Friday, February 13, 2009
Assim que o barco ancorou no porto embaixo da Pont Neuf, o grupo se dispersou. Saíram tão apressados que Marcel não conseguiu ver a direção que seus amigos seguiam ao atravessar a barreira mágica e ficou esperando Olívia desembarcar, consultando o relógio.
- Para onde foram todos? – perguntou curioso quando a garota saiu e parou ao seu lado – Acho que ficamos de fora dos planos de hoje.
- É dia dos namorados, Marcel – Olívia respondeu entediada – Bianca está com Philipe e Danielle com Henri, vão passar o dia juntos.
- Mas e os outros?
- Kwon e Nani iam almoçar com a mãe deles e depois ele ia levá-la para conhecer a cidade, já que ela não conhece nada. E meu irmão saiu com Kalani, Anabela, Edmond e Enrico. Mas não faço idéia do que foram fazer.
- Melhor nem saber mesmo... – Marcel riu e Olívia o olhou desconfiada, mas não perguntou – E você? O que vai fazer?
- Nada. Odeio dia dos namorados, nunca tem nada pra fazer – ela respondeu azeda e Marcel riu outra vez, mas parou quando ela o olhou atravessado.
- Ainda não entendi porque você recusou o convite dele para fazer parte da novela – os dois começaram a caminhar para fora da barreira e os dois seguranças os seguiam de perto – Vocês iam passar mais tempo juntos!
- Marcel, já pedi que não entre nesse assunto, não quero falar sobre isso.
- Ok, ok, parei. Eu tenho que encontrar meus pais e meus irmãos pra almoçar, quer ir também? Não tem graça você ficar sozinha o dia inteiro.
- Almoço de família e eu de intrusa? Que graça isso.
- Bobagem, minha mãe adora você, sem contar Charlotte e Remy. E se você não for vai me fazer perder o compromisso, não vou deixá-la vagando sozinha por Paris.
- Mas vou ficar sem graça...
- Olívia, nos conhecemos desde que tínhamos 3 anos, freqüentamos a casa um do outro desde então, é impossível isso.
- Tudo bem, eu vou com você. Você não vai desistir mesmo... – disse sorrindo e ele estendeu o braço para ela segurar.
Os dois atravessaram a barreira juntos e os seguranças empurraram os dois para dentro de um carro preto que já os aguardava na saída. Entraram logo depois e fecharam a porta, um deles falou algo para o motorista e o carro seguiu viagem.
- E a sua irmã? – Olívia perguntou quando não viu Charlotte no veiculo – Ela não ia também?
- Charlie está em outro carro, nunca andamos juntos – Marcel explicou pacientemente – Tem um carro para cada um de nós, assim caso algum atentado aconteça, sempre vai ter alguém pra assumir o lugar no trono.
- Ai, credo, parece até que alguém vai jogar uma bomba na gente.
- Nunca se sabe... Precaução acima de tudo.
Marcel sorriu desviando o olhar para a janela e Olívia sentiu o estomago embrulhar. Era verdade que estava acostumada a andar com Marcel e todas as medidas de segurança que o acompanhavam, mas eram sempre em Mônaco, onde as pessoas estavam acostumadas a ter a presença dele e dos outros membros da família nas ruas. Nunca lhe ocorreu a idéia de que havia pessoas que poderiam querer derrubar toda a família e, consequentemente, poderiam derrubar também que estivesse no lugar errado e na hora errada.
- Chegamos – ela sentiu a mão dele bater em sua perna e saiu do transe.
Estavam em frente à Torre Eiffel. Embora frio, o dia estava ensolarado e fazia com que muitos parisienses circulassem pelo jardim que cercava a torre, aproveitando o que poderia ser o único dia de sol até o fim do inverno descansando deitados na grama. Mas os dois não saíram do carro. Permaneceram sentados, sem que ela soubesse o porquê, até que um dos seguranças saiu primeiro e abriu a porta. Marcel foi o primeiro a sair e assim que Olívia pisou no chão, se viu cercada por homens usando terno preto que formavam uma barreira entre Marcel e as pessoas na rua. Muitos curiosos levantaram para olhar e ela pode ver de relance, enquanto era empurrada pelos homens e tentava não soltar da mão do amigo, flashes de câmeras os seguindo. Olívia sentiu um enorme alivio quando entraram no elevador da torre e um dos funcionários o fechou apenas para eles e mais dois seguranças.
- Se assustou, não foi? – Marcel perguntou rindo, enquanto caminhavam pelo andar do restaurante.
- Sim! Achei que fossem carregar você embora! – respondeu ainda assustada
- Estou acostumado, já não me impressiono mais. Ah, lá estão eles.
Marcel apontou para uma mesa perto da janela e seus pais acenaram, sorrindo. Os dois caminharam até lá e sua mãe levantou depressa, abraçando Olívia primeiro, para só depois falar com o filho. Charlotte chegou logo em seguida e sorriu ao ver que a amiga do irmão estava na mesa. Ela era uma das poucas pessoas que Charlotte realmente gostava e que não a achava fútil. E Olívia, que achava que se sentiria deslocada, sequer percebeu o dia passar na companhia do amigo e de sua família. Somente quando o sol começou a se pôr a garota percebeu que o dia havia ido embora. Os seguranças novamente se postaram ao lado de Marcel e Charlotte e os escoltaram de volta para os carros que os levariam ao barco da escola.
- Ei! – Andreas, Anabela e Kalani entraram por último no barco e se atiraram nos bancos vazios atrás de Marcel e Olívia – Fizeram algo de bom hoje?
- Ollie almoçou comigo e meus pais, já que vocês a largaram sozinha hoje – Marcel respondeu brincando com o amigo.
- É, por onde vocês andaram hein? – Olívia virou para trás zangada – Nem mesmo se despediram.
- Fomos mostrar Paris para o Kalani, ele não conhece – Anabela respondeu depressa, mas não soou convincente.
- E Edmond e Enrico também não conhecem Paris? – Olívia insistiu
- Gente, vocês não vão acreditar no que aconteceu! – Bianca e Danielle chegaram correndo com Philipe e Henri atrás, interrompendo o papo.
Andreas, Anabela e Kalani trocaram um olhar aliviado e Olívia não teve mais chance de questionar o paradeiro dos três, pois as meninas levaram toda a viagem para relatar uma confusão ocorrida na Champs-Elyisée e assim que desembarcaram, os três correram para dentro do castelo. Bianca desceu do barco puxando a amiga pela mão e voltaram com Danielle para começarem a se arrumar para o baile, que começaria em duas horas.
- Ah, achei que nunca iam descer – Marcel comentou com Philipe quando viram Bianca, Olívia e Danielle descendo as escadas do dormitório.
- Você está linda, amor – Philipe beijou a mão de Bianca e ela sorriu apaixonada – Vamos?
- Henri está lhe esperando lá fora, Dani – Marcel avisou quando Bianca passou com Philipe e Danielle sorriu agradecendo, saindo com os dois
- E você? – Olívia ficou sozinha e encarou o amigo – Está esperando quem?
- Você – respondeu já estendendo o braço, mas ela não o segurou.
- Eu? – se espantou – Você não tem par?
- Não convidei ninguém. E como você também não tem par – ela o olhou de lado, mas ele não deixou que ela interrompesse – Não adianta olhar assim, você não tem. Vou fazer companhia a você. Vamos?
Olívia ainda pensou alguns segundos, mas acabou cedendo e segurando o braço do amigo, saindo com ele para o baile. O salão estava todo decorado com panos de cor rosa claro, balões em forma de coração, cupidos encantados que flutuavam de um lado para o outro e algumas bolhas de sabão entre eles. No palco havia alguns instrumentos e um dos garotos da banda já afinava sua guitarra e testava os microfones. Ao canto do salão, uma enorme mesa havia sido montada com um banquete e do outro lado, algumas mesinhas para as pessoas sentarem. No centro, uma enorme tábua de madeira lisa demarcava a pista de dança.
A banda não demorou a começar o show. A pista logo se encheu, e uma relutante Olívia aceitou dançar as músicas lentas impostas pelo diretor. E enquanto dançava com Marcel, observava os demais casais na pista. Philipe e Bianca dançavam de olhos fechados, sem se importar com mais ninguém em volta. Danielle e Henri não estavam muito diferentes, mas conversaram entre si e trocavam sorrisos cúmplices. Kalani, Anabela e Andreas, que não haviam convidado ninguém, não saíram da mesa. Mantinham as cadeiras viradas para a pista e conversavam apontando para os casais, enquanto davam risadas.
- O que foi? – Marcel perguntou vendo Olívia olhar distraída para os lados
- Nada – respondeu vaga e o encarou – Me distrai com a música.
- Também não vi Kwon no salão – ele respondeu como se pudesse ler a mente dela
- Quem disse que estou procurando ele? – Olívia se afastou aborrecida
- Ninguém, só a sua testa.
- Não me amole! – Olívia respondeu na defensiva e se irritou ainda mais quando Marcel riu – Vou voltar pra mesa!
Olívia se soltou das mãos de Marcel e virou de costas, mas congelou. Kwon estava a menos de 10 passos dela, e beijava uma menina loira que ela reconheceu como aluna da Nox, do mesmo ano que eles. Era como se alguém a tivesse jogado um balde de água fria. Não conseguia se mover, nem tampouco esboçar reação. Continuou parada encarando os dois e sentiu uma mão apertar seu ombro.
- Sinto muito – ela ouviu a voz de Marcel e se virou para ele, abraçando o amigo e escondendo o rosto em seu ombro. Ele passou a mão nos cabelos da garota e a abraçou apertado. Ela não percebeu, mas Marcel não conseguiu evitar sorrir ao ver Kwon com outra garota e Olívia recebendo consolo em seus braços. Na verdade, nem mesmo Marcel percebeu o que estava sentindo naquele momento.
Everybody finds somebody someplace
There's no telling where love may appear
Something in my heart keeps saying
That my someplace is here
Frank Sinatra – Everybody Loves Somebody
Friday, February 06, 2009
- Oi Kwon, não vi você ai. Não devia estar na radio? – A garota sorriu para o amigo.
- O salão está cheio mesmo, acho que a neve espantou todo mundo dos jardins – Ele ajeitou os livros na mão e sorriu de volta – E sim, deveria estar lá, mas precisava falar com você antes.
- Claro. O que é?
- Fico meio sem graça em te pedir isso, mas é que... – Marcel, que estava deitado na poltrona lendo um livro sobre quadribol, sentou atento – Bom, queria saber se você quer me ajudar na rádio.
- Como é? – Olívia, que havia ficado esperançosa, quase não conseguiu disfarçar a decepção.
- É que está faltando uma menina pra fechar o elenco da rádio novela e pensei que você talvez fosse gostar de ajudar. Tudo que tem que fazer é ler o texto no ar. Ensaiamos algumas vezes antes, mas nada demais.
- Ah Kwon, obrigada pelo convite, mas não dá – Olívia respondeu desanimada e Marcel arregalou os olhos no sofá – O jornal tem consumido demais o meu tempo, não vou me dedicar como deveria e acabar prejudicando vocês. Desculpe.
- Tudo bem, não precisa se desculpar – ele sorriu pra ela, sem parecer desapontado – Só ofereci a vaga pra você porque pensei que pudesse querer, mas vou encontrar outra pessoa então. Agora tenho que ir, Jude está sozinha lá.
Kwon se despediu da amiga sumindo pela multidão que ocupava o salão comunal e não viu quando Marcel levantou indignado do sofá e foi questionar Olívia, e tampouco quando a garota fez um gesto impaciente e repeliu o amigo, subindo as pressas para o dormitório.
- E terminamos a transmissão de hoje atendendo ao pedido de alguns ouvintes, com a música I Wak the Line, do Johnny Cash. Boa noite e até amanha!
Kwon apertou o botão para colocar a música no ar e desligou o microfone, girando na cadeira e parando de frente para Jude, que arrumava o seu lado da mesa e desligava seu microfone. Ficaram conversando sobre a programação do dia seguinte e desligaram os aparelhos quando a música chegou ao fim, saindo da rádio. Jude voltou logo para o salão comunal da Sapientai e Kwon ficou para trás trancando a porta. Já as guardava no bolso quando saltou assustado ao sentir uma mão segurando seu braço, deixando cair o que tinha na mão. Nani recuou alguns passos, também assustada com a reação dele.
- Desculpa! – a garota falou arrependida de ter o abordado daquela forma – Não tinha a intenção de assustar você.
- Tudo bem, Nani, calma – ele riu dela – É que não é normal alguém além de Jude e eu estar fora dos dormitórios até essa hora. O que faz aqui tão tarde?
- Estava no escritório da diretora, conversando sobre minha adaptação aqui.
- E como está indo? – Kwon finalmente guardou as chaves no bolso e caminhava com a irmã adotiva pelo corredor – Não temos nos visto muito e até peço desculpas, porque é minha culpa. O quadribol e a rádio tomam todo o meu tempo, mas devia encontrar um espaço para ajudar você com o que precisasse.
