Saturday, April 26, 2008

Heranças de família, parte I

- Então, Runas é um alfabeto? Alfabeto dos Vikings?! – Ulisses concluía pensativo quando eu interrompi minha explicação.
- Não. Não é um “simples alfabeto de escrita antiga”. Cada um dos símbolos é sagrado e autônomo. Cada runa representa um arcano ligado a entidades representativas de Deuses da mitologia nórdica.
- Ok. Mas já foram escritos livros com runas, certo?
- Certo. Hoje em dia, é raro, até por que poucas pessoas se interessam pelo estudo real rúnico. Mas livros antigos, de gerações, com segredos... Muitos deles são escritos em runas.
- Os Grimoires, por exemplo? – ele perguntou rapidamente e me senti congelar. O encarei.
- É, os Grimoires são um bom exemplo. – eu respondi ainda me sentindo um pouco tonta, mas tentando transparecer naturalidade. Afinal, qualquer um poderia conhecer a história dos Grimoires de famílias tradicionais e grandes magos...

°°°

Um turbilhão de cores e sensações diferentes passaram diante de mim em poucos segundos. Senti meu corpo despencar em uma velocidade incrivelmente absurda e aquilo me fez sentir pânico, alívio e indiferença, ao mesmo tempo.
Depois de alguns segundos, fechei os olhos. Só voltei a abri-los quando seguramente um par de mãos me agarrou pela cintura e meus pés novamente tocaram o chão. Vozes comentavam e perguntavam a todo redor, mas eu ainda estava entorpecida com tudo, e deixei meus pés me levarem para longe do barulho. O mundo voltava a ser quieto e parado quando fui pega de surpresa por um abraço seguido de um beijo longo, e não consegui reagir contra. Relaxei meus músculos e correspondi.

Novamente, o mundo começou a girar, porém, as cenas que se passavam agora eram muito nítidas...

Havia uma senhora, de aspecto cansado, deitada na cama. Seus olhos brilhavam astutamente. Ao seu lado, em uma poltrona, um jovem ainda cheio de vida, com os mesmos olhos, escutava com atenção o que a senhora lhe explicava. Eram instruções. Instruções para que o plano saísse perfeito.

Então, a cena mudou. Passou para o que eu reconheci ser o dormitório que eu dividia com Brenda. Estava escuro, mas havia uma única varinha acesa, e apesar de encoberto, o rosto do jovem era claramente reconhecível. Ele ditou um feitiço convocatório e de algum lugar ali perto, um livro saiu voando até sua mão, aberta. Ele o pegou e suspirou ‘Desculpa, Bella’, antes de apagar a luz da varinha. Tudo ficou escuro.

Abri os olhos e percebi que ainda estava beijando Ulisses no meio da ponte. Algumas pessoas nos observavam curiosas. O empurrei com violência. Não conseguia dizer nada. Ficamos nos encarando alguns segundos em silêncio, e a expressão dele mudou. Tirou o sorrisinho que antes estava desenhado em sua boca e cerrou os olhos. Corri.

°°°

- Isso é ridículo. Não podemos ficar correndo o restante do dia. – Ulisses arquejou correndo praticamente do meu lado. Me alcançou e segurou meu braço com violência, me fazendo parar. Uma onda quente de raiva tomou conta de todo o meu corpo.
- Não...toque...em...mim. – disse pausadamente o encarando e ele me soltou.
- Então vamos conversar civilizadamente.
- Vamos. Vamos conversar civilizadamente. Onde está o Grimoire?
- Onde está... o quê? – uma sombra de desespero passou em seus olhos, e as poucas dúvidas que eu tinha, acabaram naquele momento.
- Onde está o Grimoire da minha família, que você roubou no meu dormitório?
- Do que você está falando?
- Não adianta negar. Eu vi suas lembranças enquanto você me beijava.

Ele pareceu transtornado e sem saber o que dizer. Após alguns segundos, porém, ele entendeu que era inútil continuar se fazendo de desentendido.

- O Grimoire não é da sua família! Minha avó o escreveu com ajuda da sua avó, e quando ele ficou pronto, sua avó traiu a amizade das duas e roubou todos os créditos para os Damulakis! – ele gritou com raiva e em forma de acusação. Muito diferente do Ulisses gentil e galanteador que eu estava acostumada a conviver.
- E como você tem tanta certeza de que isso aconteceu? – gritei de volta.
- Li no diário da minha avó. Ela conta como teve a idéia de escrever um Grimoire, como chamou sua avó para ajudá-la, e como ele finalmente ficou pronto. Então, ela não escreve mais nada, até 30 anos depois, alguns dias antes de morrer. O feitiço de memória que sua avó lançou perdeu a função e ela se lembra de como foi traída. O último relato que ela escreve é um apelo para que as gerações futuras da família Bonaccorso fossem atrás de seus créditos por direito. Por isso eu roubei o Grimoire de vocês. Ele passou anos escondido na mansão da família Damulakis, longe da possibilidade de roubá-lo. Mas em Beauxbatons, não. Ali foi muito fácil. Só precisei de um momento de sua distração, e uma oportunidade...
- Ótimo plano. Realmente brilhante. Só tenho uma pergunta a te fazer: você teve ao menos a curiosidade de decifrar uma das páginas daquele livro, antes de mandá-lo para a sua avó?
- Por que está perguntando isso?
- Porque eu sei que se você tivesse ao menos entendido bem de que espécie de feitiços estamos falando, não iria querer tanto assim ter esses “créditos” para a sua família. Falo isso por que quando descobri do que se tratava, passei a ter certo tipo de nojo de ser Damulakis.

