquer coisa me distrai.
- Tudo bem, não vejo problema nisso – Olívia respondeu sorrindo – Vai ser até bom, assim reviso a matéria enquanto ensino a você. Depois vemos um horário vago pras aulas, nada de estudar de madrugada como ontem.
- É por isso que eu te amo, Olívia – ele beijou outra vez seu rosto e saltou da cadeira, saindo do salão apressado.
- Dar aula ao Marcel... – Danielle comentou vendo o amigo correr para fora do salão – Boa sorte! – e as duas riram, enquanto Olívia balançava a cabeça, se perguntando se aquilo realmente daria certo.
- Marcel! – Olívia fechou o livro com violência e o garoto olhou distraído – Você não está prestando atenção!
- Desculpa, estou sim – ele sorriu e se sentou direito no chão – Estava só copiando os horários do simulado. Estou ficando sem tempo entre as aulas, o quadribol, a rádio e nossos estudos.
- Por que mesmo você está na rádio? – Olívia ajeitou a almofada nas costas para ficar mais confortável – Você não precisa dos créditos.
- Ah, o Andy e a Frida queriam companhia, acabei topando – ele deu de ombros, mexendo no cabelo – Mas está sendo divertido, o japa fica doido quando começamos a rir nos ensaios, morre de medo de termos um acesso de riso no ar.
- Vocês não deviam judiar tanto assim do Kwon – Olívia não riu – Coitado, ele trabalhou muito ano passado pra conseguir arrumar a rádio, se esforça pra manter programas de qualidade e vocês levam tudo na brincadeira. Pode ser piada pra vocês, mas pra ele é coisa séria.
- Nossa, calma, também não é pra tanto – Marcel se espantou com a reação dela – Só nos divertimos na rádio-novela, mas não achamos que o trabalho do Kwon é bobagem. Sei que ele batalhou pela rádio durante todo o último ano.
- Bom, pois não parece. Vocês falam tudo em tom de deboche e ele sente isso, mas não fala.
- Olívia... – Marcel encarou a garota, rindo – Você gosta do japa?
Olívia abaixou a cabeça rápido demais, evitando o olhar de Marcel, e aquele gesto foi a confirmação que ele precisava. O garoto jogou o corpo pra trás rindo alto, caindo por cima dos livros. Olívia puxou a almofada em que estava apoiada e atirou nele, que desviou sem parar de rir.
- Para com isso, não tem graça – Olívia reclamou, incomodada com a risada do amigo.
- Não acredito nisso! – Marcel sentou outra vez, e controlou os risos – Ele sabe? Ah, que pergunta idiota, Marcel. É claro que não! – ele mesmo respondeu – Kwon é muito lesado pra isso.
- Ele não é lesado – ele defendeu o amigo, o que causou mais risadas de Marcel – Eu que nunca demonstrei, não teria como ele saber.
- E por que não? – Marcel parou de rir, embora o sorriso debochado continuasse estampado em seu rosto – Vocês fariam um par perfeito.
- Ah, não sei... Não acho que ele goste de mim do mesmo jeito e prefiro não estragar nossa amizade, caso tentássemos e não desse certo. Nunca voltaria a ser como antes e não quero isso.
- Prefere ficar o resto da vida sem descobrir? Que absurdo!
- Falou o romântico a moda antiga... – ela riu debochada – O que você entende sobre isso? Só vejo você trocando de namorada todo mês. Você chega a decorar o nome delas, ou não dá tempo?
- Esse sarcasmo não vai resolver seu problema. E pro seu governo, eu entendo muito mais do que pensa – Marcel disse convencido – E quanto às garotas, não são namoradas, são casos. Vou me preocupar em lembrar o nome quando encontrar a garota certa.
- Quem não te conhece, pode até acreditar nisso tudo, mas comigo não cola.
- Ah é assim? – Marcel ficou de pé, fingindo estar ofendido – Pois bem, vou ajudá-la a conquistar o Samurai, quer você queira ou não – Olívia abriu a boca pra falar, mas ele não deixou que ela interrompesse – E por hoje podemos encerrar os estudos, tenho uma novela para ajudar a colocar no ar. Sugiro que vá dormir e tenha uma boa noite de sono. Se acordar com olheiras, pode prejudicar o andamento das coisas. Kwon tem suas esquisitices, mas duvido que se sinta atraído por guaxinins.
