Wednesday, September 30, 2009

Prelúdios de um sonho - Parte II - Caçadas

- O que é aquilo? – Eu falei com asco, enquanto encarava um ser putrefato e imenso que urrava para a noite. Ele parecia feito de vários corpos, com três braços, um rosto desfigurado e cheio de dentes, olhos costurados e malignos. Seu corpo era imenso e de cor cinza, cheio de costuras e pedaços de corpos diferentes. Em certos trechos não havia carne cobrindo seu corpo, e os ossos e tripas ficavam à mostra, assim como alguns órgãos internos, de forma que eu era capaz de ver parte de seu intestino grosso. Eu não conseguia entender como ele andava e mantinha-se inteiro. Apesar da distância que estávamos, eu podia sentir o cheiro que saia de seu corpo, e era extremamente nojento, misturando cheiro de podridão com carne estragada. Aquilo era uma abominação.
- É um Legion. Legions são criaturas formados por pura magia negra. Ele é uma mistura de dezenas, pelo tamanho talvez centenas, de Inferi. – Mamãe falou, enquanto mantinha a varinha com força em sua mão. A criatura ainda não havia nos notado, pois escolhemos um lugar onde o vento estava a nosso favor, para que nosso cheiro não chegasse até ele. Estávamos em pé no muro do cemitério, olhando-o de longe. Havíamos chegado até ali seguindo os relatórios do Ministro Alemão. Ao chegar perto da divisa com a Áustria, ouvimos notícias de arrombamento de túmulos, com o posterior sumiço dos corpos, além de rumores de uma criatura maligna e estranha que matara pelo menos dois camponeses.
- Quem teria coragem de fazer algo assim com pessoas mortas? – Eu falei chocado, enquanto pensava que os corpos de centenas de pessoas formaram aquele monstro. Fiquei enjoado quando a criatura abriu um tumulo com um único golpe de mão e pegou um corpo, começando a mastiga-lo. Era uma cena asquerosa, pois seus dentes comiam a carne morta com rapidez, espalhando pedaços de carne e órgãos pelo chão, enquanto ele emitia um horrível som de osso esmagado.
- Bruxos das trevas, da pior espécie, Necromancers. Devemos tomar cuidado filho, um Legion é muito mais forte e inteligente que um Inferi comum. E o mais importante, deve haver algum Necromancer nessa região, é raro um Legion se formar sozinho. Precisaremos investigar melhor o lugar. – Mamãe falou, me fazendo ter certeza de que algum bruxo maligno estava na região.
- Concordo, precisamos achar o responsável por isso e saber porque criou um monstro como este. – Falei enquanto mantinha a varinha segura. Nesse momento senti o vento mudar e imediatamente fiquei mais alerta. - Ele ainda sente medo de fogo? – Perguntei, enquanto apontava a varinha para o monstro, que sentiu o nosso cheiro de carne fresca com a mudança da direção do vento, olhando em nossa direção com o corpo ainda entre os dentes, rosnando com ferocidade.
- Sim, mas seus instintos também são mais fortes. Ele pulará no fogo para comer nossa carne, então não conte somente com o fogo. Vamos acabar com ele juntos.
A criatura urrou para nós e correu na nossa direção. Para meu espanto ele era mais rápido do que eu imaginava e destruía lápides enquanto corria. Eu e mamãe saltamos de lado em direções opostos e começamos a lançar feitiços. Um de seus braços parecia feito de algum material diferente de apenas carne humana, pois ele o usava como escudo e os feitiços não faziam efeito. Porém, mamãe conseguiu atingir um poderoso feitiço de chamas na lateral da sua cabeça, arrancando um urro de dor do monstro, que cambaleou e apoiou-se em um dos túmulos. Eu aproveitei para lançar feitiços em suas costas, causando explosões vermelhas, fazendo-o urrar também. Ele gritou para mim e agarrou uma das lápides, jogando-a contra mim. Eu apontei minha varinha para ela e a destruí no ar, notando que aquilo fora apenas uma distração e ele já estava muito próximo de mim, socando o ar com seu braço poderoso. O soco me atingiu, seu punho acertando toda a área da minha barriga e do meu peito, jogando-me com violência contra um jazido, me fazendo cuspir sangue e levantar com dificuldade, atraindo ainda mais o monstro.
Mamãe conseguiu faze-lo afastar-se de mim ao conjurar uma gigantesca bola de fogo e lançando-a contra ele, me dando tempo de escapar de seu alcance, enquanto ele se debatia. Eu e mamãe, os olhos agora brilhando em prateado, lançamos poderosas e longas labaredas contra o monstro, queimando-o com raiva. Ele urrou de dor e debatia-se, atingindo os túmulos, tentando em vão apagar o fogo. Ele, porém, realmente era inteligente, e usando seus três braços jogou uma enorme quantidade de terra para o alto e sobre seu corpo, criando uma espessa nuvem escura.
Eu e mamãe tossíamos, e tínhamos dificuldade de enxergar, por isso guiávamo-nos pela audição e pelo olfato, porém nada sentíamos. A nuvem baixou rapidamente e pudemos olhar em volta e para o nosso espanto, não havia sinal dele.
- Droga, ele escapou! – Falei, enquanto apontava em todas as direções.
- Vamos continuar procurando-o. - Mamãe falou, fazendo sua varinha brilhar intensamente, criando um forte clarão.
- Não, ele ainda está por aqui, posso sentir. – Eu falei, aguçando ainda mais meus sentidos. Eu sentia algo se movimentando, mas não sabia onde.
- Cuidado! – Mamãe gritou.
Então notei com terror. Dois dos braços do Legion surgiram da terra, agarrando-me e puxando-me para baixo com força. Eu fiquei preso por seus braços e semi-enterrado pela terra fofa do cemitério, enquanto seu terceiro braço apertava minha garganta, tentando me matar. Um grito de dor ficou sufocado em minha garganta, enquanto a falta de oxigênio dificultava meu raciocínio e meus reflexos. Mamãe correu em me ajudar e com um forte floreio da varinha fez a terra sob mim desaparecer, revelando o monstro semi-enterrado. Ele grunhiu para mamãe e eu consegui reunir um pouco de força, chutando seu rosto desfigurado. Mamãe pulou no ombro do monstro, enquanto eu mantinha seus braços ocupados, e apontou a varinha entre os olhos do monstro, disparando um feitiço vermelho a queima-roupa.
O Legion sequer soltou algum tipo de grito de dor e no instante seguinte seus braços penderam sem forças, enquanto ele morria. Eu consegui me desvencilhar e massageava o pescoço, onde havia um hematoma em forma de mãos grotescas. Mamãe me ajudou a me levantar, apontando a varinha para meu pescoço e curando meu machucado. Nós respiramos com dificuldade, enquanto saíamos do buraco onde o Legion estava enterrado. Nos viramos para apontar a varinha para ele e queima-lo de vez, quando para nossa surpresa e horror, ele pulou urrando de raiva contra nós, ainda vivo. Ele acertou um forte soco em mamãe, jogando-a longe e virava-se para me morder, porém fui mais rápido que ele.
Meus olhos brilhavam em um forte tom de prata e enfiei minha varinha no meio de seu intestino, causando uma explosão dentro dele. A explosão foi tamanha que senti todo o seu corpo tremer. Em seguida eu lancei um feitiço incendiário no mesmo lugar e ouvi o monstro gritando de dor. Ele começou a debater-se e em seu desespero me acertou com um dos braços, jogando-me longe. Mamãe já estava de volta e me aparou no ar com a varinha. Nós dois apontamos nossas varinhas para ele, e, ela com os olhos em prateado também, lançamos uma imensa chama vermelha apontando no intestino do monstro. Ele queimou de dentro para fora, pedaços de seu corpo soltando-se enquanto a energia que os mantinham unidos era destruída, exalando um cheiro ainda mais forte de podridão, enquanto o Legion caia ao chão completamente destruído, uma imensa chama negra subindo para o ar, enquanto um odioso som de carne fritando era ouvido.
Nós respirávamos com dificuldade, e mamãe me ajudava a me manter em pé, enquanto curava nossos ferimentos. O Legion ainda queimava em uma chama negra, e podíamos ouvir o som asqueroso que fazia. Definitivamente haveria um Necromancer na região e precisávamos acha-lo.

Na noite seguinte, eu e mamãe seguimos novas pistas. Aldeões nos falaram que viram um homem suspeito andando na noite anterior perto de outro cemitério e na mesma noite, podiam jurar que viram corpos saindo de dentro do cemitério. Só poderia ser um Necromancer, conseguindo novos servos. Porém, não conseguimos maiores informações, principalmente sobre Procyon, mas decidimos investigar.
Nós não falávamos uma palavra e devido a nosso treinamento, emitíamos pouquíssimos sons ao andarmos pelo campo. Usamos a Linguagem de Batalha dos Chronos, que consistia em assovios rápidos e gestos de mãos. Essa precaução era porque havíamos encontrado um grupo de Inferi, além de uns seres estranhos que lembravam fantasmas, mas eram mais nítidos.
- São Banshees, almas retiradas de humanos vivos. Eles devem estar funcionando como vigias, e aqueles Inferi devem estar patrulhando a área. Devemos estar perto do local onde o Necromancer está. – Mamãe falou em minha mente, usando a Leglimência. Com dificuldade eu respondi, pois era pouco hábil nesse tipo de conversa.
- Vamos com cuidado então, elas podem alertar o Necromancer. Eu sinto algo mais no ar.
- Eu também. Há mais seres malignos aqui. Sente os Dementadores?
- Sinto, eles estão perto. E eu estou sentindo uma presença estranha, não sei definir se está morta ou viva.
- Grave bem essa sensação filho, é um vampiro. São as criaturas mais perigosas e letais que você irá enfrentar.
- Isso é um vampiro? – Falei assustado, sentindo a aura maligna e sedenta de sangue.
- Sim. A sede de sangue deles é quase palpável. Vamos com cuidado a partir de agora.
- Está bem, eu vou na frente.
Mamãe concordou com a cabeça, pois ela sabia que ela era melhor para proteger nossa retaguarda. Nós andávamos lentamente, misturando-se a noite, mas com todo cuidado, pois sabíamos que aqueles seres tinham sentidos mais aguçados que os nossos.
O local onde estávamos era muito afastado de qualquer cidade ou vila, e os aldeões não iam ali com freqüência, pois temiam haver algo de maligno ali, e comprovávamos esse medo. Era perto de uma montanha e podíamos ver que ela possuía uma entrada para uma caverna e os Inferi e Banshees se concentravam ali. Eram em torno de vinte banshees e pelo menos 20 Inferi, sendo que mais próximo da entrada da caverna, podíamos ver ao menos 15 dementadores. Aquele local era o covil do Necromancer com toda certeza, pois de que outra forma haveriam tantos servos no local?
Estávamos a algumas centenas de metros, quando todos os seres pararam e abriram caminho, e ouvimos vozes exaltadas vindo de dentro da caverna. Nós paramos imediatamente, escondendo-nos nas sombras. Eu podia ouvir três vozes distintas, duas delas masculinas e uma feminina, sendo a feminina extremamente fria. E eu reconhecia uma das vozes.
- Melegrant, O Lord das Trevas está irritado! Você está demorando demais para construir o exército que ele ordenou! – Alguém falou, friamente, mas com força na voz, e eu tive que me segurar enquanto cerrava os punhos. Meus olhos ficaram prateados no mesmo instante, mas mamãe segurou minha mão, fazendo que não com a cabeça. “Não use Leglimência, um vampiro irá lê-la de uma distância tão curta”, eu ouvi o eco de sua voz, lembrando-me do que ela falara mais cedo. Porém, seus olhos também estavam prateados, pulsando de raiva daquele traidor. Era Procyon.

Continua....

Sunday, September 27, 2009

Prelúdios de um sonho - Parte I - Fortalezas

- Vamos AJ, deixa de ser bobo e vem tirar a foto!
- Eu não estou sendo bobo, só que viu como estou sujo?
- Olha, parece uma garota falando!
- Não enche!
- Reúnam-se todos, vou tirar uma foto só de vocês então. – Kyle falou, segurando a câmera e gesticulando para que eu e meus amigos nos reuníssemos todos juntos. Quando todos conseguiram parar de empurrar para aparecer mais na foto, a luz da câmera brilhou, cegando-nos momentaneamente. Eu e Alice tiramos a foto abraçados, pois havíamos oficializado nosso namoro, enquanto Tristan e Millie também estavam abraçados.
- Eles precisam de uma foto com os professores! – Mamãe falou, tirando a câmera das mãos de Kyle, empurrando-o para junto de nós, assim como Connor e Sarah, que se juntaram a nós. Ela bateu novas fotos, em que nos abraçávamos, assim como nossos professores.
- A senhora também, Sra. Chronos.
- Vem, mãe, você pode encantar a câmera! – Eu falei, enquanto puxava minha mãe.