Ficamos nos encarando em silêncio. Por um momento, toda a raiva que estava concentrada nos olhos dele, pareceu desaparecer. Agora me encarava com indiferença. Não disse nada, apenas sustentei o olhar.

- Então, acho que você pode se considerar feliz, agora que o livro voltou para onde nunca deveria ter saído. – ele disse baixo e brando.
- Me devolve o livro, Ulisses. Acho que você ainda não entendeu a gravidade do conteúdo dele... – tentei mais uma vez, em tom calmo, mas no fundo me controlava para não gritar. Ele sorriu.
- Desculpa, Bella, mas ele já não está mais em minhas mãos. Já não é assunto meu. Para completar minha parte do plano, só falta uma última coisa. Não iria fazer isso se você não tivesse descoberto tudo, mas agora eu preciso fazer.

Foi muito rápido e não teria dado tempo de me defender. Com uma agilidade incrível, Ulisses puxou a varinha de dentro das vestes e apontou diretamente para o meu peito. Já estava esperando ser atingida, a qualquer momento.

- ESTUPEFAÇA!

Uma voz feminina gritou e Ulisses caiu no chão. Atrás dele, estava Isabel. A varinha em punho, uma expressão tão séria e agressiva quanto eu nunca tinha visto antes em minha vida.

Monday, April 21, 2008

Time to break the seal - Parte 1 - Memories

Lembranças de Alucard W. Chronos
17 anos atrás
Alucard parecia à beira de ter um ataque de tanta preocupação e alegria. Mal conseguia se conter enquanto ouvia os sons dos curandeiros e enfermeiros no quarto há apenas alguns passos dele. Ele não parava quieto, andando de um lado ao outro do corredor. Fora necessário que o parto fosse feito na sede do clã, para proteger a criança, pois já se imaginava que teria algo de especial e principalmente evitar ataques em um período tão perigoso da história da magia. Todos os amigos mais íntimos estavam no local, prontos para ajudar em qualquer coisa. As mulheres, como Celas,Yulli, a Sra. Capter e até mesmo Alex grávida estavam ajudando no parto, para usar seus conhecimentos em poções e magia se necessário. Alex se recusava a estar longe de Mirian em um momento importante como aquele, e sabia que a amiga faria o mesmo por ela. Já Louise não voltava a Londres a anos, mas enviara desejos de boa sorte. Do lado de fora do quarto, no corredor da casa dos Chronos, Kyle de vez em quando levantava junto de Sergei para tentar acalmar Alucard, mas ele cada vez mais estava ansioso e nervoso. O Sr. Capter estava igualmente nervoso, era o nascimento de seu primeiro neto, de sua única filha e ele não se segurava de tanta felicidade. Scott e Ben estavam sentados aguardando o nascimento, e ao lado dele estava uma mochila com uma quantidade surpreendente de itens mágicos. Havia penas de fênix, garras de dragão, esporos de manticore (Alucard retirou ele próprio) e gotas de lágrimas de fênix. Estavam preparados para tudo. Dumbledore, Mcgonogall, Kollontai e Kegan haviam enviado cartas e desejos de sorte.
Finalmente após um tempo que pareceu horas, talvez dias, eles ouviram um choro de criança e exclamações de felicidade. Alucard havia acabado de sentar um pouco e pulou do banco, correndo para o início do corredor. No final do corredor a porta do quarto se abriu e Yulli saiu de lá, suando e sorrindo.- Eles nasceram Lu! Estamos dando os primeiros cuidados. Mirian quer ver você.- Nasceram, como assim? São saudáveis?!- São gêmeos! Dois meninos, muito fortes e lindos. Mas você deve ver por si só.
Ele sorriu de orelha a orelha enquanto recebia os parabéns de Kyle, Sergei, Ben e Scott, todos prometendo comemorar e muito o nascimento, fazendo promessas de como iam estragar os novos sobrinhos, mimando-os e os preparando para tudo. O novo pai parecia sem ter palavras, e correu para o quarto com Yulli acompanhando-o.
O parto fora feito no quarto do casal, e parecia irreconhecível. Haviam vários potes e garrafas de poções, círculos mágicos e itens de proteção. Havia um imenso símbolo dourado acima da cama, como se fosse um amuleto de proteção às crianças,um círculo com o ankh em seu interior. Mal Alucard entrou no quarto, ele ouviu com alegria o choro das crianças, mas ao mesmo tempo teve um receio, pois pode sentir o cheiro e a aura de um ser como ele, um amaldiçoado, um meio-vampiro. Mas mesmo assim ele estava feliz, eram seus filhos, crianças que ele a tanto esperava.
- Lu, venha vê-los! Nós já fizemos os primeiros cuidados. E aplicamos algumas poções e encantamentos. São realmente filhos de vocês, já são surpreendentes! – A Sra. Capter falou sorrindo, erguendo duas garrafas de poção. Ao seu lado Celas sorria por ter ganhado sobrinhos e abraçou o irmão com uma alegria enorme.
- Meu Cardzinho está crescido! Já é papai! Nossos pais ficariam orgulhosos dos netos, maninho.
- Eles estão orgulhosos e felizes onde quer que estejam, Celas. Os dois novos Chronos são lindos, Lu! – Alex falou abraçando o amigo também.
- Vocês não sabem como estou feliz! Mas quero vê-los e falar com a mulher linda que está nesse quarto. – Ele falou sorrindo e se dirigindo para a cama com dossel alto. Ele se sentou na cama sorrindo e acariciou os cabelos de Mirian, que parecia estar dormindo enquanto as duas pequenas crianças descansavam ao seu lado. Mas assim que ele se aproximou, ela abriu os olhos, cheios de uma luz e beleza que ainda encantavam Alucard.
– Você está mais linda do que nunca.
- E você também, querido. Nossos filhos são lindos...
- Sim, eu sei. Temos que dar os nomes para eles.
- Isso pode esperar algum tempo. Tem algo mais importante para a segurança de nossas crianças. Tenho que equilibrar as forças deles com a minha, e estou muito cansada.
- Deixe um pouco comigo então, querida. Vejo que infelizmente um é como eu... – Disse enquanto pegava os dois meninos no braço, completamente sem jeito.