Marcel sorriu catando a mochila do chão e jogou nas costas, saindo do salão comunal e largando Olívia sozinha, sem reação. Talvez as aulas particulares não tenham sido mesmo uma boa idéia.
Sunday, January 11, 2009
-... Posso assegurar que Bianca não vai ser a única jogadora num time de homens. Várias meninas já foram atrás dos capitães dos times de suas casas, exigindo a abertura de testes... - dizia Andreas animado.
- Então já temos a matéria de capa da edição extra do jornal certo? - perguntou a professora Molineux, durante nossa reunião de emergência, após o jogo de quadribol entre Lux e a Sapientai. Onde tivemos a surpresa de ter Bianca jogando no time do namorado.
- Sim, já temos, professora, porque isso merece não só a capa, temos planos de fazer entrevistas com o capitão, com os colegas de time, enfim com todos que apóiam o movimento e também com quem é contra. Temos de ouvir os dois lados. Isso vai ser agitado. - disse Millie empolgada.
- Você é feminista? Vai odiar os homens??- perguntou Kalani, e me olharam curiosos.
- Não sou feminista, acho que devemos apoiar uma garota num momento importante da historia, porque isso vai fazer historia...
- Concordo com a Millie. Pensem nas possibilidades...Quem sabe um dia mulheres cheguem à lua. - disse Flora.
- Há, vai sonhando. - disse Leonard e as meninas protestaram.
Ficamos conversando por mais algum tempo, até que demos a reunião do jornal encerrada e cada um iria cuidar de seus artigos. Terminei de guardar minhas coisas, e saí da redação, quando passei por um corredor eu vi Tristan beijando uma garota da Nox. Senti que uma pedra caiu no meu estomago e me senti enjoada.
Conhecia aquela garota, era o que os meninos chamavam de ‘gatinha’, mas para mim não passava de uma oferecida. Mudei meu caminho e tentei chegar ao meu salão comunal, mas acabei me perdendo e indo para mais longe. Esbarrei num garoto, e derrubei meus livros...
- Desculpe, Von Griffin...
- Tudo bem Dubois, foi um acidente não o vi.
- Você esta indo para o seu salão comunal?
- Sim, estou.
- Posso acompanhá-la? Já esta tarde e não é bom, garotas bonitas andarem sozinhas por aí à noite...
- Não estou ‘andando por aí’, saí de uma reunião do jornal, com a professora Molineaux. E você qual sua desculpa? - como ele me olhasse espantado, continuei:
- Onde foi? Com quem? Tem algum álibi? Matou alguém? Isso pode sair no jornal hein? A imprensa é implacável. - disse rapidamente e ele depois de me olhar espantado, percebeu que eu estava brincando e começou a rir.
- Isso é um “sim, aceito sua companhia, François”.- e eu depois de olhar para ele e ver que ele me olhava simpático respondi, e tentando fazer charme:
- Millie aceita sua companhia François.
Ele pegou minhas coisas e enquanto andávamos até as escadas que levavam ao salão comunal da Lux, eu pensava que se Tristan podia matar seu tempo pelos cantos do castelo, sem se importar com as outras pessoas, eu também podia, afinal as mulheres também tinham direito à diversão não?
o-o-o-o-o-o-o
- Hey Tristan, acorda. Parece que passou a noite em claro. - disse AJ, para um Tristan sonolento na mesa do café da manhã. Nossos colegas em volta riram, e eu continuei tomando minha xícara de chá, quando Tristan disse:
- Não passei a noite em claro, passei a noite sonhando...E que noite! - e ele piscou de um jeito tão cafajeste que rangi os dentes por dentro. AJ riu junto com ele, mas de repente me olhou mais sério, pareceu prestar atenção em mim:
- O que você tem Millie? Parece um pouco irritada...
- Millie deve ter levantado com o pé esquerdo da cama, AJ. Sabe como as garotas são, quando alguma coisa dá errado pela manhã, como uma meia desfiada.... - provocou Tristan, e antes que eu respondesse, ouvi alguém atrás de mim.