Mamãe riu fazendo a câmera levitar acima do chão e ficando junto de todos. Ela começou a tirar dezenas de fotos seguidas, e em algumas eu abraçava mamãe, em outras Tristan, em outra ganhava um beijo de Alice e Millie. Em outra, Marcel, Kwon, Andréas, eu e Tristan nos jogávamos uns sobre os outros, empurrando-nos com gargalhadas, enquanto as meninas olhavam chocadas.
Eu estava feliz... Os primeiro dias após aquela Traição foram como tortura para mim... Eu desejei por muito tempo ter ido no lugar dela, ter empurrado-a de lado e recebido a maldição da morte. Mas depois que achei seu diário, eu tive certeza que nada poderia fazer... O Diário de Gomeisa me deu novo ânimo e energia, e comecei a enxergar alguma esperança. Meu ânimo aumentou ainda mais com a chegada dos meus amigos, no segundo dia após a conversa com mamãe sobre o futuro do clã.
Alice, Millie, Tristan, Andréas, Penélope, Kwon, Marcel, Anabela e Bianca foram para minha casa me visitar e apoiar e passaram um dia inteiro apenas me fazendo rir e me divertir, querendo que eu esquecesse que tudo havia acontecido. Por mais incrível que parecesse, eles conseguiram, e sei que se não fosse por eles, eu não teria conseguido... Depois começamos a ter as aulas de defesa avançada com os Mcgregrose com a Senhorita McInners, e eventualmente mamãe. Mamãe organizava nossa viagem ao redor do mundo, que ocorreria na semana seguinte. Ela pretendia me mostrar o máximo do mundo possível, além de me apresentar a seus aliados e políticos poderosos, como Ministros de vários países. Eu não via a hora da viagem, para poder estar próximo de mamãe, além de começar a concretizar o sonho de todos nós...
As aulas avançadas eram puxadas, pois deveríamos aprender em uma semana, o que aurores na Academia levavam ao menos um semestre. A maioria das garotas esforçava-se para acompanhar o ritmo dos demais, mas os garotos encaravam como diversão e adoravam a parte prática das aulas, duelando entre si com alegria e energia. Muitas vezes Connor ou Sarah tiveram que intervir, pois começávamos a brincar demais. As garotas também se esforçavam, empolgadas com as aulas, mas elas tinham dificuldade nas partes práticas, preferindo a teoria.
Aprendemos feitiços de defesa avançada, aprendemos a conjurar barreiras e escudos, a identificar seres das trevas e como combate-los, todos muito interessados e empenhados. Ao final da primeira semana, todos haviam feito progressos incríveis, e era uma felicidade para todos ver o quanto tinham avançado e aprendido em tão pouco tempo. Daríamos uma pausa nas aulas particulares até a volta à Beauxbatons, pois viajaria sozinho com mamãe. Durante as aulas, nossa turma de Defesa Avançada continuaria, sendo ministrada principalmente por mamãe e no próprio castelo, para que não perdêssemos nosso preparo e aprendizado. Philipe, Noah e Derik participariam de tais aulas, pois tiveram compromissos e não puderem comparecer às aulas das férias.
Na noite antes da data marcada para o começo da viagem, meus amigos realizaram uma festa de despedida surpresa para mim, e comemoramos o aprendizado e principalmente, nossa amizade, que estava cada vez mais intensa. Marcel e Andréas me mantiveram ocupado no quarto, conversando sobre as últimas partidas de Quadribo, enquanto os demais preparavam a surpresa. Por volta das 7 da noite, Tristan e Kwon foram nos procurar e falaram que o jantar estava servido, e descemos juntos.
Assim que cheguei perto do salão de jantar, achei estranho ele estar com as luzes apagas e entrei com a varinha em punho. Nesse momento, Connor me desarmou, enquanto os outros explodiam fagulhas com a varinha, dando-me um enorme susto. Todos caíram na gargalhada e os garotos, para terminar, me pegaram no colo e me jogaram numa bacia cheia de cerveja-amanteigada, me deixando ensopado.
- Nos ganhamos! Vocês nos devem 1 Galeão, cada um! – Tristan e Andreas falaram para Marcel e Kwon.
- O que é isso?! – Perguntei, tentando sair da bacia.
- Seu castigo. Se você entrasse com varinha em punho, seria jogado ai. – Penélope falou, rindo.
- E se entrasse sem varinha, também seria jogado aí. – Anabela falou, rindo também.
- Ah, que ótimo e como eu não seria jogado?
- De jeito algum, oras? – Bianca falou, enquanto tirava fotos de mim, junto de Alice e Millie.
- Ah ta, era só pra me molhar mesmo? – Falei rindo, quando Kyle me ajudou a levantar.
- Exatamente. – Connor falou, e logo em seguida me derrubou novamente. Eu levantei rindo e comecei a jogar cerveja-amanteigada em todos, fazendo as garotas gritarem e os garotos entrarem na festa.
Depois que fizemos uma guerra de cerveja-amanteigada, nos limpamos com a varinha e continuamos a nos divertir e comer, passando a noite toda inteira assim. Só por volta da meia noite que eles começaram a ir para suas casas, em chaves de portais conjuradas pelos aurores ou por mamãe. Millie e Kyle foram os últimos a sair, desejando-me sorte na viagem. Ela despediu-se com um beijo em Trisnta, pois ele passaria a noite conosco, assim como Alice. Eu, Alice, mamãe e Tristan terminamos de arrumar a bagunça, e depois elas foram dormir, deixando eu e Tristan conversando mais um pouco.
- Queria que você fosse conosco, Tristan, seria divertido ter você com a gente nessa viagem.
- Eu também gostaria de ir, AJ, mas sei que é uma viagem em família.
- Aqui que está, Tristan, eu te considero como minha família. Você é um irmão pra mim.
- Obrigado, AJ, te considero como um irmão que nunca tive, e você e Millie são minha única família.
- Você sempre será meu melhor amigo, TnT, e te considero muito mais meu irmão do que...Aquele maldito traidor. – Eu falei, e não pude conter a raiva, socando a parede. Tristan, riu, mas me falou para me acalmar.
- Você precisa se acalmar. Tenho certeza que ele vai pagar por tudo que fez. E vou te ajudar no que for preciso
- Muito obrigado, a sua ajuda será muito importante pra mim. – Eu falei, sorrindo. Ficamos olhando as estrelas mais algum tempo em silêncio.
- Bom, vamos dormir, amanha você acorda cedo. E sei que a Alice quer se despedir também. – Ele falou, com um sorriso malicioso no rosto. Eu fiquei vermelho e dei um soco nele e fomos dormir. Eu ainda fiquei um bom tempo acordado, e quando notei que ele dormia, não que fosse necessário, pois o TnT sabia do que fazíamos, sai de meu quarto.

Agora, Alice passava a maior parte do tempo em nossa casa. Os Oceanborn eram amigos de minha mãe há muitos anos, e desde que oficializamos nosso namoro, eles permitiam que sua filha mais velha passasse os dias conosco. Na verdade, já havia inclusive preparativos para um casamento, pois desejávamos realmente passar nossas vidas juntos, e as tragédias dos últimos meses nos mostraram como a vida é frágil.
- Não é que estamos desesperados, e tomando decisões às pressas, é que apenas agora nos demos conta do quão frágil tudo é. – Alice falou, a cabeça deitada em meu peito, enquanto eu a abraçava. Nós realmente havíamos intensificado nossa relação, e agora, passávamos praticamente todas as noites juntos... Eu só não sabia se mamãe tinha conhecimento, pois tentávamos esconder dela, mas era uma tarefa quase impossível esconder algo de Rigel Chronos.
- É tão mais fácil destruir, do que criar e proteger... – Eu falei, suspirando, enquanto brincava com uma mexa de seus cabelos. – O que se leva anos para criar, pode ser destruído em questão de segundos... – Eu falei, suspirando novamente. Ela enrolou-se nos lençóis e apoiou-se para me olhar nos olhos.
- Não comece a ficar triste, AJ, eu não permito! Vai ficar triste, com alguém como eu aqui do seu lado? – Ela falou, sorrindo sedutora para mim, enquanto beijava meus lábios lentamente e eu a puxava para junto de mim.
- Obviamente que não, acha que dá para ficar triste com uma garota como você? Sou alguém sortudo!
- Você é estranho, então. – Ela falou rindo, aninhando-se em meus braços.
- E você também. Quem imaginaria a filha mais velha dos Oceanborn fugindo durante a noite?
- Sou dona do meu nariz, e faço isto por e com o homem que amo, algo contra?
- Nada! Eu fico feliz na verdade... Eu falo de coração, você foi minha salvação...Ou uma delas...Quando estou com você, consigo quase esquecer aquela tragédia e que perdi Isa... – Eu falei, começando a sentir lágrimas em meus olhos. Alice me abraçou, apertando-me contra seu peito, acariciando meus cabelos.
- Você parece uma fortaleza, AJ, na verdade, você se faz uma fortaleza para enfrentar a tudo e todos. Mas no fundo você é frágil... Eu quero proteger esse seu lado, estar sempre com você. Por isso que eu aceitei me casar.
- Eu amo você, Alice. Não há palavras para descrever o quanto te amo e o quanto você me é importante. – Eu falei, abraçando-a com força e puxando-a para mim. Ela sorriu em meio aos beijos, enquanto nos entregávamos uma vez mais. A saudade já nos perseguia, pois no dia seguinte eu viajaria para fora do país e nossa noite foi intensa, longa e curta ao mesmo tempo.

- Ah, este é seu filho, o herdeiro dos Chronos. – O Ministro alemão falou em inglês, com um forte sotaque, apertando minha mão com energia. Ele era um homem austero e forte, e transmitia conhecer muito bem a sua profissão.
Ele indicou as cadeiras diante de sua escrivaninha e ofereceu uma taça de vinho para minha mãe e para mim, que aceitamos agradecidos. Brindamos pelo futuro bruxo antes de beber a taça inteira de um único gole.
- Fiquei muito feliz ao saber que continuaria na luta, Rigel, mesmo após tantos infortúnios.
- Seria uma afronta à memória de minha família caso eu recuasse.
- E você, Alderan, sente a mesma coisa?
- Sinto, senhor. Decidi continuar lutando por todos os que pereceram.
- Excelente resposta... Seu filho é um garoto de fibra, tornar-se-á um homem magnífico.
- Obrigada, Craus. É uma honra para nós que nos tenha recebido tão prontamente.
- As portas de meu gabinete e de meu Ministério estão sempre abertas para os Chronos. Devo muito a você, Rigel, assim como a seu marido.
- Não fizemos mais do que amigos deveriam, Craus.
- Fizeram muito mais. E sinto que farão ainda mais. Bom, vamos direto ao assunto? Imagino que você esteja apresentando seu filho a todos os seus aliados.
- Exatamente. Ele é meu sucessor, herdeiro dos Chronos e de nossos ideais. Dentro em breve, anunciarei oficialmente que ele é meu sucessor, e até lá espero que todos meus aliados o conheçam e respeitem. Estarei participando ativamente de sua educação até o final das férias.
- Faz muito bem. Não duvido que Beauxbatons o tenha educado bem, assim como sua família, mas para ser o líder dos Chronos ele ainda tem muito para ver e aprender. Há coisas que nenhuma escola no mundo ensina. Apenas a vida.
- E ele aprende rápido. Em poucos meses, poderá me substituir em todas as negociações. – Mamãe falou, sorrindo de leve. Um dos principais ensinamentos que ela me dera no início da viagem fora: um líder deve observar mais do que falar. E enquanto eu não ganhasse a confiança daqueles poderosos bruxos, eu deveria ouvi-los com total atenção.
- Imaginei que não daria fim ao seu projeto. E tem meu total apoio, não só você, mas o jovem Alderan também. Se depender de mim, o Clã Chronos surgirá amanhã mesmo!
- Fico muito feliz com o entusiasmo e seu apoio, Craus. Eu trouxe Alderan também para treina-lo em defesa avançada pessoalmente, e quero que ele me ajude a escolher o local da sede.
- Então chegou no momento certo. Ainda hoje poderei acompanha-los em uma visita rápida pela região, para a escolha do terreno. Além das terras que possuem em seu nome, estou disposto a doar terras do Ministério. E tenho informações que lhe serão interessantes.
- Agradeço muito sua ajuda. Deixarei a escolha do local para meu filho. E que informações você possui?
- Recentemente, recebi relatórios da atividade de um Necromancer no interior do país, na divisa com a Áustria. Há relatos de monstros e seres malignos...E de outros bruxos também.
- Procyon... – Eu não consegui deixar de falar, pois algo me dizia que havia alguma ligação entre ele e os assuntos que o Ministro nos contava.
- Exatamente...Há suspeitas de que Procyon esteja na região. Alguns de meus aurores foram investigar, mas estão desaparecidos...Gostaria muito de contar com sua ajuda e seria uma ótima forma de treinar o jovem Alderan.
- Pode contar conosco, Craus. Eu mesma irei investigar, mas quero que sejamos apenas eu e Alderan, sem intromissões.
- O caso é todo seu. Vamos procurar o local da sede?
Logo em seguida, saímos do Ministério Alemão, saindo numa rua trouxa. O prédio do Ministério parecia para os olhos trouxas uma antiga e fechada sede dos correios e poucos sequer tentavam entrar nela. O Ministro, Craus Olbrich, levou-nos para um dos carros do Ministério e seu motorista nos guiou pelas ruas agitadas de Berlim. Ele e mamãe iam conversando sobre diversos assuntos, enquanto ele entregava notas e relatórios para ela, e eu olhava pela janela, observando as ruas e prédios.
Estávamos procurando as futuras sedes do clã, e decidimos que teríamos sedes em toda a Europa, mas definimos que nossos maiores aliados, os Ministérios Britânico, Alemão e Francês, teriam uma sede especial. Estas seriam realmente as sedes do Clã. A sede britânica fora escolhida como nossa casa, no coração de Londres, e a apelidei de Spearhead, uma vez que era um excelente lugar para treinamentos. A sede francesa fora mamãe que definira o local, e eu estive com ela quando andávamos pelo interior de Paris. Mamãe parecia guiada por alguma sensação interior e achou uma colina. A colina era ampla e possuía uma larga visão de todos os seus arredores e mamãe escolheu aquele lugar para a nova sede, porém ainda não havíamos dado-lhe um nome. Porém eu tinha planos para ela.
Eu decidira que o Clã precisaria de três centros poderosos: um centro de ataque e poder, um centro de defesa e um centro de espionagem. Spearhead seria nossa lança, com treinamento e armamento pesado, sendo a sede oficial do clã. Seguindo essa linha de raciocínio, a colina na França seria o lugar perfeito para uma fortaleza, e era isto que eu pretendia construir ali, uma fortaleza inexpugnável. Na Alemanha, estaria nossa sede de espionagem, onde treinaríamos nossos melhores aurores para obtenção de informações.
Enquanto pensava nisto, algo chamou minha atenção. Um homem alto estava parado no meio de um terreno amplo, mas pouco se podia ver dali, pois a luz do final da tarde deixava o campo cheio de sombras. Eu o reconhecia imediatamente, era o homem que seguia Isa e que nos ajudara, emprestando seu poder.
Eu saltei do carro ainda em movimento e corri em sua direção, mas a cada passo ele parecia menos nítido, desaparecendo por fim nas sombras. Mamãe, o Ministro e seus aurores correram atrás de mim alarmados, e ao me alcançarem, formaram um círculo de proteção, olhando em todas as direções.
- Como se fala, A Sombra em alemão? – Perguntei, deixando todos surpresos.
- Der Schatten. – O Ministro respondeu, ao mesmo tempo que mamãe.
- Este será o local da sede alemã, Der Schatten, A Sombra.
- Tem certeza? – Mamãe perguntou, andando ao redor. Ela parecia procurar sentir algo e como eu a conhecia muito bem, vi que ela percebera o mesmo que eu.
- Tenho. Absoluta.
- Muito bem. Craus, podemos ficar com esse terreno?
- Ele é seu, Rigel. Assinarei os papéis de posse imediatamente. Querem voltar para o Ministério? – Ele perguntou, indicando o carro. Nós voltamos para o Ministério, mas meus olhos ainda estavam fixos naquele terreno, que parecia pulsar com energia.

Continua...

Friday, September 25, 2009

Após o ataque na casa do AJ, tivemos uma semana de aulas intensivas de Defesa contra as Artes das Trevas, com os aurores Kyle e Connor McGregor e Sarah McInnes e algumas vezes com a própria mãe do AJ. Se eu não houvesse visto a senhora Rigel em ação, duvidaria que ela pudesse derrotar um dementador.
Millie pode ficar hospedada na casa dos Chronos e sempre tinhamos algum lugar para namorar e segundo porque isso me aproximava um pouco mais do meu sonho de me tornar um auror e ter um futuro, afinal os dias de ficar paquerando todas as gatinhas da escola acabaram. Millie é ciumenta rsrs.
Embora eu tenha sido cego por um bom tempo, agora sei que ela e eu podemos fazer uma historia bonita, mesmo contrariando a irmã dela, mas como Kyle McGregor nos apóia, não me preocupo tanto.
Eu, AJ, Marcel Kwon, Andreas, Bianca Anabela, Alice e Millie tivemos que aprender num curto espaço de tempo, feitiços avançados e embora fosse um treinamento duro, eu adorava cada minuto. E no ultimo dia tiramos fotos de todos com os nossos professores, e foi muito muito bom.

Após aquela semana, voltei a morar no orfanato, enquanto AJ e sua mãe viajaram para caçar e ele pudesse ser apresentado a Ministros da magia do mundo Bruxo e ser conhecido como futuro líder do clã Chronos. Combinamos de trocar cartas sempre que possivel, e estarmos juntos na volta as aulas. Eu sempre me despedia deles com um sorriso, mas quando ultrapassava aqueles portões, eu dizia a mim mesmo que deveria suportar, mais algum tempo, logo eu iria embora. Era o que eu me dizia desde pequeno...
Quando cheguei ao orfanato eu tinha uns cinco anos de idade. Trazia algumas roupas, um par de botas velhos e um pião que eu vivia brincando com ele. Eu havia ido para lá, porque as pessoas que me criaram havia morrido e não havia ninguém mais. Uma vez ao mês o Orfanato Sacre Coeur recebia a visita de casais querendo adotar crianças que haviam ficado orfãs por causa da guerra, e então era o dia em que nos mandavam tomar banho com os sabonetes cheirosos não os baratos, nos faziam comer cedo, e nos recomendavam ser muito educados e sorrir muito, pois alguém poderia nos levar para casa.
No primeiro ano, eu tive a esperança de que a familia de meus pais verdadeiros me encontrassem e eu fosse para casa com eles, então eu não poderia ser adotado por ninguém e me perder da minha família novamente, enquanto os outros estavam cheirosos e engomadinhos, eu sempre dava um jeito de fazer alguma coisa que me sujasse, ou assustasse as pessoas, como por exemplo tirar um camundongo do bolso, dizer algum palavrão , enquanto cutucava o meu nariz com gosto. Nada enoja tanto uma mulher, mesmo que ela queira ser uma mãe adotiva, quanto ver o futuro filho limpar o salão e arrotar.
Bom, várias vezes, as freiras lavaram minha boca com sabão, ou me mandaram ajoelhar no milho para me ensinar ‘a ser humilde’, mas isso só reforçava a minha teimosia. Com o passar do tempo, elas optaram por não mais me colocar na fila dos disponíveis para adoção, e assim evitar que eu estragasse as chances das outras crianças, eu era deixado de lado. Mas isso não me incomodava, só me perturbava o fato de que com o passar do tempo, todos de alguma forma ou de outra conseguiam uma família, e a minha não aparecia para me buscar. Quando entrei em Beauxbatons e conheci os meus amigos, percebi que aquela seria a minha família, então desisti de esperar , e optei por bloequear algumas memórias que faziam com que eu tivesse esperança.
Quando fiz doze anos e sabia me virar por Paris sem me perder, comecei a arrumar trabalhos temporários durante as férias da escola, já que o diretor do orfanato nunca permitia que eu ficasse com meus amigos da ‘escola de esnobes’, como ele os chamava, mas me liberava para trabalhar e aprender qual era o ‘meu lugar’, como ele fazia questão de enfatizar. Comecei a entregar jornais, lavar pratos, aparar grama, enfim tudo que me rendesse o bastante para poder bancar minhas despesas na escola, sem depender de ninguém e estar preparado para alguma emergência. Algumas vezes eu chegava tão cansado, que eu dormia sem sonhar com a minha infância, outras vezes eu não tinha tanta sorte...

- Ele não tem ninguém??
- Não! Os velhos só tinham um único filho que morreu na guerra e não deixou filhos. Este garoto foi acolhido por eles, é um órfão de guerra...
- Mas os orfanatos estão tão cheios, ninguém vai querer ficar com ele, mesmo ele sendo um garoto bonito e forte...
- Talvez este medalhão de prata garanta uma boa vida até ele ficar por conta própria, veja os entalhes...Parece coisa de familia....
- Talvez tenha alguma pista sobre quem são os pais dele...Veja há algumas letras aqui...
Em meu sonho, comecei vter umas imagens pouco nitidas de um medalhão prateado cheio de entalhes e o queparecia ser um dragão ou uma criatura marinha, não sei bem...Estiquei a mão para virar o medalhão....


- Tristan, o diretor que falar com você!- disse uma das freiras, batendo forte na porta e eu acordei assustado. Eu estava tão perto de me lembrar de alguma coisa que pudesse me ligar aos meus parentes. Talvez, eu sonhasse novamente e pudesse resolver o mistério.
AJ e a mãe já estavam fora, há mais de uma semana e Millie estava visitando alguns parentes na Escócia, durant este tempo, eu havia conseguido um emprego num bistrô trouxa na Champs- Elyseés, e recebia boas gorjetas, que eu estava economizando para poder levar Millie em algum bom restaurante quando saíssemos no passeio da escola.
Fui até o escritório do diretor e ele após me lançar aquele seu olhar irritado, me disse que meu tempo ali já havia terminado e eu deveria me mudar. No começo fiquei espantado, mas me lembrei que com dezessete anos e com o dinheiro que eu tinha economizado, eu poderia me aguentar, até voltar para a escola.
- Ok, vou embora, mas quero o meu medalhão.
- Que medalhão? – ele perguntou espantado e eu respondi.
- O medalhão de prata que estava comigo quando me trouxeram para cá. Sei que era de prata e é meu, era um medalhão de família. Onde ele está? - percebi que sua testa começou a suar e disse sério:
- Diga logo aonde está e eu não chamo a polícia.
- Acha que sua palavra vale alguma coisa Thorn? Você não passar de um fedelho que ninguém quis. Fizemos o favor de colocar um teto sobre a sua cabeça e você nos agradece assim? Até o mantivemos aqui mais tempo que o necessário...
- Fiquei aqui, porque era interessante para você que meu amigo o principe de Mônaco, fizesse doações ao orfanato, e ele fez não é? Por isso você permitiu que eu ficasse aqui por mais algum tempo, mas agora que o dinheiro deve ter acabado, e você vai gerar desconfianças se pedir mais doações, então você está me mandando embora. – vi que as gotas de suor de sua testa aumentavam e disse:
- Dê-me o meu medalhão e eu não falo nada a sua alteza real, que o dinheiro dele serviu para pagar o seu agiota. É, eu sei que você iria perder os movimentos das pernas por uns tempos...Não tente dizer nenhuma mentira, sabe que nunca fui muito paciente, me dê o que é meu. – ele ficou pálido e disse:
- Não posso...
- Como não pode, deve estar no cofre.
- Eu...o...vendi...Tive que fazê-lo... Você sabe, as despesas do orfanato são altas e manter você aqui, custou dinheiro. Aquilo era apenas uma jóia, então eu o vendi para custear as suas despesas na escola...
- Minhas despesas?? Tudo o que usei aqui foi doado, até a comida e a escola, foi bancada por um fundo escolar, a professora Lefreve sempre cuidou de tudo, você não pagou por nada. Aquele medalhão era meu....Como você pode roubar algo que não era seu??- perguntei enquanto o apertava pelo colarinho, e o empurrava e ele caiu sobre a cadeira, fazendo um barulho enorme, e a secretaria abriu a porta e nos olhou assustada:
- Quer que chame a polícia, por causa deste delinquente, diretor? - antes que ele respondesse eu disse irritado:
- Isso chame a policia, mas se prepare para responder as perguntas deles sobre roubo, porque não deve ter sido apenas o meu medalhão roubado, deve haver outras coisas. – e a mulher ficou chocada enquanto olhava para o diretor. Eu repeti a pergunta, enquanto o puxava para cima:
- Aonde está o meu medalhão??
- Eu o vendi, um ano depois que você chegou aqui. Eu precisava de dinheiro rapido e eu o peguei emprestado, com o tempo eu iria pega-lo de volta....Ninguém seria prejudicado...
- Ah sim, claro, um empréstimo... Pra quem o vendeu??
- Eu o levei para a loja de penhores em Saint-Maur, no subúrbio, tentei recupera-lo, mas quando voltei lá ele já havia sido vendido...
Contei até três, minha vontade era sacar a varinha e fazer aquela criatura bater na parede repetidas vezes, ate virar uma massa disforme, mas isso não traria meu medalhão de volta. E me complicaria com o Ministério, eu não posso ter nada contra mim, se eu quiser me tornar auror. Respirei fundo e perguntei:
- Você deve ter algum recibo da loja de penhor, me entregue...Lá tem as caracteristicas do medalhão e vai me ajudar a procura-lo...
- Não eu não tenho mais o recibo, eu o joguei fora há algum tempo, não ia conseguir achar o medalhão mesmo...- perdi a cabeça e dei-lhe um murro, que o jogou por cima da mesa e ele caiu desacordado, coisa típica de quem tem queixo fraco. A secretaria gritou e eu passei por ela furioso, mas ainda ouvi quando ela correu até o diretor.
Fui até o meu quarto peguei minhas coisas com um aceno da varinha e ninguem apareceu no meu caminho para me impedir de ir embora. Eu precisava pensar em alguma coisa para recuperar meu medalhão, mas minha primeira necessidade era conseguir um lugar para morar, e dar um jeito para que aquele ladrão fosse punido. E tudo isso antes das aulas começarem....

Thursday, September 17, 2009

Desde o inicio das férias de verão, Danielle, Bianca e eu éramos os únicos habitantes da nossa turma a permanecer em Mônaco. Cada um dos outros havia programado alguma viagem e não vi ninguém além das meninas desde que desembarcamos em Paris, no dia 1º de Julho. A cidade não era muito grande, mas os atrativos para o verão eram intermináveis. O tempo passava depressa, mas ainda nos restavam duas semanas em casa e planejamos passar três dias em Saint-Tropez para aproveitar os últimos dias de férias antes de voltarmos para Beauxbatons.

Eu estava particularmente animado para essa viagem, não via a hora de pegar minha velha prancha de surfe e pegar algumas ondas. Passei a semana inteira que antecedeu a viagem limpando ela, passando parafina e retocando alguma falha que pudesse ter na pintura, mal me preocupei com a mala que deveria levar. Se tivesse minha prancha, não ia precisar de mais nada. No dia combinado para irmos, deixei tudo na sala, próximo à lareira, e fiquei esperando pelas meninas. Íamos através de lareira, porque embora já soubesse aparatar, ainda não nos sentíamos seguros de fazer uma aparatação para aquela distancia toda.

- Kalani, as meninas chegaram – ouvi minha mãe chamar da cozinha e depois fechar a porta.
- E ai? Prontas? – levantei do sofá agitado, mas percebi que só Bianca carregava uma mala – Dani, cadê sua bolsa?
- Ela não vai – Bianca respondeu parecendo irritada – Está nos dando cano!
- Não estou dando cano em ninguém, só mudei de idéia, ok? – Danielle se defendeu. Pelo visto as duas vinham discutindo no caminho.
- Mas por que não vai mais? Aconteceu alguma coisa? – perguntei preocupado.
- Não aconteceu nada, eu só não estou muito no clima pra viajar – ela deu de ombros – Não sei o que é, mas sinto que não é para eu acompanhar vocês até Saint-Tropez. Algo me diz que devo ficar aqui.
- Danielle está virando hippie, vai passar a seguir seus instintos – Bianca zombou e Danielle fez uma careta impaciente.
- Deixe-a em paz, Bia – tentei intervir – Se Dani acha melhor ficar, então podemos remarcar a viagem.
- Não, de jeito nenhum! Não quero que deixem de ir por minha causa, especialmente você, Kal. Está alucinando por causa das ondas da praia tem dias, temo pela sua saúde se você não for mais.
- Não vai ter a mesma graça sem você – Bianca abandonou o ar sarcástico e olhou desanimada para ela.
- Tenho certeza que vocês vão se divertir do mesmo jeito.
- Tem certeza disso? – perguntei.