- Nós já esperávamos isso. Mas ele é como você, já é forte desde pequeno e controla os poderes. Ele é o mais velho dos dois, o nome deve ser Seth.
- Seth Kamui, então, sinto coisas importantes para ele, mas também muita preocupação…
- O mais novo tem um poder dentro dele também, muito parecido com o meu, e não sei porque quando o vi pela primeira vez tive a sensação da liberdade de voar. Griffon deve ser seu nome.
- Griffon Fuuma e Seth Kamui Capter Chronos. Sinto que são dois, mas se completam.
- São lindos…Estou tão feliz meu amor…
- Eu também minha querida! Assim que tiver forças, faremos o selamento. Já sinto as energias dos dois duelando.
- Eu posso fazer minha parte agora, depois você completa. Traga as garras de dragão e as lágrimas de fênix.
- Você ainda está muito fraca. – Ele falou preocupado, mas ela respondeu com um sorriso e um olhar determinado.
- É a segurança de meus filhos que está em jogo, e estou forte o suficiente para protege-los. Posso fazer isto agora.
Alex ouvira a conversa e trouxe os ingredientes pedidos, depositando no colo de Mirian quando esta se sentou na cama com a ajuda de Alucard. Mirian agradeceu e fechou os olhos, enquanto segurava as duas crianças nos braços. Todos se afastaram, sabendo da energia para tal magia. Quando ela abriu os olhos, estes estavam brancos e uma aura poderosa a envolvia. As crianças estavam quietas, como se sentissem o poder também. Com doçura intensa a mãe beijou a testa de cada filho, depositando-os depois na cama enquanto com a varinha desenhava um círculo ao redor deles, no topo da circunferência ela desenhou um triângulo e em seu interior uma lua crescente. Ela pegou então a garra de dragão e fez um pequeno talho na mão esquerda, derramando algumas gotas de seu sangue na garra e misturando as lágrimas ao seu sangue, e uma última gota no centro do triângulo. Depois depositou a garra de dragão na mão de Griffon e derramou as lágrimas de fênix no peito de Seth. Ao fazer isto os itens começaram a piscar nas mesma cor de seus olhos e ela falou em uma língua antiga, misturando grego, latim e egípcio, invocando os poderes ancestrais da magia.
- Isís, você que trouxe seu amado e irmão de volta do mundo dos mortos, que cuidou de Hórus, entrego a proteção de meus filhos. A Gaia a mais antiga e bondosa mãe, peço a proteção e força a essas crianças que sejam abençoadas com sua graça. Mas peço que limite seus poderes, guardando suas armas em seu leito até o dia da necessidade extrema. Como você fez com seus filhos, proteja-os, mas prepare-os para a guerra vindoura. Deusa, proteja-os e guie-os, sempre ilumindo seus caminhos com a sua luz prateada.
Quando ela terminou de falar a prece, as lágrimas de fênix e garras de dragão haviam desaparecido e os olhos das crianças brilhavam levemente em dourado. Mirian sorriu exausta e Alucard pegou os filhos no colo, dando um beijo em Mirian antes de levar os filhos para fora. Do lado de fora, todos já sabiam o que seria feito e abriram caminho, Kyle segurou Griffon no colo, e junto do amigo desceram para uma sala no andar de baixo. A sala havia sido previamente preparada, nela não havia janelas, e toda a extensão era coberta por um enorme pentagrama e ao longo de suas bordas haviam símbolos de poder tremendo como o selo de Salomão, o Ankh, o falcão, a suástica e diversos outros símbolos, além de runas e alfabetos antigos. No centro do pentagrama, havia dois círculos, e entre eles havia uma triângulo que em seu interior continha o olho de Hórus. Kyle depositou Griffon no meio de um círculo negro, com o desenho de uma lua no topo, e Alucard depositou Seth no meio de um círculo branco com o desenho do sol no topo. Kyle então saiu da sala dando um tapa no ombro do amigo. Alucard então encaminhou-se para o desenho de uma lua crescente acima dos círculos, fechando os olhos e quando os abriu eles estavam vermelhos, liberando todo seu poder. Com a própria mão, ele derramou gotas de sangue no interior do círculo onde estava, e retirou um frasco cristalino do bolso, que continha um pouco do sangue de Mirian, jogando-as no centro da outra lua crescente diante dele. Juntos, círculos e luas crescentes formavam uma espécie de cruz. O quarto ficou mais escuro e com uma voz poderosa ele deu continuação ao selo.
- A Luz os consagrou com seu poder, dando-lhes proteção. Agora as Trevas os impediram de romper seus limites, prendendo-os até a hora certa. Thór, Seth, Odin, Anúbis e Zeus com o poder de vocês aprisionem esses poderes e os liberem na hora certa. Chronos, somos servos de seu poder, descendentes de sua glória. Que o tempo aprisione, fortaleça e prepare esses poderes para o tempo a vir. A Luz é presa pelas sombras, por Anúbis, Hades e Seth. As Trevas são contidas pela luz, por Odin, Thór e Zeus. E ambos crescem juntos, seguindo as ordens do grande lorde Chronos.
O imenso pentagrama brilhou na escuridão, e um fluxo de energia começou a correr das pontas até o centro, envolvendo os dois círculos. Depois de um tempo houve um clarão na sala e as duas crianças estavam adormecidas. No peito de cada uma estava um pingente de pedra que misturava vermelho-sangue e branco brilhante, e que pouco a pouco ia se tornando branco. Alucard sorriu ao ver o símbolo dos selos, e pensou em corta-los depois em pingentes para os filhos, mas por enquanto iria leva-los de volta à mãe. Tudo ocorrerá bem e eles protegeriam seus preciosos filhos…
No dia seguinte, mãe e pai, com os filhos nos braços, colocaram suas mãos diante da porta da sala, e completaram o selamento, selando a própria sala do selo, fazendo-a se esconder da casa... Até o dia em que as armas dos gêmeos fossem necessárias, e o selo rompido. Quando finalmente descobrissem seus poderes de verdade.