- Millie, nossa aula de Zoologia vai começar, podemos ir?- e tive a satisfação de ver AJ e Tristan olhando de mim para François sem fala.
- Claro, prometi que faríamos esta aula juntos. - saí do salão conversando animadamente com François, e não olhei para trás, o mais estranho era que eu realmente o achava interessante.
No final do dia, após a aula de Literatura Mágica...
- Desculpe a curiosidade, Millie, mas...Porque você está andando com o François? - perguntou AJ, enquanto Tristan se limitava a me encarar.
- Ora, porque ele é um rapaz gentil e nós descobrimos que temos coisas em comum. Até gostamos das mesmas músicas. Não vejo nada demais nisso. - respondi de forma simples.
- Mas ele é um dos amigos do Procy, até comentei isso com você... Um daqueles que andam sumindo com meu irmão, lembra? - disse AJ, como se estivesse me dando a cola numa prova importante. Olhei para ele de forma cética e perguntei:
- E?- antes que AJ respondesse, Tristan disse autoritário:
- E, que o cara é encrenca. Não sabemos o que o Procy e estes amigos dele fazem nestes sumiços, então até descobrirmos o que está acontecendo, é bom você não se envolver com este tipo de gente, você pode se machucar. - virei-me para ele e perguntei friamente:
- E o que te dá o direito de me ‘sugerir’ isso?- e meu tom parecia um tapa, Tristan recuou um pouco:
- Ora, Millie, somos seus amigos e queremos o seu bem...
- O meu bem...O meu bem???- e minha voz foi ficando mais alta:
- Calma, Millie não precisa gritar. - disse AJ espantado com minha reação. - respirei fundo e depois de olhar para eles como se eles fossem duas baratas cascudas eu disse:
- Escutem bem o que vou dizer, espero que tenham lavado suas orelhas: vocês não são meus amigos. - eles protestaram, mas eu disse:
- Calem a boca! Ainda não terminei: Vocês são dois neuróticos com mania de ‘conspiração’ e tempo de sobra. Quando você sai com alguma destas galinhas da escola Tristan, você não pergunta o que acho, até porque eu não sou boa o bastante para lhe dar opiniões sobre isso não é? Uma ‘encalhada’ não sabe o que falar sobre, ‘noites de sonhos’... - E você AJ, embora seja gentil comigo, nunca na sua vida me convidou a tomar um sorvete, ou elogiou minha roupa, que dirá me convidar para um encontro. Nenhum dos dois nunca viu que eu sou uma garota como outra qualquer, que quero alguém que goste de mim por mim mesma, que me convide para sair, e não porque eu sou ótima ajudando nos deveres ou sou a amiga que se preocupa quando vocês somem. Gosto de ser apreciada e se François sente interesse em mim, nenhum de vocês dois têm nada a ver com isso. Se não gostam da situação não posso fazer nada, sinto por vocês dois, porque isso vai continuar enquanto eu sair com François ou qualquer outro garoto, seja ele amigo do Procy ou não. E se não aceitarem, paciência. Nada dura para sempre mesmo, talvez nem nossa amizade. - sai dali pisando duro e fui para o meu quarto. Quando cheguei lá, comecei a chorar e a me perguntar:
- O que foi que eu fiz???
You love him too much,
you're too blind to see
He's only playing a game
But he's never loved you
He never will
And darling, don't you know he will never change
N.Autora: It Hurts me, Elvis Presley
Tuesday, January 06, 2009
O sábado havia finalmente chegado e depois do café, toda a escola se encaminhou para o campo de quadribol. Philipe pulou a refeição, estava sem fome, e as 9h o time se juntou a ele no vestiário.
- O estádio já está lotado – Alphonse, um dos batedores, disse ao entrar na tenda – A torcida da Sapientai está provocando a nossa com cartazes.
- Então vamos calar a boca deles em campo – Marcel falou ríspido
- É esse o espírito! – Philipe bateu no ombro do amigo – Levy, você está bem?