- Ainda não me acostumei bem – Nani respondeu com um tom desanimado na voz – É tudo muito diferente pra mim, as pessoas me olham de lado por não falar francês fluente, não consigo entender todas as aulas e sinto falta das minhas amigas.
- Quando entrei em Beauxbatons algumas pessoas também me olhavam de lado, para mim e Philipe, por sermos irmãos e não nos parecermos em nada. Preconceito idiota, mas não dê importância. Você é uma garota legal, quando te conhecerem melhor, vão se arrepender. Mas não se feche tanto. Pode sempre contar comigo, Philipe e seu irmão, mas você precisa de amigos da sua idade também.
- Eu sei, eu tento, mas me incomodam os olhares. É tão patético ver as meninas da turma babando em cima da tal Charlotte, só porque ela é uma princesa. Ficam bajulando ela o dia inteiro.
- Charlotte não gosta que a bajulem, pode ter certeza – Kwon riu outra vez – Ela acha que não tem nenhuma amiga de verdade na escola, porque não sabe se estão sendo legais com ela porque gostam dela de verdade ou se é porque é uma princesa. Tenta conversar com ela, acho que se dariam muito bem.
- Duvido muito disso – Nani respondeu descrente – E também tem esses créditos. A diretora disse que preciso deles pra me formar, mas não entendi muito bem como funcionam.
- Os créditos não são necessariamente obrigatórios, mas se você quiser um bom estágio quando se formar, sem eles é impossível conseguir um – Kwon explicou pacientemente, e já chegavam ao corredor que dava acesso ao salão comunal da Fidei – Tem varias atividades que dão créditos, mas as melhores são o jornal, a rádio e o quadribol.
- Não sou boa escritora e muito menos sei jogar quadribol.
- Bom, tem uma vaga na rádio, se quiser – Kwon disse animado – Precisamos de uma menina pra completar o elenco da novela, tudo que tem que fazer é ler suas falas no ar.
- Acho que consigo fazer isso... – Nani sorriu mais animada
- Ótimo! Amanha de manha falo com a Jude, ela é a responsável pelo elenco e vai te procurar pra conversar sobre a personagem.
Os dois pararam em frente ao quadro da fada e Nani disse a senha, fazendo a passagem secreta ser revelada. Ainda era possível ouvir o barulho das conversas animadas lá dentro, embora passasse das 22hs.
- Obrigada Kwon – Nani abraçou o irmão e beijou seu rosto – Estava mesmo precisando conversar um pouco.
- Sempre que quiser conversar, pode me procurar. Irmão mais velho serve pra isso também.
- Vou cobrar isso – ela disse sorrindo e sumiu pelo buraco do quadro.
Kwon continuou parado encarando o lugar por onde Nani havia acabado de desaparecer, sem perceber que sorria. Mas quando percebeu, fechou a cara e sacudiu a cabeça. Por um momento, ele se vislumbrou abraçado a ela, acariciando seus cabelos. E aquela imagem o assustou mais que tudo.
Wednesday, January 28, 2009
Pisávamos em cima de ovos, para não irritá-la e parecia estar funcionando, porque aos poucos ela estava voltando a ser a mesma Millie de sempre. Outro dia a vi verificando o trabalho de latim do AJ, não que ele não soubesse a matéria, mas ele tinha mania de esquecer de revisar e verificar acentos, e como o professor Chevalier que achava que Latim era a coisa mais importante do mundo, mais até que o ar que respirávamos, isso era fatal. Por sorte, eu tinha facilidade com línguas estrangeiras, e me saia bem, mas em Botânica eu penava, e com o humor que Millicent andava, eu não tinha a quem recorrer, senão aos livros e algumas vezes ao AJ, mas ele andava diferente... Talvez fosse a preocupação com as esquisitices do irmão, mas havia algo mais, ele andava reflexivo demais.
Era o ultimo tempo de aula de Historia da Magia e a professora após nos dizer a matéria do dia, nos mandou abrir os pergaminhos para anotar suas palavras. AJ estava atrasado, o que não era comum.
- Que cheiro é este?- perguntei quando vi AJ sentando do meu lado, quando entrou na sala escorregando devagar sem ser notado, pois nossa carteira era a última e a porta havia ficado aberta.
- Nada. - ele respondeu sem me olhar nos olhos.
Aproximei-me dele e aspirei atentamente:
- Isso é perfume!- falei um pouco alto e alguns colegas nos olharam e a professora Cordelia Blanchard, fez um hein, hein na frente da sala, para que ficássemos quietos, enquanto a lousa ia se enchendo magicamente com as anotações sobre Barbero Bragge, chefe do Conselho de Bruxos que, em 1269, ofereceu um prêmio de cinquenta galeões ao bruxo que capturasse um Pomorim Dourado durante uma partida de Quadribol.
- Você vai se encontrar com alguém? - perguntei baixo.
- Estou ocupado...
- Você me contaria se tivesse um encontro não é? Eu sei que sim... Vai me conta, quem é a gatinha?- insisti.
- Não estou a fim de receber uma detenção com a Cordélia hoje, deixa para nos falarmos depois. - disse sério e isso foi um balde água fria em mim.
AJ e eu dividíamos segredos e aventuras desde quando entramos na escola e nos tornamos tão amigos que eu o considerava meu irmão, e após alguns dias Millie se juntou a nós, ela era a outra parte do trio de esquisitos que achou um lugar naquela escola, o que estava diferente agora?
Ao final da aula ele saiu da carteira rápido, sem me esperar e se aproximou da Millie que conversava com a Jude, e falou alguma coisa no ouvido dela e ela sorriu como antes para ele e saíram da sala juntos. Ele segurava o material dela, e saíram sem nem olhar para mim, pareciam mais próximos que nunca, pareciam...
Um casal!
Eu deveria ficar feliz se meus melhores amigos formassem um casal não é? Isso seria o correto, mas porque eu não me sentia assim? Porque eu queria que ela voltasse a ser a Millie de sempre, que me ouvia, dava bronca quando necessário, ria das minhas brincadeiras e quando alguma coisa ruim acontecia comigo, ela estava ao meu lado, mesmo que derramasse algumas lágrimas. Eu odiava vê-la chorando ¬¬...
E porque eu sinto vontade de arrebentar a cara do AJ por ver a forma que ele toca nela, ele é muito assanhado, Millie não é uma qualquer, ela é... Especial.
Observei-os andarem na minha frente e pela primeira vez desde que a conheci, eu me dei conta de que nunca parei para ver o que devia ter visto: Millicent ela era uma garota que me atraia e se não fosse a nossa amizade, eu já teria saído com ela. O que me preocupa agora é que meu melhor amigo está saindo com ela.
Esperei por AJ no corredor pouco usado pelos alunos, que levava à Lux, e ele apareceu caminhando tranqüilo, parou quando me viu e sorriu:
- Hey Tristan, me esperando aqui a esta hora? Deve ter bolado alguma coisa...
- Cadê a Millie?- perguntei seco.
- Está no dormitório dela, acabamos de nos despedir e...
- Você a beijou?- perguntei me aproximando dele de forma ofensiva, AJ que me conhecia bem o bastante, se preparou:
- Porque quer saber?
- Responde logo: você a beijou ou não?
- Beijei!
Pow!
Foi o barulho do soco que dei nele, e logo estávamos rolando no chão trocando socos e ficamos nos batendo por um tempo, e embora cansados não desistíamos. Mal sentimos dois pares de mãos nos puxarem e nos afastarem um do outro, eram Derek e Marcel, que lutaram para nos separar.
- Vocês beberam?
- Brigando no corredor, querem ser expulsos?
Eu e AJ ficamos nos encarando ofegantes e ele disse:
- Não sabia que você gostava dela a este ponto.
- Você não sabe do que fala... Você estava se aproveitando dela...
- Não fiz nada de que me envergonhar. Eu quero minha amiga de volta, tão difícil entender? Nós saímos como amigos. - e eu comecei a me acalmar, Marcel e Derek nos olhavam com atenção achando que íamos voar no pescoço um do outro se nos soltassem. Quando viram que estávamos mais calmos nos largaram e ficaram esperando nossas explicações:
- Ela gosta de você? E você gosta dela a sério?- perguntei e Derek zombou:
- Falei que era por causa de mulher, pode ir pagando, Marcel. - e mais ouvi do que vi o som de uma moeda sendo passada de um para o outro.
- Eu me sinto atraído por ela, ela é minha melhor amiga e eu a acho muito bonita, você sabe disso... - rosnei, mas ele me ignorou e continuou:
- Se você ia ficar com todo este ciúme, porque não saiu com ela antes?
- Porque eu não pensei nisso, mas agora é tarde ela está com você eu não vou disputar uma garota com o meu melhor amigo.
- Deixa de ser idiota, aqui não tem disputa nenhuma, ela gosta de outro.
- De quem? Do Dubois? Não vai durar, ele é patético.
- Não, seu lesado, ela já terminou com ele, porque gosta de outra pessoa, ficamos o tempo todo conversando sobre isso. - ele disse e eu passei a mão no rosto para ver se sangrava, ou era apenas o suor da luta, e comentei:
- Seu 'Jab' ta mais forte, quase me rasga o supercílio.
- Não virei o pulso para ter maior impacto, porque não queria estragar sua carinha bonita. - ele zombou e eu ri, parecia que a briga nunca havia acontecido.
- Eu perdi alguma coisa aqui? Vocês estavam se espancando, e agora são amiguinhos? Cadê o sangue? Cadê o drama? - perguntou Derek, nós rimos e eu olhei para AJ e perguntei:
- Este cara que ela gosta...Ele é legal? Tipo, não vai fazer ela sofrer não é?- e AJ depois de olhar para Derek e Marcel, disse sacudindo a cabeça:
- Depende de você.
- Como?- perguntei confuso e Derek perguntou a Marcel:
- É este o cara que é a minha maior concorrência com as gatinhas? Um tanto devagar não é?
- As pancadas afetaram o cérebro dele, vamos dar um desconto. - e AJ depois de rir disse:
- A Millie gosta de você Tristan, e pelo jeito você é o único nesta escola que não sabia disso. E se você gosta dela, devia abrir os olhos e tomar uma atitude, porque ela não vai esperar para sempre. Venha, vamos à cozinha pegar uns bifes para por nestes machucados, porque já estão começando a arroxear. - e Marcel e Derek nos acompanharam e enquanto eu os ouvia conversando e rindo, eu pensava no que acabava de descobrir e senti um certo medo me invadir.
Será que eu seria bom o bastante para fazer Millie feliz sem estragar nossa amizade? E será que ela gostava de mim o suficiente para acreditar que eu levaria isso a sério?
When a boy like me meets a girl like you
Then I must believe wishes come true
I just look at you and I touch your hand
And this ordinary world becomes a wonderland
There are many girls I have met before
But I pass them by because I knew
There would be this magic moment,
One to last a lifetime through
When a boy like me meets a girl like you
N.Autora: A boy like me, a girl like you, Elvis Presley.
Thursday, January 15, 2009
-- Antoine de St. Exupéry
O relógio de parede pendurado em cima da lareira do salão comunal da Lux marcava 2 horas da manha e apenas uma pessoa ainda mantinha a luz do lampião acessa. Marcel apoiava a cabeça com uma das mãos, e a outra se mantinha ocupada escrevendo em um rolo de pergaminho. Ao lado dos livros espalhados pela mesa, uma caneca com café e uma caixa de sapos de chocolate. Seus olhos começaram a fechar lentamente e seu queixo escorregou da mão, fazendo o garoto saltar da cadeira assustado quando sua testa bateu com força na mesa.
- Machucou? – a voz de Olívia o fez olhar pra trás assustado – O que foi?
- Você me assustou – disse com um ar cansado, e voltou a se virar para frente.
- Desculpe, não era a minha intenção – ela riu, se aproximando. Usava um robe de cetim vermelho por cima do pijama – Sai para ir ao banheiro e vi que ainda tinha luz aqui embaixo. O que faz acordado essa hora?
- A velha cachaceira passou dever extra pra mim, por ter dormido na aula – Marcel respondeu fazendo careta e indicou os livros na mesa – Tenho que entregar amanha um resumo sobre a Revolução dos Gigantes de 1473.
- A revolução que ocorreu em Reims? – Olívia puxou um dos livros pra si e abriu, interessada – Foi um grande acontecimento, realmente... Os gigantes dizimaram quase toda a população da cidade. Saíram das montanhas quando anoiteceu e pela hora em que o sol saiu outra vez, já quase não restavam sobreviventes – ela parou de falar quando percebeu que ele a fitava com uma expressão perplexa – O que foi?
- Você gosta de História da Magia – ele dizia como se constatasse que ela tinha uma doença grave – Você sabe tudo sobre essa revolução, não sabe?
- Sim, eu gosto de História – respondeu um pouco ofendida pelo tom que ele usou – Não é tão ruim assim, talvez se experimentasse não dormir em aula, aprendesse a gostar também.
- Duvido muito – ele fez outra careta e ela riu – Ollie, me ajuda, por favor! Se ler mais uma linha desses livros, vou dormir! Mas se você me contar a história dela, vou conseguir escrever esse resumo ainda hoje.