We're Blood Bound - We aim for the sun
The luminous moon will take us high over ground
We're Blood Bound - Collecting the stars
We hold a power together


Música: Blood Bound, Hammerfall.

N.A.: Essa é a primeira parte do texto em sí, em breve explicarei melhor o porque desse texto estar aqui. Todos os símbolos foram retirados da internet, e são basicamente da cultura Wicca, mas alguns são do meu conhecimento prévio, como a suástica, ankh, olho de Hórus e pentagrama.

Monday, April 14, 2008

Do díario de Rory Montpellier

“Querida Danielle

Meu Julian nasceu... Tudo correu como o previsto e eu me recuperei bem. Meu corpo voltou ao normal, quer dizer meus seios estão maiores, e as vezes me comparo a uma vaca leiteira, pela quantidade excessiva de leite, mas a curandeira que cuidou do meu parto disse que isso era bom. Porém só a alegria de ver aquela boquinha rosada suspirar de satisfação quando mama, valeu a pena aumentar o tamanho de minhas blusas rsrs.
E ele é o bebê mais bonito do mundo. Sim, pode rir, mas eu estou apaixonada pelo meu filho. Como você vai ver na foto que envio, ele é lindo, tem todos os dedinhos e segura minha mão com força. Tem um temperamento calmo, exceto quando está com fome, e aí nestas horas, só mesmo uma sala à prova de som.
Ouso afirmar que ele é muito inteligente, pois já conhece minha voz e já sabe quando não sou eu que estou por perto. Angelique e Lucien são os tios mais corujas que já vi e Jaeda e Brian, se tornaram tios postiços e competem pela atenção de meu pequeno. Meu pai se tornou um avô babão, e já anda fazendo planos de comprar um pônei para Julian, como se ele fosse montar com dois meses de idade. Acho que a decepção que causei ao meu pai por engravidar, foi esquecida quando ele o pegou no colo. Papai, o chama de campeão do vovô, e nestas horas lembro-me do Ty. Não, ainda não contei a ele e à vezes sinto um impulso louco de ir atrás dele com Julian no colo e dizer:
Este é o seu filho e ele precisa de você...”, dramático não? Mas receio que se fizer isso, a primeira coisa que Ty fará será tirar o bebê de mim. Posso estar sendo irracional, mas nunca vou esquecer o olhar dele quando terminou comigo. Acha que ele conseguirá olhar para nosso filho com amor incondicional, depois de tudo o que houve? O meu pequeno ainda é tão frágil. E gostando ou não, Julian é neto da mulher que matou o pai dele.
Sabe, às vezes, durante a noite quando Julian está dormindo, me levanto só para ver se ele está respirando. Sim, sou uma tola, mas eu li tantos artigos sobre bebês que morrem dormindo, que fico apavorada por não perceber se ele regurgitar e eu não estiver por perto. Outro dia, achei que ele estava dormindo demais e apesar dos protestos de Jaeda, para deixá-lo em paz, eu o acordei, afinal o que um bebezinho poderia fazer? Péssima idéia.
Aquele bebezinho, de aparência tão tranqüila, transformou-se num ser de outro mundo, que não lembrava em nada ao meu anjinho, pois gritava a plenos pulmões, e fez isso por mais de 5 horas, levando-me ao ponto de chorar de exaustão junto com ele, ele só acalmou quando Brian o aconchegou. Juro que depois deste dia, passei a respeitar a sua soneca rsrs.
Quantas saudades de nossas conversas, nossas horas de folga sentadas bebendo suco de abóbora nos jardins de Beauxbatons, ou apensas molhando os pés no lago nos dias quentes de verão e porque não dizer: saudades das aulas de madame Defousséz, posso ouvir sua risada chocada, mas reconheço que depois do nascimento de Julian, estou mais tolerante com as pessoas.
Não sei ainda o que farei com relação ao Ty, por isso vou esperar mais um pouco. Não muito, pois Julian é a cara dele, e qualquer um que saiba do nosso namoro, vai ligar os fatos, e não quero que nada e nem ninguém machuque ao meu filho. Amo-o demais para permitir que sofra.
Gostaria muito que viesse nos visitar, pois ele adorou o ursinho amarelo de tia Dani, e a pequena vassoura enviada por tio Went, está guardada esperando que meu garoto fique maior e se sustenha nas próprias pernas. Cuide-se e fique bem.
Com todo o meu carinho
Rory”

Tuesday, April 01, 2008

A reunião de última hora convocada pelo diretor Diperma havia terminado e Shannon e eu fechamos a porta da diretoria sem dizer nada. Sean, Evan e Stuart estavam sentados no bando do corredor olhando apreensivos e trocamos um olhar desanimado, passando por eles ainda sem falar. Os três nos seguiram até o dormitório também em silencio, sem duvida com receio de perguntar o que tinha acontecido. Quando chegamos ao dormitório, puxei meu malão de debaixo da cama e o abri, começando a atirar os livros dentro.