O garoto, um dos artilheiros do time, fez sinal positivo com a mão e sorriu, embora sua aparência indicasse o contrario. O instrutor de vôo apareceu no vestiário pedindo que ficassem preparados para o início da partida e os sete jogadores se alinharam. Quando o apito soou, montaram em suas vassouras e entraram em campo formando uma fila vermelha e prata. As arquibancadas vibravam, era a partida mais disputada. O instrutor chamou Philipe e Erik Derkier, capitão da Sapientai, e depois de passar alguns avisos, os dois apertaram as mãos. A goles foi lançada no ar e Henri Renoir, artilheiro da Sapientai, saiu na frente dos outros e a capturou.
- Renoir sai na frente e captura a goles, levando a torcida da Sapientai ao delírio – Andreas Casiraghi narrava a partida no megafone – Ele avança em direção as balizas e vai lançar. O goleiro da Lux se prepara para defender e, OUCH! Renoir é atingido por um balaço lançado por Boniface e Philipe Perrineau tem a posse da goles! – agora era a torcida da Lux que gritava empolgada – Ele avança em direção ao outro lado do campo e olhem como ele voa rápido! O goleiro da Sapientai parece perdido com a velocidade da vassoura de Perrineau! Ele vai lançar e... ELE MARCA! Gol da Lux, 10 x 0!
A torcida se agitou na arquibancada e o lado azul e amarelo vaiou quando Philipe voou perto deles, socando o ar. Edmond Lestel capturou a goles quando a partida recomeçou e em uma jogada rápida com Enrico Beltoise, empatou a partida para a Sapientai. A partida seguiu equilibrada por mais de meia hora e não havia sinal do pomo. Levy Castel voava com a goles na mão para colocar a Lux na frente do placar quando um balaço violento de Alain DeVille o pegou no meio do caminho. A goles escapou de sua mão e Levy perdeu o equilíbrio, caindo da vassoura. O instrutor de vôo conseguiu desacelerar a queda, mas Levy ainda se chocou com o chão e desmaiou. A partida foi interrompida e o garoto deixou o campo flutuando em uma maca.
- E agora? – Kwon atirou a vassoura no chão, irritado, quando o time entrou no vestiário – Como vamos continuar o jogo? Não podemos jogar com um a menos, ele vai dar a vitória a Sapientai.
- De jeito nenhum! – Marcel também estava nervoso – Não vou permitir isso, não suporto mais aquele sorrisinho besta na cara do namorado da Dani e se eles vencerem, vou quebrar a cara dele e daquele idiota do Beltoise!
- Você não vai quebrar a cara de ninguém, sossega, Marcel – Philipe entrou no vestiário por ultimo, descansando a vassoura no banco – Esperem por mim aqui, eu já volto. Já sei o que fazer.
Philipe deixou o vestiário as pressas, subindo as escadas que levavam as arquibancadas onde estava a torcida da Lux. Encontrou quem procurava roendo as unhas de preocupação enquanto procurava sinais dos jogadores da Lux na porta dos vestiários.
- Venha comigo – Philipe agarrou a mão de Bianca e a assustou – Agora.
A garota olhou assustada para o namorado, mas levantou sem questionar e o seguiu escada abaixo, até entrarem no vestiário da Lux. Os outros se espantaram ao ver a garota entrar, mas Marcel logo sorriu. Havia entendido.
- Speaker, dê um uniforme a Bia, ela vai jogar no lugar do Levy – Philipe ordenou e Bianca arregalou os olhos
- Como é? – a garota se espantou – Não posso jogar, Phil! É contra as regras!
- Não me importo com as regras – respondeu espantando a todos – Se você não jogar, vamos perder a partida. Não temos nada a perder, então vista o uniforme e pegue a vassoura que ganhou do Johnny, hoje você faz parte do time.
Bianca ainda estava surpresa, mas não pode evitar abrir um enorme sorriso ao pegar o uniforme vermelho e prata das mãos de Thomas Speaker. Os garotos saíram do vestiário para que ela pudesse se trocar e em menos de cinco minutos, Bianca saiu usando as vestes do time. Seus olhos brilhavam ao se ver usando as vestes que seu pai e seus dois irmãos mais velhos usaram, especialmente Johnny, seu maior ídolo. Kwon sorriu para a amiga e lhe entregou a vassoura nova.