- Não sei, Marcel... – ela devolveu o livro à mesa – Está tarde, e é uma história muito longa. Você já está sonolento, vai acabar dormindo e me deixar irritada.
- Não, eu não vou dormir – ele agarrou as mãos dela, desesperado – Juro pra você que vou prestar atenção! Não posso tirar nota baixa, meu pai come o meu fígado. E a velha cachaceira está só esperando por essa oportunidade! Por favor, Olívia. Se você for minha amiga de verdade, não vai me deixar na mão!
- Chantagem barata, boa jogada, Grimaldi – Olívia riu balançando a cabeça e tornou a pegar o livro – Ok, vamos lá. Mas se você dormir...
Marcel sorriu fazendo uma cruz com os dedos e beijando-os em seguida, e se ajeitou na cadeira para ouvi-la contar a história da Revolução dos Gigantes de 1473. Quando Olívia terminou, meia hora depois, Marcel conseguiu começar seu resumo. Terminou quase 4 horas da manha, sob a supervisão da amiga, e foram dormir sabendo que restavam apenas duas horas para levantarem, mas ele estava satisfeito. Ainda não era dessa vez que Cordelia Blanchard ia derrubá-lo.
As aulas de quinta-feira já haviam terminado e os alunos aguardavam famintos que o jantar fosse servido. Olívia conversava com Danielle na mesa da Lux sobre a aula de botânica que tiveram horas antes quando Marcel apareceu ao seu lado. Tinha um sorriso de satisfação estampado no rosto e abriu a pasta, tirando um pergaminho de dentro e entregando a amiga.
- “O”! – Olívia olhou para o pergaminho e sorriu radiante para o amigo – Marcel, você tirou “O”! Parabéns!
- Graças a você – ele sentou no banco ao seu lado e lhe deu um beijo no rosto – Você é a melhor, Olívia. A cachaceira gostou tanto do resumo que chegou a achar que havia colado, de “tão perfeito que está” – as garotas riram – Palavras dela.
- Uau Ollie, você conseguiu fazer o Marcel entender História da Magia! – Danielle falou chocada – Deve ser mesmo uma professora e tanto!
- A melhor do mundo, Dani – ele falou sorrindo e ela corou – Sem ela, estaria perdido.
- Não seja exagerado, Marcel – Olívia falou sem graça – Tudo que fiz foi contar a história da revolução e impedir que você dormisse.
- Mesmo assim, fez um excelente trabalho – ele parou de rir e encarou-a sério – Estava pensando, se você quiser e não for dar muito trabalho, será que poderia me dar umas aulas? História da Magia e Literatura, meus dois pontos fracos. Sei que são suas matérias favoritas e com o simulado dos NOMs cada vez mais próximo, preciso começar a entender o que é dito em sala.
- Já tentou prestar atenção? – Danielle sugeriu, rindo.
- Já, mas não deu certo – ele sacudiu a cabeça, dramático – É muita gente na sala, qualquer coisa me distrai.
- Tudo bem, não vejo problema nisso – Olívia respondeu sorrindo – Vai ser até bom, assim reviso a matéria enquanto ensino a você. Depois vemos um horário vago pras aulas, nada de estudar de madrugada como ontem.
- É por isso que eu te amo, Olívia – ele beijou outra vez seu rosto e saltou da cadeira, saindo do salão apressado.
- Dar aula ao Marcel... – Danielle comentou vendo o amigo correr para fora do salão – Boa sorte! – e as duas riram, enquanto Olívia balançava a cabeça, se perguntando se aquilo realmente daria certo.
- Marcel! – Olívia fechou o livro com violência e o garoto olhou distraído – Você não está prestando atenção!
- Desculpa, estou sim – ele sorriu e se sentou direito no chão – Estava só copiando os horários do simulado. Estou ficando sem tempo entre as aulas, o quadribol, a rádio e nossos estudos.
- Por que mesmo você está na rádio? – Olívia ajeitou a almofada nas costas para ficar mais confortável – Você não precisa dos créditos.
- Ah, o Andy e a Frida queriam companhia, acabei topando – ele deu de ombros, mexendo no cabelo – Mas está sendo divertido, o japa fica doido quando começamos a rir nos ensaios, morre de medo de termos um acesso de riso no ar.
- Vocês não deviam judiar tanto assim do Kwon – Olívia não riu – Coitado, ele trabalhou muito ano passado pra conseguir arrumar a rádio, se esforça pra manter programas de qualidade e vocês levam tudo na brincadeira. Pode ser piada pra vocês, mas pra ele é coisa séria.
- Nossa, calma, também não é pra tanto – Marcel se espantou com a reação dela – Só nos divertimos na rádio-novela, mas não achamos que o trabalho do Kwon é bobagem. Sei que ele batalhou pela rádio durante todo o último ano.
- Bom, pois não parece. Vocês falam tudo em tom de deboche e ele sente isso, mas não fala.
- Olívia... – Marcel encarou a garota, rindo – Você gosta do japa?
Olívia abaixou a cabeça rápido demais, evitando o olhar de Marcel, e aquele gesto foi a confirmação que ele precisava. O garoto jogou o corpo pra trás rindo alto, caindo por cima dos livros. Olívia puxou a almofada em que estava apoiada e atirou nele, que desviou sem parar de rir.
- Para com isso, não tem graça – Olívia reclamou, incomodada com a risada do amigo.
- Não acredito nisso! – Marcel sentou outra vez, e controlou os risos – Ele sabe? Ah, que pergunta idiota, Marcel. É claro que não! – ele mesmo respondeu – Kwon é muito lesado pra isso.
- Ele não é lesado – ele defendeu o amigo, o que causou mais risadas de Marcel – Eu que nunca demonstrei, não teria como ele saber.
- E por que não? – Marcel parou de rir, embora o sorriso debochado continuasse estampado em seu rosto – Vocês fariam um par perfeito.
- Ah, não sei... Não acho que ele goste de mim do mesmo jeito e prefiro não estragar nossa amizade, caso tentássemos e não desse certo. Nunca voltaria a ser como antes e não quero isso.
- Prefere ficar o resto da vida sem descobrir? Que absurdo!
- Falou o romântico a moda antiga... – ela riu debochada – O que você entende sobre isso? Só vejo você trocando de namorada todo mês. Você chega a decorar o nome delas, ou não dá tempo?
- Esse sarcasmo não vai resolver seu problema. E pro seu governo, eu entendo muito mais do que pensa – Marcel disse convencido – E quanto às garotas, não são namoradas, são casos. Vou me preocupar em lembrar o nome quando encontrar a garota certa.
- Quem não te conhece, pode até acreditar nisso tudo, mas comigo não cola.
- Ah é assim? – Marcel ficou de pé, fingindo estar ofendido – Pois bem, vou ajudá-la a conquistar o Samurai, quer você queira ou não – Olívia abriu a boca pra falar, mas ele não deixou que ela interrompesse – E por hoje podemos encerrar os estudos, tenho uma novela para ajudar a colocar no ar. Sugiro que vá dormir e tenha uma boa noite de sono. Se acordar com olheiras, pode prejudicar o andamento das coisas. Kwon tem suas esquisitices, mas duvido que se sinta atraído por guaxinins.
Marcel sorriu catando a mochila do chão e jogou nas costas, saindo do salão comunal e largando Olívia sozinha, sem reação. Talvez as aulas particulares não tenham sido mesmo uma boa idéia.
Sunday, January 11, 2009
-... Posso assegurar que Bianca não vai ser a única jogadora num time de homens. Várias meninas já foram atrás dos capitães dos times de suas casas, exigindo a abertura de testes... - dizia Andreas animado.
- Então já temos a matéria de capa da edição extra do jornal certo? - perguntou a professora Molineux, durante nossa reunião de emergência, após o jogo de quadribol entre Lux e a Sapientai. Onde tivemos a surpresa de ter Bianca jogando no time do namorado.
- Sim, já temos, professora, porque isso merece não só a capa, temos planos de fazer entrevistas com o capitão, com os colegas de time, enfim com todos que apóiam o movimento e também com quem é contra. Temos de ouvir os dois lados. Isso vai ser agitado. - disse Millie empolgada.
- Você é feminista? Vai odiar os homens??- perguntou Kalani, e me olharam curiosos.
- Não sou feminista, acho que devemos apoiar uma garota num momento importante da historia, porque isso vai fazer historia...
- Concordo com a Millie. Pensem nas possibilidades...Quem sabe um dia mulheres cheguem à lua. - disse Flora.
- Há, vai sonhando. - disse Leonard e as meninas protestaram.
Ficamos conversando por mais algum tempo, até que demos a reunião do jornal encerrada e cada um iria cuidar de seus artigos. Terminei de guardar minhas coisas, e saí da redação, quando passei por um corredor eu vi Tristan beijando uma garota da Nox. Senti que uma pedra caiu no meu estomago e me senti enjoada.
Conhecia aquela garota, era o que os meninos chamavam de ‘gatinha’, mas para mim não passava de uma oferecida. Mudei meu caminho e tentei chegar ao meu salão comunal, mas acabei me perdendo e indo para mais longe. Esbarrei num garoto, e derrubei meus livros...
- Desculpe, Von Griffin...
- Tudo bem Dubois, foi um acidente não o vi.
- Você esta indo para o seu salão comunal?
- Sim, estou.
- Posso acompanhá-la? Já esta tarde e não é bom, garotas bonitas andarem sozinhas por aí à noite...
- Não estou ‘andando por aí’, saí de uma reunião do jornal, com a professora Molineaux. E você qual sua desculpa? - como ele me olhasse espantado, continuei:
- Onde foi? Com quem? Tem algum álibi? Matou alguém? Isso pode sair no jornal hein? A imprensa é implacável. - disse rapidamente e ele depois de me olhar espantado, percebeu que eu estava brincando e começou a rir.
- Isso é um “sim, aceito sua companhia, François”.- e eu depois de olhar para ele e ver que ele me olhava simpático respondi, e tentando fazer charme:
- Millie aceita sua companhia François.
Ele pegou minhas coisas e enquanto andávamos até as escadas que levavam ao salão comunal da Lux, eu pensava que se Tristan podia matar seu tempo pelos cantos do castelo, sem se importar com as outras pessoas, eu também podia, afinal as mulheres também tinham direito à diversão não?
o-o-o-o-o-o-o
- Hey Tristan, acorda. Parece que passou a noite em claro. - disse AJ, para um Tristan sonolento na mesa do café da manhã. Nossos colegas em volta riram, e eu continuei tomando minha xícara de chá, quando Tristan disse:
- Não passei a noite em claro, passei a noite sonhando...E que noite! - e ele piscou de um jeito tão cafajeste que rangi os dentes por dentro. AJ riu junto com ele, mas de repente me olhou mais sério, pareceu prestar atenção em mim:
- O que você tem Millie? Parece um pouco irritada...
- Millie deve ter levantado com o pé esquerdo da cama, AJ. Sabe como as garotas são, quando alguma coisa dá errado pela manhã, como uma meia desfiada.... - provocou Tristan, e antes que eu respondesse, ouvi alguém atrás de mim.
- Millie, nossa aula de Zoologia vai começar, podemos ir?- e tive a satisfação de ver AJ e Tristan olhando de mim para François sem fala.
- Claro, prometi que faríamos esta aula juntos. - saí do salão conversando animadamente com François, e não olhei para trás, o mais estranho era que eu realmente o achava interessante.
No final do dia, após a aula de Literatura Mágica...
- Desculpe a curiosidade, Millie, mas...Porque você está andando com o François? - perguntou AJ, enquanto Tristan se limitava a me encarar.
- Ora, porque ele é um rapaz gentil e nós descobrimos que temos coisas em comum. Até gostamos das mesmas músicas. Não vejo nada demais nisso. - respondi de forma simples.
- Mas ele é um dos amigos do Procy, até comentei isso com você... Um daqueles que andam sumindo com meu irmão, lembra? - disse AJ, como se estivesse me dando a cola numa prova importante. Olhei para ele de forma cética e perguntei:
- E?- antes que AJ respondesse, Tristan disse autoritário:
- E, que o cara é encrenca. Não sabemos o que o Procy e estes amigos dele fazem nestes sumiços, então até descobrirmos o que está acontecendo, é bom você não se envolver com este tipo de gente, você pode se machucar. - virei-me para ele e perguntei friamente:
- E o que te dá o direito de me ‘sugerir’ isso?- e meu tom parecia um tapa, Tristan recuou um pouco:
- Ora, Millie, somos seus amigos e queremos o seu bem...