- O que está fazendo, Gabriel? – Sean perguntou preocupado
- Quer ajuda, Biel? – Shannon sentou do meu lado e começou a dobrar as roupas que estavam na minha gaveta
- Sim, obrigado. Depois ajudo você com as suas... – falei desanimado, encarando o malão aberto
- Gente, o que está acontecendo? – Stuart soou desesperado – Por que estão arrumando as malas?
- Parem com isso! – Evan tomou o casaco que dobrava e o jogou de volta na gaveta – Falem alguma coisa!
- Não há o que falar – disse categórico – Estou voltando pra Beauxbatons amanhã cedo.
- E eu estou indo para Durmstrang, ficar com o Micah – Shannon completou

Houve um momento de silêncio, em que os três se entreolharam confusos, e em seguida o quarto se encheu de protestos. Os três falavam ao mesmo tempo atropelando as palavras, e Shannon e eu permanecemos em silêncio esperando que se acalmassem. Foi Evan que se calou primeiro e pediu que os outros dois ficassem quietos.

- Será que podem explicar melhor essa história? – disse calmo – Como assim você vai voltar pra Beauxbatons e você vai pra Durmstrang?
- E o nosso time?? – Sean interrompeu – E a nossa amizade? Vão nos abandonar como Micah fez??
- Não tivemos escolha! – falei me defendendo – Nós não estamos indo porque deu vontade, estamos indo porque não temos outra opção!
- Vamos poder explicar, ou alguém vai interromper outra vez? – Shannon disse irritada e os três sentaram – Melhor assim...
- O diretor nos chamou para conversar agora de manhã, porque recebeu uma denúncia anônima acusando Shannon e eu de sermos os autores do seqüestro do corvo – comecei a explicar – E a denúncia vinha com provas que nos incriminavam
- Diperma não tinha alternativa, o diretor do Kansas cobrou uma atitude dele, não podia deixar que isso passasse sem punição, afinal, não só seqüestramos o corvo como também o perdemos no jogo.
- Mas e quanto a nós três? – Stuart interrompeu – Também estávamos lá, também ajudamos! Vocês não fizeram tudo sozinhos.
- Quem quer que tenha visto o seqüestro, não viu vocês. Ele nos mostrou as fotos, e só eu e Shannon aparecemos.
- Enfim, como existem provas incontestáveis de que estávamos na “cena do crime”, ele nos deu duas opções, que na verdade virou uma só: ou éramos expulsos da escola, ou aceitávamos uma transferência imediata. Se optássemos pela transferência, ele entraria em um acordo com o diretor do Kansas para que isso não ficasse na nossa ficha escolar.
- Claro que optamos pela transferência. Sequer cogitei deixar que fosse expulso, minha mãe ia morrer! – falei rindo enquanto continuava guardando as roupas – Ela nem precisa saber o real motivo da transferência. Diperma garantiu que não contaria.
- MAS ISSO É UM ABSURDO! – Evan ficou de pé berrando – Como que o Diperma propõe algo assim a dois alunos? Cadê a ética?
- Ética? – Shannon soltou uma gargalhada – Desculpe, mas quero mais que a ética vá pro inferno nesse caso! Não quero ser expulsa, e em Durmstrang não vou ficar sozinha, tenho o Micah e outras pessoas!
- Isso não está certo! – Stuart ficou de pé também e começou a andar de um lado pro outro – Vocês não podem pagar o pato sozinhos! Por que não contaram que também ajudamos?
- Nunca ia entregar meus amigos – falei indignado por ele sugerir isso – Duas expulsões já foram ruins demais, não precisamos de cinco!
- Mas é errado, não podemos deixar que levem toda a culpa sozinhos! – Stuart insistiu e cutucou Sean – Vamos contar a verdade a ele, certo?
- Claro, isso não vai ficar assim – Sean o apoiou, mas meio incerto – Vocês vão embora e ficamos pra trás com a consciência pesada. Não dá!
- Ninguém vai contar nada a ninguém, ouviram? – Shannon falou em um tom ameaçador – Fiquem calados, não piorem as coisas!
- Desculpa Shan, mas dessa vez não vai me obrigar a ficar na minha...

Stuart abriu a porta depressa e disparou pelo corredor, decidido a entregar os demais seqüestradores ao diretor. Fiquei de pé em um salto e olhei para Shannon assustado, ele não podia fazer isso! Os outros dois correram atrás dele para ajudar e Shannon e eu saímos atrás dos três, tentando impedir. Descobrimos na pior situação possível que Stuart era um excelente velocista. Por mais que corrêssemos depressa, ele estava sempre com uma boa dianteira. Shannon ainda cogitou a hipótese de estuporá-lo, mas ficou com medo de machucá-lo e desistiu. Vimos quando ele praticamente arrombou a sala do diretor e a invadiu, Sean e Evan na sua cola. Paramos atrás deles derrapando, mas Stuart já estava abrindo o bocão.