- Vamos voltar ao campo! – Philipe beijou a namorada sorrindo e montou em sua vassoura, liderando a fila.
A torcida da Lux toda se levantou gritando quando viu o time voltar a campo, sob as vaias da torcida adversária. Quando reconheceram Bianca entre os jogadores, muitos começaram a sussurrar. O instrutor de vôo olhou espantado, mas permitiu que ela jogasse.
- E a goles é novamente lançada e Bianca Delacroix sai na frente! – Andreas narrava empolgado – É uma novidade no time da Lux, uma garoto jogando. E não é qualquer garota. Bianca é irmã do grande astro do Quiberon Quafflepunchers, Johnny Latour! E parece que o quadribol está no sangue, pois ela avança com tudo em direção as balizas da Sapientai e... ELA MARCA! GOL DA LUX! Que braço, senhoras e senhores. Ela lançou quase do meio do campo!
Bianca socou o ar em comemoração e suas amigas da arquibancada vibraram com a mesma empolgação. Surpreendidos pela força que a garota tinha, os jogadores da Sapientai se desconcentraram e a Lux se aproveitou disso para reagir. Philipe e Kwon voavam em sintonia, deixando todos os passes para serem finalizados por Bianca, que por sua vez, não desperdiçou nenhum sequer e marcou 14 gols seguidos. A Lux já liderava por uma boa vantagem quando o pomo finalmente apareceu. T. J. Speaker e Erik Derkier voavam emparelhados, mas o apanhador da Lux tinha a vantagem de ser mais alto e alcançou o pomo primeiro. Ele desceu ao encontro dos companheiros de time com a bolinha dourada presa entre os dedos e a torcida pulava enlouquecida.
- O pomo do jogo é seu – Speaker estendeu o pomo de ouro a Bianca, que o segurou radiante.
Philipe observava a namorada sorrindo ao seu lado, segurando o pomo, e teve certeza que fez a escolha certa. Tinha certeza que enfrentaria problemas por tê-la escalado para o jogo, mas estava determinado a lutar ate o fim para mantê-la no time. E com o gesto de Thomas, agora sabia que teria o apoio do resto do time nessa luta.
Saturday, January 03, 2009
A Profecia
Há séculos lutam.
Há séculos caçam.
Há séculos destroem as trevas, sendo a luz na escuridão.
Avatares de seu Antepassado, alguns mais poderosos que os demais, os Chroni.
Dos Chroni surgirá o poder. Dos Chroni surgirá o exército.
De um deles, surgirão seres poderosos, nem vivos, nem mortos, mas poderosos.
Usarão as trevas como arma, usando-a para a guerra.
Mais poderosos que humanos, mais temidos que vampiros.
De um deles, surgirá a luz plena e pura, terna e destruidora.
Como o Sol, queimará os malignos, deixando apenas suas cinzas.
E o mal sucumbirá ao seu poder.
E o mundo não será o mesmo após sua chegada.
Pois eles são os Chronos.
- Mestre, conseguimos a profecia que o senhor ordenou.
- A Profecia dos Chronos?
- Sim, milorde. O vampiro Hellion a conseguiu, imaginamos que a profecia diz respeito a qualquer vampiro e também às trevas em geral.
- Ah, Hellion, um aliado muito útil. Finalmente posso ver o conteúdo dessa profecia. Quem mais a conhece?
- A líder da família Chronos, Rigel, conhece a profecia, mas apenas ela.
- Aquela mulher, ousa tentar lutar contra mim, o Lorde das Trevas! Ela sucumbirá ao meu poder e pagará pelos meus servos que prendeu e matou.
- Ela já está dando início a criação de uma poderosa instituição antitrevas, milorde. Ela fala contra as trevas, dizendo que devem eliminar os Comensais. E alguns já a seguem, os Ministérios da Inglaterra, França, Alemanha, e em breve, de toda a Europa, dão a ela seu apoio.
- Ela deverá ser silenciada, o mais rápido possível! Não permitirei que uma mulher destrua o meu poder, coloque em risco o mundo que pretendo criar.Não. Não só ela, todos os Chronos devem ser eliminados. Mas não devemos atacar diretamente, isso faria o mundo bruxo se virar contra nós. Precisamos de alguém que pague por nós. Chame os aspirantes a Comensais, já me decidi pelo que fazer.
O Lorde das Trevas riu, já preparando todos os detalhes de sua ação. Seja lá qual for a arma que surgiria dos Chronos, ele impediria. Os Chronos não iriam sobreviver por mais um ano sequer. Era chegado o fim deles.
Eu acordei no meio da noite, suando frio.
Eu não tenho dons de premonição, mas tenho certeza que sonhei com algo, era um sonho perigoso, maligno e destrutivo e no momento em que acordei, um calafrio tomou o meu corpo, e meus instintos me diziam: cuidado! Porém por mais que tentasse, não conseguia me lembrar do sonho, só sabia que devia ter medo, pois algo muito ruim estava para acontecer. Era algo inexplicável, como quando meus cães de caça, que antes do relâmpago, levantam a cabeça, reconhecendo o perigo à frente. Era assim que eu me sentia, o perigo estava a caminho.
- O que foi, AJ? Ta tudo bem? – Tristan falou sonolento, acordando com um susto que eu levei. Mesmo sonolento, ele sacou a varinha e olhou ao redor, preocupado.
- Foi um sonho. Estou com um péssimo pressentimento. – Eu falei enquanto apertava meus olhos, tentando lembrar.
- Como era o sonho?
- Ai que está, eu não consigo lembrar...Mas era algo ruim.
- Devia ser apenas um pesadelo, vamos voltar a dormir?
Ele já deitava novamente em sua cama, esquecendo do susto que eu levei. Dormíamos no meu quarto, pois era véspera de Natal e eu convidei o Tristan para passar o Natal conosco, e ele ficou muito feliz em aceitar, podendo fugir do orfanato e finalmente visitar a casa dos Chronos. Meus pais adoraram a idéia, pois também tinham vontade de conhecer o famoso TnT, de tanto que eu falava de nossa amizade, e principalmente de tanto que eles já receberam corujas do diretor falando de nossas detenções. Isa também gostou do convite e passava o dia conosco conversando ou me ajudando a ensinar a Tristan as artes da caça, e ele se dava muito bem, principalmente com a falcoaria. O único que não gostava do convite era o Procyon, mas ele não gostava de nada.
Na verdade, o Procyon tem andado estranho. Ele tem evitado falar conosco mais do que o necessário e evita a qualquer custo o olhar de meus pais. Ele está estranho assim desde o dia em que, em Beuaxbatons ainda, eu o encontrei conversando aos sussurros com outro aluno da Nox nos jardins. Eles pareciam nervosos e excitados ao mesmo tempo, mas com uma excitação mórbida, que fez meus instintos ficarem prontos para o ataque. Assim que eles me viram, eles mudaram de assunto e saíram dos jardins, mas pude ver que ainda sussurravam algo. Desde então eu o via andando com cada vez mais garotos e algumas garotas estranhas, de diversas casas, sempre sussurrando, e passaram a ficar meio metidos, como se soubessem de algo que nós não, como se fossem melhores ou superiores.
Durante o feriado de Natal, ele saia todos os dias e passava o dia todo fora, voltando apenas no final da tarde, parecendo cansado, apenas para jantar rapidamente e se trancar em seu quarto. Eu falei sobre isso com meus pais e com minha irmã, mas acharam que eu devia estar imaginando coisas, e que era bom o Procyon ter achado algo que gostasse de fazer. Tristan era o único que concordava comigo, e também achava que Procyon estava mais estranho que o normal e disse que me ajudaria a descobrir o que era.
Em um desses dias, eu e TnT decidimos segui-lo, e fomos até Londres, porém o perdemos de vista no Beco Diagonal, mas eu podia jurar que ele havia tomado a direção da Travessa do Tranco. Infelizmente, Millie não concordava comigo e dizia que eu e TnT já estávamos indo longe demais com a implicância com meu irmão mais velho. Eu adormeci pensando nesses fatos todos e acabei sonhando com Millie, porém não me lembro exatamente, pois logo em seguida o sonho mudou para um sonho de nós três juntos andando pelos jardins de Beauxbatons.
Na manhã de Natal, acordei animado, mais ainda sentia um frio no peito pelo pesadelo da noite anterior, mas esse frio logo desapareceu quando vi os presentes ao pé de minha cama, e acordei Tristan alegre, mostrando que ele também tinha uma pilha enorme. Ele parecia não acreditar e peguei o primeiro pacote que eu encontrei e taquei para ele, ele abriu um largo sorriso bobo, pois era um presente de minha irmã, Isa. O TnT acha minha irmã linda, mas não sei se por respeito a mim ou porque ela é mais velha ele evita tocar no assunto. Ele abriu o presente animado e ganhou uma lanterna mágica, encantada para emitir um raio de luz que era invisível para todos que não fosse o dono da lanterna e quem ele permitisse. Eu abri o presente de Isa também, e ganhei uma lanterna idêntica, e nós dois rimos com o recado dela: “Agora vocês podem andar pela escola à noite sem chamar a atenção”.
- Abra esse agora! – Eu falei animado, entregando o meu presente.
- AJ! Você não precisava!
- Deixa de bobeira, TnT, abre logo! – Ele abriu o presente animado e olhou surpreso para uma luva de falcoaria, que incluía uma venda para falcões.
- Uau! Isso é lindo cara! Vou usar na escola, imagina a cara das pessoas quando me verem com uma luva dessas! E vou amarrar essa venda em minha mochila.
- Acho que não vai precisar. – Eu sorri e ele ficou sem entender. Peguei então o maior embrulho e ele notou que haviam diversos furos.
- O que tem ai dentro?
- É dos meus pais, abra!
Ele retirou a fita vermelha que prendia a caixa e a caixa caiu no chão, aberta. E então ele realmente pulou de surpresa. Porque diante dele um falcão o encarava, os olhos poderosos e brilhantes fixos nos olhos de TnT. Ele ficou completamente sem fala, apenas encarando o pássaro, até este piar alto e ele saltar.
- Eu não posso acreditar! E não posso aceitar isso, Alderan!!
- Foi idéia do meu pai, ele viu que você se interessava pela falcoaria, então meus pais decidiram lhe dar um dos falcões da ninhada de Cronos. É uma fêmea de falcão, e agora ela é sua!!
- Você só pode ta brincando comigo não pode?! – Ele falou com a emoção nos olhos e tentou esconde-la.
- Não, não estou. E se o problema é onde deixa-la, ela pode ficar aqui e sempre que quiser visitá-la, esteja à vontade! Vamos pegue-a!
Ele me abraçou com força e tremendo de emoção esticou a mão com a luva que acabara de ganhar. O falcão piou para ele, porém dessa vez de forma mais carinhosa e subiu em sua mão, olhando-o com curiosidade.
- Viu? Falcões são bichos inteligentes, eles reconhecem o dono deles, e são fiéis. Ela já vê você como parceiro e estará sempre ao seu lado. Ela precisa de um nome!
- AJ, vocês realizaram um sonho meu sabia? Ela vai se chamar Athena.
- Belo nome! Vamos, onde está meu presente? – Falei rindo e ele também riu, fazendo Athena se assustar um pouco, mas logo ela se acostumou a sua risada. Ele pegou um pacote no pé de minha cama e me estendeu.
- Perto disso, o meu não é nada. – Ele falou enquanto eu abria o pacote, e foi minha vez de ficar surpreso, porque dentro havia um amuleto em forma de lobo feito de prata e uma lata que quando vi o que era comecei a rir. – Eu achei esse pingente dia desses em uma loja de Paris e achei a sua cara. E a lata é tintura mágica quando quiser pintar esse cabelo esquisito seu. É só uma lembrança. – Ele falou rindo enquanto bagunçava meu cabelo.
- Eu adorei o presente, Tristan, adorei mesmo. E pode deixar que um dia eu uso isso pra pintar o cabelo! Que cor é?
- Rosa! Olha é um recado da Millie, ela diz que vem nos visitar na hora do almoço, ela aceitou seu convite!! – Ele falou pegando uma carta da Millie que estava no topo de seus presentes.
- Que ótimo! Então vamos estar os três reunidos no Natal!