- O meu bem...O meu bem???- e minha voz foi ficando mais alta:
- Calma, Millie não precisa gritar. - disse AJ espantado com minha reação. - respirei fundo e depois de olhar para eles como se eles fossem duas baratas cascudas eu disse:
- Escutem bem o que vou dizer, espero que tenham lavado suas orelhas: vocês não são meus amigos. - eles protestaram, mas eu disse:
- Calem a boca! Ainda não terminei: Vocês são dois neuróticos com mania de ‘conspiração’ e tempo de sobra. Quando você sai com alguma destas galinhas da escola Tristan, você não pergunta o que acho, até porque eu não sou boa o bastante para lhe dar opiniões sobre isso não é? Uma ‘encalhada’ não sabe o que falar sobre, ‘noites de sonhos’... - E você AJ, embora seja gentil comigo, nunca na sua vida me convidou a tomar um sorvete, ou elogiou minha roupa, que dirá me convidar para um encontro. Nenhum dos dois nunca viu que eu sou uma garota como outra qualquer, que quero alguém que goste de mim por mim mesma, que me convide para sair, e não porque eu sou ótima ajudando nos deveres ou sou a amiga que se preocupa quando vocês somem. Gosto de ser apreciada e se François sente interesse em mim, nenhum de vocês dois têm nada a ver com isso. Se não gostam da situação não posso fazer nada, sinto por vocês dois, porque isso vai continuar enquanto eu sair com François ou qualquer outro garoto, seja ele amigo do Procy ou não. E se não aceitarem, paciência. Nada dura para sempre mesmo, talvez nem nossa amizade. - sai dali pisando duro e fui para o meu quarto. Quando cheguei lá, comecei a chorar e a me perguntar:
- O que foi que eu fiz???
You love him too much,
you're too blind to see
He's only playing a game
But he's never loved you
He never will
And darling, don't you know he will never change
N.Autora: It Hurts me, Elvis Presley
Tuesday, January 06, 2009
O sábado havia finalmente chegado e depois do café, toda a escola se encaminhou para o campo de quadribol. Philipe pulou a refeição, estava sem fome, e as 9h o time se juntou a ele no vestiário.
- O estádio já está lotado – Alphonse, um dos batedores, disse ao entrar na tenda – A torcida da Sapientai está provocando a nossa com cartazes.
- Então vamos calar a boca deles em campo – Marcel falou ríspido
- É esse o espírito! – Philipe bateu no ombro do amigo – Levy, você está bem?
O garoto, um dos artilheiros do time, fez sinal positivo com a mão e sorriu, embora sua aparência indicasse o contrario. O instrutor de vôo apareceu no vestiário pedindo que ficassem preparados para o início da partida e os sete jogadores se alinharam. Quando o apito soou, montaram em suas vassouras e entraram em campo formando uma fila vermelha e prata. As arquibancadas vibravam, era a partida mais disputada. O instrutor chamou Philipe e Erik Derkier, capitão da Sapientai, e depois de passar alguns avisos, os dois apertaram as mãos. A goles foi lançada no ar e Henri Renoir, artilheiro da Sapientai, saiu na frente dos outros e a capturou.
- Renoir sai na frente e captura a goles, levando a torcida da Sapientai ao delírio – Andreas Casiraghi narrava a partida no megafone – Ele avança em direção as balizas e vai lançar. O goleiro da Lux se prepara para defender e, OUCH! Renoir é atingido por um balaço lançado por Boniface e Philipe Perrineau tem a posse da goles! – agora era a torcida da Lux que gritava empolgada – Ele avança em direção ao outro lado do campo e olhem como ele voa rápido! O goleiro da Sapientai parece perdido com a velocidade da vassoura de Perrineau! Ele vai lançar e... ELE MARCA! Gol da Lux, 10 x 0!
A torcida se agitou na arquibancada e o lado azul e amarelo vaiou quando Philipe voou perto deles, socando o ar. Edmond Lestel capturou a goles quando a partida recomeçou e em uma jogada rápida com Enrico Beltoise, empatou a partida para a Sapientai. A partida seguiu equilibrada por mais de meia hora e não havia sinal do pomo. Levy Castel voava com a goles na mão para colocar a Lux na frente do placar quando um balaço violento de Alain DeVille o pegou no meio do caminho. A goles escapou de sua mão e Levy perdeu o equilíbrio, caindo da vassoura. O instrutor de vôo conseguiu desacelerar a queda, mas Levy ainda se chocou com o chão e desmaiou. A partida foi interrompida e o garoto deixou o campo flutuando em uma maca.
- E agora? – Kwon atirou a vassoura no chão, irritado, quando o time entrou no vestiário – Como vamos continuar o jogo? Não podemos jogar com um a menos, ele vai dar a vitória a Sapientai.
- De jeito nenhum! – Marcel também estava nervoso – Não vou permitir isso, não suporto mais aquele sorrisinho besta na cara do namorado da Dani e se eles vencerem, vou quebrar a cara dele e daquele idiota do Beltoise!
- Você não vai quebrar a cara de ninguém, sossega, Marcel – Philipe entrou no vestiário por ultimo, descansando a vassoura no banco – Esperem por mim aqui, eu já volto. Já sei o que fazer.
Philipe deixou o vestiário as pressas, subindo as escadas que levavam as arquibancadas onde estava a torcida da Lux. Encontrou quem procurava roendo as unhas de preocupação enquanto procurava sinais dos jogadores da Lux na porta dos vestiários.
- Venha comigo – Philipe agarrou a mão de Bianca e a assustou – Agora.
A garota olhou assustada para o namorado, mas levantou sem questionar e o seguiu escada abaixo, até entrarem no vestiário da Lux. Os outros se espantaram ao ver a garota entrar, mas Marcel logo sorriu. Havia entendido.
- Speaker, dê um uniforme a Bia, ela vai jogar no lugar do Levy – Philipe ordenou e Bianca arregalou os olhos
- Como é? – a garota se espantou – Não posso jogar, Phil! É contra as regras!
- Não me importo com as regras – respondeu espantando a todos – Se você não jogar, vamos perder a partida. Não temos nada a perder, então vista o uniforme e pegue a vassoura que ganhou do Johnny, hoje você faz parte do time.
Bianca ainda estava surpresa, mas não pode evitar abrir um enorme sorriso ao pegar o uniforme vermelho e prata das mãos de Thomas Speaker. Os garotos saíram do vestiário para que ela pudesse se trocar e em menos de cinco minutos, Bianca saiu usando as vestes do time. Seus olhos brilhavam ao se ver usando as vestes que seu pai e seus dois irmãos mais velhos usaram, especialmente Johnny, seu maior ídolo. Kwon sorriu para a amiga e lhe entregou a vassoura nova.
- Vamos voltar ao campo! – Philipe beijou a namorada sorrindo e montou em sua vassoura, liderando a fila.
A torcida da Lux toda se levantou gritando quando viu o time voltar a campo, sob as vaias da torcida adversária. Quando reconheceram Bianca entre os jogadores, muitos começaram a sussurrar. O instrutor de vôo olhou espantado, mas permitiu que ela jogasse.
- E a goles é novamente lançada e Bianca Delacroix sai na frente! – Andreas narrava empolgado – É uma novidade no time da Lux, uma garoto jogando. E não é qualquer garota. Bianca é irmã do grande astro do Quiberon Quafflepunchers, Johnny Latour! E parece que o quadribol está no sangue, pois ela avança com tudo em direção as balizas da Sapientai e... ELA MARCA! GOL DA LUX! Que braço, senhoras e senhores. Ela lançou quase do meio do campo!
Bianca socou o ar em comemoração e suas amigas da arquibancada vibraram com a mesma empolgação. Surpreendidos pela força que a garota tinha, os jogadores da Sapientai se desconcentraram e a Lux se aproveitou disso para reagir. Philipe e Kwon voavam em sintonia, deixando todos os passes para serem finalizados por Bianca, que por sua vez, não desperdiçou nenhum sequer e marcou 14 gols seguidos. A Lux já liderava por uma boa vantagem quando o pomo finalmente apareceu. T. J. Speaker e Erik Derkier voavam emparelhados, mas o apanhador da Lux tinha a vantagem de ser mais alto e alcançou o pomo primeiro. Ele desceu ao encontro dos companheiros de time com a bolinha dourada presa entre os dedos e a torcida pulava enlouquecida.
- O pomo do jogo é seu – Speaker estendeu o pomo de ouro a Bianca, que o segurou radiante.
Philipe observava a namorada sorrindo ao seu lado, segurando o pomo, e teve certeza que fez a escolha certa. Tinha certeza que enfrentaria problemas por tê-la escalado para o jogo, mas estava determinado a lutar ate o fim para mantê-la no time. E com o gesto de Thomas, agora sabia que teria o apoio do resto do time nessa luta.
Saturday, January 03, 2009
A Profecia
Há séculos lutam.
Há séculos caçam.
Há séculos destroem as trevas, sendo a luz na escuridão.
Avatares de seu Antepassado, alguns mais poderosos que os demais, os Chroni.
Dos Chroni surgirá o poder. Dos Chroni surgirá o exército.
De um deles, surgirão seres poderosos, nem vivos, nem mortos, mas poderosos.
Usarão as trevas como arma, usando-a para a guerra.
Mais poderosos que humanos, mais temidos que vampiros.
De um deles, surgirá a luz plena e pura, terna e destruidora.
Como o Sol, queimará os malignos, deixando apenas suas cinzas.
E o mal sucumbirá ao seu poder.
E o mundo não será o mesmo após sua chegada.
Pois eles são os Chronos.
- Mestre, conseguimos a profecia que o senhor ordenou.
- A Profecia dos Chronos?
- Sim, milorde. O vampiro Hellion a conseguiu, imaginamos que a profecia diz respeito a qualquer vampiro e também às trevas em geral.
- Ah, Hellion, um aliado muito útil. Finalmente posso ver o conteúdo dessa profecia. Quem mais a conhece?
- A líder da família Chronos, Rigel, conhece a profecia, mas apenas ela.
- Aquela mulher, ousa tentar lutar contra mim, o Lorde das Trevas! Ela sucumbirá ao meu poder e pagará pelos meus servos que prendeu e matou.
- Ela já está dando início a criação de uma poderosa instituição antitrevas, milorde. Ela fala contra as trevas, dizendo que devem eliminar os Comensais. E alguns já a seguem, os Ministérios da Inglaterra, França, Alemanha, e em breve, de toda a Europa, dão a ela seu apoio.
- Ela deverá ser silenciada, o mais rápido possível! Não permitirei que uma mulher destrua o meu poder, coloque em risco o mundo que pretendo criar.Não. Não só ela, todos os Chronos devem ser eliminados. Mas não devemos atacar diretamente, isso faria o mundo bruxo se virar contra nós. Precisamos de alguém que pague por nós. Chame os aspirantes a Comensais, já me decidi pelo que fazer.
O Lorde das Trevas riu, já preparando todos os detalhes de sua ação. Seja lá qual for a arma que surgiria dos Chronos, ele impediria. Os Chronos não iriam sobreviver por mais um ano sequer. Era chegado o fim deles.
Eu acordei no meio da noite, suando frio.
Eu não tenho dons de premonição, mas tenho certeza que sonhei com algo, era um sonho perigoso, maligno e destrutivo e no momento em que acordei, um calafrio tomou o meu corpo, e meus instintos me diziam: cuidado! Porém por mais que tentasse, não conseguia me lembrar do sonho, só sabia que devia ter medo, pois algo muito ruim estava para acontecer. Era algo inexplicável, como quando meus cães de caça, que antes do relâmpago, levantam a cabeça, reconhecendo o perigo à frente. Era assim que eu me sentia, o perigo estava a caminho.
- O que foi, AJ? Ta tudo bem? – Tristan falou sonolento, acordando com um susto que eu levei. Mesmo sonolento, ele sacou a varinha e olhou ao redor, preocupado.
- Foi um sonho. Estou com um péssimo pressentimento. – Eu falei enquanto apertava meus olhos, tentando lembrar.
- Como era o sonho?
- Ai que está, eu não consigo lembrar...Mas era algo ruim.
- Devia ser apenas um pesadelo, vamos voltar a dormir?
Ele já deitava novamente em sua cama, esquecendo do susto que eu levei. Dormíamos no meu quarto, pois era véspera de Natal e eu convidei o Tristan para passar o Natal conosco, e ele ficou muito feliz em aceitar, podendo fugir do orfanato e finalmente visitar a casa dos Chronos. Meus pais adoraram a idéia, pois também tinham vontade de conhecer o famoso TnT, de tanto que eu falava de nossa amizade, e principalmente de tanto que eles já receberam corujas do diretor falando de nossas detenções. Isa também gostou do convite e passava o dia conosco conversando ou me ajudando a ensinar a Tristan as artes da caça, e ele se dava muito bem, principalmente com a falcoaria. O único que não gostava do convite era o Procyon, mas ele não gostava de nada.
Na verdade, o Procyon tem andado estranho. Ele tem evitado falar conosco mais do que o necessário e evita a qualquer custo o olhar de meus pais. Ele está estranho assim desde o dia em que, em Beuaxbatons ainda, eu o encontrei conversando aos sussurros com outro aluno da Nox nos jardins. Eles pareciam nervosos e excitados ao mesmo tempo, mas com uma excitação mórbida, que fez meus instintos ficarem prontos para o ataque. Assim que eles me viram, eles mudaram de assunto e saíram dos jardins, mas pude ver que ainda sussurravam algo. Desde então eu o via andando com cada vez mais garotos e algumas garotas estranhas, de diversas casas, sempre sussurrando, e passaram a ficar meio metidos, como se soubessem de algo que nós não, como se fossem melhores ou superiores.