- Mas o que é isso? – o diretor levantou assustado com a invasão
- Diretor Diperma, o senhor não pode fazer isso! Não pode punir apenas Gabriel e Shannon, porque eu, Evan e Sean também estávamos lá no Kansas no dia do seqüestro do corvo! E eu fui o responsável por soltá-lo, mas foi sem querer!
- Que história é essa, Sr. Carpizian?
- Cala a boca, Stuart, ou juro que te bato! – Shannon ameaçou entre os dentes
- Desculpe diretor, isso é tudo brincadeira – interrompi o empurrando para trás - Stuart achou que seria divertido pregar uma peça no senhor, mas eu avisei que não teria graça.
- Não é brincadeira não, é verdade! Por que eu brincaria com isso?
- Não sei Sr. Carpizian, talvez porque hoje é 1º de Abril e achou que não me lembraria... – Diperma falou impaciente e Stuart pareceu cair em si. Sean e Evan também – Não é o primeiro que tenta me pegar hoje, mas aconselho que no ano que vem escolha uma mentira que cause menos polemica. Já estou engasgado com o sumiço desse corvo e não preciso de mais acusações falsas. Agora voltem para seus dormitórios, por favor.

Deixamos a sala dele devagar, e enquanto Sean, Evan e Stuart caminhavam calados, Shannon e eu explodíamos em gargalhadas. Os três passarem pela gente com caras furiosas e sumiram pelo corredor sem dizer nada. Mas mesmo que eles estivessem chateados, não conseguia parar de rir. Era a primeira vez que pegava alguém em uma peça de 1º de Abril bolada em menos de cinco minutos, enquanto ouvíamos a uma tediosa reunião sobre as funções de um presidente de grêmio estudantil...

Monday, March 31, 2008

África do Sul

Alguns dias antes da viagem de formatura...

“Isa,

Estou enviando o que você pediu, embora ainda não saiba seus motivos. Espero que seja útil na busca.
Fique de olho na Bel por mim.

Beijos,
Rebecca Damulakis”

Um pequeno livro com capa de couro parda caiu em minhas mãos. As escrituras estavam gastas, mas ainda lia-se nitidamente “Phoebe Damulakis”. Alguma coisa me dizia que aquele diário traria respostas para o roubo do Grimoire, mas por enquanto, eu não falaria nada para a Bel.

°°°°°

- Uma girafa pode limpar suas próprias orelhas com a língua. – O guia disse enquanto caminhávamos por uma trilha onde podíamos ver, não muito longe, um grupo de girafas.
- Grande coisa. – Bel bufou próxima a mim. – Girafas são... inúteis. Grandes, pescoçudas, nojentas e inúteis. Prefiro vacas.
- Nossa. Que bela comparação! Girafas e vacas são quase iguais mesmo. – eu disse provocando em voz alta e algumas pessoas riram. Bel levantou a sobrancelha.
- Ao menos vacas nos dão leite.
- Assim como podem fazer as cabras. – Brenda disse com simplicidade.
- E não têm pescoço gigante. – Bel insistiu.
- Mas têm peito caído. – Dora disse arrancando gargalhadas gerais.
- E não enfiam a própria língua dentro do ouvido! – Bel começava a ficar vermelha, mas não encontrou nenhum apoio.
- Pelo menos elas se limpam. Vacas são imundas e fedidas, de natureza. – respondi e Bel já preparava um contra-ataque quando Professor Pierre nos interrompeu.
- Meninas, será que podemos discutir isso outra hora? Vamos andar mais um pouco. Ali na frente estão os leopardos...

Bel engoliu o que ia dizer e fechou a cara. Durante todo o restante do safári no Kruger National Park, ela não disse mais nada. Bel andava muito esquisita, desde o dia dos namorados. Fora as investigações do Grimoire que não tinham chegado a nenhuma conclusão de fato.

- Anne, você sabe o que aconteceu com a Bel? – perguntei em voz baixa para que somente Anne pudesse escutar. Ela deu uma olhada para Bel, já distante de nós.
- Ela e o Bernard estão um pouco... frios, um com o outro. – Anne respondeu sacudindo os ombros.
- Frios? Frios como?
- Frios... frios. Entende? Ela não me contou muita coisa, mas disse que ele tentou avançar o sinal no dia dos namorados e ela entrou em pânico. Depois ele se declarou pra ela, e ela não conseguiu dizer nada. Desde então estão assim.
- Entendo.

Observei Bel caminhar silenciosa trocando meia dúzia de palavras com Ulisses Bonaccorso vez ou outra. Não sabia exatamente o porquê, mas sentia uma antipatia enorme por aquele garoto.

°°°°°

O som da batucada de tambores explodia para os quatro ventos de uma das praias de Sun City. Agora, só tínhamos mais uma semana para aproveitarmos na África do Sul, e a festa estava animada.

Além do batuque, vários homens jogavam Capoeira no meio de uma roda e cantavam bem alto músicas que não conseguíamos entender, mas que de certa maneira, fez com que várias pessoas se soltassem e arriscassem um gingado diferente.
Nos serviram várias bebidas de frutas e as comidas tradicionais. Anne passou oferecendo algo que mais parecia cebola empanada, mas era bem crocante e tinha um gosto exótico.

- Gostoso. O que é isso?
- Não sei. Me deram um para provar e gostei, aí trouxe para vocês.
- Ahhh, grilos! – Professor Pierre saiu com a respiração arquejante do meio da roda. Tinha acabado de protagonizar uma verdadeira cena cômica ao “jogar” capoeira com um africano nato. Avançou para a bandeja que Anne segurava e sem cerimônias, engoliu um dos petiscos quase sem mastigar.
- Desculpa, professor. Mas o que o senhor disse que são? – Dora perguntou já com uma careta apontando para a bandeja, e o professor apanhou mais dois ou três, enfiando-os na boca.
- Grilos. Aqui é comum comerem. São deliciosos, ham?

Sorrindo, ele se afastou já batendo palmas no ritmo das batucadas. Eu, Dora, Brenda e Anne nos entreolhamos e senti meu estômago dar uma volta completa. Bel riu.

- O que vocês esperavam? Caviar? – perguntou sarcástica. – Bom, mas se não gostaram dos grilos, acho que vão gostar de... – ela pensou um segundo e sem dizer mais nada, foi até a mesa de comidas. Voltou um segundo depois com algo que parecia ser uma coxa na mão. - Coxa de Ginu. Pena que escolhi ser vegetariana, mas essa coxa deve estar deliciosa, não acham? – rindo, se aproximou de mim apontando a coxa para o meu peito, como uma arma. – Prova, Isa. Você vai adorar.
- Não quero, Bel. Obrigada. – mas ela continuou caminhando em minha direção com um sorriso maníaco. Dei alguns passos para trás, assustada, e ela aumentou a velocidade. Corri.
- O que foi, Isa? Também não gosta de Ginu? – ela perguntou gritando enquanto eu corria, e antes que eu pudesse me afastar demais a ouvi dar uma gargalhada solitária e bastante exagerada.

Alcancei os meninos do time que conversavam sobre os jogos de semifinal e a boa classificação da Fidei. Era a primeira vez, em seis anos, que a Fidei tinha concretas chances de vencer o campeonato de quadribol. Procurei por Brendan, mas ele estava conversando muito intimamente com Raina Casale (uma das batedoras da Sapientai) então decidi não atrapalhar.

Sentei-me um pouco afastada de todos, sozinha. Um minuto depois, Dora se aproximou e sentou-se ao meu lado.

- A Bel está bêbada ou surtou? Ficou rindo sozinha um tempão, e nem foi tão engraçado ela te “atacar” com aquela coxa.
- Não sei. Alguma coisa muito estranha está acontecendo com a Anabel...

°°°°°

- BEL! Você perdeu completamente o juízo? – eu perguntei exasperada enquanto ela se preparava para saltar da ponte Blaauwkrans, o mais alto bungee-jumping do mundo.

Agora, faltavam apenas dois dias para voltarmos para Beauxbatons e fazíamos os passeios finais. Já havíamos conhecido vários museus, parques, praias e vinícolas. Centros comerciais e culturais e vários safáris.

- Não, Isabel. Nunca estive tão lúcida.
- Então pode me dizer por que está se preparando para saltar desse troço? Eu sei que você tem medo de altura! Rebecca me contou como você ficou exasperada na primeira aula de vôo! Voc... OUCH! – ela pisou com força no meu pé e senti meu olho se encher de lágrimas.
- Escuta aqui... Você não tem nada a ver com a minha vida. Se não quiser me ver saltar, some. – ela disse seca dando uma olhadela por cima do ombro. Acompanhei. Ulisses Bonaccorso sorria vitorioso.
- Já entendi. Você foi desafiada.

Ela não respondeu. Se amarrou em todos os ganchos e o instrutor começou a passar diversas orientações. Decidida, tracei uma reta até Ulisses.

- Foi você?! – eu o acusei já com a voz alterada, mas ele não desfez o sorriso.
- Eu o que?
- Você quem encheu a cabeça da Anabel para ela saltar desse negócio!
- Você está louca.
- Se alguma coisa acontecer com ela, eu juro que... – apontei o dedo para o nariz dele, mas não completei a frase. Bel pulou da ponte e ouvi seu grito. Corri até a beirada, me espremendo entre os alunos para observar.

A coisa foi toda muito rápida. Ela saltou, depois de 2 minutos a puxaram de volta, estava em transe e completamente descabelada.

- Bel. Você está bem?

Ela me encarou fundo nos olhos e sem dizer nada, se afastou da aglomeração e ficou estática no meio da ponte.
Ia até ela, mas Ulisses foi mais rápido. Antes que eu pudesse intervir, ele a puxou com força e a beijou. Ao contrário do que eu imaginara, porém, ela não se afastou. Deixou-se levar por ele e correspondeu ao beijo.

Thursday, March 13, 2008

Lembranças de Anabel Damulakis McCallister

Dia dos namorados:

- Onde estamos indo? – perguntei pela milésima vez a Bernard, enquanto ele me guiava lentamente. Meus olhos estavam tapados por uma faixa preta.
- Já disse: é uma surpresa. Para de me perguntar. Não vou te responder.
- É sério, Bê. Não queria ter que sair de Beauxbatons. Agora que as investigações sobre o Grimoire estão chegando a alguma coisa concreta e...

Parei de falar quando Bernard parou de andar. Um segundo depois, a claridade invadiu meus olhos. Estávamos na porta do Taillevent, um dos restaurantes mais populares de Paris. Arregalei os olhos e Bernard sorriu.

- Você fez reserva nesse restaurante há quantos meses atrás?
- Alguns meses. – ele sorriu satisfeito me oferecendo o braço. Aceitei. Caminhamos em direção à recepção.
- Você é maluco! Uma água aqui deve custar o olho da cara.
- Como você é romântica, Anabel! – ele riu e deu um beijo na minha testa. – Vamos.

Poucos minutos depois, uma das recepcionistas nos guiava entre as mesas até a nossa. Uma simples, de duas cadeiras. Toalhas brancas, taças de cristal e velas. Várias velas. Sentamos.

- Não gosto de restaurantes com velas em cima da mesa. Se lembra da última vez, não é? – Bernard concordou rindo e assoprou as velas, apagando-as.
- Melhor não corrermos riscos. Já vou ter que deixar meu rim aqui, por causa do jantar. Se tiver que deixar um fígado por causa dos prejuízos...
- Ah, isso foi muito romântico! Muito mesmo! Estou impressionada. – disse sarcástica e ele me puxou para um beijo longo.

~*~

Tudo estava indo maravilhosamente bem. Pedimos as bebidas, e uma entrada maluca, mas até saborosa. Bernard e eu ríamos e comentávamos dos outros casais ao nosso lado. As mulheres cheias de jóias e maquiagens, os homens pomposos.

- Acho que não nasci pra ser assim. – comentei observando uma moça na mesa ao lado com vários anéis nas mãos.
- Assim como? – Bernard perguntou beliscando a entrada.
- Assim... cheia de... estilo. Entende? Como a Isabel. Posso até implicar, mas tenho que assumir: ela tem estilo. Ela sabe se comportar em lugares como esse. Sabe se vestir.

Bernard parou de mastigar e ficou me encarando sem expressão. Quando percebi que ele estava me olhando, ri.

- Que foi?
- Nada. Só estou registrando esse momento de você elogiar a Isa.
- Estou falando sério, Bê!
- Eu também! Do que afinal você está falando? Você também é cheia de “estilo”. Só conheço uma pessoa igual a você, e essa pessoa está sentada na minha frente, nesse exato momento! Não precisa usar saltos, nem marcas, nem ser a melhor aluna da turma de etiqueta. Você é ótima do jeito que é.

A resposta ficou no ar, pois o garçom chegou com nosso jantar e nos serviu. O clima, que até então estava ótimo, pesou, assim que eu mastiguei a primeira vez o conteúdo do meu prato e tive que me segurar para não cuspir imediatamente. Engoli. Lágrimas saíam dos meus olhos sem parar. Bernard me olhava assustado.

- Que aconteceu?
- Você sabe muito bem que eu sou VEGETARIANA! – disse elevando a voz. Alguns casais nos olhavam assustados, mas minha raiva estava incontrolável.
- Sei. Por quê?
- Se sabe, por que pediu um prato cheio de CARNE pra mim?
- Carne? Bel, isso não é carne. O meu é igual, olha. – ele apontou para o próprio prato, assustado. A voz controlada no mesmo tom. – São moluscos.

Antes que pudesse me segurar, meu estômago deu uma volta completa. Peguei a taça de água e virei de uma vez na boca.

- Eu... odeio... frutos... do... mar. – disse finalmente, respirando arquejante depois de tanta água. Bernard olhava de mim para o prato sem saber o que dizer. Um garçom veio até a mesa.
- Alguma coisa errada?
- Meu namorado. Pode trocar para mim, por favor? – perguntei com raiva, mas o garçom continuou imóvel. – Esse maldito prato. Não quero isso. Tira.
- A comida não está temperada ao seu gosto? – o garçom insistiu, mas Bernard o olhou definitivo e ele retirou nossos pratos. – Posso lhes servir outro jantar então?
- Acho melhor trazer a conta. – Bernard disse seco e o garçom concordou. Quando ele se afastou, nos encaramos. – Melhor assim? Irmos embora?
- É. Muito melhor. – respondi azeda.

Não nos falamos mais. Bernard foi até a recepção pagar a conta e eu o esperei do lado de fora. Saímos andando e após alguns minutos, Bernard explodiu.

- Meses planejando tudo para que essa noite fosse perfeita! Depois do jantar poderíamos ir para meu apartamento, que essa noite vai estar completamente vazio, e lá ouviríamos músicas, conversaríamos. Ficaríamos a sós, entende? Quando tudo parece que vai dar certo...
- Eu estrago! Pode terminar a frase. Pode dizer que eu acabei com todos os seus brilhantes planos para um dia dos namorados romântico. Mas será que eu tenho direito de não comer carne e não gostar de frutos do mar? – perguntei irritada. Nos calamos.

Ficamos vários minutos em silêncio, cada um olhando um ponto do Rio Sena. Então, Bernard começou a rir descontroladamente.

- Do que você está rindo? – perguntei antipática.
- É óbvio: nós dois, eu e você, não podemos mais comemorar NADA em restaurantes! Nunca mais. Sempre sai alguma coisa errada.

Ele conseguiu fazer o que eu achava que seria impossível naquele momento, dado meu estado de ânimo. Ri também. Ele se aproximou e nos abraçamos.

- Desculpa ter pedido um prato com moluscos ao molho frescureé para você. Fui um tremendo idiota.
- Tudo bem. Desculpa ter feito aquele escândalo. Acho que depois dessa, você não consegue reserva lá nem com anos de antecedência.
- Ah, não ia tentar outra de qualquer maneira...

Nos beijamos. Depois ficamos abraçados um bom tempo observando o rio. Senti meu estômago roncar.

- Estou com fome. – disse e Bernard riu.
- