Friday, June 26, 2009

Night of Fate - parte III

- Adeus, querido. Sempre amarei você.

No instante seguinte houve a explosão de luz verde as suas costas e minha irmã caiu sem vida em meus braços, e eu cai abraçado a ela, rolando pelo chão.

She is gone
Leaves are falling down
The tear maiden will not return
The seal of oblivion is broken
And a pure love's been turned into sin

At the dawn of our living time
Hope may cover all cries
Truth lurks hidden in the shadows
Dreams might be filled with lies
Soon there will be night
Pain remains inside


Eu não conseguia acreditar.
Eu simplesmente não podia acreditar.
O corpo sem vida dela estava ali em meus braços, mas a dor era tanta que eu não conseguia acreditar. Eu desejei ter toda a dor do Cruccio em vez daquela dor. Eu desejei estar em seu lugar. Isa, a pessoa que eu mais amava no mundo, estava ali morta em meus braços. Os olhos fechados, o corpo mole e fraco. Ela parecia sorrir e lembrei-me de suas últimas palavras. “Adeus, querido. Sempre amarei você”.

Suddenly it seemed so clear
All the blindness was taken away
She closed her eyes
And she called out my name
She was never ever seen again

Harvest of sorrow
Your seed is grown
In a frozen world full of cries
When the ray of light shrinks
Shall cold winter nights begin

She is gone
And I fall from grace
No healing charm covers my wounds
Fooled's the dawn
And so I am
Fooled by life and a bitter doom
To bring you the end of the day


Eu gritei seu nome, desesperadamente, enquanto a apertava a mim, chorando e gritando por ela. A dor era maior do que tudo que já senti, e eu mal conseguia me manter parado, sacudido por fortes soluços. Ela, porém não respondia, ela nunca mais responderia. Nunca mais sorriria para mim, nunca mais me abraçaria, nunca mais choraria comigo, nunca mais me daria seu carinho, amor e calor. Nunca mais sentiria sua energia e seu cheiro, nunca mais estaria ao seu lado.

I am lost in the black chamber
There's no way to turn back
It takes me down forever more
And death could be so sweet


Eu ainda podia sentir a presença do homem e vi que ele chorava tanto quanto eu, desesperadamente. Ele me olhou e, pelo que pareceu uma eternidade, nossos olhares se encontraram e eu vi o quanto a perda dela era dolorosa para ele, assim como era para mim. Ele então estendeu sua mão para mim, dizendo:
- Emprestarei a você parte de minha força, Alderan. Era o desejo dela que você se torne um homem poderoso. Venha, filho, vingue a morte de nossa querida Isa.

Eu estiquei a mão e assim que ele me tocou sentiu uma energia enorme tomando todo meu corpo. Senti como se queimasse de dentro pra fora, consumido por um poderoso e eterno fogo. Eu senti os poderes dele dentro de mim e gritei o nome de Isa mais uma vez, abraçando-a com força.
Ouvi mamãe gritando o nome de meu pai também e soube que ele a havia tocado também. Nesse momento voltei a realidade e ouvi Procyon praguejando enquanto lançava uma quantidade enorme de feitiços contra mim, mas sem surtir efeito algum. A figura do homem pouco a pouco desapareceu, como se ele só existisse ligado a minha irmã. Vi que era ele que me protegia e soube que também era protegido por ela, que fez um último sacrifício em meu nome.
Eu e minha mãe nos colocamos de pé juntos, gritando de raiva e dor. Nossos olhos brilhavam em prateado e juntos apontamos um dos braços para Tristan, que estava caído no chão, chorando também. Uma luz prateada o envolveu, uma barreira para protege-lo, pois no momento seguinte, apontamos nossas varinhas para Procyon e liberamos uma explosão de luz prateada. A explosão destruiu toda a casa de uma só vez, matando todos os Comensais que estavam dentro dela. Procyon havia corrido antes e foi pego apenas pela explosão do feitiço e não por ele em si, sendo jogado centenas de metros para longe da casa.
Eu e minha mãe corremos atrás dele e dos últimos Comensais que ainda restavam, disparando feitiços com ferocidade, e a cada feitiço um Comensal caia no chão morto. Não mostraríamos piedade. Em meio a minha fúria pude ver que no céu havia uma grotesca imagem igual à das tatuagens e com raiva apontei a varinha para o céu e uma explosão atingiu o centro da caveira, fazendo-a desaparecer no ar. Aurores chegavam naquele momento e correram para socorrer Tristan, enquanto alguns vinham atrás de nós, que perseguíamos os Comensais.
Ao se afastarem da mansão, os Comensais começaram a tentar aparatar, mas os impedíamos com feitiços e eles caiam inconscientes no chão. Porém Procyon conseguiu escapar, fugindo de nossa fúria. Eu apontei a varinha para um Comensal que gemia no chão, decidido a mata-lo, mas me contive antes, não seria como esses vermes.
- Chronos! Rigel, Alderan! Graças a Merlin vocês estão bem! – Ouvi um Auror gritar enquanto corria para nós. Haviam muitos bruxos do Ministério que espalhavam-se pela fazenda, procurando sobreviventes e presos. Eu reconheci o cunhado da Millie, Kyle Mcgregor, e desabei em seus braços, sem forças. – Por Merlin! Alderan, você está bem? Chamem os médicos imediatamente!
- Kyle, eram Comensais, liderados pelo Procyon! – Mamãe falou, ainda chorando, enquanto ajudava Kyle a me segurar.
- Seu próprio filho, Rigel?! Não pode ser! – Kyle falou chocado.
- Ele não é meu filho! Aquele maldito matou toda a família! – Mamãe falou, as lágrimas e o desespero voltando.
- Kyle, Rigel! Os médicos estão chegando, mas temo que não há muito o que fazer. – Uma outra Auror falou, correndo para nos ajudarmos.
- Obrigada, Sarah...Cuide de meu filho, por favor. Connor obrigado por vir também. – Mamãe falou me indicando com a cabeça. O fluxo de energia que eu recebi ao tocar a mão do homem foi demais para o meu corpo e eu estava muito fraco.
- Sempre a sua disposição, Rigel. Precisamos leva-los para o St. Mungus agora! – Connor Mcgregor falou, apoiado por Sarah Mclnnes e pelo irmão Kyle.
- Não! Levem-me para Isa... – Eu consegui falar sem forças.
- E o garoto? Tristan está bem? – Mamãe falou enquanto voltamos com dificuldade para a casa. Ela estava abraçada a mim, os dois atingidos por fortes soluços.
- Ele está bem, está inconsciente, mas bem. Que garoto, hein! Ajudar os amigos enfrentando dezenas de Comensais mais velhos não é pra qualquer um. – Kyle falou, admirado por Tristan.
- Ele nos ajudou, é mais digno do nome Chronos do que aquele traidor! – Eu falei, trincando os dentes.
- Vamos cuidar dele, não se preocupe. – Ouvi Connor falando enquanto chegávamos perto dos escombros da casa.
- É melhor você ir procurar a Millie, Kyle, ela pode ter algum problema ao ouvir que fomos atacados. Ela vai ficar preocupada com eles. – Mamãe falou, os olhos vendo toda a destruição. – Ainda mais que amanhã os jornais estarão cheios com essa notícia...Abutres.
- Vou procura-la. O Diretor já sabe, eu o avisei antes, vou pedir que chame a Millie. Ele deve vir pessoalmente ver vocês, ele não saiu de Beauxbatons preocupado com a segurança dos alunos. – Kyle falou, virando-se para sair e ir para a escola, mas o chamei antes.
- Procure a Alice Oceanborn, por favor. – Foi a última coisa que consegui falar antes de ver o corpo de Isa. Eu me desvencilhei de todos e corri para ela, abraçando seu corpo novamente. Ela realmente parecia sorrir e beijei seu rosto uma última vez enquanto me entregava ao desespero e gritava seu nome mais uma vez. Mamãe ajoelhou-se ao meu lado e me abraçou chorando pela filha. O corpo de papai estava caído ao lado de Isa e nós dois seguramos a mão de cada um deles, sofrendo amargamente. Nós choramos por um longo tempo, pela minha irmã, pelo meu pai, pelos meus avós e tios, por toda a família.
Eu desmaiei nos braços de mamãe, consumindo pela dor e pela tristeza, porém ainda segurando a mão de Isa, que não soltei mesmo desacordado.
Nós nunca perdoaríamos o Procyon, nunca. E iríamos caçá-lo pelo resto de nossas vidas, jamais descansando até ter nossa vingança. Ele matou toda a família Chronos, apenas eu e mamãe sobrevivemos. De todos que estavam na fazenda naquele jantar da família, apenas quatro estavam vivos: eu, mamãe,Tristan e o Traidor. Os aurores contaram quase 200 mortos, entre eles 40 Comensais, e prenderam apenas 5 Comensais, e através deles descobrimos que a maioria deles não eram Comensais de verdade, eram aspirantes, mostrando que eles estavam recrutando, o que deixou todos muito preocupados. Em uma só noite, a família Chronos foi quase extinta, apagada da face da Terra. Ela só não foi completamente destruída devido ao sacrifício de duas pessoas. Antaris Asteris Chronos e Gomeisa Asteris Chronos. Duas das pessoas mais importantes pra mim estavam mortas e a pessoa que eu mais amava morreu dando a vida por mim. Eu senti como se meu coração morresse junto.

Harvest of sorrow
Your seed is grown
In a frozen world full of cries
When the ray of light shrinks
Shall cold winter nights begin



- Adeus, querido. Sempre amarei você. – Isa falou suas últimas palavras para aquele que ela estava disposta a sacrificar tudo, aquele que ela sabia que construiria um futuro diferente, aquele que ela sentia orgulho de ter como irmão.
O jato de luz verde explodiu em suas costas, e sua vida extinguiu-se. Porém, ela nada sentiu, pois ele a protegia. Fora decisão dela sacrificar-se pelos que amava, porém ao menos ele não a deixaria sentir dor. Chronos amava demais seus protegidos para vê-los sofrer.
Ao mesmo tempo em que o corpo sem vida de Isa caia nos braços de Alderan, sua alma voou de seu corpo para uma planície cheia de flores e beleza. Ela estava de pé, encarando o horizonte e sentindo o vento terno em seu rosto. Mas não estava sozinha. Chronos estava ali com ela, encarando-a sorrindo. Lágrimas vieram aos olhos de Gomeisa e ela correu para ele, jogando-se em seus braços. Eles finalmente podiam se tocar e ela o abraçou com força, deixando as lágrimas de felicidade saírem.
- Bem vinda, minha filha. – Chronos falou enquanto acariciava os cabelos de sua protegida e a abraçava ternamente, cheio de carinho e amor.
- Chronos... – Ela falou em meio às lágrimas que desciam pela sua face. Ele, porém, as limpou e sorriu para ela.
- Não é hora de chorar. Você fez um sacrifício enorme, mostrou um amor e carinho únicos. Sinta-se feliz. Agora estamos juntos, e você pode finalmente conhecer todo meu passado.
Ele falou sorrindo e ela sorriu também, feliz por estar em seus braços. Ele beijou sua testa e ela ficou radiante de felicidade. Ela o amava como nunca amou homem algum, mas sabia que ele amava sua eterna companheira, mas ela estava feliz apenas por estar ao lado dele, podendo abraça-lo finalmente. Ela o abraçou novamente, mergulhando a cabeça em seu peito, apertando-o com força. Do fundo de seu coração ela desejou: “Alderan, seja feliz e torne-se o homem que reerguerá os Chronos, trazendo a luz das trevas. Cumpra nossa profecia. E nunca se esqueça que sempre o amarei”.

N.A.: Dark Chamber e Harvest of Sorrow, ambas do Blind Guardian.

Tuesday, June 23, 2009

Night of Fate - parte II

Assim que eu cai na cama eu dormi, sem conseguir sequer pensar de tão cansado. No meu quarto estávamos eu, Procyon, Tristan e meus primos John e Lincor, e todos fomos dormir rapidamente. Porém, no meio da noite, devia ser umas 3 da manhã, eu acordei, sentindo novamente algo estranho. Eu levantei da cama e vi que Procyon não estava e decidi ir dar uma olhada pela casa. Silenciosamente, eu sai do quarto e fui até o salão de entrada, e com certo espanto vi Isa olhando pela janela. Novamente eu tive a impressão de ver um brilho dourado envolvendo-a, e parecia haver um homem ao seu lado, mas logo a impressão sumiu, deixando apenas a imagem de minha irmã, pensativa e distante.
- Isa? – Eu falei, descendo as escadas e indo para perto dela. Eu peguei o casaco que eu usava e estendi para ela, enquanto ela sorria e me agradecia. – Sem sono?
- Um pouco. E você, maninho?
- Acordei no meio da noite, e não consegui voltar a dormir, fora que não vi o Procyon na cama.
- Ele já saiu então... – Isa falou, suspirando e voltando a olhar para a janela. Seus olhos agora tinham um forte brilho de decisão.
- O que disse?
- Nada. Ele deve ter saído para andar um pouco. – Ela falou sorrindo. Ela se virou pra mim e me puxou para um forte abraço. – Sempre amarei você, maninho. Sempre, nunca se esqueça disso, não importa o que aconteça. Tenho orgulho de ter você como irmão e tenho orgulho do homem que você se tornará. – Ela falou abraçada a mim, a voz forte, porém marcada por sentimentos intensos, deixando-me confuso.
- Eu também sempre a amarei, mana. Nunca se esqueça que você é muito importante pra mim. Aconteceu alguma coisa? – Eu perguntei, enquanto acariciava os seus cabelos.
- Também estão sem sono? – Ouvimos papai falar, me fazendo pular. Ele desceu as escadas sorrindo, acompanhado por mamãe.
- Hoje foi um dia cansativo, mas muito feliz. – Mamãe falou, sorridente e alegre.
- Aconteceu alguma coisa? – Ouvimos a voz de Tristan descendo as escadas.
- Ah, Tristan. Ninguém dorme na casa? – Mamãe falou rindo.
- Fiquei um pouco sem sono e quando acordei nem o AJ nem o Procyon estavam na cama, fiquei meio preocupado. – Tristan explicou, descendo as escadas.
- Bem junte-se a nós, já o considero como meu filho. Só falta o Procyon para completarmos a reunião de família. – Papai falou, olhando em volta, como se pensasse em ir acorda-lo. Nós cinco estávamos perto da janela, conversando e olhando o céu cheio de estrelas.
- Acho que ele foi caminhar um pouco, quando acordei, ele estava fora da cama. – Expliquei, ainda abraçado a Isa. Senti quando ela apertou minha mão com mais força e no mesmo momento vi o semblante de meus pais mudarem da alegria para o alerta. – O que aconteceu?
- Alguém desativou as defesas da Fazenda. Vá acordar seus tios, imediatamente. – Mamãe me falou, enquanto sacava a varinha. Eu também saquei a varinha e corri para as escadas, seguido por Tristan.
- Já estamos aqui. – Tio Arthur falou, descendo as escadas, seguido por Tia Esther, Vovô Sirius, Vovô Acrab, Vovó Capella e Vovó Shaula. Rapidamente eles nos fizeram descer e formaram um círculo ao redor de mim, de Gomeisa e de Tristan, protegendo-nos. Claramente o objetivo deles era proteger os descendentes da família e o Tristan. Papai e mamãe se juntaram ao círculo e todos aguardávamos em silêncio.
- Onde está o Procyon? – Vovô Acrab perguntou, preocupado.
- Não sabemos, ele pode ter saído durante a noite. Precisamos saber se ele está bem. – Papai falou, preocupado com meu irmão.
- Eu estou bem, pai. – Ouvimos a voz de Procyon das sombras. A voz dele estava marcada por rancor e parecia estranha.
- Filho, venha pra cá rápido! Alguém desativou as defesas. – Mamãe falou, dando um passo a frente, indo para perto de Procyon, mas ele respondeu antes que ela chegasse muito perto.
- Sim, eu sei disso. Fui eu. – Ele falou, apontando a varinha para mamãe. Um jato de luz vermelha voou em sua direção, porém Vovô Sirius a empurrou de lado e recebeu o impacto do feitiço no peito e pude sentir sua vida desaparecendo. Vovó Capella gritou, enquanto mamãe caia no chão, vendo o corpo sem vida do pai. Todos ficaram estáticos e confusos, mas fui o primeiro a voltar ao normal e apontei a varinha para Procyon com raiva, pensando no feitiço mais destrutivo que eu conhecesse. Nesse momento, em um clarão intenso, dezenas de luzes surgiram nas sombras e feitiços de várias cores foram lançados contra nós.
Tia Esther moveu a varinha com rapidez e empurrou a mim, meus pais, Isa e Tristan para trás, enquanto Tio Arthur e meus avós formavam uma barreira, humana e mágica entre nós e os feitiços. Uma parede de luz prateada estava diante deles, enquanto eles se esforçavam para segurar os ataques. Das sombras, por trás de Procyon, surgiram dezenas de rostos encapuzados e com máscaras brancas. Eles levantaram as varinhas novamente e dessa vez, jatos verdes foram lançados, atingindo meus avôs e meus tios no peito. Eles caíram sem vida no mesmo momento, tendo a vida roubada pela Maldição da Morte. Apenas Tia Esther ainda estava de pé, o corpo de Tio Arthur na frente dela, morto de pé, protegendo a esposa. Nos juntamos a ela, e começamos a lançar feitiços. Isa fez o teto desabar, jogando os destroços contra os inimigos, porém eles eram muitos e juntos bloquearam o ataque. Tia Esther e mamãe duelavam juntas, jogando feitiços rapidamente, enquanto as figuras encapuzadas as atacavam com feitiços de diversas cores fortes. Papai, eu e Tristan duelávamos lado a lado, e nossas varinhas disparavam feitiços com rapidez. Isa lutava sozinha, disparando feitiços mais rápido do que qualquer um de nós, concentrando seus ataques em Procyon, que os ignorava, sendo protegido pelas figuras de preto.
- Matem o sangue-ruim primeiro. – Procyon falou, rindo e apontando a varinha para Tristan. Porém foi obrigado a desviar de um feitiço lançado por Tristan, que estava completamente furioso e lançou outro feitiço, obrigando Procyon e bloquear.
- Por que a presa, idiota? Está com medo da surra que vai levar de mim, seu maricas? Sou sangue-ruim sim, mas pelo menos não sou um nojento traidor do próprio sangue!! – Tristan gritou enfurecido e disparou outro feitiço contra Procyon, que bloqueou novamente. Eu e papai lançamos feitiços junto dele e o protegíamos, pois claramente os invasores queriam ataca-lo a qualquer custo, ainda mais depois dele ter insultado o Procyon.
Ouvimos gritos quando o resto da casa entrou na luta, e os homens de preto espalhavam-se e a toda hora ouvíamos o encantamento da Morte e luzes verdes. Vi um dos homens encapuzados ser jogado ao teto e depois ao chão com violência e pude ouvir sua coluna quebrando. Sua máscara caiu e reconheci Trimorgir, aluno do sexto ano da Nox.
- Matem todos, quero apenas eles vivos. Eles são meus. Deixem o sangue-ruim vivo, quero brincar com ele antes de mata-lo. – Ouvi Procyon falar para os outros homens, enquanto apontava para nós. Um homem encapuzado, que aparentava estar no comando também, assentiu e ao levantar o braço para lançar novos feitiços, vi que havia a tatuagem de uma caveira e uma cobra em seu braço direito.
Houve um clarão do lado de fora, mostrando que a luta também acontecia ali. Sem precisar olhar pra saber, eu soube que a árvore da festa estava em chamas, atingida por um dos feitiços da luta. Eu estava furioso e chocado também, pois haviam muitos homens encapuzados, dezenas, talvez mais, deles atacavam nossa casa e nossa família, matando todos sem dó. Eu podia ouvir os gritos de todos, nossos e dos atacantes, mas eles levavam a melhor. Dois deles apontaram a varinha para Tia Esther e os vi brandindo a varinha como se fossem espadas. No mesmo momento dois cortes profundos e negros surgiram no peito de minha tia, jorrando sangue para o alto. Ela caiu de joelhos, cuspindo sangue enquanto apontava a varinha para um dos homens, lançando um último feitiço, esmagando o braço do homem, fazendo-o gritar de dor antes de cair sem vida.
- Agora! – Procyon gritou e todos eles apontaram a varinha para nós cinco, os únicos ainda lutando no salão. Novamente dezenas de feitiços foram lançados contra nós, dessa vez eram feitiços vermelhos e os reconheci como estuporantes. Isa e mamãe fizeram arcos com a varinha, e devem ter conjurado algum tipo de barreira para nós quatro, pois quando os feitiços nos atingiram no peito, fomos apenas jogados para trás, sem perder os sentidos. Eu bati com força contra a parede, mordendo o lábio para não gritar, e cai próximo de Tristan e Isa, que levantou-se mais rápido do que eu, ajoelhando-se e segurando minha mão.
- Accio varinhas! – Procyon falou rindo e nossas varinhas voaram para a mão dele, que nos olhou triunfante. Ele deu nossas varinhas para um dos outros homens de preto e segurou a de Isa, apontando as duas varinhas para mim, com um sorriso cruel no rosto. – Cruccio.
- Não! – Ouvi meus pais e Isa gritarem, mas nada podiam fazer. Foi a última coisa que consegui ouvir, pois no segundo seguinte, uma dor que eu mal posso descrever e explicar tomou todo o meu corpo, como se milhões de facas perfurassem-me. A dor era horrível e eu não pude segurar os gritos, gritando de dor para o ar, contorcendo-me completamente. Eu podia sentir que alguém me segurava e senti o cheiro de Isa, e a ouvi chorar enquanto ela me abraçava, tentando me ajudar. Ao fundo eu ouvia Procyon e os encapuzados rindo.
- Sempre quis fazer isto, irmão querido. – Ele falou, rindo de mim e parando por alguns segundos. Eu arfava com dificuldades de respirar. – Por que parou de gritar? Estava tão divertido. – Ele falou, apontando as duas varinhas para mim novamente, me fazendo gritar novamente. Um dos outros homens apontou sua varinha para Tristan, torturando-o também, mas Procyon parecia se divertir mais e aplicar mais energia em me torturar. – É excelente, sermos irmãos, Gomeisa, nossas varinhas também são gêmeas!
- Odeio você, você não é meu irmão! – Isa gritou para ele, furiosa. Seus olhos brilhavam de raiva.
- O que pensa que está fazendo, Procyon? – Papai gritou enfurecido, o rosto marcado por arranhões e grossas lágrimas. Ele olhava para os pais, quer perderam a vida para nos proteger e encarava aqueles malditos encapuzados. – Você matou seus avós, sua família!!
- Como ousou fazer isto? Se unir a Comensais?! – Mamãe gritou, enquanto chorava, porém a voz firme e enfurecida, apontando para os encapuzados.
Agora eles formavam um semi-círculo ao nosso redor, cercando-nos de encontro à parede, sem possibilidade de escapatória. Eu conseguia olhar em volta, uma vez que devido à discussão, Procyon não mais me torturava, apesar de manter as varinhas apontadas para mim. Eu consegui contar o número de homens, e marquei o nome deles: Comensais. Eram em torno de 40 homens, sem contar os que estavam do lado de fora da casa e ainda duelavam com o resto da família. Eu podia ver os corpos de pelo menos 20 homens, mostrando que minha família não cairia sozinha.
- Vejo que já os conhece. – Procyon falou, certo sarcasmo na voz.
- Claro que conheço, eu prendi e matei alguns deles já. – Mamãe falou desafiadora e dois Comensais mais velhos, deram um passo a frente furiosos, mas o outro comensal os segurou.
- Então, Procyon, você é tão fraco que eles precisaram mandar babás? – Eu consegui falar com dificuldade, indicando cinco homens mais velhos, claramente Comensais de verdade. O Comensal de quem eu vi a tatuagem apontou a varinha para mim e eu gritei de dor por mais alguns segundos, até Procyon bater em sua mão.
- Divirta-se com o sangue-ruim, Mcganir. Meu irmão é meu. – Procyon falou furioso, voltando a me torturar.
- Acabe logo com isso, Chronos. Sabe para o que viemos aqui. – O Comensal chamado Mcganir falou, nos indicando com a cabeça.
- Não ouse usar o nome Chronos, verme! Você não merece esse nome! – Tristan gritou furioso em meio aos gritos de dor. Procyon apontou a varinha dele para meu amigo e o torturou também.
- Calado, escória.
- Maldito! Eu renego o dia que o tivemos como filho, TRAIDOR! – Papai gritou, e o choque das palavras fez Procyon sentir algo. – Tristan merece o nome Chronos muito mais do que você. Eu amaldiçôo o dia que nasceu. – Papai completou, cuspindo sangue na direção de Procyon. Procyon ficou enfurecido e apontou as duas varinhas para meu pai, fazendo-o gritar também. Mamãe gritou e o abraçou, tentando diminuir seus espasmos.
- Quando eu acabar aqui, pai, terei o nome Chronos para mim e vocês já serão memória. Vou mostrar a vocês o meu valor, mesmo que já estejam mortos.
- Você vale menos que uma pedra. O nome Chronos nunca será seu. Será lembrado apenas como Traidor. Seu nome será apagado de qualquer registro da família. – Isa sentenciou, os olhos brilhando com lágrimas e raiva. Ela ainda me abraçava e o seu cheiro me fazia bem em meio a tanta dor. Eu senti uma energia diferente saindo de dentro dela e parecia que a noite era iluminada por uma luz dourada.
- Como se eu me importasse com o que você diz, irmã. Cruccio. – Ele falou apontando uma varinha para mim e outra pra ela. Eu tentei me jogar na frente dela, mas ela me segurou e com certo espanto vi que nenhum dos dois sentia dor. Procyon concentrou-se mais, mas nenhum de nós sentia dor. Vi que Tristan também não mais era torturado, e outro dos Comensais mais velhos aponto a varinha para ele, sem sucesso.
- Fraco. – Isa falou, soltando um riso.
- Maldita! Quando dominou magia não-verbal?! – Procyon gritou, enraivecido.
- Mcganir, os aurores podem chegar a qualquer momento. – Um dos mais velhos falou, olhando de nós para os dois líderes.
- Procyon, já chega. Faça logo. – Mcganir falou novamente.
- Eu já falei que eu decido, Mcganir! Calado! – Procyon gritou para o Comensal e os dois se encararam.
- A babá tomando conta da criança. – Tristan falou rindo, e cuspiu sangue no chão, o olho roxo e o corpo cheio de hematomas e machucados. Eu ri com ele e isso fez Procyon ficar furioso, voltando a nos encarar.
- Muito bem, sangue-ruim. Você ganhou a honra de ser o primeiro. – Ele apontou as duas varinhas para Tristan, que empertigou-se e o encarou com brilho nos olhos. Eu me debatia no abraço de Isa, tentando ajudar meu amigo, mas Isa me mantinha preso. Ninguém mais parecia notar, mas a noite realmente estava iluminada por um luz dourada, e a fonte era Isa. Procyon sorriu cruelmente antes de enunciar a maldição. – Avada...
- Já chega, Traidor. Não tocará mais em minha família. – Isa falou, porém não era mais sua voz, mas o que ouvíamos era a sua voz misturada a uma poderosa voz masculina. Ela se pôs de pé e vi que seus olhos estavam totalmente dourados. Procyon se assustou, assim como os Comensais e todos lançaram feitiços contra ela, mas ao estender a mão esquerda, todos eles foram bloqueados com facilidade.
Então todos conseguiram ver. Por trás de Isa surgiu a figura de um homem muito alto, usando uma armadura dourada e uma longa lança na mão direita. Ele possuía cabelos na altura da cintura, prateados, parecidos com os meus, e doze asas se abriam às suas costas. Ele também mantinha a mão esquerda levantada e era sua energia que bloqueava os ataques. Alguns dos Comensais recuaram, amedrontados e nesse momento, minha irmã fez um movimento rápido com o braço direito e o homem brandiu a lança dourada na direção dos atacantes. Uma poderosa onda de magia foi lançada e muitos Comensais foram jogados para trás pela energia.
- Acordem-te Chronos! – Isa falou e pude ver o homem falando com ela.
Nesse momento, os corpos de toda nossa família brilharam e luzes brancas saíram de dentro deles, espalhando-se pela casa. As luzes atingiram as paredes e objetos e, com certo espanto, vi que seus espíritos estavam ativando todas as nossas defesas novamente. Procyon lançou dois feitiços contra Isa, mas dos jardins veio uma das armaduras da família, ela quebrou a parede com facilidade colocando-se entre nós e Procyon. A ela seguiram-se outras armaduras que bloqueavam a chuva de feitiços que os Comensais disparavam contra nós. Ouvi gritos do lado de fora e soube que as demais armaduras estavam lutando contra os inimigos.
- Matem todos! – Procyon gritou e disparou maldições da Morte contra nós. Isa porém fez um movimento rápido com o braço e uma pedra imensa do teto bloqueou os feitiços, sendo feitas em pedaços.
Ela apontou para Procyon e um raio de luz poderosa saiu de sua mão, atingindo-o no peito, jogando para o alto. Ele soltou as varinhas e no mesmo momento todas nossas varinhas voltaram para nossas mãos e gritando “Chronos”, nós cinco voltamos a lutar, com Isa à frente de todos.
Procyon, Mcganir e os outros Comensais mais velhos lutavam conosco, enquanto as defesas da casa atacavam os outros homens. Nós cinco estávamos furiosos e conseguíamos virar o duelo, mesmo após toda a tortura e todos os machucados, renovados com alguma energia poderosa. Tristan estava do meu lado direito e Isa do esquerdo, enquanto meus pais estavam ao lado de minha irmã e disparávamos feitiços como nunca disparamos, duelando com ferocidade. O que restava da casa foi destruído nesse momento, pois a casa em si lutava, e blocos de pedra ganhavam vida, jogando-se contra os inimigos, que começaram a recuar e ficar encurralados.
Meu irmão estava totalmente ensandecido de raiva, uma vez que vira seu plano desmoronar. Após certo tempo, eu, ele e Isa duelávamos, trocando feitiços com rapidez. Ele usava magia negra e com horror vi quando ele tentou conjurar um “fogo maldito”, sendo impedido por uma bola de fogo dourada lançada por Isa. Eu e ela lutávamos juntos, um do lado do outro, porém Procyon também era habilidoso e bloqueava nossos ataques, mas era obrigado a recuar. O espírito que envolvia Isa parecia nos proteger e os feitiços ou não surtiam efeito em nós ou eram enfraquecidos. Eu conjurei correntes, e obedecendo ao meu comando, do chão surgiram correntes de ferro que dispararam para prender os pés de Procyon, fazendo-o tropeçar. Ele porém queimou as correntes e acertou um feitiço no meu rosto, jogando-me para trás. Isa bloqueou o segundo feitiço e disparou uma rajada de luz contra Procyon, tais luzes saiam das asas do homem e perfuraram o corpo de Procyon, fazendo sua roupa ficar rasgada e fazendo-o cair de joelhos.
Ele, porém, estava irado e tal ira alimentava suas forças e com esforço ele se colocou de pé, encarando a mim e a Isa. Com um movimento brusco, ele fez uma parede inteira da casa desmoronar e a jogou contra nós. Isa saltou e me pegou no ar, desviando da parede por centímetros, como se as asas do homem a permitissem voar. Nesse momento ouvimos um grito e olhamos em volta. Eu gritei também, assim como Isa e começamos a chorar.
Papai estava de pé, porém sem vida, os olhos vazios, mas pareciam sorrir, uma vez que ele morreu protegendo a esposa. Mcganir ria alto, enquanto o corpo de papai caia sem vida nos braços de mamãe e ela ia ao chão abraçada a ele, os olhos cheios de lágrimas e dor. Tristan estava perto deles e abraçou minha mãe, e em seguida gritou para Mcganir e em sua raiva ele correu para frente, lançando feitiços contra o Comensal, que ria dele. Porém Tristan era habilidoso e nós dois éramos os melhores duelistas do colégio, e portanto o Comensal se viu obrigado a desviar com dificuldade dos feitiços de meu amigo, sendo encurralado na parede e recebeu um feitiço na barriga. Então vi que Isa já não estava do meu lado, mas sim do lado de Tristan e o jogou pra trás, a tempo de protegê-lo de um feitiço de Procyon que fez a parede explodir. Eu gritei para ele e o atingi com um feitiço na barriga, enquanto Isa gritava também e socava com o ar com a mão direita. O homem segurou a lança com força e para horror de Mcganir a fincou em seu coração. Um buraco surgiu no lugar onde a lança o atingiu e o Comensal sufocou um grito de dor, engasgando no próprio sangue. O homem tirou a lança e Mcganir caiu morto no chão, enquanto Isa se virava para Procyon também enfurecida, enquanto jogava Tristan para perto de mamãe. Meu amigo caiu sentado perto de minha mãe, sem energias e a abraçou.
Procyon nos encarou e vi que éramos os únicos ainda lutando no salão, pois os outros Comensais saíram para os jardins ou lutavam em outros cômodos da casa. Nós arfávamos, mas não baixávamos a guarda.
- Acabou, Procyon, se entregue. – Eu falei tentando ganhar tempo.
- Nunca! Eu irei acabar com vocês a qualquer custo!
- Chega Procyon, você já foi longe demais. – Isa falou, os olhos ainda brilhando em dourado.
- Calada! Só porque ficou um pouco mais forte não pode mandar em mim!
- Procyon, os aurores estão chegando! Eles estão na entrada da fazenda, estamos tentando conte-los! – Um comensal gritou dos jardins, enquanto desviava dos ataques de fadas e armaduras, e pude ouvir ao longe o som de duelos.
- Droga!
- Acabou, Procyon. – Eu falei ainda sem baixar a guarda.
- Então eu levarei ao menos você! AVADA KEDAVA! – Ele gritou apontando para mim antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa.
Tudo aconteceu em câmera lenta...Eu vi o jato de luz mortal vindo na minha direção e gritei ao ver o que aconteceria. As doze asas do homem bateram e no instante seguinte Isa estava diante de mim, as costas viradas para o encantamento. Ela sorria para mim e li seus lábios, enquanto ela me falava.
- Adeus, querido. Sempre amarei você.