Durante o feriado de Natal, ele saia todos os dias e passava o dia todo fora, voltando apenas no final da tarde, parecendo cansado, apenas para jantar rapidamente e se trancar em seu quarto. Eu falei sobre isso com meus pais e com minha irmã, mas acharam que eu devia estar imaginando coisas, e que era bom o Procyon ter achado algo que gostasse de fazer. Tristan era o único que concordava comigo, e também achava que Procyon estava mais estranho que o normal e disse que me ajudaria a descobrir o que era.
Em um desses dias, eu e TnT decidimos segui-lo, e fomos até Londres, porém o perdemos de vista no Beco Diagonal, mas eu podia jurar que ele havia tomado a direção da Travessa do Tranco. Infelizmente, Millie não concordava comigo e dizia que eu e TnT já estávamos indo longe demais com a implicância com meu irmão mais velho. Eu adormeci pensando nesses fatos todos e acabei sonhando com Millie, porém não me lembro exatamente, pois logo em seguida o sonho mudou para um sonho de nós três juntos andando pelos jardins de Beauxbatons.
Na manhã de Natal, acordei animado, mais ainda sentia um frio no peito pelo pesadelo da noite anterior, mas esse frio logo desapareceu quando vi os presentes ao pé de minha cama, e acordei Tristan alegre, mostrando que ele também tinha uma pilha enorme. Ele parecia não acreditar e peguei o primeiro pacote que eu encontrei e taquei para ele, ele abriu um largo sorriso bobo, pois era um presente de minha irmã, Isa. O TnT acha minha irmã linda, mas não sei se por respeito a mim ou porque ela é mais velha ele evita tocar no assunto. Ele abriu o presente animado e ganhou uma lanterna mágica, encantada para emitir um raio de luz que era invisível para todos que não fosse o dono da lanterna e quem ele permitisse. Eu abri o presente de Isa também, e ganhei uma lanterna idêntica, e nós dois rimos com o recado dela: “Agora vocês podem andar pela escola à noite sem chamar a atenção”.
- Abra esse agora! – Eu falei animado, entregando o meu presente.
- AJ! Você não precisava!
- Deixa de bobeira, TnT, abre logo! – Ele abriu o presente animado e olhou surpreso para uma luva de falcoaria, que incluía uma venda para falcões.
- Uau! Isso é lindo cara! Vou usar na escola, imagina a cara das pessoas quando me verem com uma luva dessas! E vou amarrar essa venda em minha mochila.
- Acho que não vai precisar. – Eu sorri e ele ficou sem entender. Peguei então o maior embrulho e ele notou que haviam diversos furos.
- O que tem ai dentro?
- É dos meus pais, abra!
Ele retirou a fita vermelha que prendia a caixa e a caixa caiu no chão, aberta. E então ele realmente pulou de surpresa. Porque diante dele um falcão o encarava, os olhos poderosos e brilhantes fixos nos olhos de TnT. Ele ficou completamente sem fala, apenas encarando o pássaro, até este piar alto e ele saltar.
- Eu não posso acreditar! E não posso aceitar isso, Alderan!!
- Foi idéia do meu pai, ele viu que você se interessava pela falcoaria, então meus pais decidiram lhe dar um dos falcões da ninhada de Cronos. É uma fêmea de falcão, e agora ela é sua!!
- Você só pode ta brincando comigo não pode?! – Ele falou com a emoção nos olhos e tentou esconde-la.
- Não, não estou. E se o problema é onde deixa-la, ela pode ficar aqui e sempre que quiser visitá-la, esteja à vontade! Vamos pegue-a!
Ele me abraçou com força e tremendo de emoção esticou a mão com a luva que acabara de ganhar. O falcão piou para ele, porém dessa vez de forma mais carinhosa e subiu em sua mão, olhando-o com curiosidade.
- Viu? Falcões são bichos inteligentes, eles reconhecem o dono deles, e são fiéis. Ela já vê você como parceiro e estará sempre ao seu lado. Ela precisa de um nome!
- AJ, vocês realizaram um sonho meu sabia? Ela vai se chamar Athena.
- Belo nome! Vamos, onde está meu presente? – Falei rindo e ele também riu, fazendo Athena se assustar um pouco, mas logo ela se acostumou a sua risada. Ele pegou um pacote no pé de minha cama e me estendeu.
- Perto disso, o meu não é nada. – Ele falou enquanto eu abria o pacote, e foi minha vez de ficar surpreso, porque dentro havia um amuleto em forma de lobo feito de prata e uma lata que quando vi o que era comecei a rir. – Eu achei esse pingente dia desses em uma loja de Paris e achei a sua cara. E a lata é tintura mágica quando quiser pintar esse cabelo esquisito seu. É só uma lembrança. – Ele falou rindo enquanto bagunçava meu cabelo.
- Eu adorei o presente, Tristan, adorei mesmo. E pode deixar que um dia eu uso isso pra pintar o cabelo! Que cor é?
- Rosa! Olha é um recado da Millie, ela diz que vem nos visitar na hora do almoço, ela aceitou seu convite!! – Ele falou pegando uma carta da Millie que estava no topo de seus presentes.
- Que ótimo! Então vamos estar os três reunidos no Natal!
- AJ, me conta uma coisa? Você é gamado na Millie não é?
- Ei TnT! Dá pra parar com a bobeira? Não, não sou não! – Respondi, ficando vermelho.
- Ta bem, vou fingir que acredito.
- Vamos descer para o café, e temos que avisar que teremos visitas. – Desconversei já indo para o primeiro andar, sendo seguido por um risonho Tristan e uma silenciosa Athena.
O café da manhã foi ótimo, e até Procyon parecia de bom humor, conversando mais amigavelmente. Tristan agradeceu o presente de todos e disse que ficou emocionado com o presente de meus pais, que sorriram e disseram que ele merecia. Quando falei para mamãe que teríamos visitas, ela sorriu e ficou alegre.
- Ah, que ótimo! Então o almoço será bem cheio essa tarde! – Toda a família almoçava junto no dia do Natal e conseguíamos chegar facilmente a cem pessoas.
- Sim, a Millie Von Griffin, vai vir nos visitar e passar o dia conosco, ela disse que passará a tarde aqui. Imagino que sua irmã e seu genro também venham.
- E vamos ter outros convidados. Os Oceanborn virão nos visitar e almoçarão conosco também. – Os Oceanborn eram nossos vizinhos, e sua filha mais velha, Alice Oceanborn, estudava comigo em Beauxbatons e tinha a mesma idade que eu. Raramente conversávamos, pois ela era da Sapientai, e quase não nos víamos.
- Uau, realmente o almoço vai ser lotado... – Tristan comentou. – Sra. Chronos, por acaso é outra pretendente para o Alderan? – Ele perguntou com um sorriso maroto.
- Tristan eu vou fazer você engolir essa luva!
- Bem, quem sabe, não? – Papai respondeu rindo, me dirigindo um olhar alegre, deixando-me extremamente vermelho.
Passamos o resto da manhã preparando a imensa mesa para o almoço, e como toda a família estava reunida, era uma barulheira só e todos nos divertíamos juntos. Tristan adorava minha família, e algumas vezes eu sentia como se ele fosse mais meu irmão que o Procyon. No final da manhã, os Oceanborn chegaram e sua filha Alice estava de cabelo curto e tenho que admitir que estava bonita. Ela nos cumprimentou alegre e pisei no pé do Tristan quando ele cutucou meu braço. Logo em seguida Millie chegou acompanhada de seu genro, que foi saudado com um grande abraço de meu pai. Eu e Tristan corremos para nossa amiga e consegui ser o primeiro a abraça-la, tirando-a do chão, e derrubando os presentes. Ela riu e brigou comigo, mas retribuiu o abraço e depois abraçou com força Tristan. Ela nos deu nossos presentes e depois foi cumprimentar minha mãe, dizendo estar feliz em conhece-la. Enquanto elas conversavam, mamãe trocou um olhar com Tristan e os dois sorriram, e novamente eu pisei em seu pé.
Eu, Alice, Millie e Tristan nos sentamos próximos na mesa e conversávamos animadamente sobre a escola. Depois de algum tempo, eu lembrei que queria mostrar para Millie minha Cronos e Tristan ficou todo animado em mostrar Athena e nós quatro nos levantamos, indo para os fundos da casa para visitar o criadouro de animais. Eu e Alice ficamos um pouco atrás, propositalmente, e conversei muito com ela, e descobri que ela era uma boa pessoa, além de inteligente, forte e bonita. Ela chamou minha atenção. Quando chegamos nos criadouros, Tristan tentava fazer uma hesitante Millie calçar as luvas de falcoaria e pegar Athena. Eu me animei e emprestei minhas luvas a ela, ajudando-a a colocar e peguei Cronos sem luvas, colocando-a na mão de Millie. Depois peguei Athena também sem luvas e coloquei nas mãos de Alice. As duas ficaram maravilhadas com as aves e depois ficamos o resto da tarde brincando com os nossos cães de caça, que adoraram as novas presenças, pedindo e ganhando carinho. Esse dia ficaria marcado em minha memória, pois era um de meus mais felizes...E algo me dizia para aproveitar...Mas um sorriso de Millie e o som da voz de Alice me fizeram esquecer esses pensamentos obscuros.
Saturday, December 27, 2008
- Frédéric, se deixar cair calda na roupa, vai ter que lavar – vovô brigou com meu irmão, que cortava a sobremesa sem delicadeza
- Mais fácil ele tirar nota alta na escola do que não se sujar comendo – Tomás provocou – Fred é um lambão.
- Ah é? – Frédéric parou o garfo no ar e se virou para Tomás – E se a torta voadora acertar você? Também vira um lambão? Vai estar sujo...
- A torta voadora não vai acertar ninguém! – vovô falou em tom de aviso e eles sossegaram – Se a torta voar, ninguém ganha presente! Vou mandar o Papai Noel levar tudo de volta!
- Presentes? – falamos os três ao mesmo tempo, mas só meus irmãos sorriam
- Sim, presentes! – vovô falou animado – Estão na arvora esperando vocês desde cedo, vão abrir!
Tomás e Frédéric levantaram das cadeiras depressa e Frédéric quase derrubou a sua. Saíram desabalados em direção a sala e da cozinha podia ouvir os dois rasgando os embrulhos. Olhei para o vovô ainda séria, mas ele continuava sorrindo.
- O que está esperando para abrir o seu? – disse fazendo menção de se levantar, mas não o fez quando viu que não me mexia
- Vovô, você não devia ter comprado nada – disse impaciente – Não podemos gastar o dinheiro com essas coisas! Já fez muito em promover um ceia farta desse jeito esse ano!
- Danielle, já falei que você não deve se preocupar com essas coisas! – vovô brigou comigo – Sua única preocupação deve ser estudar, tirar boas notas e se formar. Do resto cuido eu!
- Mas se ao menos me deixasse ajudar! – insisti – Já falei que não me importo em trabalhar!
- Não! Já disse para esquecer essa história! Não quero nada atrapalhando seus estudos. Terá tempo de sobra para trabalhar quando se formar. Não cresça mais do que já cresceu antes da hora, minha querida – vovô sorriu de novo e se levantou, beijando minha testa – Hoje é natal, aproveite a noite e venha abrir seu presente.
Ele me deixou sozinha na cozinha e acabei me dando por vencida, indo atrás dele. Meus irmãos estavam sentados no chão em frente a nossa árvore e levei um susto. Não tinha apenas, mas muitos presentes! Tomás e Frédéric tinham papel colorido até no cabelo e não sabiam qual embrulho rasgavam primeiro. Olhei espantada para o vovô, mas ele parecia tão surpreso quanto eu.
- Dani, tem um monte de presentes pra você também! – Tomás pegou um dos pacotes com o meu nome e me entregou – Ganhamos um monte de coisas legais!
- Dani, olha isso! – Frédéric segurava uma goles novinha na mão – Minha própria goles!
- Vovô, de onde veio isso tudo? – perguntei ainda assustada, segurando minha caixa ainda embrulhada
- Eu acho que foi o Papai Noel – vovô respondeu e piscou pra mim quando fiz uma cara incrédula – Ah, Tomás, você ganhou um aeromodelo! E Frédéric um trem! Vamos lá fora testar?
Meus irmãos logo se animaram e saíram com meu avô para testar com os brinquedos que ganharam, mesmo com toda a neve que caia. Olhei para a caixa na minha mão e abri. Era um kit de botânica que estava de olho há meses, mas não me lembrava de ter comentado meu desejo em comprá-lo com ninguém além da Olívia. Achei aquilo estranho e quando ia pegar mais um pacote, ouvi um barulho nos fundos da casa. Deixei a caixa no sofá e já encaixando as peças, corri atrás do “Papai Noel”.
- Algumas pessoas chamam isso de invasão de privacidade, sabia? – falei abrindo a porta dos fundos e assustei Andreas, que estava prestes a pular o muro
- Ah, droga, eles nunca mais vão me deixar fazer isso – ele resmungou derrotado e veio ao meu encontro – Alguma chance de fingir que não me viu?
- De onde veio tudo aquilo? – fui direto ao assunto quando vi que ele tinha um saco vermelho preso no cinto
- Nos juntamos para comprar alguns presentes – ele deu de ombros, parecendo sem graça por ter sido pego – Eugene e Remy também mandaram coisas pros seus irmãos.
- Sabem que não gosto quando fazem isso, não é? – falei também um pouco sem graça – Caridade.
- Não é caridade, Dani. É amizade – Andreas não parecia mais constrangido e me encarou sério – Gostamos muito de você e não queríamos que passassem o natal sem ganhar nada. Tudo bem, eu sei que exageramos um pouco, mas seus irmãos só têm 10 anos! Eles não têm que passar o natal sem nada.
- Vocês são os melhores amigos do mundo – sorri para ele e o abracei
- A gente faz o que pode... – disse me dando um beijo no rosto e ri – Kalani também participou! Vai saber qual é o presente dele quando abrir.
- Obrigada. E pode deixar que não vou contar a eles que o peguei no flagra.
- Valeu. Era para o Marcel vir, já que é o único com permissão para aparatar, mas ele deixou o Remy cair da vassoura e o pai deles estava furioso.
- Ele está bem? – perguntei preocupada, sabia que Remy não podia se dar ao luxo de se machucar como uma criança normal
- Está tudo bem sim, só machucou o pulso. Mas Marcel ficou com a consciência pesada e achou melhor ficar com ele. Bom, tenho que ir. Fiquei mesmo para ver seus irmãos descobrindo os presentes e olha no que deu... – ele riu e me abraçou de novo – Feliz natal, Dani.
- Feliz natal, Andy. Até dia 31.
Ele se afastou sorrindo e subiu no muro, saltando para o lado de fora depressa. Quando virei para entrar em casa, vovô estava parado na porta da cozinha, me observando. Ele caminhou até onde eu estava e enrolou um cachecol no meu pescoço desprotegido.
- Há quanto tempo está ai?
- Tempo suficiente – ele sorriu e me abraçou – Você tem ótimos amigos, Danielle.
- É... Eles são os melhores – deitei a cabeça no ombro dele, suspirando – Ainda não acredito que fizeram isso.
- Então venha comigo, sei o que vai ajudar a acreditar.
Vovô me guiou para dentro de casa outra vez e saímos pela sala, para o quintal da frente. Tomás montava uma réplica de um avião e Frédéric colocava um trem elétrico para funcionar sobre os trilhos, ambos sorrindo de um jeito que não via desde que nossos pais morreram. Olhei para o vovô e ele sorria também, feliz por ver meus irmãos daquele jeito. Acho que meus amigos não faziam idéia de que fariam desse o melhor natal da nossa família.
Here we are as in olden days,
Happy golden days of yore.
Faithful friends who are dear to us
Gather near to us once more.
Through the years
We all will be together,
If the fates allow
Hang a shining star
upon the highest bough.
And have yourself
A merry little Christmas now
Have Yourself a Merry Little Christmas - Hugh Martin & Ralph Blane
Friday, December 26, 2008
Residência dos Delacroix
- Vamos, abra o meu presente – Johnny estendeu um embrulho muito bem feito para Bianca
- O que é isso? – Bianca pegou o embrulho sorridente e sacudiu de leve, rasgando o papel em seguida – Um kit de manutenção para vassouras? – Disse um pouco desapontada – Obrigada, maninho, agora só preciso de uma vassoura para poder usá-lo...
- Ah, desculpe, esse era só uma parte do presente – Johnny sorriu e assobiou alto – Eugene, vai buscar o outro presente da Bia!
O garoto levantou do sofá e subiu as escadas correndo. Voltou segundos depois com um embrulho dourado no formato de uma vassoura e atirou no colo do irmão, voltando a abrir o resto de seus presentes.
- Feliz natal, mana – Johnny esticou o pacote para Bianca, que dessa vez não precisou sacudir e arrancou o papel depressa
- Johnny!! – Bianca abraçou o irmão – É uma Comet 180! Deve ser o último modelo lançado!
- Eu sei, é o modelo que o nosso time vai usar esse ano. É para você treinar e conseguir aquela vaga no time da Lux.
- Charleston nunca vai permitir um time misto em Beauxbatons – Pierre, que abria um de seus presentes perto dos irmãos, se meteu na conversa – Quadribol é um esporte violento, se um balaço arranca a cabeça de uma das garotas, é ele quem vai responder a um processo.
- A Bia joga melhor que os garotos do meu time – Eugene comentou do outro lado da sala e Bianca sorriu para o irmão mais novo
- Claro! No seu time só tem um bando de pirralhos de 10 anos!
- Se você não tem nada de útil pra falar, Pierre, então cale a boca – Johnny defendeu a irmã – Bia é perfeitamente capaz de se cuidar e jogar naquele time.
- Não me mande calar a boca, super astro do quadribol! Eu tenho o direito de expressar a minha opinião e papai concorda comigo!
- Parem vocês dois! – Bianca disse irritada, evitando uma possível briga – Hoje é natal, não vamos recomeçar essa discussão!
- Bia, eu ganhei uma goles do Johnny, quer treinar comigo? – Eugene parou ao lado da irmã com a goles debaixo do braço
- Claro, vamos lá pra fora.
Levantou do chão com sua vassoura nova na mão e deixou os irmãos para trás, ainda se encarando, indo para o quintal coberto de neve jogar quadribol com o irmão de 10 anos. A opinião de Pierre sobre ela poder jogar com garotos não importava. Para Bianca, ter o apoio de seu irmão mais velho e também melhor amigo já era o suficiente.
Palácio de Mônaco
A sala de estar do palácio estava repleta de bruxos e trouxas bebendo e celebrando o natal, mas do lado de fora, nos jardins, três figuras circulavam sob os olhares atentos dos guardas. Charlotte estava sentada no banco e enquanto alisava o filhote de gato que ganhara de natal, observava os irmãos. Marcel, que havia presenteado Remy com uma vassoura feita sob encomenda, tentava ensinar o irmão a voar.
- Marcel, e se eu cair? – Remy falou preocupado, suas mãos pálidas suando ao segurar o cabo da vassoura
- Você não vai cair – Marcel montou em sua própria vassoura e bagunçou o cabelo do irmão – E se cair, eu pego você. Agora dê um impulso.
O garoto olhou para o irmão ainda inseguro, mas decidiu confiar e deu um impulso com toda força que conseguiu reunir. A vassoura começou a levantar vôo e os guardas se adiantaram, preocupados. Marcel os deteve com um simples aceno e voou atrás do irmão.
- Muito bem, Remy! – Marcel o encorajou – Está voando melhor que a Charlie!
- Ei, eu ouvi isso! – Charlotte gritou do chão e os dois riram
Marcel agora ensinava Remy a fazer curvas com a vassoura e ganhar velocidade, mas à medida que a brincadeira tornava-se perigosa para Remy, um dos guardas resolveu alertar o Rei. Voltaram ao jardim às pressas e Marcel-Louis V tinha a face vermelha de raiva.
- DESÇAM JÁ! – O Rei gritou, furioso, e assustou seus três filhos – MARCEL, TIRE SEU IRMÃO DESSA VASSOURA IMEDIATAMENTE!
- Eu sei descer sozinho! – Remy gritou de volta, ofendido, já inclinando a vassoura
- Remy, cuidado! – Marcel deitou o corpo na vassoura para alcançar o irmão, mas foi tarde demais. Remy perdeu o equilíbrio e a vassoura tombou para o lado, deixando o garoto pendurado
Suas mãos suadas escorregaram e Remy soltou o cabo da vassoura, batendo forte no chão. Por sorte estava a poucos metros do gramado, mas a pouca altura não evitou que quebrasse o pulso. Seu pai correu para socorrê-lo, mas apesar da dor, o garoto não chorava.
- Olhe o que você fez, seu irresponsável! – O Rei gritou com Marcel quando o garoto se aproximou correndo – Remy não pode voar, ele é frágil!
- Talvez se parassem de tratá-lo como se fosse de louça, ele não se machucasse tanto! – Marcel gritou de volta
- Não fale comigo nesse tom! – o homem levantou do chão, encarando o filho mais velho
- Falo como quiser! – Marcel também ficou de pé para encarar o pai no mesmo nível
- Parem! – Remy gritou do chão e Charlotte o ajudou a se levantar – Hoje é natal, por que vocês estão brigando?
- Vamos, Remy – Charlotte olhou para o pai e o irmão e balançou a cabeça – Mamãe pode dar um jeito no seu pulso.
A garota guiou o irmão de volta para o palácio e a Rainha, que era uma Curandeira, cuidou da fratura do filho mais novo. Marcel permaneceu nos jardins, sozinho, por um longo tempo. Só levantou quando viu que as luzes do quarto de Remy haviam se apagado e foi direto até ele. Abriu a porta devagar e a luz do corredor fez Remy se virar na cama. Ele apanhou os óculos em cima da mesa e sentou na cama.
- Como você está? – Marcel perguntou preocupado, sentando na ponta da cama
- Meu pulso dói um pouco, mas nada demais. Papai exagerou na reação.
- Ele só ficou preocupado – Marcel justificou o pai – Também fiquei, a culpa foi minha.
- Você não faz nada além de me dar o melhor presente de natal que já ganhei.
- A vassoura? – Marcel riu – Você já teve outras, mas menores.
- Não, você me ensinou a voar – Remy sorriu – Você não me tratou como um doente que não pode fazer nada que os outros fazem e me deixou ser um garoto normal por 5 minutos.
- Mas eu devia ter tomado mais cuidado! Você caiu e se machucou, podia ter sido grave.
- Eu já estive bem pior. Vai, você tem que admitir que foi engraçado o jeito que eu cai!
- Não teve graça, Remy – Marcel se manteve firme, mas a risada do irmão quebrou o ar sério – Ok, foi um pouco engraçado. Você parecia uma peça de roupa pendurada no varal.
- Vou precisar de outras lições antes que você volte pra escola.
- Ok, mas vamos voar sobre a piscina, ao menos se você cair, não se machuca.
- Fechado – Remy estendeu a mão e Marcel a apertou, sorrindo.
Passaram o resto da noite de natal conversando sobre táticas de vôo e Marcel prometeu levá-lo a alguns jogos de quadribol durante as férias de verão. Tudo que Remy queria era se sentir como uma criança normal e ao menos nisso Marcel poderia ajudar o irmão.
Thursday, December 04, 2008
Aos interessados, favor procurar Kwon Perrineau ou Jude Mandeville na rádio, de segunda à sexta entre 22:00 e 22:45.
Andreas passou pelo mural de recados do salão comunal da Lux e sua atenção se voltou para o aviso pregado recentemente. Ficou pensativo encarando o pedaço de papel por alguns segundos, até que o arrancou e guardou dentro de um dos livros que carregava, saindo para a aula.
ººº
- Droga de sistema de créditos – Anabela reclamou caminhando com os amigos depois de uma maçante aula de latim – Não acredito que aquela morsa passou relatório pro diretor dizendo que a gente não estava fazendo nenhuma atividade extracurricular.
- Não achei mesmo que fossemos passar mais um ano na flauta – Andreas respondeu puxando o papel de dentro do livro – Mas eu tenho a solução.
- O que é isso, Andy? – Marcel esticou o pescoço, curioso.
- Abriram vagas pro elenco da rádionovela.
- Está louco... – Anabela riu – Kwon nunca ia permitir isso.
- Por que não? Não vamos lá pra fazer bagunça, precisamos dos créditos.
- Tecnicamente, eu não preciso – Marcel disse convencido, esbarrando em um de seus seguranças e olhando para ele atravessado – O quadribol já cobre todos os créditos que preciso.
- Ah, mas sem você não tem graça, Marcel! – Andreas insistiu – Não pode quebrar a corrente.
- Ei, quem disse que eu vou me inscrever pra isso? – Anabela reclamou
- Você não pode jogar quadribol e nem vai escrever pro jornal da escola, que opções lhe restam?
- Me dá isso – disse puxando o papel da mão do amigo. Marcel riu.
- E você, Marcel? Vai nos abandonar?
- Pro inferno, isso pode acabar sendo divertido! – disse pegando o papel da mão da amiga e rindo – Mas Kwon não vai gostar nem um pouco...
ººº
A rádio ainda estava vazia quando Andreas, Anabela e Marcel, com um de seus seguranças, chegaram. Estavam sentados no chão conversando quando Kwon chegou balançando as chaves da rádio na mão. Parou de repente, surpreso com a presença dos amigos ali, então passou para abrir a porta sem perguntar nada. Esperou um deles se pronunciar, mas quando ninguém o fez, virou-se para o trio sentado no chão.
- O que estão fazendo aqui?
- Viemos para a vaga de locutores da novela – Andreas mostrou o papel a ele, levantando do chão com os outros dois.