Danielle nos garantiu que não ia ficar chateada por não desmarcarmos os planos, então nos despedimos dela e entramos na lareira. Caímos direto na lareira do hotel La Pinede, onde nos hospedaríamos e pertencia a uma família de bruxos. Ficava bem em frente ao oceano, eu não poderia estar me sentindo mais em casa ao largar a mala no chão e sentir o cheiro da maresia invadindo o saguão.

- A gente se encontra aqui em 10 minutos? – falei ajeitando a mochila no ombro e Bianca assentiu com a cabeça, subindo as escadas animada.

Não demorei nem 5 minutos para trocar a calça jeans e a jaqueta por uma bermuda e uma camiseta, e os tênis novos por um chinelo folgado nos pés. Tirei meu velho boné da mochila e os óculos escuros que não usava há quase um ano e desci outra vez para o saguão com a prancha debaixo do braço. Bianca demorou uma eternidade para descer, mas quando apareceu ao pé da escada, percebi o porquê da demora. Ela estava toda produzida, nem parecia que ia a praia se molhar na água salgada e pisar na areia. Mas apesar da produção nada convencional, ela estava linda. Usava um vestido de tecido fino que caia perfeito em seu corpo cheio de curvas e podia ver que usava uma roupa de banho com babados, por causa das elevações em algumas partes. Seu rosto estava maquiado, mas só pude notar isso quando se aproximou, pois a sombra que o chapéu fazia disfarçava. E ela usava perfume, o mais delicioso que já senti.

- Vamos? – ela sorriu passando por mim – PJ diz que sou azarada, então é melhor irmos logo antes que comece a chover.
- Ahn, por que está tão produzida para ir à praia? – perguntei depois que consegui fechar a boca outra vez – Seu cabelo está muito arrumado pra ser todo bagunçado na água.
- Você queria que eu saísse na rua toda desleixada só porque não estamos indo a algum lugar fechado? – ela perguntou, mas não esperava uma resposta e saiu andando na minha frente.

Peguei a prancha encostada na parede e corri atrás dela, sem tocar outra vez no assunto. Mas apesar de todo o preparo para chegar até a praia, Bianca abandonou tudo quando pisou na areia. Ainda nem tinha a alcançado e ela já havia tirado o vestido, revelando um biquíni de duas peças cheio de babados e estampa de bolinhas. Senti uma gota de suor escorrer pela minha nuca, mas forcei um sorriso quando ela me olhou animada, avisando que ia entrar na água logo.

Enterrei a prancha na areia e me larguei ao lado dela, observando Bianca entrar devagar na água, pulando por causa da temperatura gelada. Não adiantava tentar me enganar, eu havia me encantado por ela desde o momento que a conheci, mas quando descobri que ela era namorada do Philipe passei a ignorar aquele fato. E estava ignorando tão bem que achava que podia passar três dias sozinho com ela numa praia, mas estava enganado. O problema era que agora era tarde demais e teria que afastar qualquer idéia inapropriada da mente, pois ela não só tinha namorado como esse namorado era agora meu irmão e eu jamais teria coragem de magoá-lo. Eu era bom em fingir, podia sobreviver a Saint-Tropez. Bianca acenou de dentro da água sorrindo e levantei da areia, pegando a prancha e correndo até ela, decidido a aproveitar o fim das férias com a consciência limpa.

ººººº

Estava me saindo muito bem no meu papel de fingir que não carregava nenhum tipo de sentimento além de amizade por Bianca. Já estávamos na manhã do nosso terceiro e ultimo dia em Saint-Tropez e estávamos nos divertindo muito, como bons amigos. Passávamos a maior parte da manhã na praia, mas também perambulávamos pelas ruas da cidade comprando lembranças para os amigos e gastando dinheiro com sorvetes para tentar amenizar o calor que fazia. À noite sempre íamos ao mesmo quiosque na praia, onde tinha luau durante todas as noites do verão.

As malas já estavam prontas no hotel e voltamos para uma última visita a praia. Bianca havia decidido que ia aprender a surfar e passou os últimos dois dias tentando me persuadir a ensiná-la. Alugamos uma prancha para ela e depois de uma aula na areia, entramos no mar. Por sorte estava calmo, o que facilitaria bastante. Bianca era boa no quadribol, mas não era tão ágil assim no mar.

- Lembra o que ensinei na areia? – perguntei sentado na minha prancha, a ajudando a se manter sentada na sua – Quando a onda vier, faça exatamente aquilo.
- Mas como vou ficar em pé? Na areia a prancha estava firme no chão!
- É muito rápido, a prancha não vira nesse meio tempo em que você toma impulso e fica de pé nela.
- E se eu cair no meio da onda e me afogar? – ela estava começando a se desesperar e comecei a rir – Philipe vai matar você se eu morrer afogada. E se por acaso ele não matar, eu volto pra puxar seu pé!
- Você não vai morrer afogada e Philipe não vai me matar – talvez matasse, mas por outro motivo – Apenas faça o que ensinei e vai conseguir. As ondas estão fracas hoje, não tem perigo. Fica preparada, está vindo uma...

Bianca olhou para trás concentrada, o corpo rígido deitado sobre a prancha. A onda que se aproximava não era violenta e ela conseguiu executar todos os movimentos simples que havia ensinado, deslizando pela água de pé na prancha. Já estava quase no final quando olhou para trás me procurando e perdeu o equilíbrio, caindo feio dentro d’água. Nadei o mais rápido que pude até ela assim que vi sua prancha voar para um lado enquanto ela afundava do lado oposto, tentando se sobressair na onda que ainda batia um pouco agitada. Consegui alcançá-la a tempo e a agarrei pela cintura, arrastando-a até a areia segura e seca.

- Bia, você está bem? – perguntei preocupado. Embora ela respirasse, estava muito ofegante.
- Não, não estou bem! – ela respondeu irritada, tossindo e cuspindo água – Devo ter engolido 2 litros de água salgada e minha cabeça doi.
- Deve ter entrado água pelo seu nariz – falei sério, mas logo estava tentando não rir – Foi um tombo feio.
- Você disse que a onda era fraca!
- E era! Se parar pra pensar, a culpa foi sua, não da onda – ela me lançou um olhar indignado, o que só me fez rir mais – Você estava indo bem, só caiu porque olhou pra trás e acenou pra mim. Erro primário, nunca perca a concentração até que esteja na areia!
- Vou me lembrar disso da próxima vez.
- Vai ter uma próxima vez? – perguntei surpreso.
- Claro! Acha que vou desistir na primeira tentativa que deu errado? Vamos voltar aqui no próximo verão e você vai continuar a me dar aulas.
- Pensei que tinha enjoado da minha cara nesse verão, vai querer continuar me tendo por perto? – brinquei e ela riu, mas depois ficou séria.
- Não posso me cansar da pessoa que salvou o meu verão. Se você não tivesse sido minha companhia permanente, acho que teria entrado em depressão outra vez.
- Não foi nenhum sacrifício, você é uma ótima companhia. É meio maluca, mas é muito divertida – e ela riu outra vez.
- Você também não é nada mau, havaiano. Só precisa melhorar suas habilidades com a dança.
- E você com a prancha – abri um sorriso debochado outra vez e ela parou de sorrir – O tom foi realmente espetacular.
- Para de rir, não teve graça.
- É porque você não teve a visão que eu tive – agora já estava gargalhando – Bia, você voou sem uma vassoura, tem noção de que isso pode revolucionar o quadribol? Pena não ter uma câmera na mão, daria uma bela filmagem.

Bianca ainda me fuzilava com os olhos, mas em um movimento rápido, enfiou a mão na areia e atirou uma coisa que se mexia pra cima de mim. O objeto não-identificado parou em cima da minha cabeça e se embolou no meu cabelo, me fazendo saltar da areia com um grito de susto, enquanto tentava arrancá-lo de lá. Agora quem ria era ela, enquanto eu lutava contra meus cabelos embolados para livrá-los do bicho. Por fim consegui me livrar dele e atirei no chão, vendo que era um filhote de caranguejo. O bicho rapidamente sumiu pela areia da praia e Bianca rolava no chão de tanto rir.

- Ah, você é uma pessoa morta...

Quando viu minha expressão, levantou em um único salto e saiu correndo pela areia, ainda rindo. Fui atrás dela e a alcancei numa questão de segundos, a agarrando pela cintura e derrubando no chão, mas caindo junto. Ela agora lutava pra se livrar das minhas mãos, que enchiam seu cabelo de areia, mas ainda caçoava do incidente com o caranguejo.

- Que maricas, gritando daquele jeito – ela me provocou, tentando se soltar – Parecia uma menininha.
- Vou te mostrar quem é menininha.

Ela gritou por socorro, mas continuava rindo. Agora tinha suas duas mãos bem presas e prendi suas pernas com o peso das minhas, tinha total controle da situação. Ela parou de gritar quando viu que não ia conseguir se soltar e passou a me encarar. Estávamos muito próximos, meu corpo estava todo em cima do dela e não tinha dúvidas de que se ela não fosse comprometida, estaria tirando proveito daquela situação. Mas mais uma vez me forcei a lembrar que ela era namorada do meu irmão, era território proibido.

Bianca continuou me encarando sem dizer nada por quase um minuto e, num movimento que eu jamais poderia imaginar, ergueu a cabeça da areia e me beijou. Minhas mãos automaticamente soltaram as suas e procuraram por sua cintura, enquanto ela passava seus dedos em meus cabelos e nuca. Eu sabia que aquilo era errado e que no segundo que acabasse, me sentiria a pessoa mais suja e horrível do mundo, mas tudo que conseguia pensar naquele momento era que tinha a garota dos meus sonhos tomada em meus braços. E que havia sido ela a dar o primeiro passo.


Well I didn't mean for this to go as far as it did
And I didn't mean to get so close and share what we did
And I didn't mean to fall in love, but I did
And you didn't mean to love me back, but I know you did

Plain White T’s - A Lonely September

Friday, August 28, 2009

“Eu não podia chorar na frente dos meus irmãos. Quando eles choravam, era eu que os consolava até que parassem. Mas e quando eu chorava também? Quem ia me consolar?”

A madrugada passou sem noticias de meu avô. Henri e a Sra. Perrineau ficaram comigo o tempo inteiro, mas depois que amanheceu ambos tinham coisas a resolver em casa e precisaram sair. Henri esperou até que o Sr. Delacroix trouxesse meus irmãos de La Roche e desaparatou, dizendo que voltaria logo. Frederic e Thomas voltaram eufóricos de La Roche, falando sem parar sobre tudo que viram e fizeram na companhia de mais de 10 garotos de 11 anos. Achei ótimo que estivessem com as cabeças a mil, assim não perceberam a preocupação que transparecia pelo meu rosto.

Mandei que os dois fossem tomar banho e desfazer as mochilas e eles sumiram entre quarto e banheiro por mais de uma hora. Tentei me tranqüilizar durante esse tempo, pensar que vovô tinha apenas perdido a hora e adormecido na casa de algum amigo, era mais reconfortante pensar assim. Thomas apareceu na cozinha depois de estar limpo, procurando algo para comer. Fiz o almoço dos dois e quando coloquei a mesa e chamei Frederic para comer, eles perceberam a ausência do vovô. Menti dizendo que ele havia saído e eles não voltaram a perguntar, mas quando o dia começava a terminar e o céu escurecia aos poucos, as perguntas voltaram.

Insisti em dizer que ele havia saído e consegui distraí-los com as listas de materiais que haviam chegado naquela tarde, de Beauxbatons. Eles estavam eufóricos por finalmente começarem os estudos de magia e se ocuparam em imaginar que tipos de feitiços aprenderiam no 1º ano. Havia conseguido me distrair também com as perguntas deles sobre Beauxbatons, quando o telefone tocou. A tranqüilidade evaporou no mesmo instante e num único salto agarrei o aparelho.

- Alô? – falei com urgência.
- Danielle? – reconheci a voz do Sr. Delacroix na linha.
- Teve noticias do meu avô? - perguntei ansiosa, esquecendo que meus irmãos não sabiam de nada.
- Danille, você vai ter ser forte – sua voz falhou rapidamente e senti meu estomago afundar – Charles faleceu.

Foi um baque. Meu coração falhou e senti as pernas tremerem, mas meus dois irmãos estavam bem na minha frente e já sabiam que algo errado tinha acontecido. Estavam ansiosos por noticias, aguardando minha reação. Se eu chorasse e desabasse ali, eles desabariam também.

- Ok, obrigada tio – foi tudo que consegui dizer e desliguei o telefone.
- O que houve, mana? Cadê o vovô? – Thomas perguntou ansioso, e sua expressão dizia “O que a gente faz? Se você chorar, a gente chora”
- Esta tudo bem, ok? Daqui a pouco vamos ter noticias dele. Eu só vou ali na casa do Kalani porque esqueci uma coisa la, mas já volto. Está tudo bem.

Deixei os dois em casa e sai depressa, não queria saber se tinham ou não acreditado em mim. Minha mão tremia, mas não ia desabar na frente deles. Atravessei a rua sem prestar atenção nos carros que passavam e desci os sete quarteirões que separavam minha casa da casa da família Perrineau e bati na porta deles. Foi um dos empregados deles que atendeu.

- Oi, boa noite – percebi ao falar que minha voz já estava falhando – A Sra. Perrineau está? É que meu avô morreu.
- O que?

A empregada dela se assustou e, ao dizer em voz alta, meu chão sumiu. Cai sentada chorando compulsivamente e ela me ergueu, me levando para dentro de casa. A Sra. Perrineau ouvira o que eu dissera e já vinha correndo ao meu encontro, me abraçando de um modo maternal. Afundei meu rosto em seu ombro e não consegui mais controlar as lágrimas.

ººº

Voltei para casa já de manhã, com Henri me ajudando a andar com medo de que desabasse. A Sra. Perrineau havia ligado para o Sr. Delacroix e ele havia ido pegar meus irmãos e os levar para passar a noite em sua casa. Ele se oferecera para contar a eles que vovô tinha falecido, mas agradeci e disse que podia fazer isso eu mesma, depois que me acalmasse.

A noite havia sido longa. Depois de conseguir avisar a Henri, ele foi me encontrar na casa dos Perrineau e descobri que vovô havia sido encontrado em um hospital fora de Mônaco. Ninguém sabia o que ele estava fazendo fora da cidade, mas os médicos disseram que ele deu entrada no hospital amparado por um desconhecido que o encontrou passando mal na rua. Depois que deu entrada no hospital, começou a sentir fortes dores no peito e suar frio, então sofreu um infarto-fulminante, ainda na recepção. Henri e a Sra. Perrineau me acompanharam até o hospital para que eu pudesse reconhecer o corpo.

Sai do hospital passando mal ao ver meu avô deitado em uma maca, pálido, coberto por um lençol. Depois disso ninguém me deixou ir para casa no meio da madrugada e fiquei na casa dos Perrineau até estar completamente calma. Cheguei à minha casa com Henri quase 8 horas da manhã e foi extremamente doloroso pisar ali outra vez, sabendo que vovô jamais estaria presente outra vez. Henri esperou até que eu tomasse banho e parecesse mais bem disposta, para me acompanhar até a casa dos Delacroix. Já passava das 9hs quando chegamos. Bianca ainda estava em Saint-Tropez com Kalani e provavelmente não faziam idéia do que estava acontecendo. Fui recebida por sua mãe, que me olhava com tanto pesar que só fez com que doesse mais.

Meus irmãos já estavam acordados quando cheguei e soube que não haviam dormido direito a noite toda, preocupados comigo. Agradeci outra vez por terem ficado com eles aquela noite e Henri me ajudou a levá-los embora por aparatação. Ele ainda insistiu em estar comigo quando conversasse com os meninos, mas pedi para que ficasse sozinha. Já ia ser difícil de qualquer forma, queria dar a eles um pouco de privacidade.

- Vamos lá, Dani, o que está acontecendo? – Frederic falou de braços cruzados assim que Henri desaparatou – Estamos esperando.
- Onde está o vovô, mana? – Thomas foi mais delicado ao falar, mas também estava decidido a obter uma resposta.

Encarei os dois sentados lado a lado no sofá, os braços cruzados e expressões sérias me encarando. Frederic estava impaciente e Thomas aparentava estar receoso do que eu pudesse lhe dizer. Respirei fundo e me agachei junto a eles, apoiando as mãos em um joelho de cada.

- Não há um modo mais fácil de dizer isso – respirei fundo outra vez e os encarei – O vovô morreu.

Eles trocaram um olhar incrédulo e depois voltaram a me encarar, sem dizer nada. Frederic assumiu uma expressão dura e Thomas procurou em meu olhar por uma confirmação de que ouvira isso mesmo. Quando teve a confirmação, se atirou em meus braços caindo no choro. Dessa vez não consegui segurar as lágrimas e chorei abraçada a ele no chão da sala. Estiquei a mão para procurar por Frederic e ele se ajoelhou ao nosso lado, ainda muito sério. Seus olhos estavam vermelhos e podia ver o quanto de força ele fazia para não chorar.

- O que vai acontecer com a gente agora? – ele perguntou quase trincando os dentes para prender as lágrimas e sua voz saiu rouca.
- Nada vai mudar, nós vamos continuar aqui e eu vou cuidar de vocês – tentei soar o mais confiante que pude, queria passar confiança a eles naquele momento.
- Eles vão deixar a gente morar com você? – Thomas perguntou com a voz chorosa – Não vão nos mandar pra um orfanato?
- Eu não vou pra orfanato nenhum! – Frederic falou com raiva e uma lágrima solitária caiu, mas ele rapidamente secou.
- Vocês não vão pra nenhum orfanato, eu não vou permitir! – embora soubesse que não seria assim tão simples, jamais deixaria que me separassem de meus irmãos.
- Promete que vamos ficar juntos? – Frederic perguntou me encarando, os olhos ainda mais vermelhos.
- Nós nunca vamos nos separar – segurei seu rosto com firmeza ao falar – É uma promessa.

Frederic fechou os olhos e quando os abriu outra vez, já não conseguia mais controlar as lágrimas. Ele se aproximou mais e se aninhou no meu colo, afundando a cabeça em meu ombro e me abraçando com toda força que tinha enquanto chorava. Sabia que qualquer juiz iria tentar arrumar famílias capazes de criar meus irmãos e os mandar para elas, mas eu faria o possível e o impossível para impedir que isso acontecesse. Thomas e Frederic eram o que restavam da minha família e ia lutar para mantê-la unida, não importava a que preço.

Thursday, August 13, 2009

Minhas férias em Florença passavam sem emoção. Nos intervalos em que minhas primas não apareciam para tomar café durante as folgas nos trabalhos, me ocupava em ajudar a vovó a cozinhar. Não que eu fosse uma boa cozinheira ou mesmo gostasse de mexer em panelas, mas dessa forma ficava perto dela. Sempre tínhamos assunto para colocar em dia e ter minha ajuda em seu lugar favorito da casa a deixava feliz.

Andreas, ao contrario de mim, não parava em casa. Na parte da manha, todos os dias, pegava uma chave de portal e encontrava alguns de nossos amigos em Londres para umas aulas de Defesa Avançada organizada pela mãe do AJ. Quando estava em Florença, desaparecia pelas ruas com nossos primos e geralmente voltava de madrugada.

Marcel ainda não havia dado notícias desde sua última carta, pedindo que não fizesse nenhuma bobagem e deixasse que ele resolvesse a confusão. Isso me deixava um pouco apreensiva, conhecia Marcel muito bem para saber que ele tanto podia estar desmentindo tudo de maneira que eu saísse ilesa como podia estar piorando as coisas, transformando a mentira em uma bola de neve devastadora. A demora por uma notícia estava me deixando louca, mas minha sorte, ou não, parecia que ia mudar quando Andreas apareceu de repente no meio da sala, segurando uma lata amassada na mão.

- Huum, estou faminto – ele apareceu na cozinha olhando para as panelas e pegando um bolinho já frito do prato – O que tem pro almoço hoje, vovó?
- Isso que você está comendo – ela bateu em sua mão e Andreas riu – Vá se lavar e pare de beliscar, ou não vai comer direito.
- Como se beliscar antes do almoço tirasse meu apetite – agora foi vovó que riu – Olívia, tem correspondência pra você na sala.

Ele me olhou indicando a sala com a cabeça e o segui. Quando estávamos fora do alcance dos ouvidos supersônicos da vovó, ele tirou um envelope de aspecto oficial do bolso do casaco e me entregou. Reconheci de imediato como uma correspondência formal da Família Real e meu coração chegou a disparar de pavor. Abri o envelope depressa e uma olhada rápida revelou que era um convite formal para passar o fim de semana em La Roche, para um almoço de aniversário de Remy. Ele reuniria os amigos para passar a noite lá, mas o almoço em família era uma tradição e ele não conseguiu evitar. Pelo convite, percebi que meus pais receberam um igual, ele se estendia a nossa família toda.

- Não sei o que você e Marcel estão tramando, mas deixe avisa-la logo que não quero participar – Andreas parecia já saber o conteúdo da carta – O que quer que seja, vai terminar mal e não quero estar envolvido. Já avisei a Marcel que não vou. Além de não querer ser cúmplice, já marquei de jogar bola com Marco e Filipo no fim de semana.
- Não estamos tramando nada – falei ofendida e sabia que era uma péssima mentirosa, ainda mais quando falava com Andreas, que me conhecia melhor do que ninguém – E nada vai acabar mal – ao menos era o que eu esperava, mas não precisava dizer essa parte.
- Bom, espero que tenha razão – ele deu de ombros – Vou tomar banho pra almoçar.

Andreas subiu correndo as escadas e voltei para a cozinha para ajudar a vovó, mas minha cabeça já estava longe. Uma reunião com toda a Família Real e meus pais não poderia dar certo.

ººº

Meus pais enviaram uma chave de portal para me buscar em Florença bem cedo no sábado e sai junto com eles de Mônaco pouco depois das 10h rumo a La Roche. Era impossível aparatar ou chegar até lá por chave de portal devido à segurança, então nossa chave nos levou até um vilarejo próximo e um dos seguranças da Guarda Real foi nos buscar de carro.

Nunca havia pisado em La Roche, mas a primeira visão que tive daquela fortaleza era exatamente como víamos nas fotos dos livros de História da Magia Francesa. O lugar era imenso e lindo. Fomos guiados até o hall de entrada do castelo e os pais de Marcel já estavam esperando para nos receber. Eles eram sempre muito educados e receptivos, poderiam fazer até mesmo a pessoa mais detestável do mundo se sentir bem vinda. Meus pais os cumprimentaram entusiasmados e apertei a mão dos dois um pouco sem graça. Era a primeira vez que encontrava o Rei e a Rainha na condição de namorada do Príncipe, mesmo que fosse mentira.

- Perdoem a falta de educação de nossos filhos, mas nós perdemos o controle sobre eles a partir do momento em que pisamos em La Roche – o pai dele falou rindo, nada constrangido.
- São muitos primos para dividir as atenções, os pais são deixados de lado – a mãe dele explicou e papai assentiu com a cabeça, provavelmente lembrando que também eram ignorados nas reuniões de família em Florença – Ah, Charlotte, venha aqui!

Charlotte descia as escadas distraída e encarou com surpresa a nossa presença. Veio caminhando devagar e sorriu de leve quando trocou um olhar rápido comigo.

- Os pais de Olívia vieram almoçar conosco – seu pai explicou e ela pareceu entender, pois sorriu mais animada.
- Desculpem, é que ainda não me acostumei com a idéia de que Olívia agora é namorada do meu irmão – ela agarrou minha mão de repente – Ele está no campo jogando Pólo, vou levar você até lá – e saiu me puxando antes que pudesse dizer alguma coisa.

Gostava de Charlotte. Embora muitas pessoas a julgassem esnobe, quem a conhecia de verdade sabia que ela estava longe de ser assim. Charlie, como gostava de ser chamada, é reservada e tem poucos amigos, mas é muito gentil e generosa. Fomos conversando pelo caminho e senti-me mal por mentir para ela, mas não podia fazer nada diferente sem antes conversar com Marcel. Chegamos ao campo e não consegui identificar Marcel em meio aos muitos cavalos que corriam de um lado para o outro, mas ele me viu assim que paramos perto da grade e ergueu a mão avisando que ia sair do jogo.

- Vou deixar vocês a sós – Charlie piscou para mim e senti meu rosto corar.
- Oi – Marcel desmontou do cavalo e o atrelou a uma barra de ferro. Ele se aproximou animado e me deu um beijo no rosto – Por que demoraram tanto?
- No convite dizia que era almoço, chegamos a tempo, não? – respondi encostando na grade e ele sentou no banco na minha frente – O que você andou contando as pessoas?
- Nada demais, apenas segui com a brincadeira – ele deu de ombros e riu – Meus pais são animados demais, insistiram em convidá-los para o aniversário de Remy. Na verdade eu nem tentei impedi-los, queria ver você. Vejo os outros nas aulas, mas você não se inscreveu, já estava com saudades.
- Acho melhor contar a verdade a todos, Marcel – ignorei o fato de saber que meu rosto estava vermelho – Por quanto tempo acha que vamos conseguir enganar a eles?
- Você quer admitir aos seus pais que mentiu? Eles não vão gostar.
- Vão gostar menos ainda se demorar mais tempo pra contar. Uma hora eles vão saber, ou você pretende se casar comigo de mentira também?
- Olha, só temos mais umas duas semanas de férias e depois estamos de volta a Beauxbatons, longe dos olhos deles. Só temos que manter a brincadeira por mais uns dias. Depois, já na escola, inventamos uma briga e depois contamos que achamos melhor continuarmos apenas como amigos.
- Não sei não... – ainda estava nervosa com aquilo tudo e Marcel pegou a minha mão, alisando o polegar nas costas dela. Aquilo seria perfeitamente normal, se fosse uma situação diferente.
- Relaxe, só temos que fingir bem – ele sorriu – Não sou tão insuportável assim, sou? Acha que agüenta passar dois dias na minha companhia, como se fosse mesmo minha namorada?
- Você não é nada insuportável. Sabe que gosto da sua companhia, sempre gostei, o problema são os olhares de avaliação. Tem um primo seu que não tira os olhos de nós dois, acho que ele está desconfiado de alguma coisa.
- Que primo? – Marcel de repente pareceu alarmado, mas não olhou para trás.
- Um loiro, olhos verdes, muito parecido com você – descrevi o garoto que agora caminhava na nossa direção.
- Louis, droga! – Marcel ficou de pé e quase me imprensou contra a grade – Desculpe, mas vai ter que soar mais convincente que isso, passe as mãos em volta da minha cintura.
- O que? – me assustei com a possibilidade – Por quê?
- Louis é extremamente perceptivo, às vezes parece que pode ler nossas mentes. E ele não pode desconfiar de nada, senão vai querer me subornar – fiz uma careta e ele riu – Não, ele não é ruim, é que fiz isso com ele ano passado e ele está louco pra dar o troco.

Eu ainda estava parada sem reação encostada contra a grade e Marcel pegou minhas mãos, jogando-as em volta de sua cintura. Depois encostou mais o corpo contra o meu e sua boca estava encostada em meu ouvido. Fechei os olhos, torcendo para que ele não falasse nada.

- Estou atrapalhando? – uma voz me fez abrir os olhos. O primo dele estava parado ao nosso lado.
- Você sempre atrapalha, Louis – Marcel falou em tom de brincadeira – Ollie, esse é meu primo Louis. Essa é Olívia, minha namorada.
- Ah, a famosa Olívia – ele estendeu a mão e a apertei – Charlotte falou mais de você que Marcel, mas ele também andou se gabando. Diga-me Olívia, como uma menina bonita como você pode namorar um cara feio como o Marcel?
- Do mesmo jeito que Verônica parece tão apaixonada pelo ogro que é você – Marcel revidou de imediato e agradeci mentalmente por não ter que responder que ele não era feio, mas sim lindo.
- Faltam 10 minutos para o fim da partida, volte ao campo porque estou começando a ficar com fome, quero acabar logo com isso – ele falou mudando o assunto e sorriu pra mim – Foi um prazer finalmente conhece-la, Olívia – e sorri de volta.
- Sim senhor! – Marcel bateu continência em deboche – Isso não vai demorar, pode assistir da arquibancada. Só fique longe daquela morena de chapéu, é minha tia Cecília, ela está louca pra interrogar você – ele sorriu divertido e deu outro beijo em meu rosto, mas dessa vez tocou o canto dos meus lábios.

Antes que eu pudesse corar ele já estava de volta ao campo em cima do cavalo. Subi para a arquibancada e procurei manter uma distancia segura da tia Cecília. Fiquei muito grata quando Charlotte percebeu que estava sozinha e veio me fazer companhia, assim evitava a aproximação dos outros. Se antes meu receio era saber por quanto tempo conseguiríamos enganar os outros, agora ele havia mudado. Por quanto tempo será que EU agüentaria fingir ser namorada do Marcel, tendo que representar tão bem? Andreas tinha razão, aquilo não podia terminar bem.

Sunday, August 09, 2009

- Como ele está? Viemos assim que o Diretor nos contou!
- O que aconteceu com eles?!
- Procyon!? Não posso acreditar!
- Todos mortos? Isso é horrível...É assustador!
- Só permitirei que os enterremos quando ele acordar, ele não me perdoará se não der o último adeus a eles.
- Ele é forte, ele vai ficar bem.
- Você também está em condições ruins!
- Mas já estou melhor, o choque para ele foi muito maior...Mas tenho certeza que meu amigo vai ficar bem!
- Ele é teimoso, ele não vai se entregar facilmente.
- E ele tem pessoas que quer rever, e coisas que quer fazer...
- Devemos mantê-lo afastado de qualquer coisa que possa desestabilizar suas emoções, pois isso pode acarretar um fluxo excessivo de magia, e caso isso ocorra, ele pode perder o controle de suas ações e colocar em risco a todos. Inclusive ele.

Eu não sabia por quanto tempo estava desacordado.
Mas não queria acordar.
Eu ouvia as conversas de todos ao meu redor, mas não tinha ânimo, nem forças, para abrir os olhos e vê-los. Eu simplesmente queria esquecer que tudo aquilo havia acontecido. Mas era impossível

“- Adeus, querido. Sempre amarei você.”

Suas últimas palavras ardiam em meu peito e em minha memória e sentia vontade de chorar e de gritar.

- Rápido! Ele está tendo algum tipo de ataque! Tire todos daqui.
- Alderan...Que tipos de pesadelos ele está tendo para gritar assim mesmo desacordado.
- O que podemos fazer por ele?!


Eu sabia que gritava inconscientemente, porém sem acordar. Lágrimas ardiam em meus olhos e escorriam pela minha face, mas não conseguia abrir meus olhos. Eu mergulhava cada vez mais na escuridão do esquecimento, querendo me afogar e esquecer de tudo, de toda a traição e toda a dor.
Mas então ouvi uma voz. Era a voz dela, de minha irmã Gomeisa. Eu praticamente a podia ouvir rindo para mim, enquanto sua voz se aproximava de mim, salvando-me das trevas.

- Me perdoe, irmã!
- Não há o que perdoar, maninho.
- Eu não pude te salvar.
- Não havia nada o que pudesse se fazer e foi uma escolha minha. Um dia você entenderá, e nos encontraremos de novo.
- Quero estar com você novamente, Isa, quero esquecer toda a dor. – Eu senti me afogando mais, mergulhando ainda mais nas trevas. Porém senti que Isa me segurava, estendendo-me a mão.
- Não, não é sua hora. Não é a hora de estarmos juntos novamente. Você tem muito o que viver, há muito a se fazer. Enquanto o dia de ficarmos novamente juntos não chegar, eu o aguardarei, junto de papai e de toda a família, aguardando seu retorno triunfal. Mas este não é o momento.
- Acorde, Alderan James Asteris Chronos. – Uma voz poderosa me comandou, enquanto ao fundo ouvia o som gentil da risada de minha irmã. Era a voz dele, do homem que estivera conosco naqueles momentos.


Eu senti mais do que ouvi primeiramente, mas após poucos segundos eu podia ouvir a voz de todos com clareza. Mesmo sem abrir os olhos, eu conseguia saber onde cada um deles estava. Alice e mamãe estavam do meu lado direito, Alice segurava minha mão, enquanto chorava com a cabeça mergulhada na fronha da cama onde estava deitado. Millie segurava minha outra mão e também chorava, o rosto mergulhado no ombro de Tristan, que me olhava preocupado. Perto da cama estavam vários curandeiros, os McGregors, o Diretor Charleston, e todos os meus amigos, Penélope, Marcel, Philipe, Derek, Noah, Kwon, Andreas, Bianca e Anabela.... Todos pareciam preocupados e tensos e eu não entendia o porquê, até Kyle falar:
- Tem certeza? Mesmo estando desacordado por tanto tempo, ainda há como ele acordar?
- Não podemos afirmar, fizemos tudo ao nosso alcance, mas ele não reage aos nossos cuidados. – Ouvi Alice fungar alto, enquanto apertava minha mão com mais força. – Parece que ele não quer acordar.
- Deve haver algo para se tentar! Devemos tentar tudo! – Connor falou, dirigindo-se ao curandeiro.
- Eu pedirei ajuda a todos que forem necessários, esse jovem não deve perecer, ele não merece depois de tudo que passou. – Ouvi o Diretor falando.
- Ele voltará, eu tenho certeza disso. Meu filho é forte, então não perderei as esperanças até o dia em que ele se levantar. – Mamãe falou, mas notei o tom triste de sua voz, que tremia. Isso, junto da presença de todos eles, me deu mais forças para tentar acordar e com dificuldades tentei me mover um pouco. Soltei um suspiro alto, como se ele estivesse preso e todos se assustaram. Eu então abri os olhos lentamente, tossindo muito, e tal tosse me causava uma forte dor de cabeça, na verdade meu corpo inteiro doía.
Todos exclamaram surpresos, mas repletos de alegria e me vi abraçado por dezenas de braços, de todos meus amigos e de minha mãe, enquanto ouvia Kyle e o irmão comemorando felizes. Os curandeiros sorriam e após passar o primeiro susto de ao ver bem novamente, fizeram abrir espaço para eu respirar, e me ajudaram a me sentar, lançando feitiços e usando poções em mim.
- Só você mesmo para nos deixar ansiosos assim esperando sua melhora! – Derek falou, fingindo estar chateado, sendo ecoado por todos.
- Como é possível? Até pouco tempo ele sequer reagia aos nossos estímulos. – Um dos curandeiros falou, surpreso, mas feliz por eu ter acordado. Minha cabeça girava e eu tinha dificuldades de me manter sentado, usando o ombro de Alice como apoio. Ela chorava muito e me abraçava com força.
- Quanto....Quanto tempo fiquei desacordado? – Eu consegui perguntar, após algum tempo.
- Você esteve em coma por três dias, filho. – Mamãe falou, respirando aliviada.
- Já faz três dias que aquilo aconteceu... – Eu falei, os dentes trincando e os punhos fechando-se com raiva. Eu senti uma forte dor de cabeça e ainda mais tontura, caindo nos braços de Alice.
- Acalme-se jovem Chronos, você não está em condições de se exaltar. – o Diretor falou, preocupado comigo.
- Você entrou em coma não por causa dos ferimentos, mas por uso excessivo de magia. Seu corpo não agüentou tamanho fluxo de magia. – O curandeiro explicou calmamente.
- Por isso, deve evitar usar magia a qualquer momento por uns tempos, pois seu fluxo interno de magia encontra-se totalmente desregulado. – Outro curandeiro explicou.
- Vamos deixa-lo com seus amigos, vocês têm muito o que conversar. – Connor falou, retirando-se com o irmão e os curandeiros. Mamãe foi junto após beijar meu rosto e todos me deixaram junto de meus amigos, que estavam aliviados por eu estar bem. Eles me apoiaram e me deram forças e nunca me esquecerei o que fizeram por mim.
********

- Aqui neste local, pereceram alguns dos bruxos mais poderosos e habilidosos do país, e sem dúvida os seres humanos mais puros e bondosos de todo o mundo mágico. Uma família que lutou por gerações pelo bem de todos, fossem eles trouxas, bruxos, elfos, centauros ou gigantes. Aqui, foi o túmulo de centenas de Chronos, centenas de guerreiros que deram suas vidas para defender o mundo das trevas. E o mundo sentirá, e muito a sua falta, pois perdemos poderosos guardiões... – O Ministro Britânico dizia seu discurso no funeral de minha família, porém eu começava prestar pouca atenção no que dizia.
Eu saí do hospital no dia seguinte que acordei, espantando a todos com minha recuperação rápida. Mamãe havia dito que só permitiria o funeral de minha família após eu revê-los uma última vez e foi o que fizemos. Foi doloroso rever os corpos de meus tios, primos e avós, mas mais doloroso ainda foi rever meu pai e minha irmã sem vida. É algo que não desejo a ninguém, pois a dor que senti seria capaz de me matar...Isa parecia mais bela do que nunca, mais calma e mais serena, como se dormisse...Seus lábios ainda pareciam sorrir, ao aceitar seu destino.
Decidimos que o funeral da família seria no local onde caíram, em nossa casa de campo, que a partir daquele dia se tornaria o Cemitério dos Chronos. Túmulos foram preparados para todos, com exceção de meus avós, meu pai e minha irmã, que teriam os corpos depositados em esquifes de mármore branco e descansariam nas ruínas da mansão.
O Ministro terminou de falar, porém não ouve palmas, todos ainda chocados e tristes pela tragédia. Mamãe falou então, agradecendo a todos pelos sentimentos e pelo apoio e dizendo que eles seriam lembrados para sempre como pessoas de fibra e força. Mesmo mamãe, com toda sua força, foi incapaz de não ser atingida por lágrimas e parou o discurso no meio, sendo amparada por mim. A cerimônia foi encerrada com faíscas de todas as varinhas dos convidados, que começaram a retirar-se um a um, pois todos viam que queríamos ficar a sós. Apenas nossos amigos mais próximos ficaram conosco e nos ajudaram a voltar para casa.
*********

A primeira coisa que fiz quando voltei para casa de Londres foi destruir o quarto de Procyon. Eu queimei cada coisa sua, com um certo prazer em cada feitiço lançado. Antes porém, eu vasculhei tudo, procurando indícios de onde ele poderia ter ido assim como seus comparsas, achando algumas cartas escondidas com diversos nomes, e as guardei. Mamãe não impediu o que fiz, pelo contrário, ela apoiava, pois queríamos apagar o nome do verme a qualquer custo da história da família.

*********

- Filho, venha cá. Tem muito que precisamos conversar. Eu iria aguardar sua formatura para lhe contar tudo isso. Mas agora você é meu sucessor, o líder do que restou de nós. Ou seja, você é meu líder.
- Mãe, não precisa, eu confio em você e em sua liderança.
- Não, Alderan. Você agora é o Patriarca da família e a liderança é sua por direito. Tenho algumas coisas para lhe revelar. – Mamãe falou, enquanto pegava uma caixa de madeira com o brasão da família, um escudo branco com um C negro em cima, enquanto ao fundo havia uma águia também branca. Ela a abriu e indicou seu conteúdo. O interior da caixa era composto por um veludo branco, a cor da família, e em seu interior havia uma pequena esfera perfeita. Dentro da esfera parecia haver um fluido azul flutuando no ar.
- Isso, filho, é uma profecia. A Profecia dos Chronos. Havia duas delas, uma sob minha guarda e outra sob a guarda do Ministério, mas a outra foi roubada.
- Pelos Comensais?
- Sim. E por causa dela que eles tentaram nos atacar. O que eles não sabem, é que a Profecia do Ministério, possuía apenas metade de todo o teor da profecia original. Toque-a com a varinha e a profecia revelará a você seu conteúdo.
Eu a obedecia e toquei a esfera com minha varinha. Houve uma pequena centelha azulada e a esfera começou a brilhar intensamente, com o fluido azul rodopiando velozmente. Então ouvi uma voz. Era a voz dele, daquele homem. Na verdade havia uma vozinha fraca e imatura misturada a voz forte, porém perceptível.

Há séculos lutam.
Há séculos caçam.
Há séculos destroem as trevas, sendo a luz na escuridão.
Avatares de seu Antepassado, alguns mais poderosos que os demais, os Chroni.
Dos Chroni surgirá o poder. Dos Chroni surgirá o exército.
De um deles, surgirão seres poderosos, nem vivos, nem mortos, mas poderosos.
Usarão as trevas como arma, usando-a para a guerra.
Mais poderosos que humanos, mais temidos que vampiros.
De um deles, surgirá a luz plena e pura, terna e destruidora.
Como o Sol, queimará os malignos, deixando apenas suas cinzas.
E o mal sucumbirá ao seu poder.
E o mundo não será o mesmo após sua chegada.
Pois eles são os Chronos.
A Fúria do Deus surgirá novamente, destruidora.
O Sangue de Luz brilhará intenso, dando novas energias a eles.
A Luz do Deus estará na Terra novamente, purificando-a.
Suas armas, a lança e a foice voltarão a cortar os céus.
Suas asas voltarão a bater.
Suas armaduras voltarão a resplandecer.
Seus olhos voltarão a brilhar em dourado e prata.
Terras tremerão, Céus brilharam.
O som de suas asas fará as trevas tremer.
O brilho de seus olhos fará os malignos perecer.
A força de sua bondade fará os bons se alegrarem.
Pois o Deus estará na Terra.
Mesmo que para isso, seus filhos amados devam antes perecer.
Mesmo que sua mais amada filha, sua Encarnação venha a sacrificar-se.
Porém, do pó eles ressurgirão, mais poderosos do que nunca.
E a justiça voltará à Terra, através de um de seus filhos..


- Entende agora, filho? – Mamãe perguntou.
- Quem proferiu essa profecia? – Foi a primeira coisa que consegui perguntar, tentando reconhecer a voz.
- Isa...
- Isa?!
- A primeira palavra de sua irmã foi “mãe”. – Mamãe falou, com lágrimas nos olhos enquanto passava a mão por uma sorridente foto de Isa. – Porém, logo em seguida ela enunciou essa profecia completa, sua voz misturada a uma poderosa voz masculina, seus olhos com um intenso brilho dourado.
- Isso é possível? Uma criança enunciar uma profecia?
- Sim, e é algo muito comum, pois as crianças estão mais ligadas ao Invisível do que nós.
- Mas o que essa profecia significa de verdade? – Eu perguntei, ainda muito confuso.
- Não tenho certeza, mas penso que ela diz que de nossa família surgirá algo que purificará o mundo do mal no futuro. E por isso os Comensais quiseram nos destruir.
- Se sabíamos da profecia, porque não tomamos cuidados? Por que Isa não me contou antes?!
- Porque sua irmã o amava demais e não queria preocupá-lo ou machuca-lo. Foi uma decisão dela, ela decidiu que daria sua vida por nós, acreditando em um futuro que acho que apenas ela conhecia com certeza... – Mamãe falou, lágrimas escorrendo lentamente de seus olhos verdes. – Quanto a nós... Foi por pura fraqueza. Não imaginávamos que a traição viria de nosso próprio sangue. Por isso eu e seu pai preparávamos algo às escondidas.
Ela então pegou um pergaminho de dentro da caixa e o tocou com a varinha. Letras negras começaram a surgir por todo o papel antes em branco, tomando a forma de frases completas. Aos poucos pude ler o que havia escrito ali, surpreendendo-me ao ler o título: “Clã Chronos”. Tal nome fez meu coração saltar e senti uma energia tremenda apenas do nome.
- Começamos a organizar o Clã Chronos. Este pergaminho, é a autorização do Ministro para organizarmos uma instituição antitrevas, com mesmo papel que a Divisão de Aurores. Ou seja, teríamos o direito de treinar novos aurores, além de organizarmos nós mesmo nossas investigações e caçadas. Esse documento nos dá total autonomia em relação ao Ministério, contanto que também nos coloquemos ao seu dispor. – Ela falou, entregando-me o documento para lê-lo com atenção. Eu o li rapidamente, meu coração batendo cada vez mais rápido. Eu sentia como se esse momento fosse um dos mais importantes de minha vida.
- Tem a assinatura do Ministro...E de outras pessoas...
- Sim, tem a assinatura minha, de seu pai, do Ministro, não apenas do Ministro Britânico, mas também a de todos os Ministros da Europa. Sim, filho, nosso Clã recebe autonomia de toda a Europa e pretendo que depois de todo o mundo. – Eu ainda estava surpreso, mas feliz por tal notícia. Aquele documento dava a nós o poder de criar um “exército” antitrevas com direito a agir em qualquer lugar da Europa...Era algo que eu nunca sonhei ver em minha vida. – É seu dever, como meu sucessor levar estes planos a frente. E é a razão também de meu outro assunto.
- Estou todo ouvidos, mãe.
- Quero que viaje comigo pelo mundo e apresentarei você a todos os bruxos importantes dessa época, preparando-o para me suceder e fundar o Clã. E para isso você precisa ser treinado. Deseja iniciar seu treinamento desde já?
- Com certeza, mãe. – Apesar da tristeza, aquela conversa acendera em mim um espírito de vontade e poder que me fez sentir-me orgulhoso.
- Muito bem, seu treinamento começará amanhã. Eu começarei a organizar essa viagem, que ocorrerá ainda em suas férias, portanto não poderei ministrar suas aulas. Os McGregors aceitaram dar aulas a você enquanto eu não puder, e estarão ensinando-lhe a partir de amanhã. Não apenas a você, mas a todos os seus amigos.
- Meus amigos também!?
- Sim, eu convidei a todos eles e mostraram-se muito interessados e acho excelente, pois assim vocês poderão se ajudar.
Eu a abracei feliz pela primeira vez desde que a Traição ocorrera, pois teria a chance de vingar a todos. Eu começaria a treinar com meus amigos para que juntos pudéssemos construir o futuro que Isa e papai sonharam.
Pensando nela, antes de me deitar, pois o dia seguinte seria cheio, entrei em seu quarto, que continuava o mesmo desde a última vez que ela viera ali. Eu sentei-me em sua cama e deitei em seu travesseiro, lembrando-me das vezes em que ela contara histórias para mim ali, das vezes que me consolara e me animara naquele mesmo quarto. Lágrimas vieram aos meus olhos e não pude conte-las, mergulhando o roso no travesseiro e chorando como nunca chorei. Então notei que havia algo debaixo do travesseiro, e com os olhos ainda molhados, retirei um diário debaixo dele. O diário tinha o tamanho de um livro comum e sua capa era de couro, e escrito com uma tina branca, havia “Diário de Gomeisa” no topo da capa. Eu abracei o diário com força, chorando novamente. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e afastei o diário de mim, com medo de danificá-lo, só então reparei que ele brilhava. Surpreso, abri o diário e olhei a primeira página, que estava em branco. Porém, diante dos meus olhos, palavras douradas começaram a surgir e reconheci a letra de Isa, começando a ler o recado:

“Alderan, meu irmão querido.
Se está lendo essas palavras é porque não estou mais em seu mundo, pois cumpri minha parte da profecia. Há muito tempo eu sabia da tragédia que poderia acontecer a nossa família, eu repito, que poderia. Tudo que podia ser feito para impedir a tragédia foi feito, mas o destino quis que Procyon fosse corrompido, tramando nossa destruição. Porém somos mais fortes do que ele, ou do que seu Mestre das Trevas, pensam. Somos os filhos do Deus Chronos, possuímos seu sangue, sua alma e seu poder, sendo seus representantes mortais.
Chronos, o homem que você viu em meu derradeiro momento, fundou nossa família a milhares de anos, em datas imemoriáveis. Nossa família cresceu sempre sob sua benção e poder, sempre guiados por ele, através de seus Avatares e Encarnações. Eu fui sua Encarnação na Terra, guardando sua alma, tendo sua proteção e sua luz. Você, e sei que mamãe também, são seus Avatares, possuindo o poder do Deus. Vocês são seus instrumentos para guiar-nos para um mundo melhor. Não apenas os Chronos, mas também o mundo em si. Ele sabe do passado e do presente, e sabe que nos reergueremos, mais fortes do que nunca, voltando ao apogeu, e derrotando a destruição.
Mas esse apogeu não será alcançado por mim, por você ou por seus filhos. Serão seus bisnetos os responsáveis por terminar de erguer os Chronos, marque minhas palavras, querido irmão. Você é a melhor pessoa que eu conheci, dono de uma força como poucos e uma determinação ainda maior. É de seu sangue que nascerão os responsáveis por reerguer os Chronos de vez, e por participarem da mudança do mundo.
Tempos negros virão. Você passará por provações tremendas, e temo dizer que Destino foi especialmente cruel com você. Mas quero que guarde sempre em seu coração a sua força e sua visão de mundo, para salvar o máximo de pessoas que for capaz. Nada vem sem sacrifícios, isso foi um dos maiores ensinamentos dele. Eu fiz o meu, sacrifiquei minha existência em prol de um bem maior, em prol de um sonho, em prol de um mundo novo, e não me arrependo de forma alguma. Ele tentou me impedir, tentou a todo custo mudar o Destino, mas eu decidi que era minha vez de fazer sacrifícios. Sinto-me triste apenas por você e mamãe, pois sei que a dor de vocês foi enorme e inimaginável, e não o culparei se me odiar. Mas nunca se esqueça de quanto eu o amo, assim como amo mamãe, assim como papai ama vocês. Nós demos nossas vidas acreditando no futuro que vocês dois construiriam, um sonho nosso e de todos de nossa família.
Este diário contem minhas lembranças desde o momento em que o vi pela primeira vez, desde o momento que vi pela primeira vez aqueles poderosos olhos dourados, as asas brancas e a armadura dourada. Tentarei contar tudo que eu puder e sei, mas há coisas que não podem ser expressas em palavras, apenas pode-se sentir. Ele é uma dessas coisas. Ele está acima de tudo que se possa imaginar, sua bondade é maior que de qualquer outro, mas sua fúria também é a maior de todas. Não é a toa que ele é tão temido, mas também tão amado.
Espero que minhas lembranças possam guiá-lo nos caminhos negros que haverá de trilhar. E espero do fundo do meu coração que seja feliz meu irmão, e enfrente todos os tortuosos caminhos a sua frente, sempre acreditando em si mesmo e em sua luz.
Com eterno amor, de sua
Gomeisa Asteris Chronos.”


Eu terminei de ler sua última carta com lágrimas ainda mais grossas em meus olhos, emocionado por suas palavras. Tais palavras animaram meu espírito de certa forma e abracei o diário novamente, enquanto apertava os punhos. Não, Isa, eu nunca odiaria você, eu apenas odiaria para sempre o Traidor Procyon.
Comecei a ler o diário, cujo conteúdo era muito vasto. O diário era encantado magicamente, de modo que as letras surgiam no papel sempre que eu virava uma página, e o diário parecia interminável. Passei a noite inteira lendo-o, surpreendendo-me a cada linha, porém sabendo que seriam informações muito valiosas para mim e para muitos no futuro...

Thursday, August 06, 2009

- Thomas, Frédéric, andem logo! – gritei da sala, impaciente.
- Eugène, você foi ajudar, não atrasar mais! – o Sr. Delacroix consultou o relógio – Desse jeito vamos nos atrasar.

Os três saíram correndo do quarto, meus irmãos de mochila nas costas e Eugène pegando a sua com seu pai. Era aniversário do Príncipe Remy e no lugar de uma comemoração grandiosa, ele havia convidado alguns amigos de sua idade para passarem o fim de semana no Palácio. Sabia que meus irmãos eram dois dos melhores amigos de Remy, mas a idéia de deixá-los naquele Palácio cheio de peças quebráveis e absurdamente caras me apavorada.

- Por Merlin, se comportem ok? – supliquei enquanto conferia se tinham guardado as coisas necessárias que separei e deixei em cima da cama – Não façam bagunça, obedeçam a quem ficar responsável por vocês, não corram dentro do Palácio e se acontecer alguma coisa, usem esse espelho de duas vias para me chamar – e entreguei a metade do meu espelho a Thomas, que era mais responsável.
- Relaxa, mana – Frédéric sorriu despreocupado – Não vamos dar nenhum prejuízo pra Realeza de Mônaco.
- É bom mesmo que nenhum dos três dê prejuízo – Sr. Delacroix falou meio rindo e meio sério – Teríamos que hipotecar a casa pra pagar um único vaso daqueles que enfeitam o hall de entrada. Estão prontos? Podemos ir? – eles confirmaram animados e ele se virou para mim e meu avô, de pé perto da porta – Trago eles de volta amanha a tarde, não se preocupem.
- Obrigado, Pierre – vovô agradeceu – Na próxima eu levo os meninos.

O Sr. Delacroix apertou a mão do vovô sorridente, embora seu sorriso ainda não fosse inteiramente feliz, e saiu com os meninos porta afora, desaparatando quando pisaram no quintal. No mesmo instante vovô pegou sua carteira em cima do balcão da cozinha e a guardou no bolso, conferindo se estava com tudo que precisava em mãos.

- Vou aproveitar que todos vocês estão fora e visitar um velho amigo para uma partida de pôquer sem compromisso – me avisou sorridente.
- Ah, não vou mais sair hoje, mas tudo bem, acho que vou ler alguma coisa – não consegui disfarçar muito bem o desapontamento. Esperava poder passar um tempo a sós com ele, sem meus irmãos gritando pela casa.
- Pensei que ia sair com seus amigos – dei de ombros, negando, e ele me olhou desconfiado – Precisa de dinheiro?
- Não vovô, não estou precisando de dinheiro – neguei rápido demais, era péssima para mentir – Só remarcamos para semana que vem.
- Bom, se precisar, vou deixar aqui na estante – e colocou 3 galeões debaixo do cinzeiro – Não vou demorar, é só uma partida. Estarei de volta antes de você dormir.

Vovô me lançou um sorriso carinhoso e piscou, desaparatando. Fiquei sozinha na casa e decidi gastar meu tempo à toa lendo um dos livros de sua coleção. Já tinha lido todos eles, mas era sempre bom reler meus favoritos, como Hamlet. Puxei o livro da estante quando o localizei e me acomodei em minha cama perto da janela. Diferente dos outros dias de verão, hoje o calor não estava insuportável e uma brisa agradável entrava pela fresta aberta. O vento leve era tão reconfortante que peguei no sono antes de chegar à segunda pagina do livro.

Quando acordei, a brisa agradável havia dado lugar a um vento frio e doloroso. Levantei esfregando as mãos nos braços, me abraçando para tentar me aquecer enquanto fechava a janela. O sol já havia se posto há muito tempo e o céu estava negro, quase sem estrelas, o que indicava que teríamos um tempo nublado no domingo. Sai da cama com um ar de preguiça assustador e me arrastei até a sala para conversar um pouco com meu avô.

- Vovô? – falei alto quando sai do quarto, mas a casa continuou silenciosa – Vovô? Está em casa?

Nenhuma resposta. Fui até a sala e não havia sinal dele, assim como na cozinha e nos quartos. A casa estava exatamente do jeito que a deixei antes de pegar no sono, até os 3 galeões continuavam debaixo do cinzeiro. Consultei o relógio para checar se não tinha dormido tanto quanto pensei, mas uma onda de pânico tomou conta de mim quando percebi que já se aproximava da meia noite. Vovô nunca chegou tão tarde em casa sem nos avisar e ele certamente não havia tentado telefonar. O barulho do telefone era tão alto que acordava até um urso hibernando. Vesti um casaco qualquer e sai para o quintal, dando uma volta no quarteirão à procura de algum sinal dele, mas o pânico me consumiu ainda mais ao perceber que ele não estava em lugar algum próximo a casa. Voltei apressada, tentando pensar no que fazer, e apenas uma idéia me ocorreu. Tinha que pedir ajuda.

- Alô? – ouvi a voz sonolenta de Henri do outro lado da linha.
- Henri? – falei com urgência na voz e pude ouvi-lo se agitando – Desculpe ligar a essa hora, mas não sabia para quem mais pedir ajuda, Bianca e Kalani foram passar o fim de semana em Saint-Tropez.
- Dani? – ele ainda parecia confuso, mas já estava alerta, sem a voz sonolenta – O que aconteceu? Você está bem?

Expliquei a ele rapidamente o que havia acontecido, da minha preocupação por meu avô não ter voltado para casa mesmo tendo afirmado que viria cedo, e em menos de 5 minutos ele estava aparatando no meu quintal. Deixei-o entrar e o abracei na mesma hora, me sentindo um pouco mais calma só por ter seus braços em volta do meu corpo. Henri pediu que me acalmasse e assumiu o controle de tudo, conseguindo que em menos de meia hora todas as pessoas próximas a nossa família estivessem cientes do que estava acontecendo. O Sr. Delacroix e Pierre chegaram às pressas na minha casa e logo depois a Sra. Perrineau apareceu também. O Sr. Delacroix organizou um esquema de busca para ele, Pierre, Henri e alguns vizinhos que se ofereceram para ajudar e eu fiquei em casa com a Sra. Perrineau, ligando para hospitais e delegacias. Mônaco não era tão grande assim, não era possível que não conseguíssemos encontra-lo dentro de algumas horas.

Mas não foi bem o que aconteceu. Nenhum hospital, delegacia ou até mesmo clubes de Mônaco sabiam do paradeiro do meu avô. Minhas esperanças estavam na equipe de busca que saiu pelas ruas tentando localiza-lo, mas as expressões cansadas e derrotadas que adentraram a porta da sala varreram minhas expectativas e novamente fui tomada por uma onda de pânico. Henri sentou ao meu lado e me abraçou novamente, falando alguma coisa para tentar me acalmar, mas eu não conseguia assimilar as palavras e compreender o que era dito.

Naquela noite a Sra. Perrineau insistiu que fosse passar a noite em sua casa, mas agradeci o convite e recusei. Queria estar em casa caso vovô aparecesse ou alguém trouxesse noticias, então ela se ofereceu para ficar comigo. Henri também não foi embora e já estava quase amanhecendo quando o Sr. Delacroix voltou de mais uma busca nas ruas com Pierre e avisou que ia em casa trocar de roupa e partir para a parte mais afastada da cidade, levando consigo algumas fotos que lhe entreguei do vovô e abordando as pessoas nas ruas para saber se alguém o vira. Depois de algum tempo a Sra. Perrineau e Henri adormeceram sentados no sofá, mas eu não consegui pregar o olho. Onde vovô foi parar?

(Continua...)

Sunday, August 02, 2009

Mônaco, França – Agosto de 1959

Pensava que passaria as férias de verão entediada, apenas na companhia de Kalani e Danielle, mas me enganei. Antes mesmo do fim de julho, com exceção de Philipe, já havia reencontrado toda a turma. Depois da morte de toda a família, a mãe de AJ organizou umas aulas de Defesa Avançada e nos deu a oportunidade de participar, então não pensei duas vezes e me inscrevi. Todos os dias da semana, na parte da manha, pegava uma chave de portal e me reunia com o resto do grupo em Londres, onde aconteciam as aulas. Danielle e Kalani não se animaram, mas encontrava lá Kwon, Andreas, Marcel e Anabela.

Na parte da tarde, quando não tinha treino de DA, passava meu tempo na companhia de Kalani. Dani às vezes estava conosco, mas ela tinha namorado e Henri não havia viajado com a família, então ela dividia seu tempo entre nós dois e ele, e é claro que perdíamos de lavada. Mesmo sem a presença da Dani, conseguia me divertir. Kalani era uma excelente companhia, me fazia rir o tempo todo e dessa forma não pensava em Johnny e nem no fato do meu namorado estar há milhares de quilômetros de distancia, em outro continente. E da mesma forma que ele me mantinha entretida para não pensar em Philipe, eu não o deixava pensar nos amigos que ia visitar no Havaí. Nos víamos todos os dias, se ele não aparecia na minha casa, eu ia até a casa dele. Descobrimos muitas coisas em comum, era como se já nos conhecêssemos há anos, e não apenas desde o ano passado.

Era assustador o quanto éramos parecidos, mas assustador mesmo foi o que aconteceu no fim do mês de Julho. Era véspera do meu aniversário e havia acabado de me despedir de Kalani, quando alguém bateu na porta do quarto...

***

19 de Julho de 1959 – Casa dos Delacroix

- Então nos vemos amanha, e Danielle jurou que não vai furar – Kalani parou antes de sair do meu quarto.
- É bom mesmo que não fure, é meu aniversário! – falei indignada e ele riu.
- Até amanha – ele sorriu e fechou a porta ao passar.

Voltei a me esparramar na cama assim que ele saiu e fechei os olhos, cansada. Havia caminhado o dia inteiro pela cidade, sem rumo, e minhas pernas suplicavam por um descanso. Já estava quase totalmente relaxada, decidida a dormir sem tomar banho, quando ouvi uma batida na porta. Abri um olho só e vi a imagem de Pierre entrando no meu quarto, carregando uma caixa quadrada.

- Posso entrar?
- Já entrou... – respondi cansada, sentando na cama – O que quer?
- Primeiro, quero que você se desarme, não vim brigar – Pierre fechou a porta e me encarou sério – Vim apenas conversar.
- Não estou armada, só um pouco cansada – me defendi – Mas quer conversar sobre o que?
- Johnny – falou direto e me mexi desconfortável na cama – Não pode fugir pra sempre, Bianca. Desde que ele morreu, não trocamos uma única palavra.
- Foi muito difícil lidar com a morte dele, mas eu consegui encontrar um sossego, por favor, não tire isso de mim.

Pierre não respondeu e colocou a caixa em cima da cama, sentando também. Começou a desamarrar os laços que a fechavam e abriu a tampa, revelando um tecido rosa-choque embolado, com uma goles por cima. Ele tirou a goles primeiro e a girou na mão, como se a admirasse. Podia até ver o brilho em seus olhos, um brilho de orgulho e saudade, enquanto fitava a bola avermelhada. Pierre desviou os olhos dela e depois de um longo suspiro, a estendeu para mim.

- 13 de Março de 1957. Os Quiberon Quafflepunches perdiam de 240 a 80 para os Abutres de Vratsa. Johnny Latour, com o braço enfaixado por causa de um balaço, roubou a goles de Igor Petrov e, menos de um minuto antes de Henri Duchamp capturar o pomo, marcou os dois gols que deram a vitória a seleção da França na Taça Européia de Quadribol. Mesmo machucado, Johnny salvou o time da derrota e ganhou a goles de ouro, como melhor artilheiro da Liga. Naquele dia ele trouxe a goles da vitória pra casa e guardou, esperando um dia dar ela a você. É sua.
- Não, não posso ficar com essa goles – empurrei de volta pra ele.
- Claro que pode, é sua de direito – ele insistiu e a segurei nas mãos – Johnny queria que ficasse com você. E acho que isso também deve ficar com você – ele puxou da caixa o velho uniforme de Johnny do Quiberon Quafflepunchers, ainda sujo de sangue no braço direito – Ele guardou sem lavar, dizia que era para lembrar sempre que mesmo com o braço quase partido, ajudou o time a vencer. São seus tesouros e acho que nada mais justo que fiquem com você.
- Por que está fazendo isso? – perguntei confusa, passando a mão na mancha de sangue seco no braço do uniforme.
- Eu estava lá, onde aconteceu o acidente, porque ouvi Johnny me chamar – Pierre começou a falar com a voz embargada, como se fosse doloroso – Ele me pedia para voltar e cuidar de você. Não entendi na hora, até voltar e ver que você ainda estava viva. Chamei o socorro e fique lá, esperando, sem poder fazer nada para ajudá-los.
- Philipe me contou que foi você quem chamou a ambulância. Eu também ouvi Johnny falando comigo, me pedia para ficar calma, porque ele estava bem.
- Eu achei que tinha entendido o recado dele, até encontrar essa caixa – Pierre continuou – Três semanas antes do acidente ele me confrontou querendo saber por que nunca havia a apoiado em seu desejo de jogar quadribol como todos nós, dizia que não entendia. Ouvi Johnny elogia-la por horas, dizer o quanto você era talentosa e que era um desperdício não poder jogar e não contar com o nosso apoio, e não pude encontrar um argumento sequer para rebatê-lo. Percebi que não tinha um real motivo para não incentiva-la, que estava apenas concordando com o nosso pai, que aquela não era uma opinião minha sobre o assunto. Johnny tinha a ambição de fazer de você uma sucessora, de fazer com que o substituísse na vaga de artilheira do Quiberon Quaffepunchers, sabia disso?
- Não... – larguei a goles em cima da cama e segurei as vestes dele, apertando o tecido nas mãos – Mas como posso jogar por um time da Liga Européia, se não tenho base nenhuma por não jogar na escola?
- É ai que eu entro – Pierre pegou a goles de cima da cama e a girou na mão com habilidade – Não chego aos pés de Johnny em cima de uma vassoura, mas sou um excelente técnico, vou ajudar o treinador Perrineau nessa temporada. Vou treinar você.
- Acho que já sei jogar quadribol, não preciso aprender nada.
- Claro que você sabe, mas será que agüenta mais de uma partida? – ele questionou – Ou dura uma partida inteira, de horas? – fiquei sem responder e ele emendou – Você é boa, Bianca, mas mesmo que consiga se sobressair entre os jogadores de Beauxbatons, se fizer os testes para reserva do Quiberon Quafflepunchers, vai ser massacrada. Você tem habilidade, mas não tem técnica.
- E por isso você quer me treinar? – falei descrente – Assim do nada?
- Estou tentando consertar um erro antes que seja tarde demais. Vai engolir o orgulho, como eu estou fazendo, e aceitar a minha ajuda ou prefere passar o resto da vida acompanhando os campeonatos de quadribol da arquibancada?


***

- Mais rápido, Bianca! Vai estourar o tempo, ande!

Acelerei o passo e alcancei a mão de Pierre antes que ele pudesse apertar o botão do cronômetro. Apoiei as mãos no joelho, o rosto vermelho e quente, quase sem ar.

- 27 segundos. Tem que fazer em 20 segundos, sei que pode melhorar esse tempo.
- Dá um tempo, ok? Estou fora de forma.
- Você não está tendo aulas de Defesa Avançada todos os dias de manha?
- O que você acha que está me deixando cansada? – respondi azeda – E não tenho que ficar correndo de um lado para o outro nas aulas.
- Você topou ser treinada por mim e eu fui treinado pelo Perrineau, o que faz com que eu seja linha dura mesmo, mas é pensando no que é melhor pra você.
- Eu sei, eu sei – falei tentando recuperar o ar e ele me estendeu uma garrafa com água – Eu vou me empenhar mais, quero fazer isso, mas antes vamos fazer um trato? Pare de me chamar de Bianca, prefiro Bia.
- Só se você parar de me chamar de Pierre e começar a me chamar de PJ – ele respondeu e ri, concordando com a cabeça – Bom, trato feito. VAMOS LÁ, BIA! ATÉ O FIM DO CAMPO E DE VOLTA AO PONTO INICIAL EM 20 SEGUNDOS!

Ele assoprou um apito irritantemente alto e levantei outra vez, tornando a correr até o outro lado do campo de quadribol e voltando até onde ele estava de braço estendido. Meu relacionamento com Pierre, ou melhor, com PJ, nunca foi dos melhores. Passamos 17 anos tendo nossos altos e baixos, entre muitas brigas e poucos momentos de companheirismo, mas parecia que as coisas começavam a melhorar. Tinha certeza de que, de onde estivesse, Johnny estava observando a isso tudo e sorrindo satisfeito. Ele tinha, enfim, feito seus irmãos mais novos se entenderem.