Continua....

Sunday, June 21, 2009

Night of Fate - Parte I

Lembranças de Alderan J. A. Chronos

- Gomeisa – O homem falou às costas de Gomeisa enquanto ela escovava os cabelos diante de um espelho do dormitório da Lux. Era de manhã e ela estava sozinha, porém mesmo que não estivesse, ela sabia que ninguém mais poderia vê-lo ou ouvi-lo, apenas ela era capaz disso. Desde que ela acordou-o, ele a seguia e protegia, ensinando-a, sempre ao seu lado. Ele era um homem muito alto, com cabelos longos na altura da cintura, brancos, na verdade quase prateados e olhos dourados. Ele sempre vestia uma roupa branca como a neve, que lembrava uma túnica, e por cima desta, usava uma armadura dourada.No momento ele não a segurava, mantendo-a presa em suas costas, mas a poderosa lança dourada era sua fiel companheira. Ele era um homem muito lindo, cavaleiro e educado, muito sério e calmo.
- Diga, Chronos. – Ela pensou, pois eram tão ligados que ela sequer precisava falar, conversando mentalmente com ele. Mesmo mentalmente, sua felicidade era passada para ele, como se sorrisse.
- Você sabe que será hoje, não sabe?
- Sim...Tenho consciência que ocorrerá hoje à noite.
- Eu posso evitar. – O homem, que Gomeisa chamou de Chronos, respondeu, sua voz carregada com tristeza e dor.
- Não. Estou preparada para o que deve ser feito. – Ela falou enquanto sorria para ele, encarando os olhos dourados pelo espelho.
- Me fará ver aqueles que eu amo morrendo novamente, Isa? – O homem perguntou, suspirando, mergulhado em memórias.
- Eu sinto muito, Chronos, mas também não quero ver os que amo morrendo. E sempre estaremos juntos.- Ela falou, virando-se para ele, desejando poder segurar a sua mão.
- Há como evitar todos esses problemas.
- Sim, eu sei. Mas também conheço as conseqüências. Eu protegerei o futuro de meu irmão. E tudo que poderia ter sido feito, foi feito, agora não há mais volta.
- Você é alguém de coragem, Isa, e respeito suas escolhas. Porém, não sabe a dor que me causa ao ver minha protegida em perigo. – Chronos falou, suspirando, enquanto colocava as mãos nos ombros de Gomeisa. Eles não podiam se tocar, pois ele era um espírito, mas apenas o gesto era importante, uma vez que Gomeisa estava apaixonada por ele, mesmo sabendo que ele era eternamente fiel a sua querida amada.
- Obrigada, Chronos. Desde que acordei você, nunca fui tão feliz. Você me ensinou muito, mais do que apenas sobre o passado, mas sobre tudo, sobre a vida em si. Mas como você um dia fez sacrifícios por nós, agora é minha vez de fazer sacrifícios pelo bem de todos.
- Farei a sua vontade, Gomeisa Chronos, dou-lhe minha palavra. Foi uma honra ser seu guardião. – Chronos falou, ajoelhando-se e com os olhos lacrimejantes. Gomeisa sorriu para ele e novamente, desde que o conhecera, desejou poder abraça-lo, desejou poder toca-lo, desejou poder dividir com ele todas as memórias que ele possuía, toda as dores e experiências.

At the dawn of our living time
Hope it soon will pass by
Facing a darkness
I stand alone


- Que droga, o Charleston não liberou nossa saída. – Tristan reclamou, ao sair do escritório do Diretor, falando comigo que esperava do lado de fora.
- Como assim, ele não vai deixar vocês irem? Mas é final de semana, podemos sair! – Eu falei indignado.
- Não, AJ, ele nos deixou ir, nos liberou pra ir à festa dos Chronos, mas só no dia. Não deixou que a gente fosse hoje com você. – Millie explicou, abraçada a Tristan. Alice me abraçou também, pois tinha ido com eles, mesmo que não fosse à festa.
- Ele falou que não podemos perder aula e tudo mais, e já está abrindo uma exceção a você porque gosta muito dos Chronos. Mas para nós, teremos que esperar até amanhã. – Alice completou, repetindo as palavras do Diretor.
- Será que se eu pedir para a Isa falar com ele, ela consegue? Afinal ela é Monitora-Chefe! – Eu falei, enquanto já pensava na possibilidade.
- Que feio, AJ! Querendo usar da influência da irmã?! – Tristan falou, enquanto descíamos as escadas.
- Até parece que vocês nunca fizeram isso! – Marcel falou, quando nos encontramos na escada.
- Se bem me lembro, na última detenção de vocês, a Isa conseguiu para que vocês ficassem presos só por 4 horas. Que pena, queria tanto ver vocês presos na sala de etiqueta por 10 horas! – Derek falou, brincando comigo e com Tristan enquanto cumprimentava todos.
- Marcel, não quer nos ajudar também não? Vai lá usar sua influência também! – Tristan falou, rindo.
- Por você, Tristan? Posso pela Millie e pela Alice. – Ele falou, piscando para as duas.
- Por que vocês também não vão? Vai ser uma festa enorme, todo a família vai estar lá! – Eu falei rindo, enquanto abraçava Alice.
- Na verdade, o Marcel já tentou influenciar o Charleston, mas conseguiu só uma ameaça de detenção! Até que eu gostaria de ir, AJ, mas tenho compromissos já. – Derek falou, dando de ombros.
- Eu também, esse final de semana ocorrerá um almoço da família. – Marcel explicou.
- Seria legal se todos fossem, faríamos uma prévia da nossa formatura! – Alice falou, lembrando que no ano seguinte seríamos nós a nos formarmos. Nós ficamos discutindo sobre nossa formatura, as idéias e os sonhos, enquanto andávamos pelo salão, até eu me tocar da hora e lembrar que meu pai iria nos buscar na escola às 11.
- Vejo vocês amanhã, então. Queria muito que fossem hoje, e que você fosse amanhã, Alice. – Falei, enquanto me despedia deles. Beijei Alice com ternura, em um beijo longo, e depois sorrimos um para o outro, enquanto ela piscava. Tristan e Millie também se beijaram e depois prometeram que não iriam se atrasar para a festa.
As 11 horas, fui para o gabinete do Diretor, onde encontrei Isa e Procyon, além de papai, que conversava com o diretor, fazendo o Charleston rir. Eu olhei para meus irmãos e senti orgulho por eles estarem se formando. Procyon parecia aéreo e pensativo e notei grossas olheiras, além do fato que ele evitava me encarar. Conversamos na semana passada e desde então ele evitava falar comigo, mas cada vez parecia mais solitário. Isa sorriu pra mim, seus olhos brilhando, e notei que ela parecia diferente. Ela estava linda e parecia mais grandiosa, transmitindo um ar austero e decidido. Isso me fez lembrar da noite da semana passada, e do sentimento ruim que eu ainda sentia, mas controlei minhas emoções uma vez mais. Ela também tinha um brilho no olhar diferente, o mesmo brilho que eu via nos olhos de Millie perto de Tristan e tive a impressão de que ela estaria apaixonada por alguém, ficando logo curioso.
- Tudo bem, Antaris, eu abro uma exceção. Mas apenas para ele, não posso permitir que ela saia sem o consentimento da irmã e responsável. – Charleston falou, suspirando e me olhando.
- Do que está falando, Senhor? – Eu perguntei curioso.
- Eu consegui convencer o Hanlin a deixar seus amigos irem conosco hoje, mas apenas o Tristan poderá ir, a Millie precisa da autorização da irmã.
- Sério?! Obrigado pai, eu vou chamar o Tristan. Tenta falar com a irmã da Millie, ela tem que deixa-la ir.
- Já falei com ela, mas ela não permitiu. Ela disse que amanhã o marido dela levará a Millie na festa.
- Que droga... Desculpe, diretor! – Eu me desculpei ao receber um olhar severo dele. Eu sai dali e fui procurar os meus amigos correndo.
Tristan ficou radiante com a notícia, enquanto Millie ficou irritada com a irmã e Alice pensando seriamente em não viajar pra Suíça. Ajudei Tristan a arrumar a mala dele e em menos de quinze minutos, estávamos de volta ao gabinete do Diretor. Ele agradeceu papai e ao diretor por pelo menos uns cinco minutos, antes de se dar por satisfeito.
- Está tudo bem, Tristan, você é quase da família já! Vamos então? Já estão todos esperando. – Papai falou, indicando a lareira.
Ele se despediu do Diretor após confirmar que ele iria a festa e abriu caminho para a lareira, e usamos o pó-de-flu para irmos até a mansão dos Chronos na fazenda da família, onde ocorreria a festa. Lá era a única das propriedades dos Chronos grande o suficiente para uma festa como a que pretendíamos dar.


Quando chegamos na casa de campo dos Chronos, vi que toda a família já estava lá, e abracei com felicidade meus avós, Vovô Sirius e Vovó Capella, pais de minha mãe, e Vovô Acrab e Vovó Shaula, pais de meu pai. Todos os meus tios e tias, primos e primas, mesmo os mais distantes, como os que moravam fora da Inglaterra, estavam presentes. Só reencontrar todos foi uma festa enorme e demorou um bom tempo para falar com todos, pois no total devíamos ser mais de 100 pessoas. Eu não agüentava mais apresentar o Tristan e após os primeiro cinco minutos, ampliei a voz magicamente e apresentei ele a todos, tirando gargalhadas da família. Ele se deu muito bem com todos, que o acolheram alegres, fazendo-o muito feliz. Ele parecia maravilhado com uma família tão grande e logo vi que ele desejaria uma tão grande assim para o futuro e não pude deixar de pensar em ver a Millie como mãe de um monte de crianças. Ela daria uma excelente mãe, ainda mais com as ótimas histórias dela.
Todos ajudaram a organizar a festa, que estava enfeitada com o brasão da família e com enfeites que lembravam uma formatura de colégio. Era divertido ver toda a família reunida enquanto montávamos a decoração. O enfeite mais bonito, na minha opinião, era o que eu chamei de “árvore da festa”, um grande e antigo carvalho que ficava próximo da mansão e foi enfeitado com luzes de todas as cores, além de uma centena de fadas e fitas de diversas cores.
Obviamente usávamos magia e isso levou a situações engraçadas, desde uma guerra de bexigas d’água até disputar quem conseguia levitar por mais tempo uma das armaduras da casa. Há muito tempo não me divertia tanto e em questão de algumas horas estava todo ensopado e sujo, voltando a ser criança. Tristan também se divertiu muito e logo meus primos implicavam com ele como implicavam comigo e conversávamos muito. Apenas Procyon parecia não aceita-lo completamente.
Mamãe chamou meus irmãos em particular e eu soube depois que ela lhes deu os parabéns pela formatura, feliz por eles estarem entrando para a sociedade bruxa. Ela conversou com cada um em particular e não sei o que falou para Procyon, mas vi que ela o havia tocado, e ele parecia a beira das lágrimas. Isa não quis me contar o que mamãe falou, dizendo que seria surpresa, mas falou que era algo muito bom. Ela passou o dia conversando com todos, mas podia ver tristeza em seu olhar, como se não fosse vê-los mais. Ela realmente parecia mais madura do que nunca, com um brilho diferente ao seu redor e definitivamente estava apaixonada!
Já eram oito da noite quando todos foram se arrumar para o jantar da família, que ocorreria naquela noite. Ao todo éramos umas 160 pessoas e, portanto, o jantar seria ao ar livre e havia uma única mesa no pátio em frente à mansão. A mesa era enorme, maior do que as mesas das casas de Beauxbatons e havia lugar para todos. Ela também estava encantada magicamente, de modo que os pratos surgiam magicamente, assim como as bebidas e você via a todo o momento copos de vinho ou água voando de um lado a outro. O pátio fora enfeitado com fadas brilhantes que voavam pela mesa, rindo alegremente e conversando com todos. Várias das armaduras da família também estavam encantadas, emitindo um brilho amarelado de seu interior, enfeitando o pátio.
Procyon e Isa ocupavam a cabeceira da mesa, tendo mamãe à direita e papai a esquerda. Ao lado de papai, estavam meus avôs paternos, e ao lado de mamãe estavam os avôs maternos, sendo que eu ficava do lado direito, ao lado de Vovô e de Tristan. Toda a família sentava na mesa e enquanto comíamos conversávamos alegremente.
- Me diz, Isa, quem é o sortudo! Eu tenho que aprovar antes! – Tio Arthur falou, enquanto levantava a taça de vinho para ela, sorrindo. Ele era irmão de meu pai e sempre adorou a Isa.
- Não sei do que está falando, Tio. – Isa desconversou, rindo.
- Não adianta mentir pra nós, seus olhos mostram que está apaixonada! – Tia Esther, esposa de Tio Arthur falou, apoiando o marido.
- Por que não o convidou? Adoraríamos conhece-lo. – Mamãe falou, sorrindo para a filha.
- Eu sou ciumento! Não é qualquer um que vai ficar com minha filha! – Papai falou orgulhoso.
- E você, Proc, cadê sua namorada? Sei que deve arrasar corações em Beauxbatons. – Tio George, primo da minha mãe, perguntou, jogando um pedaço de pão no meu irmão.
- Não, não tenho! – Procyon falou, meio gaguejando, fazendo todos rirem.
- Quem tem namorada, é o AJ. Lembram-se da Alice Oceanborn? São nossos vizinhos em Londres. – Isa falou, piscando pra mim e me deixando corado.
- Não, ela é só minha amiga. – Eu consegui falar.
- Amiga nada, vocês vivem juntos! Só falta oficializar o namoro! – Tristan falou rindo, me cutucando com o cotovelo.
- É que ele ainda não se decidiu qual das duas gosta mais: Oceanborn ou Von Griffin. – Procyon falou, implicando comigo, me fazendo ficar mais corado, enquanto Tristan caia na gargalhada, pois sabia que eu gostava muito das duas.
- Então o Tristan, estava certo, você tem duas pretendentes? – Papai falou, rindo.
- Se não me engano, a Millie virá amanhã, vocês poderão conhecer uma delas. – Mamãe falou, piscando para todos.
- A Millie é só minha amiga! E quem está namorando são eles dois! Não adianta mentir não, Tristan! – Eu falei, totalmente vermelho e suspirando, enquanto Tristan engasgava e tossia, vermelho, fazendo todos rirem. Todos passaram a implicar comigo e conversamos muito. Em dado momento, eu tive a impressão de ver alguém atrás da Isa, mas quando olhei novamente, não havia ninguém, porém Isa parecia sorrir.
- Gostaria de pedir silêncio a todos. – Mamãe falou, colocando-se de pé e batendo em sua taça, pedindo silêncio. Todos riram e a aplaudiram, pedindo discurso, e mamãe sorriu. – Lhes darei um discurso. Hoje é um dia importante, pois dois de meus filhos estão prestes a se formar, entrando de vez para a sociedade bruxa e trouxa também. Eles se formarão com orgulho, sendo um Monitor da Nox e a outra Monitora da Lux, além de Monitora-Chefe. Pena que meu outro filho não será monitor, tamanha confusão que ele causa. – Mamãe falou rindo, dando de ombros enquanto olhava pra mim e pra Tristan. – Quero aproveitar então para lhes dar meus parabéns novamente e tenho um importante aviso a dar.
Todos ficaram curiosos, pois não sabiam o que mamãe pretendia falar. Eu também estava curioso e olhava dela para meu pai, que sorria cúmplice, e para meus irmãos. Procyon também não entendia, porém Isa sim e olhava fixamente para mamãe.
- Gostaria de anunciar, que a partir de amanhã, um de meus filhos assumirá a família, sendo nosso novo líder. Gomeisa Asteris Chronos, a partir de amanhã, você é a nossa nova Matriarca, líder de nossa família que irá nos guiar pelos próximos anos. Meus parabéns, querida.
Mamãe terminou de falar e abraçou Isa junto de papai. Todos começaram a aplaudir e soltar vivas, levantando-se também. Eu era o que mais batia palmas e abracei minha irmã com força, dando-lhe os parabéns. Procyon bateu palmas também e abraçou a irmã gêmea, porém depois ficou calado e pensativo. A família se revezou, numa grande fila, para abraçar e parabenizar a nova líder da família.
Ficamos conversando até tarde da noite e só fomos dormir quando os mais novos tiveram que ser carregados, e isso era por volta das 1 da manhã. Todos estavam cansados e alegres pelo trabalho do dia, além de cheios de comida. A mansão era grande, mas não havia lugar para todos, portanto alguns de nossos familiares foram dormir em mini-casas que erguemos durante o dia, todos muito alegres.

N.A.: Harvest of Sorrow, Blind Guardian.

Sunday, June 07, 2009

Das lembranças de Alderan J. A. Chronos

- Vocês estão convidados! – Eu falei, feliz enquanto conversava com Tnt, Millie e Alice.
- Convidados para o que?! – Millie perguntou, porém já curiosa.
- A Formatura dos meus irmãos está chegando, então semana que vem a família vai dar uma festa em homenagem a eles, reuniremos todos os membros da família! E vocês são meus convidados.
- Ah, AJ, que maravilha! Obrigada pelo convite. – Alice falou, abraçada a mim. Nossa relação era engraçada e, como alguns diziam, moderna. Nós às vezes saíamos juntos para namorar, às vezes apenas para conversar, sem nenhum compromisso fixo, mas eu gostava da companhia dela. – Mas não vou poder ir, meus pais marcaram uma viagem para visitar meus primos na Suécia.
- Ah, Alice! Você vai perder uma festança dos Chronos?! Eu não acredito! – Tnt falou chocado, encarando-a como se fosse quase um insulto. – Eu irei com certeza, AJ!
- Eu verei com minha irmã, mas não vejo mal algum e vou adorar participar da festa! Seus irmãos merecem. – Millie falou, sorrindo pra mim.
- A Isa merece, o Procyon não. – Eu falei categórico.
- Ah vai começar de novo, Alderan? – Millie falou um pouco cansada.
- É sério, Millie! Eu concordo com ele, a Isa merece e muito, agora ele não! – Tristan falou me apoiando e ganhou um sorriso meu.
- Vocês não estão exagerando não? Não me olhe com essa cara Alderan James! Eu concordo que ele é estranho, mas daí dizer que ele não merece é demais! – Alice falou, ainda abraçada a mim.
- Não estamos exagerando! Eu conheço o suficiente para saber que ele não merece! – Eu falei teimoso.
- Mas AJ, você já não falou com seus pais e eles também acharam que você poderia estar exagerando? – Millie me lembrou.
- Sim, mas os Chronos passaram a vigiar o filho também, pra ver como a Sra. Rigel também suspeita dele. – Tristan me apoiou novamente, lembrando que desde que falei com meus pais, eles ordenaram que Procyon fosse vigiado sempre que saísse da escola, mas até hoje não houve nada.
- E isso só serve para aumentar minhas suspeitas! Ele continua a andar com pessoas estranhas e sequer tem saído da escola. Ainda acho muito estranho. Na verdade, até a Isa disse que ele parece distante, porém determinado com algo...Eu estou ficando preocupado, eu tenho um péssimo pressentimento. – Eu falei, enquanto deixava meus olhos fora de foco e encarava um nó na madeira da mesa da biblioteca onde conversávamos. Todos ficaram calados, pois notaram que eu não estava brincando.
- AJ, não fica assim, vai ficar tudo bem. – Millie falou, sentando-se do meu lado e me abraçando. Alice também me abraçou mais forte e deitou a cabeça em meu ombro.
- Eu sinto que tem algo errado. Eu estou com um péssimo pressentimento, sinto que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. – Eu falei lentamente, a voz marcada com uma dor que eu não sabia explicar, enquanto tentava manter as lágrimas presas.
- Vai dar tudo certo, você só ta imaginando coisas, AJ. – Alice falou, me dando um beijo na bochecha. – E seja lá o que for, nós estamos aqui com você, lembra?
- É AJ, nós sempre estaremos com você, somos seus amigos certo? E cara, pode falar, isso tudo é só cena pra ficar abraçado à Millie e à Alice, né? – Tristan falou rindo, me fazendo ficar vermelho e jogar uma bola de papel nele. Alice e Millie riram também e começamos uma guerra de bolinhas de papel usando as varinhas para catapultar as bolinhas. Obviamente fomos expulsos pela bibliotecária e fomos nos sentar nos jardins da escola, que naquela época do ano estavam cheios dos alunos mais novos que não tinham N.O.M’s ou N.I.E.M’ s, aproveitando o sol e a beleza do lugar.

*****

- Procyon, eu quero falar com você. – Eu o chamei, correndo atrás dele nos corredores da escola. Eu decidi tentar conversar com ele, convencido por Millie que talvez eu estivesse exagerando.
- Não tenho nada para conversar com você, Alderan. – Ele falou, virando-se para mim e encarando-me por alguns segundos, antes de virar as costas novamente. Era um dos raros momentos em que ele estava sozinho, e alguns alunos já nos olhavam como se esperassem uma briga, conhecendo a minha fama e a dele.
- Proc, por favor, somos irmãos. – Eu falei, segurando-o pelo braço. Ele virou-se para mim lentamente, como se tivesse uma guerra em sua cabeça, mas logo soltou o braço.
- O que eu teria para conversar com você, irmão. – Ele falou, dando ênfase a última palavra.
- Eu quero te ajudar, conversar com você. – Eu falei cansado.
- Me ajudar? Por que você acha que preciso de sua ajuda? – Ele falou, os olhos brilhando de raiva.
- Eu sinto que precisa! Você não é mais o mesmo! Está muito mudado! – Eu falei, os olhos brilhando também.
- Ah, agora nota minha presença? – Eu ouvi ele falando entre os dentes, com raiva.
- Como assim? – Eu perguntei sem entender.
- Não interessa a você. – Ele falou, porém sem me virar as costas, ainda me encarando.
- Proc, você sabe com quem tem andado? São pessoas de péssima fama na escola....Eu não quero nem falar as coisas que eu penso.
- Você não sabe de nada, Alderan. Eu pelo menos não ando com uma órfã e um sangue-ruim! Você só anda com eles para se sentir superior, para poder mostrar que é melhor que eles! Enquanto eu escolhi pessoas do meu nível, iguais a mim!!
- Não fale assim deles! Eles ao contrário de seus “amigos” são pessoas boas e decentes! Essa escória que você tem andado não se compara a eles! E sim você deve ter escolhido pessoas do mesmo nível: escória! – Eu falei, agora completamente enraivecido. Nós dois sacamos as varinhas e apontamos um para o outro, e as pessoas já começaram a abrir uma roda, se afastando.
- Escória?! Eles são a elite dessa escolazinha, a elite do mundo mágico, a que eu tenho o direito de pertencer!! – Ele falou enraivecido também, enquanto sua varinha soltava faíscas.
- Elite?! Esses idiotas que só sabem maltratar os outros e pensarem no próprio umbigo? – Eu gritei, a varinha soltando faíscas também.
- Eles pelo menos me entendem e me apóiam, ao contrário de vocês! – Ele gritou também.
- Te entendem? Te apóiam?! Você é idiota?! Eles só estão com você porque você pode lhes servir de algo! Eles não dão a mínima para você! – Eu gritei, completamente furioso. Notei que minhas palavras tocaram em algum lugar de seu coração ou de sua mente, pois a varinha tremeu, e notei que no fundo ele pensava a mesma coisa. Parecia que ele brigava consigo próprio e até mesmo seus olhos pareciam fora de foco. Por fim, ele baixou a varinha lentamente e eu o imitei.
- Venha comigo, aqui não é lugar para discutirmos assim. – Ele falou, os olhos tristes.
- Vamos para alguma sala de aula. – Eu falei, andando ao lado dele.
Nós dois saímos andando pelo corredor, que por muito pouco não virou uma cena de batalha, enquanto ganhávamos olhares de todos os alunos. Alguns tentaram nos seguir, achando que iríamos duelar em outro lugar, mas nós dois os olhamos juntos e os fizemos desistir. Eu notei também que ele queria falar sozinho comigo, pois em breve, tanto os companheiros deles quanto os meus, assim como monitores e professores, chegariam no local atraídos pela confusão. Nós escolhemos uma sala vazia do quinto andar, e sem que ninguém nos notasse, entramos escondidos. Procyon andou pela sala, parando do lado do quadro-negro, enquanto rabiscava com a varinha riscos sem nexo. Eu me aproximei dele e aguardei, apoiado na mesa do professor.
- Procyon.... – Eu comecei, mas ele levantou a mão para me interromper.
- Sejamos adultos, Alderan. Não é certo brigarmos daquele jeito na frente de todos.
- Eu concordo, eu queria realmente conversar a sós com você. – Eu falei, enquanto ele se sentava do meu lado, apoiado na mesa também. Assim próximos um do outro qualquer poderia ver como nos parecíamos fisicamente, se não fosse meu cabelo fora do normal.
- Às vezes eu também sinto que eles só estão comigo pelo que posso fazer para eles. – Ele começou, lembrando de seus amigos.
- Isso é óbvio, eles são interesseiros, e não companheiros! – Eu falei meio exaltado.
- Mas eles me dão valor, e isso é algo que eu sempre quis. – Ele falou um pouco ríspido.
- Procyon, nós sempre te demos valor, sempre estivemos do seu lado!
- Não! Você não entende, sempre foi o filho preferido, o irmão favorito! Mamãe sempre preferiu você, sendo que é algo que eu tenho por direito! Isa sempre o considerou o melhor irmão! – Ele falou, jogando tudo que ele sentia.
- Mamãe gosta de todos nós do mesmo jeito! Ela não tem favoritos! Ela ama você como ama a mim, Procyon. – Eu falei, segurando-o pelo ombro. Ele me encarou e notei que parecia brigar com emoções.
- Não. Eu sempre fui excluído, por não me interessar em caçar, em treinar. Agora você, sempre foi o filho que ela sempre quis: corajoso, forte, gosta de caçar e treinar.
- Ela ama você como eu e a Isa, Proc! Ela não tem preferidos. Ela gosta do seu jeito calmo, sereno e pensativo, ela aceitaria tudo que você decidisse fazer! Ela nunca o obrigaria a seguir o ramo de auror!
- Não! Ela tem vergonha pois não gosto de lutar e caçar, pois prefiro ficar em casa quieto, lendo. Não é a toa que quem ela indicará para substituí-la será a Isa.
- Como você quer que ela te indique se ela respeita sua vontade de não seguir nosso ramo? – Eu perguntei, perplexo.
- Ela não me escolhe pois tem vergonha de mim! Enquanto de você ela sente orgulho, e a mim despreza!
- Procyon, por favor, ouça o que esta falando! A mamãe te desprezar?! Nunca! Ela o ama com todas as forças dela, você é o primeiro filho dela, e ela tem orgulho de você! Isso é uma das coisas que não gosto em você! Porque tem que se menosprezar tanto?! Seja forte!
- Viu! Você também me acha fraco!
- Não coloque palavras na minha boca! Você não é fraco! Para estar resistindo assim você é muito forte, mas você deve confiar mais em si mesmo! Se quer seguir outro ramo, nós apoiaremos você! O que você quer fazer depois da formatura, Proc? – Eu perguntei, e notei que seus olhos ficaram vermelhos, como se fossem chorar, e novamente vi uma disputa interna.
- Eu gostaria de ser botânico, estudar a vida selvagem. Não ria, Alderan, eu proíbo você. – Ele falou sério e notei o tom de raiva em sua voz. Algo me dizia que ele já confidenciara isso para alguém, seus amigos provavelmente, e eles riram dele.
- Eu não vou rir, Procyon. Eu sou seu irmão devo apóia-lo, no que decidir. Proc, mamãe e papai ficaram feliz em lhe ajudar!
- Não! Eles sentirão vergonha de mim!
- Não mesmo! Você já falou com eles?! Eu posso te ajudar!
- Eu não quero falar, quero distância deles. Não quero sua ajuda. – Sua voz mudou de tom levemente e eu notei.
- Proc eles vão te apoiar sempre, tenho certeza! Mamãe vai adorar te ajudar a pesquisar, e papai te adora.
- Chega, Alderan, não quero mais falar sobre isso. – Ele falou enquanto se levantava, ignorando-me e indo para a porta.
- Procyon, seja lá o que estiver prestes a fazer, ainda há volta. – Eu falei me levantando e olhando para ele que parou com a mão na maçaneta, e virou o rosto para me encarar.
- Não. Não há mais volta.
- Procyon a família sempre irá te ajudar e apoiar, somos Chronos! Estaremos sempre com você, há volta sim.
- Não, James, não há mais volta. Não há retorno.
Ele falou sério e saiu da sala. Eu me senti apreensivo e meu coração doía, e sai correndo atrás dele para obriga-lo a me ouvir, mas quando abri a porta, ele já havia descido as escadas, e não respondeu quando o chamei.

*****

- AJ, querido, vem cá. – Isa falou, quando eu entrei no salão comunal da Lux. O salão estava vazio, pois já começava a ficar um pouco tarde da noite. Depois da conversa com o Procyon eu vaguei pela escola, procurando-o, mas sem encontra-lo e provavelmente ele foi para o salão da Nox e não queria mais me ver. Eu passei a andar pela escola então pensativo, sem querer falar com ninguém ao certo, nem mesmo Tristan, Millie ou Alice.
- Isa... – Eu falei quando a vi sentada no sofá, lendo um livro. Ela claramente estava me esperando e tive quase certeza que a sala estava tão vazia assim por causa dela. Ela era muito respeitada na casa, ainda mais que era a Monitora Chefe.
- AJ, meu irmãozinho, precisamos conversar. – Ela falou, indicando o lugar ao lado dela, enquanto eu me encaminhava para ela. Eu sentei pesadamente no sofá e ela me puxou para um abraço, deitando minha cabeça em seu colo. – A Millie e a Alice me procuraram hoje a tarde, dizendo que você estava muito mal e triste. Eu não poderia deixar meu manihho assim, poderia? – Ela falou enquanto sorria para mim e acariciava meus cabelos lentamente.
- Elas estão certas, Isa....Maninha eu estou me sentindo muito mal, sinto que algo de muito ruim está pra acontecer. E estamos perdendo nosso irmão....
- Eu tentei achar o Procyon hoje também, mas não o encontrei. E ele tem se afastado de mim, mas sinto que ele está sofrendo muito.
- Estamos perdendo ele, Isa! Estamos perdendo o Proc pras trevas...Eu pude sentir as trevas no coração dele, pude sentir a angústia e tristeza dele... – Eu falei enquanto chorava, afundando o rosto no colo de Isa, que me abraçou mais forte, enquanto fazia carinho em minha cabeça e minhas costas.
- Fica calmo, amor, vai ficar tudo bem. Seja lá pelo que o Procyon está passando, ele vai nos procurar quando estiver mais calmo e pedir ajuda. Ele é nosso irmão acima de tudo, não quero você brigando com ele.
- Você soube então? – Eu perguntei ainda chorando em seu colo.
- Claro que soube. Eu sou monitora da Lux e Monitora Chefe, óbvio que iria saber. Mas como vocês pararam antes, não há o que reclamar. Fiquei feliz quando soube que foram conversar como adultos.
- Nós fomos para uma sala conversar. Eu nunca me senti tão próximo dele, trocando sentimentos e idéias...E queria que fossemos mais amigos.
- Vocês seriam excelentes amigos, mas é o Procyon que afasta vocês. Acho que ele tem medo de se aproximar demais e ver que tudo que ele acredita é apenas imaginação dele.
- Ele acha que mamãe tem vergonha dele, acha que eles me consideram o filho predileto, que você gosta mais de mim do que dele.
- Eu gosto de vocês do mesmo jeito, você são meus irmãos mais novos. Porém pareço ter mais ligação com você porque você é mais sentimental e se abre mais do que ele. Ele criou barreiras para ele próprio, quando éramos criança, estávamos sempre juntos, apenas quando cresceu é que parou. Sinto falta do pequeno Proc.
- Eu também....Por que ele mudou? O que aconteceu? Será que foram amizades?
- Pode ter sido...Ele se isolou de nós e tinha medo. Quando começou a crescer e se ligou a algumas pessoas, ele passou a tentar nos afastar.
- Eu já senti muita raiva dele. Pelas coisas que ele fala, pelas coisas que ele faz, pelo que ele pensa de meus amigos! – Eu falei, chorando novamente enquanto apertava o tecido de sua roupa.
- Não quero você sentindo esse tipo de coisa, meu querido. Ele é seu irmão, você nunca deve odiá-lo, apesar de tudo que ele faça.
- É difícil...E eu não aturo o modo como ele fala de você às vezes!
- Com ele eu me entendo, não quero que você tome minhas dores. AJ, querido, você é um irmão maravilhoso, se ele visse isso ele ficaria feliz. Tenho certeza que ele só se afastou de você hoje por causa disso, porque ele viu que você é uma ótima pessoa e isso poria a baixo todas as barreiras dele.
- Isa... – Eu falei, o coração apertado como nunca, uma angústia enorme.
- Que foi, maninho? – Ela perguntou, enquanto sorria pra mim e acariciava meus cabelos. Meu coração parou por alguns instantes e a dor foi enorme, como se me fosse arrancado o coração. Eu comecei a chorar desesperadamente, com soluços fortes e constantes e me agarrei a ela, abraçando-a como se minha vida dependesse disso. Ela me abraçou com força também, deitando minha cabeça em seu peito e notei que ela também chorava.
- Por favor, nunca me deixe, Isa. Eu não seria nada sem você, mana, você é a pessoa mais importante pra mim, minha base e minha força.
- Querido, eu estou aqui com você, não estou? Sempre estarei do seu lado, não importa o que aconteça. Sou sua irmã não sou?
- Você é minha irmã, Isa. Na verdade às vezes eu sinto como se fosse minha alma gêmea, a pessoa que eu primeiro amei e sempre amarei. Eu me sinto completo com você. – Eu falei, chorando enquanto afundava a cabeça em seu peito.
- Eu me sinto muito bem perto de você também, Alderan. Você é uma pessoa especial, eu sinto isso. Sei que será uma grande pessoa quando estiver mais velho e sinto que mudará o mundo. Quero estar ao seu lado nesses momentos, sempre ao seu lado para lhe apoiar e incentivar.
- Obrigado, Isa. Por favor esteja sempre comigo....Eu amo você, Isa. – Eu falei ainda chorando preso em seu abraço. Ela beijou minha testa e limpou minhas lágrimas com a própria roupa.
- Sempre estarei, Alderan. Sempre. E você sempre estará do meu lado, certo? Eu também te amo, Alderan. – Ela falou sorrindo pra mim, e seu sorriso e seus olhos brilhantes arrancaram o resto de dor que eu sentia, me fazendo bem.
- Sempre estarei com você, maninha. – Eu falei, deitando novamente a cabeça em seu peito, abraçando-a forte.
Nós não falamos mais nada, pois não precisávamos de palavras. Seu abraço e seu calor me diziam mais do que qualquer coisa, e seu carinho me acalmavam mais do que qualquer palavra. Eu acabei dormindo ali, abraçado em seu colo, e ela não me acordou e passamos a noite inteira assim, abraçados, como se nossas vidas fossem acabar se nos afastássemos...

Sunday, May 10, 2009

“Já foi dito que o tempo cura todas as feridas. Eu não concordo.
As feridas permanecem. Com o tempo, a mente, protegendo sua sanidade, as cobre com tecidos de cicatrizes e a dor diminui, mas nunca se vai”.

Rose Kennedy


Abri os olhos devagar e uma claridade muito forte me forçou a fechá-los novamente. Demorei até tornar a abri-los, mas aos poucos ia me acostumando a claridade que aquelas paredes brancas traziam ao lugar e me mexi desconfortável na cama, mas não consegui levantar. Percebi então que estava presa debaixo de um lençol, completamente empacotada por ele, e quando tentei me soltar ouvi o barulho de alguém se mexendo perto de mim.

- Calma, o lençol está preso – Philipe falou se aproximando e puxando o pano da cama – A enfermeira prendeu com medo de você rolar e cair.
- Enfermeira? – perguntei confusa. Minha cabeça ainda latejava um pouco – Estou em um hospital?
- Você não se lembra de nada? – ele perguntou com uma cara esquisita.
- Eu sofri um acidente com o Johnny, um caminhão bateu no nosso carro ontem.
- Não foi ontem, Bia – Philipe se aproximou mais e segurou a minha mão – Já fazem 3 dias.
- Eu dormi 3 dias?? – perguntei assustada e senti uma pressão na minha cabeça – E o Johnny? Onde ele está?
- Você estava em coma, sua família está desesperada – ele explicou paciente – A turma toda já passou aqui pra te ver, deixaram cartões e flores.
- Onde está o Johnny? Ele está bem? – perguntei outra vez – Lembro dele dizendo que o socorro já estava chegando e que estava bem antes de desmaiar.

Philipe ficou estranho de repente e apertou minha mão com mais força, me encarando com um olhar de pena. Sem soltar minha mão, Philipe puxou um banco para perto da cama e sentou.

- Bia, o Johnny... Ele não... – Philipe fez uma pausa e senti sua mão ficar gelada – O Johnny morreu, Bia. Quando encontraram vocês, ele já tinha morrido.
- Não, não é verdade! – fiquei agitada e tentei levantar, mas ele me segurou – Ele falou comigo, disse que estava bem, que eu tinha que ser forte. Ele estava bem, não pode ter morrido!
- Ele não pode ter falado com você, meu amor. Os médicos disseram que ele morreu na hora do impacto, que você teve muita sorte de ter sobrevivido.
- Mas eu falei com ele – disse já me desesperando, as lágrimas escorrendo por todo meu rosto enquanto Philipe o segurava com as duas mãos, tentando seca-las – Ele me disse que o socorro já estava vindo, que eu ia ficar bem. Phil, ele não pode ter ido embora!
- Eu sei, eu sei – ele repetia, tentando me acalmar – Eu acredito que ele tenha falado com você.
- Você acredita em mim?
- Sim, eu acredito. PJ foi quem encontrou vocês primeiro e ele disse que só voltou naquela rua porque ouviu a voz do Johnny chamando ele – reagi ao ouvir aquilo e ele soltou meu rosto, mas segurou minha mão – Ele disse que Johnny gritava por ele, pedindo que voltasse porque era importante. Ele achou que estava maluco, mas decidiu voltar. Quando chegou lá encontrou o carro de cabeça pra baixo, Johnny morto e você desacordada. Ele entrou em desespero e chamou uma ambulância, ficou lá do seu lado esperando o socorro chegar.
- Ele falou comigo, Phil... Ele não queria que eu ficasse desesperada com o acidente.
- Sim, ele estava cuidando de você.
- O que eu vou fazer sem ele? – comecei a chorar outra vez e Philipe alisou meu rosto, beijando minha testa.
- Eu vou ficar do seu lado, não se preocupe.

Fechei os olhos outra vez, deixando caírem muitas outras lágrimas enquanto Philipe mantinha minha cabeça em seu ombro. Senti um aperto no coração tão intenso que impressão que tinha era de que ele ia explodir de tanta dor. Meus pais entraram no quarto um tempo depois e ficaram aliviados de ver que eu estava acordada, mas logo os sorrisos desapareceram e deram lugar a mais lágrimas quando descobri que meu irmão já havia sido enterrado e não tive a chance de me despedir pela última vez. Quando olhei para a porta do quarto, vi o rosto do PJ me olhando pelo vidro, mas ele sumiu quando viu que eu tinha o visto. Queria falar com ele, poder agradecer por ter voltado, mas não conseguia. Era inevitável pensar que meu irmão favorito havia morrido e aquele com quem nunca me dei bem estava andando pelo corredor do hospital, vivo e sem nenhum arranhão, porque saiu do carro minutos antes. Pensar aquilo me fazia se sentir extremamente mal, mas o que magoava mais era saber que Pierre devia estar pensando a mesma coisa. E não devia estar se sentindo culpado por isso.

Wednesday, April 22, 2009

- Vai Ginny! – Johnny gritou do meu lado, batendo palma e incentivando nosso irmão – Acaba com eles!
- Johnny, está todo mundo olhando! – puxei-o pelo braço e ele sentou outra vez, rindo.
- EUGENE, NÓS TE AMAMOS! – Johnny gritou outra vez rindo alto e me abraçou quando tentei me esconder dos olhares que nos cercavam – Relaxa maninha, Eugène está adorando a tietagem!
- Você é muito miqueiro... – comentei fazendo careta e ele riu mais ainda.
- Chata – revidou me empurrando de brincadeira.
- Imbecil – retruquei.
- Cabelo rebelde! – ele passou as duas mãos nos meus cabelos e os arrepiou todo, algo que odiava.
- Argh, seu idiota!

Voei para cima dele revoltada, ao mesmo tempo em que tentava abaixar os cabelos arrepiados. Johnny se esquivava dos meus tapas dando risada e as pessoas em volta da gente não paravam de olhar assustados, até que ele se desequilibrou e caiu do banco, rolando alguns degraus na arquibancada e me puxando junto. Paramos quando batemos na grade de proteção e a sombra do treinador Perrineau nos cobriu.

- Vocês estão atrapalhando o treino – ele disse com sua voz grave que assustava até meu pai – Vou ter que pedir que se retirem.
- Mas eu não tenho culpa, foi o Johnny, senhor Perrineau – tentei me safar, mas não colou.
- Johnny Latour... – ele falou meio que sorrindo, mas sem perder a pose séria – Meu jogador mais problemático, mas também o mais talentoso. Vejo que não mudou nada.
- Treinador – meu irmão apertou sua mão, sorrindo – Desculpe a bagunça, não queríamos atrapalhar.
- Estão desculpados, mas mantenho minha decisão de pedir que se retirem. Eugène precisa se concentrar e não está conseguindo com vocês dois fazendo escândalo da arquibancada.
- Muito justo – ele me abraçou limpando a grama da roupa e acenou para Eugène, que assistia a tudo de longe, achando graça - Voltamos para buscar nosso irmão quando o treino acabar.

Deixamos o campo de quadribol da liga infantil sob o olhar curioso das pessoas que acompanhavam o treino. Algumas nos olhavam pela exibição patética de briga entre irmãos minutos antes, outras olhavam para o astro do quadribol abraçado a mim. Johnny chamava atenção por onde andava e já estava acostumada com os olhares e cochichos que o acompanhavam. Atravessamos a rua e entramos em uma sorveteria aberta para esperar a hora de levar Eugène para casa. O dono da sorveteria veio pessoalmente nos atender e voltou para o balcão com um autógrafo do meu irmão misturado aos nossos pedidos.

- Você não terminou de me contar no que deu o protesto do Marcel, Bia - Johnny perguntou depois que trouxeram nossos sorvetes.
- Ah sim, o diretor prometeu estudar a idéia, disse que iria apresentar ao conselho de Beauxbatons - falei esperançosa - Agora só podemos cruzar os dedos e esperar. Mas os garotos já estão a postos para uma manifestação maior, anunciada até na rádio, caso nos enrolem demais.
- Ah bom, não podem desistir. Conheço o velho Charleston, basta ele se sentir pressionado que as coisas fluem com mais facilidade - ele piscou, dando a dica - E por falar em pressão, tenho entradas para o jogo do Testrálios de Olympique x Gigantes de Lyon. Quer ir?
- Claro! - respondi empolgada - Pierre contou que os jogadores andaram se estranhando, vai ser uma briga boa em campo!

Ele sorriu animado e terminamos nossos sorvetes conversando sobre amenidades, esperando o tempo passar. Como sentia falta de conversar com ele na escola, era sempre tão fácil. Johnny e eu brigávamos como qualquer irmão, mas as brigas nunca duravam mais que alguns segundos e logo estávamos rindo de nós mesmos, fazendo piada da situação. E apesar de ser o maior astro de quadribol da França da atualidade, não mudara nada. Era o mesmo Johnny bobalhão que gostava de bagunçar meus cabelos para me ver irritada, que escondia as cuecas limpas de Pierre no canil dos cachorros e que ensinava brincadeiras de mal gosto a Eugène, para o desespero de nossa mãe.

A hora de castigo fora do campo passou e voltamos para buscar nosso irmão mais novo, voltando para casa ouvindo-o contar do treino que perdemos e do jogo que teriam no fim de semana contra um time de Rennes. Passamos toda a tarde jogando jogos de tabuleiro com ele e quando anoiteceu, sai com Johnny e Pierre para o jogo. Pierre era locutor esportivo e quando chegamos ao estádio, se separou da gente indo para a cabine da rádio, enquanto eu ia com Johnny para a tribuna de honra.

A partida foi espetacular. Com os egos feridos por causa da troca de ofensas durante a semana, os times abandonaram qualquer tipo de diplomacia e partiram pra cima, usando todas as armas que possuíam e sem economizar nas faltas. Depois de mais de duas horas de jogo, Ian Moretz capturou o pomo e a partida terminou em 470 x 380 para os Testrálios de Olympique. A torcida na arquibancada fazia a maior festa e aproveitamos para sair antes que todos decidissem deixar o estádio ao mesmo tempo. Pierre já nos esperava ao lado do carro quando chegamos ao estacionamento.

- Preciso de uma carona até a casa da Sophie – disse já se apoderando do banco da frente quando Johnny abriu a porta.
- Por que você não aparata até lá? – perguntei azeda, sentando no banco de trás.
- Estou sem a minha licença, esqueceu? – respondeu revoltado – Só porque aparatei dentro da sala do Ministro, foi sem querer.
- É um idiota mesmo – Johnny implicou e ele riu, o que me deixou irritada. Se aquele comentário partisse de mim, geraria uma briga – Sophie é qual das suas namoradas?
- A ruiva – Pierre respondeu sorrindo presunçoso.
- Você é um porco mesmo – não me agüentei – Um dia elas vão descobrir que você tem três namoradas.
- Não se mete, garota, que coisa chata – Pierre retrucou.
- Parem vocês dois, será que não conseguem conversar sem brigar? – Johnny se meteu.
- Culpa dele, que acha que pode mandar em mim! – respondi já quase gritando
- Sou seu irmão mais velho, tenho um pouco de direito! – Pierre respondeu no mesmo tom.
- Você disse bem, é meu IRMÃO, não é meu pai! Não tem direito nenhum de mandar em mim, cale a sua boca!
- Não me manda calar a boca! – Pierre virou para o banco de trás com a face vermelha de raiva e Johnny o puxou de volta, achando que ele fosse encostar a mão em mim.
- PJ, a casa da Sophie fica a duas quadras daqui, você pode ir andando – Johnny parou o carro de repente e aprontou a varinha para a porta do carona, a abrindo – Estou de folga do trabalho e quero paz na companhia dos meus irmãos, mas se vocês não querem cooperar, então me vejo obrigado a botar ordem na casa. Pode descer, porque não quero gritaria no meu carro.
- É, eu posso ir andando mesmo – Pierre tirou o cinto e saiu do carro irritado, mas não sem antes olhar para trás e apontar o dedo pra mim – Nunca mais me mande calar a boca, ouviu?

Pierre bateu a porta com raiva e atravessou a rua sem nem olhar para trás. Johnny olhou para mim severo e torci o nariz, pulando para o banco da frente sem falar nada. Ele ligou o carro outra vez e voltamos para a estrada.

- Vocês dois, viu... – comentou depois de um longo período de silencio – Não entendo como brigam por qualquer coisa. Já vi vocês conversando tão bem!
- Quando eu volto da escola, depois de muito tempo longe, conversamos numa boa. Eu falo das aulas, ele me conta dos jogos, mas não demora muito e alguma coisa vira motivo para discussão. Sempre foi assim, sempre vai ser. Pierre é um porco machista e não vai mudar.
- PJ não é tão mal assim, Bia. Você só precisa dar uma chance a ele.
- Ele é um imbecil, isso sim – respondi ainda chateada – Eu não tenho dois irmãos mais velhos e um pai, mas sim um irmão mais velho e dois pais!
- Bia, nem sempre vou estar perto pra apartar as brigas e acalmar os ânimos. O que vai acontecer numa próxima vez que discutirem? Vai se atacar como dois animais, como estava prestes a acontecer agora pouco?
- Por que ele não é o astro de quadribol que está sempre fora e você o locutor que dorme em casa todos os dias? – perguntei inconformada e ele riu.
- Porque PJ como jogador de quadribol é um excelente locutor esportivo – ele respondeu e rimos alto – Quando você jogar profissionalmente vai dar um...
- JOHNNY, CUIDADO!

Gritei desesperada levando a mão ao rosto quando vi um caminhão vindo de encontro ao nosso carro e Johnny virou o volante depressa, mas já era tarde demais. Vi uma luz muito forte em cima da gente, ouvi uma buzina alta e no instante seguinte o carro levantou vôo, capotando várias vezes e parando de cabeça para baixo do outro lado da estrada. Como estava presa pelo cinto, fiquei pendurada por ele e sentia a cabeça muito pesada, vendo algumas gotas de sangue pingando da minha testa. Fazia um esforço absurdo para manter meus olhos abertos, minha cabeça rodava e sentia vontade de me render ao cansaço e apenas dormir, mas lutei contra essa vontade. Olhei para o lado assustada e não conseguia ver o rosto de meu irmão, somente seu braço estirado no chão, sujo de sangue.

- Johnny?? Johnny?? – chamei-o chorando, tentando me soltar do cinto – Johnny, você está me ouvindo??
- Eu estou aqui, estou bem – ouvi meu irmão responder perto de mim, embora ainda não pudesse ver seu rosto – Tudo vai ficar bem, o socorro já vai chegar. Estou aqui do seu lado, seja forte.
- Ok... – respondi engolindo o choro.

Ouvir a voz de meu irmão me reconfortou e pude respirar aliviada. Sabendo que ele estava bem e do meu lado, parei de lutar contra o cansaço e deixei que meus olhos fechassem. No mesmo instante, tudo ficou escuro e silencioso, e a dor que sentia já não existia mais. Johnny disse que tudo ia ficar bem, e ele nunca mentiu pra mim.

Wednesday, April 15, 2009

- Até daqui a pouco, mana – Andreas ajeitou a mochila nas costas e encheu a mão de pó de flu, atirando no chão – Rue Grimaldi, Monaco-Ville 980, Monaco!

Uma chama verde esmeralda o envolveu e segundos depois ele desapareceu, deixando a lareira da estação vazia. Olívia contou até 10 e pegou sua mochila, repetindo os passos do irmão. Esperava sempre 10 segundos, pois era o tempo que seus pais tinham de receber Andreas e deixaram a sala livre para que ela pudesse passar sem ser incomodada. Quando era pequena Olívia se incomodava com a falta de atenção dos pais, mas com o tempo aprendeu a não se importar com a clara preferência deles por seu irmão gêmeo. Agora, ao invés de se chatear, ela apenas retribuía na mesma moeda.

- Ah, ela chegou! – Olívia surgiu na lareira de sua casa e ouviu a voz de seu pai.
- Querida, por que demorou tanto? – ela ouviu sua mãe e procurou o olhar do irmão, confusa. Andreas sufocava uma risada ao lado dos pais, mas deu de ombros quando ela o encarou – Seu pai e eu já estávamos preocupados, ele ia agora mesmo até a estação!
- Eu esperei um pouco, para não... – mas não chegou a terminar a frase, pois seu pai a puxou para um abraço.
- Andreas, pegue a mochila de sua irmã, está pesada! – ordenou e o garoto correu para pegar a mochila de Olívia, subindo as escadas em seguida.
- O jantar vai ser servido, vamos para a sala – sua mãe a abraçou animada.
- Preciso trocar de roupa antes, passei o dia inteiro com essa – Olívia se esquivou do abraço da mãe – Já vou para a sala.
- Ok, mas não demore! E chame seu irmão também, quero a família toda reunida!

Olívia sorriu desconfortável para a mãe e subiu as escadas apressada, olhando para trás com uma expressão confusa. Seus pais ainda a observavam do pé da escada e quando acenaram desaparecendo pela porta que levava a sala de estar, Olívia correu na direção contraria e entrou no quarto do irmão gêmeo, que trocava de roupa.

- O que está acontecendo? – Olívia perguntou assustada, fechando a porta e jogando o corpo contra ela, como se pudesse impedir seus pais de entrarem – Caímos na lareira errada?
- Não, estamos na nossa casa mesmo, mas parece que ao avesso... – Andreas respondeu tão confuso quanto sua irmã, embora parecesse estar se divertindo.
- Então quem são aquelas pessoas lá embaixo e o que fizeram com nossos pais?
- Eles estão esquisitos mesmo, mas por que não relaxa e curte o momento? – Andreas vestiu um casaco por cima da camisa amassada e levantou da cama – Vai dizer que nunca quis saber como é ser o filho preferido? – Olívia hesitou e ele riu – Então! Aproveite e explore-os um pouco. Vai ser bom não ter os dois no meu pé por pelo menos uma semana... Vamos jantar? Estou faminto!

Olívia não se moveu por alguns segundos, mas acabou cedendo. Andreas estava certo. Apesar de estranho, ela não podia negar que havia gostado da atenção inusitada que seus pais lhe dedicaram. E já que não sabia o que a motivou e muito menos por quanto tempo ia durar, a melhor solução era aproveitar.

*****

O recesso de páscoa já estava chegando ao fim e o clima na casa dos Casiraghi continuava estranho. Olívia era constantemente paparicada pela mãe, que não a deixava sozinha por mais que 15 minutos, sempre querendo saber como estava indo na escola, dos amigos, dos planos para as férias e até sobre sua formatura. A garota não agüentava mais responder aos questionamentos da mãe, mas então lembrava de seu pai, que a cercava nos intervalos em que sua mãe a perdia de vista querendo conversar sobre os planos para o futuro. De repente, seu sonho de se tornar escritora não parecia mais algo absurdo do ponto de vista do pai. Era como se de uma hora pra outra ele aceitasse que sua única filha não tinha pretensão de ter como carreira ser esposa de alguém. Aquilo, embora satisfizesse Olívia, estava deixando-a desconfiada.

Era a ultima refeição com a família reunida antes de Andreas e Olívia voltarem à escola. Andreas contava sobre o fim de semana dos pais que a escola promovia todos os anos no mês de Maio e que seus pais sempre evitavam comparecer. Dessa vez, no entanto, ambos estavam animados por terem a chance de visitar Beauxbatons e conversar com os professores de seus filhos.

- Vai ser no segundo sábado de Maio. Quem está organizando as coisas na Lux é a Danielle, mas Olívia está ajudando, não é Lívia?
- Sim, estamos preparando uma recepção para os pais dos alunos da Lux no nosso salão comunal, algo mais reservado e separado do banquete oferecido pela escola.
- Isso é excelente! Estamos ansiosos, não vejo a hora de poder conversar com os pais do rapaz! – a mãe falou empolgada e Olívia percebeu o olhar severo de seu pai a ela.
- Que rapaz? – perguntou olhando de um para o outro.
- Ora Benoit, não me olhe assim, como se Olívia não soubesse de nada! – Cecile reclamou – Pois se é ela quem está namorando, como não pode saber que aprovamos?
- Do que vocês estão falando? – Andreas não se conteve e perguntou, vendo que Olívia encarava os dois sem dizer nada.
- Já sabemos que sua irmã está namorando o Príncipe Marcel, está em todos os jornais – Benoit explicou e sua esposa confirmou com a cabeça – Olívia, por que não nos contou? Estava com medo de alguma coisa?
- Bobagem! Medo do que? Marcel é um excelente rapaz! Eu, como uma mãe zelosa, não poderia estar mais satisfeita em saber que minha filha está em tão boas mãos!

Andreas deixou o suco de uva sair pelo nariz ao tentar abafar uma risada escandalosa e seu pai o olhou com ar de reprovação, logo desviando a atenção para a filha, assim como sua esposa. Ambos sorriam felizes e Olívia os encarava incrédula, sem palavras. Finalmente tudo fazia sentido. Todo aquele tratamento com ela, as boas vindas na lareira e as gentilezas constantes, não passavam de interesse. Seus pais achavam que ela ia se casar com o futuro Rei de Mônaco e queriam garantir que desfrutariam dos benefícios, pois sabiam que se continuassem a ignorar a filha, ela jamais permitiria que eles fossem morar no castelo.

- E então, minha querida? – a voz de sua mãe a tirou do transe – Por que não nos contou antes sobre o Marcel?
- Estava esperando para contar pessoalmente, mas acho que acabei esquecendo. Desculpe. – Olívia sorriu, mentindo.

Foi sua primeira mentira, e saiu sem que ela planejasse, sem que percebesse que estava confirmando aquilo que a faz brigar com Marcel uma semana antes. Ela não entendeu, naquele momento, porque havia mentido, mas de repente percebeu que havia gostado de toda a atenção que recebeu dos pais durante a semana e não queria que aquilo acabasse. Seus amigos haviam dito que ela devia relaxar e aproveitar os 15 minutos de fama e era isso que ela faria. O único problema era que eventualmente ele iria acabar, bastava que Marcel arrumasse uma namorada de verdade. E embora ainda pouco acostumada a todos os mimos que teve durante o feriado, Olívia ainda não estava preparada para voltar a ser ignorada pelos pais.

Monday, April 13, 2009

O feriado de páscoa havia finalmente chegado e a maioria dos alunos deixava a escola para passar a semana em casa com suas famílias. O barco que levaria todos de volta a Paris já estava na metade do percurso e alunos que estavam a bordo se encontravam espalhados nos pelas pequenas cabines, conversando animados enquanto saboreavam xícaras de chocolate quente trazidas a todo instante pelos elfos, junto com alguns biscoitos.

- Derek está animado com o manifesto – Andreas comunicou os amigos, seus pés descansando em cima da mesinha – Disse que podemos anunciar uma paralisação, se ela for necessária, através da rádio.
- Nem pensar, não vão usar a rádio para um ato de rebelião! – Kwon protestou de imediato – Se o diretor encrencar, pode mandar fecha-la!
- Relaxa, National Kid – Marcel falou ajeitando o cabelo e os outros riram – Se a escola inteira se mobilizar, ele vai ser obrigado a ceder e só através da rádio podemos fazer todos nos ouvirem. Ele não vai fechar nada, fica tranqüilo.
- É, Kwon, fique tranqüilo – Bianca apertou seus ombros brincando e ele relaxou – E não vamos sair convocando a escola inteira agora. Vamos aguardar mais um pouco, até depois do feriado de páscoa acabar. Certo? – perguntou esperando uma confirmação dos amigos e eles assentiram com a cabeça.
- Está certo, vou confiar em vocês – Kwon cedeu, ainda um pouco contrariado – Tenho que falar com a Jules, ela disse que também quer jogar quadribol e tem algumas idéias já.
- Jules... – Philipe falou zombeteiro, cutucando Andreas e Marcel – É a loirinha da Nox, não é?
- É uma amiga... – Kwon disse cauteloso, mas não adiantou.
- Amiga, sei... – Andreas caçoou – O discurso é sempre o mesmo!
- Alguém viu a Ollie? – Danielle perguntou notando a ausência da amiga – Ela disse que viria depois, mas isso foi há algumas horas...

A pergunta de Danielle foi respondida antes que alguém se propusesse a isso. A porta da cabine se abriu e uma enfurecida Olívia entrou, amassando uma folha de jornal na mão. Traçando uma reta até Marcel, atirou o jornal em seu rosto e cruzou os braços, esperando uma explicação. O garoto correu o olho pela página e soltou uma gargalhada, o que acabou irritando ainda mais a garota, mas ele não notou.

- Eles são ridículos – Marcel comentou ainda rindo, passando o jornal para Philipe – Semestre passado era a Natalie, da Mannaz. Até acho que ela gostou da fama, mas não tinha nada a ver.
- MARCEL! – Olívia o recriminou – Esse jornal está dizendo que sou sua namorada! Como você acha graça nisso?
- Por que é sempre a mesma história, Ollie. Eles não podem me ver sozinho com uma garota que já deduzem que é a minha “escolhida”. Em agosto eu completo a maioridade, eles esperam que eu escolha em breve quem vai ocupar o lugar da minha mãe no trono. Não ligue pra isso, daqui a pouco eles mudam o alvo, basta me verem com alguma outra garota.
- Mas... – Olívia tentou argumentar, mas ainda estava processando o que ouvira e não conseguiu formar uma sentença.
- Ah Olívia, você queria o que também? – Anabela leu rápido o que dizia o jornal e olhou para a amiga rindo – Você foi fotografada com o Marcel almoçando com a família Real na Torre Eiffel e no dia dos namorados! Depois foi ao baile com ele e estão sempre juntos! É pedir demais que eles não imaginem coisa!
- Estamos sempre juntos porque estou tentando fazer com que entre um pouco de História da Magia Francesa nessa cabeça oca! – Olívia protestou, batendo de leve na cabeça de Marcel.
- É só um pedaço de papel, por que está tão irritada? – Danielle perguntou rindo.
- Porque é uma mentira e vocês sabem que eu odeio mentira.
- É verdade, minha irmã nunca mentiu – Andreas defendeu Olívia.
- Isso até que uma mentira venha a calhar para ela, aí eu duvido que Olívia não minta pela primeira vez! – Bianca brincou e todos riram, concordando.
- Está dizendo que vou ter que aceitar essa mentira? – Ela perguntou indignada
- Sim, vai. Sinto muito. Se eu me pronunciar dizendo que você é apenas minha amiga, é como se fosse uma confirmação pra eles de que, na verdade, já estamos até com a data do casamento marcada! – Marcel falou se divertindo e todos riram, menos Olívia.
- Ah Ollie, relaxa e curte seus 15 minutos de fama – Bianca puxou a amiga pela mão, a forçando a sentar nas almofadas – Esquece isso e fica aqui com a gente.
- Se eu não tenho escolha... – disse revirando os olhos – Do que estavam falando?
- Da namorada do Kwon – Andreas anunciou debochado – Jules Blanchar, não é esse o sobrenome dela?
- Ela NÃO é minha namorada! – Kwon disse irritado – Se ela fosse, eu diria!
- Se estiver mentindo, Kwon, pode magoar a menina. Se estiverem namorando, assuma logo – Anabela falou em um tom de voz estranho, o que resultou nas atenções sendo voltadas para ela.
- Desde quando você se preocupa com quem nem conhece direito, Bela? – Marcel perguntou desconfiado
- Obrigada por me chamar de insensível – retrucou azeda
- Deixem a Anabela em paz, gente – Kalani defendeu a amiga e ela sorriu agradecida.
- E você, Kal? – Danielle mudou o foco para Kalani – Alguma menina na área? Já está aqui há 8 meses e é bonitão, duvido que não tenha surgido nenhuma candidata...
- Boa pergunta, Dani. E não minta, Kalani, por que acho que é impossível você não ter se interessado por nenhuma menina ainda! – Philipe engrossou o coro
- Nenhuma ao meu alcance – Kalani respondeu direto, sorrindo um pouco sem graça.
- Seu cachorro, está de olho em uma garota comprometida?? – Andreas bateu com a mão no braço do sofá, rindo alto.
- São sempre os mais quietos, impressionante... – Philipe riu também, batendo no ombro do irmão – Quem diria, Kalani Haili querendo entrar numa relação a três!
- Eu não disse nada disso – tentou se defender
- Quem é a garota? – Marcel pressionou o garoto e todos encararam Kalani, curiosos.
- Esqueçam, não vou dizer – ele riu.
- Não acredito que vai nos deixar curiosos! – Bianca falou indignada e todos concordaram com a cabeça, mas Kalani riu um pouco sem graça e abaixou a cabeça.
- Deixem ele em paz, gente – Olívia percebeu o desconforto do garoto e o defendeu.