- Nem por cima do meu cadáver. Com licença, estou atrasado – Kwon respondeu de imediato e já ia entrar e deixar os três para trás, mas Anabela o deteve.
- Por favor, Kwon! Preciso desses créditos e não tem mais nada que possa fazer de extracurricular!
- E eles dois? – apontou para Marcel e Andreas – Marcel joga quadribol e Andreas disse que entrou para a equipe de redatores do jornal esse ano, não precisam de mais créditos.
- Viemos fazer companhia à Frida – Marcel respondeu passando a mão pelo ombro da amiga – Ela não queria vir sozinha e vocês precisam de mais de uma pessoa, então viemos também.
- A rádionovela não é uma brincadeira, é um programa sério que nos comprometemos a comandar, não posso dar a vaga a vocês, sabendo que não vão levar a sério. Desculpem.
- A gente vai levar a sério, Kwon! – Andreas insistiu – Ninguém mais vai aparecer, e vocês vão ficar sem pessoal pra ajudar. Dá uma chance a gente, por favor!
- A gente só quer ajudar na rádionovela! – Anabela reforçou o pedido
- Ah, voluntários! – Jude apareceu no corredor com uma pasta na mão e ouviu o final da conversa – Não achei que fosse aparecer gente tão cedo. Você pregou os folhetos quando? Ontem?
- É, ontem – Kwon respondeu vago, já preocupado com os sorrisos estampados no rosto dos amigos – Escuta, Jude, eles não...
- Entrem, vamos – ela passou pelos quatro sorrindo – Já estou com o roteiro aqui, vamos dividir os personagens!
- Ah, ótimo! – Marcel foi o primeiro a entrar e empurrou Kwon para o lado ao passar – Estamos ansiosos para começar!
- Se fizer alguma gracinha, eu não me responsabilizo pelos meus atos! – Kwon empurrou o amigo contra a parede quando passou e disse entre os dentes. Marcel sorriu cínico – Estou de olho!
- A novela se chama “O Direito de Nascer” – Jude disse empolgada, passando uma folha para cada um – Não é francesa, então precisei traduzir e revisar ela toda, para fazer algumas adaptações e deixar mais bruxa, pois é uma novela trouxa. Os papéis que farão estão escritos no alto da folha. Dêem uma lida e vamos começar o programa semana que vem!
- Albertinho Limonta – Marcel leu no alto da folha e olhou para Andreas, ambos prendendo o riso – Bonito nome.
- Ele é um dos protagonistas da história – Jude explicou – Eu sou uma delas tambem, assim como Anabela. Kwon é Dom Rafael Zamora de Juncal, meu pai. Ainda precisamos de mais 3 pessoas, mas conseguimos improvisar se não conseguirmos ninguém, ao menos por um tempo. Podemos fazer outros papéis também.
- Ah, ótimo. Sem nenhum tipo de pressão aqui – Anabela suspirou derrotada – Quem é você, Andy?
- Dom Alfredo Martins – disse lendo o pedaço de papel – Acho que sou sei pai, Marcel!
- Papai! – Marcel puxou o amigo para um abraço
- Meu filho, meu orgulho! – Andreas respondeu lhe dando tapas nas costas com força
- Bom, já têm seus papéis, entao podem ir – Kwon abriu a porta e empurrou os amigos para fora – Só estudem o texto, ok?
Ele fechou a porta depressa e os três voltaram para o salão comunal da Lux com seus papéis na mão, lendo falas soltas e rindo de algumas delas. No meio do caminho ouviram Kwon e Jude darem início aos programas diárias da rádio e imaginaram como seria ler aquele texto melodramático diariamente, para a escola inteira ouvir. Não seria nada fácil, mas sem dúvida seria divertido.
Monday, November 03, 2008
O Trevo, Final
- Todos vocês, fechem os olhos. Respirem fundo, de modo que sintam o ar inchando os pulmões e contraindo o diafragma, e depois o soltem pelo nariz e pela boca, lentamente... Relaxem.
- Me desculpe o incômodo, – Derek cochichou no meu ouvido, ao meu lado direito – mas porque mesmo nós estamos aqui?
Ri e abri os olhos, encarando o teto branco, acima de mim. Vincenzo Andreatta, o pai de Yanic, e também o empresário da “Le Bonnet-Blue” (nossa banda), havia nos convocado para uma reunião antes de embarcarmos para Beauxbatons, no dia seguinte. Porém, aquela era a reunião mais excêntrica que tinha participado, até então... Ele nos levara até o apartamento de um amigo dele, Jean Carlos Lumiére, um diretor de peças de teatro e filmes de curta-metragem. Assim que chegamos, ele pediu que deitássemos no chão em forma de círculo, de maneira que nossas cabeças se encostassem ao centro. Ao meu lado direito, estava Derek. Ao meu esquerdo, Noah.
- Vincenzo disse que precisamos melhorar nossas performances no palco. Temos que ficar mais soltos, descontraídos... Nas palavras dele “nós temos música, nos falta estilo”. – respondi aos sussurros e Derek girou os olhos.
- Ele é nosso empresário ou personal stylist? Nós temos estilo! Só não somos tão “soltos” quanto o Elvis, mas se estiverem esperando que eu rebole no palco, me desculpem, mas estou pedindo demissão agora. – sufoquei a risada ao perceber que Lumiére estava vindo em nossa direção. Apesar de não estar olhando para nós, no chão, e sim para um ponto fixo no horizonte da sala, enquanto falava, decidi fechar os olhos novamente.
- Agora, quero que todos vocês se dêem as mãos. – Senti a mão de Noah esquentando a minha mão esquerda e meu coração acelerou. Derek puxou a outra. – O que tem que estar bem claro para vocês, é que vocês são mais que uma banda. São um time, um grupo. Vocês são mais que colegas de shows, são amigos. Uma família. Não devem hesitar críticas e nem pouparem elogios. Devem manter o equilíbrio, o bem-estar, a boa convivência. Qualquer decisão, difícil ou não, deve ser tomada pelo grupo e não por um só, ou alguns.
- Blá blá blá – escutei Derek cochichar entediado, mas não ri. Senti a mão de Noah apertar a minha um pouco mais forte e percebi o quanto aquilo era importante pra ele. Secretamente pensava se no novo ano em Beauxbatons eu teria coragem de contá-lo, finalmente, que gostava dele desde quando éramos crianças...
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1º de setembro de 1958
- Você é um tronquilho ou uma pessoa? – Flora perguntou indignada, depois de atualizá-la sobre minhas férias e todas as novas oportunidades que tive para falar com Noah, que desperdicei.
- As coisas não são tão simples quanto você as faz parecer, Flora. Nós somos amigos de infância e eu tenho certeza de que ele espera que continuemos sendo somente isso. Não posso simplesmente me declarar, do nada. Isso pode acabar com a nossa amizade, com a banda... – respondi me defendendo, mas ela fechou ainda mais a cara.
- Resumindo: você não vai dizer nunca, não é? Sempre vai ter a desculpa de que está com medo de estragar a amizade de vocês, ou prejudicar a banda, ou sei lá quais outros tantos motivos. Só digo uma coisa: se qualquer dia desses alguma menina for mais rápida e ele começar a namorar, se apaixonar por outra pessoa, não venha reclamando pra mim, ok?
Senti um aperto no peito só de pensar na possibilidade. Já tinha visto Noah sair com várias meninas, mas nunca se mostrava empolgado com uma delas. De qualquer maneira, Flora estava certa. Eu precisava tomar uma atitude, antes que fosse tarde demais. Eu realmente não podia esperar e desejar que Noah me olhasse de uma maneira diferente, de um dia para o outro.
Abri a boca para responder, mas fechei logo em seguida. Ela também não disse mais nada. Estava tão mergulhada no silêncio do Salão Comunal que nem percebi Leonard entrando e se aproximando de nós.
- Joplin, Vincenzo quer fazer MAIS uma reunião com toda a banda antes de tocarmos. Vamos? - perguntou parando ao meu lado e só depois reparando Flora, à minha frente. – Como vai, Flora?
- Bem. E você? Como foram as férias? – ela respondeu corando levemente e prendi uma risada.
- Pacatas o suficiente. – ele respondeu sem entender o porquê do meu divertimento repentino. – Acabo de cruzar com a professora Cecile. Ela disse que vai reunir todos do jornal na semana que vem, para fazermos um balanço do ano passado e estabelecermos as áreas de cada um, nesse ano. Vocês ainda vão participar, não é?
- Sim, claro! Só espero que me coloquem em uma tarefa diferente nesse ano... Assistir todas as partidas de quadribol do ano passado foi uma tortura. – ela respondeu agitada e rimos.
- Eu também vou continuar no jornal e se possível, entrar para a rádio. Preciso ocupar meu tempo e minha cabeça. – respondi e Leonard pareceu curioso, mas fui mais rápida, me levantando. – Vamos então. Vincenzo fica louco quando nos atrasamos para as reuniões e ele tem que atrasar o show. Você vai nos assistir, Flora?
- Claro. Será que a seleção dos primeiranistas já acabou?
- Não sei. Quando vim, ainda tinham uns quinze na porta da diretoria, esperando para “conversarem com as fadas”. – Leonard respondeu entediado, Flora riu.
Alguns minutos depois, enquanto ele fora até o seu dormitório para pegar a guitarra, encarei Flora, rindo abertamente.
- Você é um tronquilho ou uma pessoa? – repeti a pergunta e ela pareceu ficar brava. – Você também está no mesmo barco. Porque não diz pro Leonard que gosta dele, de uma vez por todas? Vocês fariam um belo casal.
Ela não respondeu, pois Leonard já descia as escadas de volta. Pisquei para ela, que continuou com a cara fechada, e o acompanhei para fora do Salão Comunal.
Assim que saíram, Flora resmungou mal-humorada: “não digo nada a ele, porque ele gosta de você e só você não percebe isso!”
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O show de abertura do ano letivo havia sido um sucesso na opinião de Noah.
Quando terminaram a última música e agradeceram ao público de centenas de estudantes que os aplaudiam empolgados, viu Derek descer do palco acompanhado de mais duas ou três garotas. Leonard estava conversando com Vincenzo sobre alguns detalhes técnicos que tinham de ser melhorados. Ele decidiu começar a desmontar sua bateria, cuidadosamente. Estava limpando os pratos, quando uma garota chamou sua atenção. A conhecia de vista e por nome como Penélope Champollion, e era amiga de Yanic e Jude. Seus cabelos loiros caídos sobre os ombros e os olhos eram de um verde intenso com um brilho fraco, profundo. Ele a observava conversar com os dois, como se estivesse hipnotizado pelo mistério que aquela menina carregava consigo.
Ela, por sua vez, pareceu ter percebido que estava sendo observada, e quando olhou rapidamente na direção dele e seus olhos se encontraram por breves segundos (antes que ele os desviasse novamente para os pratos, em suas mãos) alguma coisa naquela garota fez despertar em Noah uma vontade de descobrir mais sobre ela.
Monday, October 27, 2008
O mundo mágico era novo para ele e sua irmã mais nova, Nani. Haviam sido tirados do mundo onde cresceram e conheciam e jogados em um outro totalmente desconhecido em muito pouco tempo. Em um mês, Kalani ganhara uma casa nova, pais novos, dois irmãos e se esforçava para aprender uma nova língua. Ganhara também meia dúzia de amigos novos, dos quais ele ainda tinha uma visão diferente da que seus irmãos tinham.
Enquanto aguardavam a hora de embarcar para a escola, observava as pessoas que atravessavam a barreira do porto. A primeira dos novos amigos a passar foi Bianca. Vinha abraçada a um rapaz muito parecido com ela, mas mais velho, e que recebia a atenção de muitas pessoas. ‘Johnny Latour, irmão mais velho da Bia. É o astro dos Quiberon Quafflepunchers!’, Kwon comunicou e Kalani sorriu, embora não soubesse o que eram os Quiberon Quafflepunchers. E não importava o que vinham a ser, pois sua atenção estava em Bianca. Ela, como Kalani descreveu para si mesmo, tinha olhos tão azuis que ele poderia passar horas apenas os admirando, perdido no tempo. E ela, como Kalani também logo descobriu, era namorada de seu irmão Philipe.
Philipe era o atleta da turma. Muito simpático e brincalhão, estava sempre de bom humor. Kalani tinha certeza que Philipe era capaz de competir e se dar bem em qualquer modalidade esportiva sem se tornar arrogante por isso. Era alto para a idade, mas não mais que Kwon, o que deixava Philipe inconformado. Os dois estavam sempre implicando um com o outro por causa da diferença de altura. Mas diferente de Philipe, Kwon era mais reservado. Gostava de praticar esportes tanto quanto o irmão, mas não fazia disso prioridade em sua vida. Kwon só se deixa relaxar e desfaz a expressão séria que carrega o tempo todo quando está com os amigos. Torna-se uma pessoa completamente diferente daquela que comanda a rádio da escola e que tem como objetivo de vida comercializar varinhas, que já consegue fabricar, embora algumas ainda apresentem algumas falhas.