- AJ, me conta uma coisa? Você é gamado na Millie não é?
- Ei TnT! Dá pra parar com a bobeira? Não, não sou não! – Respondi, ficando vermelho.
- Ta bem, vou fingir que acredito.
- Vamos descer para o café, e temos que avisar que teremos visitas. – Desconversei já indo para o primeiro andar, sendo seguido por um risonho Tristan e uma silenciosa Athena.
O café da manhã foi ótimo, e até Procyon parecia de bom humor, conversando mais amigavelmente. Tristan agradeceu o presente de todos e disse que ficou emocionado com o presente de meus pais, que sorriram e disseram que ele merecia. Quando falei para mamãe que teríamos visitas, ela sorriu e ficou alegre.
- Ah, que ótimo! Então o almoço será bem cheio essa tarde! – Toda a família almoçava junto no dia do Natal e conseguíamos chegar facilmente a cem pessoas.
- Sim, a Millie Von Griffin, vai vir nos visitar e passar o dia conosco, ela disse que passará a tarde aqui. Imagino que sua irmã e seu genro também venham.
- E vamos ter outros convidados. Os Oceanborn virão nos visitar e almoçarão conosco também. – Os Oceanborn eram nossos vizinhos, e sua filha mais velha, Alice Oceanborn, estudava comigo em Beauxbatons e tinha a mesma idade que eu. Raramente conversávamos, pois ela era da Sapientai, e quase não nos víamos.
- Uau, realmente o almoço vai ser lotado... – Tristan comentou. – Sra. Chronos, por acaso é outra pretendente para o Alderan? – Ele perguntou com um sorriso maroto.
- Tristan eu vou fazer você engolir essa luva!
- Bem, quem sabe, não? – Papai respondeu rindo, me dirigindo um olhar alegre, deixando-me extremamente vermelho.
Passamos o resto da manhã preparando a imensa mesa para o almoço, e como toda a família estava reunida, era uma barulheira só e todos nos divertíamos juntos. Tristan adorava minha família, e algumas vezes eu sentia como se ele fosse mais meu irmão que o Procyon. No final da manhã, os Oceanborn chegaram e sua filha Alice estava de cabelo curto e tenho que admitir que estava bonita. Ela nos cumprimentou alegre e pisei no pé do Tristan quando ele cutucou meu braço. Logo em seguida Millie chegou acompanhada de seu genro, que foi saudado com um grande abraço de meu pai. Eu e Tristan corremos para nossa amiga e consegui ser o primeiro a abraça-la, tirando-a do chão, e derrubando os presentes. Ela riu e brigou comigo, mas retribuiu o abraço e depois abraçou com força Tristan. Ela nos deu nossos presentes e depois foi cumprimentar minha mãe, dizendo estar feliz em conhece-la. Enquanto elas conversavam, mamãe trocou um olhar com Tristan e os dois sorriram, e novamente eu pisei em seu pé.
Eu, Alice, Millie e Tristan nos sentamos próximos na mesa e conversávamos animadamente sobre a escola. Depois de algum tempo, eu lembrei que queria mostrar para Millie minha Cronos e Tristan ficou todo animado em mostrar Athena e nós quatro nos levantamos, indo para os fundos da casa para visitar o criadouro de animais. Eu e Alice ficamos um pouco atrás, propositalmente, e conversei muito com ela, e descobri que ela era uma boa pessoa, além de inteligente, forte e bonita. Ela chamou minha atenção. Quando chegamos nos criadouros, Tristan tentava fazer uma hesitante Millie calçar as luvas de falcoaria e pegar Athena. Eu me animei e emprestei minhas luvas a ela, ajudando-a a colocar e peguei Cronos sem luvas, colocando-a na mão de Millie. Depois peguei Athena também sem luvas e coloquei nas mãos de Alice. As duas ficaram maravilhadas com as aves e depois ficamos o resto da tarde brincando com os nossos cães de caça, que adoraram as novas presenças, pedindo e ganhando carinho. Esse dia ficaria marcado em minha memória, pois era um de meus mais felizes...E algo me dizia para aproveitar...Mas um sorriso de Millie e o som da voz de Alice me fizeram esquecer esses pensamentos obscuros.