Mesmo contrariados, todos desistiram de arrancar alguma informação valiosa de Kalani e voltaram a conversar sobre os rumos do campeonato de quadribol da escola. Quando o sol já estava se pondo, o barco atracou em Paris e todos desembarcaram. Marcel procurou Charlotte e foram escoltados por seus seguranças até um carro, Anabela, Danielle, Olívia e Andreas desapareceram pela lareira da estação, Nani, Philipe, Kalani e Kwon foram recebidos por seus pais e Bianca foi recebida por seu irmão Johnny, que estava cercado de fãs quando a garota desembarcou do trem. Ele atendeu a todos com paciência, mas quando localizou Bianca pediu licença e foi ao seu encontro, desaparatando com a garota em seguida, para uma semana inteira de folga e muitas novidades para contar.

Sunday, March 22, 2009

O café da manha corria calmo como de costume. Ainda consumidos pelo sono, Philipe, Marcel, Olívia, Danielle e Anabela tentavam ignorar a conversa animada que se desenvolvia entre Bianca, Kwon e Andreas. Para eles, era insuportável aquele bom humor matinal dos três, sempre dispostos e com a corda toda já cedo. Os três discutiam sobre os rumos do Campeonato Francês de Quadribol, alheios aos bocejos dos amigos, quando foram interrompidos por Alphonse Bacellar, um dos batedores do time da Lux. O garoto sentou-se à mesa aparentando irritação e as atenções foram desviadas para ele.

- Algum problema, Bacellar? – Philipe encarou o colega curioso.
- Sim, Perrineau! – Alphonse respondeu irritado, lançando um olhar rápido a mesa da Sapientai – O diretor vai anular a partida contra a Sapientai, vão tirar os nossos pontos e passar pra eles!
- O QUE? – Marcel ficou de pé na mesa, irritado – Que história é essa? Por que isso agora? A partida foi em Janeiro!
- Mas só agora eles caíram pra terceiro na tabela – Philipe comentou balançando a cabeça – Isso tudo por que escalei Bianca?
- Parece que sim. O capitão deles foi reclamar que a partida estava fora das regras da escola.
- Eu vou arrebentar a cara daquele idiota do Derkier! – Marcel ameaçou ir até a mesa da Sapientai, mas Kwon e Andreas o seguraram.
- Você não vai fazer nada, Marcel – Philipe também levantou e falou em tom de aviso – Vou conversar com o diretor, tentar encontrar outra forma de punição, mas não vamos partir pra ignorância.
- Já estou arrependida de ter aceitado jogar – Bianca disse desanimada e Philipe segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.
- Não se culpe, a decisão foi minha e não me arrependo, faria outra vez se tivesse a chance.
- Esse seu namoradinho, hein Dani? – Marcel cutucou a amiga, encarando a mesa da Sapientai de lado.
- Não meta o Henri nessa confusão, ele não é o capitão do time e não foi dele a decisão de reivindicar os pontos! – Danielle defendeu o namorado, olhando feio para Marcel.
- Mas aposto que está adorando isso tudo e apoiando o capitão de meia tigela.
- Parem os dois – Philipe olhou severo para os amigos – Nossa situação já não está boa, vai piorar se começar a ter briga entre nós.
- Meu irmão está certo, não precisamos começar a brigar, não é assim que vamos resolver as coisas – Kwon apoiou Philipe e olhou com reprovação para Marcel e Danielle.
- Desculpa Dani – Marcel desfez a cara de irritação e sorriu para a amiga – Sei que a culpa não é do Renoir. Exagerei um pouco – Danielle sorriu de volta e ele pegou a mochila na mesa – Mas isso não vai ficar assim, não vou deixar que a casa perca os pontos.
- O que vai fazer, Marcel? – Philipe segurou o braço do amigo, o impedindo de sair – Nada de brigar.
- Não vou brigar, relaxa – Marcel sorriu maroto – Confiem em mim.

Philipe soltou seu braço e deixou que o amigo saísse, mas não o perdeu de vista até que tivesse certeza que não iria até a mesa da Sapientai. Se bem conheciam Marcel, sabiam que ele ia aprontar alguma coisa muito em breve.

*****

O dia de aulas já estava quase no fim e Marcel ainda não dava pistas do que estava aprontando para evitar que a Lux perdesse os pontos da partida contra a Sapientai. Cada movimento seu era observado com atenção pelos amigos e todos ficaram apreensivos quando ele se levantou de repente no meio da aula de poções, mas relaxaram ao perceberem que ele só pretendia usar o banheiro. Já estavam no 5º tempo de aula, História da Magia Francesa, e Anabela convencera a todos que Marcel já havia esperado demais, se pretendesse fazer qualquer coisa ainda naquele dia já teria feito. Convencidos de que Marcel não faria nada, se dividiram em prestar atenção a aula, dormir ou simplesmente conversar em voz baixa. Mas 30 segundos de distração era tudo que Marcel precisava.

O garoto se levantou e, rápido como um gato, subiu na mesa, sentando de pernas cruzadas por cima do pergaminho que deveria estar sendo usado para copiar a matéria. Os olhares de toda a turma se voltaram para ele e se dividiam entre observá-lo sentado em cima da mesa e observar a professora Cordelia de costas para a turma, alheia a novidade. Mas as conversas paralelas e as risadas que aos poucos se formavam logo chamaram sua atenção. Ela se virou irritada com o falatório e seus olhos pararam em Marcel. Ele sustentou o olhar da professora, sem se abalar.

- Monsieur Grimaldi, o que pensa que está fazendo? – perguntou em tom de irritação – Desça já dessa mesa. Defossez não ensinou que lugar de sentar é na cadeira?
- Estou protestando contra o time da Sapientai – Marcel respondeu tranqüilo.
- Perdão? – Cordelia cruzou os braços, impaciente.
- Querem anular uma partida porque uma garota jogou no nosso time. Não aceitam terem perdido para uma mulher e querem anular o jogo.
- E o que a minha aula tem a ver com isso?
- Nada, mas achei o momento propicio, já que ninguém estava mesmo prestando atenção – a turma inteira riu e Cordelia bufou.
- Saia daí agora ou irei chamar o diretor! – ameaçou
- Faça esse favor, sim? Quero que ele venha até aqui!
- Não reivindicamos os pontos por termos perdido para uma garota! – Erik Derkier, capitão da Sapientai, se levantou ofendido – As regras são claras, garotas não podem jogar.
- Então por que demoraram 2 meses para reclamar isso? – Alphonse também ficou de pé e subiu na mesa – Também vou protestar.
- Acho que as garotas deveriam ter o mesmo direito dos garotos. Se elas quiserem jogar no time das casas, deviam ter permissão – Anabela também se levantou e ficou de pé na mesa – Chega dessa ditadura machista!
- Direitos iguais sim – Bianca também se sentou em cima da mesa – Quero poder jogar no time da minha casa, tenho capacidade para jogar de igual pra igual com os garotos, acho que já pude provar isso.
- Não tem nada a ver isso que estão falando, só agimos de acordo com as regras e nela garotas não podem jogar! – Derkier tentou se defender mais uma vez, mas ouviu um coro de vaias da maioria das garotas.
- Vamos protestar pelo direito das garotas jogarem no time das casas! – Andreas ficou de pé com o braço erguido e se juntou aos amigos, sentando-se à mesa.

Philipe e Kwon se olharam rindo e também se levantaram, seguidos por Olívia e Danielle. Um a um, todos os alunos da sala foram levantando e ocupando suas mesas, até restarem apenas os jogadores do time da Lux. Danielle lançou um olhar de decepção para Henri que surtiu efeito, pois o garoto foi o primeiro do time adversário e se levantar e também sentar a mesa. Ao ver que seus amigos não fariam o mesmo, deu um soco de leve nos braços de Edmond e Enrico, que mesmo contrariados, também ficaram de pé. Cordelia saiu da sala irritada e voltou minutos depois arrastando o diretor pelo braço, apontando Marcel como o agitador do protesto.

- O que está acontecendo aqui? – o diretor perguntou mantendo a calma e todos começaram a falar ao mesmo tempo – Silencio! Monsieur Grimaldi, queira explicar-se, por obsequio.
- Queremos que garotas possam jogar no time das casas, elas têm o mesmo direito que nós temos – Marcel explicou em um tom de voz tranqüilo.
- As regras da escola são essas desde sua fundação – o diretor replicou – Por que deveria mudar agora?
- Porque os tempos estão mudando. Agora as garotas de Beauxbatons querem jogar e são impedidas por regras bestas.
- As regras não são bestas, foram feitas para manter a ordem.
- Bom, está claro que essa regra não está mantendo a ordem – Marcel disse sarcástico e alguns alunos sufocaram risadas.
- Monsieur Grimaldi, não pense que por ser filho do Rei de Mônaco será poupado de suas gracinhas. Posso lhe dar uma detenção pesada por esse comentário debochado.
- Jamais esperei imparcialidade por conta da minha posição na sociedade. Estou aqui, sentado em cima da mesa, lutando pela igualdade de direitos como um aluno qualquer. Que é o que sou nessa escola, um aluno como outro qualquer.
- Com licença, diretor. Posso falar? – Bianca levantou a mão e o diretor assentiu com a cabeça – Sou fascinada por quadribol, minha família inteira é envolvida com o esporte, e só queria o direito de poder mostrar que posso jogar pelo time da minha casa. Philipe me deu essa chance e provei que garotas podem sim jogar no meio de garotos e se sair muito bem. Não é justo que culpe o time por isso e tirem os pontos conquistados na partida.
- Pontos conquistados por mérito do time, diga-se de passagem – Marcel completou – Bianca jogou melhor que todos nós, deveria ter permissão de jogar. Derkier decidiu reclamar dos pontos 2 meses depois, porque seu time caiu para terceiro lugar na tabela.
- Isso não é verdade! – Derkier ficou de pé, irritado.
- Se não fosse verdade, teria reclamado logo que a partida terminou! – Philipe se irritou também e o acusou – Aceite que perderam para uma garota. Aceite que é contra times mistos por saberem que vão perder sempre – todas as meninas da sala aplaudiram Philipe e deram inicio a uma discussão cruzada com Derkier.
- Já chega! – o diretor falou com a voz grave e todos se calaram – Os pontos da Lux serão mantidos, se alegam injustiça na anulação da partida – os alunos comemoraram e ele pediu silencio outra vez – Quanto a garotas jogarem nos times, mantenho minha posição de não mudar as regras da escola.
- Mas isso é ridículo! – Marcel exclamou exaltado – Voltamos a 1920!
- Monsieur Grimaldi, é meu ultimo aviso, pare imediatamente! – ele olhou severo para Marcel, que se calou, mas manteve a expressão desafiadora – As regras não podem ser mudadas sem um consenso geral dos antigos diretores da escola e do Ministério da Magia. Não cabe somente a mim mudar uma regra imposta desde a fundação de Beauxbatons.
- Então convoque uma reunião com eles! – Marcel tornou a falar, inconformado.
- E não cabe ao senhor me dizer o que fazer, mas garanto que qualquer decisão tomada será comunicada a vocês. Por enquanto, as regras são mantidas. E esse protesto termina aqui. Quem permanecer em cima da mesa pelos próximos 30 segundos terá 20 pontos descontados. Assunto encerrado!

O diretor saiu da sala e rapidamente os alunos desceram das mesas, até mesmo Marcel. A aula já estava encerrada e Cordelia liberou a turma, saindo da sala impaciente com toda aquela confusão.

- Muito bom, Marcel! – Philipe deu três tapas em suas costas – Não perdemos os pontos, você conseguiu.
- É, mas ainda não consegui a permissão para que Bianca faça parte do time.
- Mas chegamos perto – Bianca animou o amigo – Ele deu a entender que vai haver uma reunião com o conselho. Quem sabe não nos liberam?
- Não temos nada a perder em ter esperança nisso, então vamos ficar confiantes, ok? – Anabela falou também animada – E se nada se resolver, podemos organizar outro protesto. Quem sabe até com a escola toda? Aposto que muitas garotas querem esse direito também.
- É, quem sabe... – Marcel falou pensativo, sorrindo mais animado.

O diretor agora sabia que muitos alunos eram contra a proibição de que garotas jogassem no time das casas e cabia a ele mudar isso. E aos interessados, só restava aguardar uma resposta.