Kwon tinha uma admiradora secreta no grupo e não fazia idéia. Era Olívia, a garota que, segundo Kalani, era a mais doce e prestativa dos 8 amigos. Olívia vive sob a represália do pai e quer se tornar escritora, mesmo sabendo que terá que bater de frente com ele. Kalani achava Olívia um pouco atrapalhada, mas isso acabava tornando-a engraçada. Já o irmão gêmeo dela, Andreas, era o tranqüilo do grupo. Era a personificação do bom humor, não suportava ver os amigos desanimados ou sem nada para fazer. É o melhor amigo de Anabela, a garota de descendência alemã com espírito rebelde. Andreas contou que Anabela, em um surto de rebeldia e em uma tentativa bem sucedida de levar o pai à loucura, cortou os cabelos em casa na altura da orelha e jogou fora todos os sapatos de salto, adotando apenas botas de combate no guarda-roupa.
Já Danielle, a menina ruiva que trabalhava na lanchonete da cidade, era com quem Kalani mais se identificava. Sua família sempre foi pobre e Danielle havia perdido os pais aos 14 anos. Ela agora vivia com o avô e os irmãos, os gêmeos de 10 anos Frédéric e Thomás. Seu avô já era muito idoso e Danielle trabalhava escondida dele para ajudar nas despesas da casa quando estava de férias e sempre contou com a ajuda dos irmãos para que o avô não descobrisse. Ela namorava um garoto muito rico, mas era orgulhosa e não permitia que ele se envolvesse nos problemas que tinha em casa.
O último do grupo a atravessar a barreira foi Marcel. Vinha ao lado de uma garota com o uniforme da escola e um menino de óculos de 10 anos. Ele tinha uma aparência muito frágil, mas sorria conversando com Marcel. Os três irmãos vinham cercados por seis seguranças e chamavam a atenção por onde passavam. Kalani não acreditou que Marcel fosse um príncipe de verdade quando o conheceu, achou que fosse alguma brincadeira dos amigos. Apenas quando a lanchonete onde estavam foi invadida pela Guarda Real a procura do garoto, que havia fugido, foi que ele acreditou. Para ele, Marcel era um príncipe fora dos padrões. Era muito brincalhão e tinha certa admiração por Olívia, embora nem ela, ele, ou mais ninguém parecesse notar.
- Vamos, Kalani? – Philipe bateu em seu ombro e Kalani saiu do transe – O barco vai partir em 10 minutos.
- Não se preocupem, não é tão assustador quanto parece. – Caterine o abraçou se despedindo
- É, vocês vão gostar – Kwon sorriu para Nani, que ainda estava insegura – E vamos estar lá para ajudar.
- Vai dar tudo certo, Nani – Kalani estendeu a mão para irmã, que a segurou – Vai dar tudo certo.
A garota suspirou e acompanhou os irmãos para dentro do barco. Os novos amigos logo se acomodaram nas poltronas ao redor e deram inicio a um animado bate-papo. Logo o porto já estava fora do campo de visão. Kalani não sentiu o tempo passar, até que Bianca sentou ao seu lado e apontou para o lado esquerdo do barco. Kalani virou e se deparou com a silhueta de um enorme castelo em tom alaranjado graças ao sol que já começava a se pôr. Ao fundo dele, algumas balizas brilhavam com os poucos raios do sol e refletiam em um imenso lago.
- Lindo, não? – Bianca falou admirando a visão.
- Sim, lindo... – ele respondeu hipnotizado pelo cenário
- Seja bem vindo ao nosso lar – ele sentiu um tapa nas costas e viu o rosto de Marcel sorrindo - Bem vindo a Beauxbatons!
Kalani olhou outra vez para o castelo e sorriu também. Não sabia explicar, mas de alguma forma, sentia-se em casa.
Wednesday, October 15, 2008
07 de Agosto de 1958
Conviver com minha irmã Virna, às vezes parece um teste para o purgatório. Volta e meia ela e o marido têm brigas, gritam um com o outro, mas após algum tempo tudo silencia, e no dia seguinte é como se nada houvesse acontecido. Ambos têm temperamentos explosivos, e as brigas na maioria das vezes ocorre por ciúmes de Virna por causa do trabalho de Kyle. Ele é auror, e sempre precisa estar ausente, deixando-a com a responsabilidade de criar dois garotos muito agitados e curiosos. Dylan e Kyle II, adoram ao pai, e não é fácil ter que dizer aos meninos que o pai, arrisca a vida pela segurança do mundo bruxo, ao invés de estar em casa brincando com eles. Dylan, é o estudioso, o que adora decobrir as coisas e tem muita compaixão, já disse que vai ser curandeiro, Kyle é o impetuoso, louco por aventuras e ansioso para desafiar o perigo. Ele quase nos matou do coração, hoje de manhã quando pulou do alto de uma estante e aterrissou numa mesa cheia de esculturas de cristal, por sorte, ele não se machucou, mas como disse que ia tentar de novo, o avô Josiah, o proibiu de fazer isso, e ameaçou-o com uma surra de cinta. Ele ficou assustado em ver o avô zangado, isso nunca havia acontecido antes, e acho que ele levou o aviso a sério. Bom, por via das dúvidas, os elfos têm ordens de não perdê-lo de vista e nós redobramos a atenção.
Virna deixou de trabalhar como curandeira no Hospital Geral de Brandenburg para se dedicar aos filhos, e ser dona de casa não combina muito com ela. Eu sinto que ela está infeliz, mas toda vez que eu toco no assunto ela diz que eu não vou entender, que sou jovem demais, que devo me preocupar com meus estudos... Como se eu não soubesse o que é querer alguma coisa e não poder ter.
Ontem eles brigaram novamente...E desta vez o motivo foi a atenção que Kyle deu à sua prima Sarah, ela trabalha no Ministério da Magia, acho que em execução da leis mágicas, e tanto ele quanto Connor, ficaram algum tempo conversando em tom baixo com ela. Acho que ela sentiu ciúmes por Sarah conseguir fazer Kyle rir divertido com sua conversa. Hoje já não há tantos risos da parte dele nesta casa...
Se Virna não estivesse tão centrada em si mesma, teria notado os olhares carregados de mistério trocados por Connor e Sarah, acho que estão apaixonados... Nestas horas os olhos de Kyle procuravam Virna, mas ela estava sempre ocupada correndo atrás dos filhos... *suspiros*
Será que algum dia alguém vai me olhar como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo? E se algum dia ‘alguém’ me olhar assim, eu vou saber como corresponder? Ou porque algumas pessoas são cegas e não enxergam que a felicidade está ao seu lado todos os dias, só esperando que estendam a mão para você? Ah se ‘ele’ me estendesse a mão...
And I love you so,
The people ask me how,
How I've lived till now
I tell them I don't know
12 de agosto de 1958
Minha irmã resolveu que vai me arrumar um namorado, afinal nas palavras dela: “uma mocinha como eu tem que ter um namorado de boa família... Com posses... Afinal funcionou para ela...”.
Blergh! Até parece que estar com alguém com todas estas coisas, poderia me garantir a felicidade... Chego a questionar se ela é feliz ou apenas conformada com a situação. Ela não entende que sou feliz escrevendo meus contos infantis, vivendo aqui e sonhando com a volta à escola? É nosso penúltimo ano e sinto que ele será cheio de emoções, e muitas descobertas e realizações, por isso quero aproveitá-lo ao máximo.
Como será que estão todos? Espero que AJ seja bem sucedido em sua caçada, adoro vê-lo contar os detalhes de suas aventuras, é quando eu vejo nos olhos dele, como é determinado e vai superar seus objetivos, e Tristan... Ele é como o significado de seu nome: é o alvoroço, o clamor por algo que acho que nem ele sabe o que é...
Tristan, quer conhecer tudo, viver intensamente, descobrir de onde veio e botar em prática os planos de viagens que ele faz com AJ. Espero que ele não tenha tido mais sonhos estranhos, como os que ele teve antes das férias...
Torço para que ele esteja bem, na última carta, ele estava nervoso por não poder sair do orfanato. Ora, mas o que ele queria? SE ele fosse um trouxa, sairia do orfanato com 16 anos, pois já seria maior de idade, mas ele é um bruxo e nós bruxos só nos tornamos maiores de idade aos 17 anos. Ele ficou tão chateado...Queria poder fazer algo para ajudá-lo. Talvez se eu pedir ao Kyle, ele possa ajudar ao Tristan... *rabiscando idéias*
Shadows follow me
The night won't set me free
But I don't let the evening get me down
Now that you're around me
And you love me too
20 de agosto de 1958
Tédio: para os simples mortais quer dizer aborrecimento, fastio..., mas para mim isso tem o nome de Lars Burgen.
Este é o nome do suposto pretendente que Virna me arrumou, ignorando meus protestos. Fomos até Paris comprar meu material escolar, uniformes e ‘por acaso’, encontramos o senhor Burgen, que gentilmente nos convidou a tomar um chá. Kyle olhou para mim incerto sobre aceitar ou não, mas levantei os ombros desanimados. Pelo menos eu não ficaria sozinha com Lars. Não que ele fosse feio ou mal educado, pelo contrário. Lars é bonito com seus cabelos negros e olhos azuis, estudou na Bélgica e esta se preparando para ser diplomata como meu pai. O engraçado é que ele me passou a impressão de estar ali cumprindo uma obrigação. Talvez ele também sofra pressões em casa, para namorar alguém de ‘boa linhagem’’puro sangue’. Um costume que as famílias antigas ainda mantém ¬¬
A conversa entre nós foi tão tediosa que faria uma tartaruga imitar a lebre e acelerar o passo rumo à morte. Mas tudo mudou quando ouvi a sineta da entrada tocar, e como se um imã me atraísse, olhei para a porta do salão de chá e não consegui conter um sorriso de satisfação.
Tristan finalmente havia aparecido. Quando ele nos viu e caminhou em nossa direção, Virna disse entre dentes:
- O que ele faz aqui?
- Eu mandei uma coruja avisando Tristan e AJ, sobre quando estaria em Paris. - respondi ansiosa.
- Pois acho que ele não deveria estar aqui, nem está vestido apropriadamente para freqüentar um lugar como este...- ela disse esnobe e eu a olhei irritada. Lars nos olhava com um ar curioso no rosto:
- Estamos num local público, ele pode ir aonde quiser. - resmunguei e antes que nossas vozes se alterassem, Kyle interveio:
- Olá senhor Thorn como vai?- disse Kyle se levantado e cumprimentando o meu amigo.
- Muito bem senhor McGregor, não quero incomodar... - era engraçado que Tristan geralmente tão rebelde com os adultos em geral, tem um tratamento cortês com meu cunhado. Isso deve ser porque Kyle o trata com respeito. Agora com Virna...
- Senhora McGregor, espero que esteja bem. - cumprimentou educado
- Já estive melhor.
- Sente-se conosco Tristan. - convidei e ele após um olhar para Virna, fez justamente o que ela não queria. Sentou-se, o apresentei a Lars, e logo o garçom começou a servi-lo e as maneiras dele à mesa eram impecáveis.
- Você também estuda em Beaxbatons? Sempre ouvi falar muito bem de lá, mas você deve adorar as férias, para poder viajar. - Lars tentou puxar assunto e ele respondeu:
- Onde me sinto realmente bem é na escola, com meus amigos. - ele respondeu e me deu um sorriso que correspondi. Virna resolveu provocar:
- Não queira saber sobre as viagens do senhor Thorn, Lars, ele mora num orfanato, e trouxa ainda por cima. Não deve viajar tanto como nós. - senti meu rosto arder de vergonha, Lars ficou constrangido e Kyle ofegou dizendo:
- Virna!- e minha ’querida irmã’ olhou cínica:
- Que foi que eu disse? Apenas a verdade ou isso ofende?
Kyle olhou-a sério e se virou para Tristan:
- Desculpe os modos rudes de minha mulher, senhor Thorn. - antes que Virna retrucasse, seu marido segurou a sua mão e a olhou sério. Dava para sentir a tensão entre eles estalar, por fim Virna cedeu, abaixando os olhos:
- Sem problemas senhor McGregor. O chá estava ótimo, mas peço licença, para respirar ar fresco. Gostaria de vir comigo Millie?- ele disse levantando e me estendendo a mão. Não hesitei, saímos do café e andamos rápido, quase corremos para ganhar distancia dali, e ao chegarmos numa praça, onde as pessoas podiam passear próximas à margem do rio Sena, eu disse:
- Desculpe por minha irmã ser...
- Uma tola preconceituosa, arrogante e mal educada?- ele disse e eu ri respondendo:
- Uma completa idiota. Desculpe.
- Não se preocupe Millie. Sua irmã precisaria passar meia hora no lugar onde moro, para aprender a como ofender alguém de verdade. Ela não gosta de mim e nem eu dela. Isso é um fato, mas eu gosto de você e estava com saudades de nossas conversas.
Passamos a tarde de sol conversando, rindo, tomamos sorvete e fazendo planos para a nossa volta à escola. Lá sim, vou estar verdadeiramente livre.
N.A. trechos da música: And I love you so, Elvis Presley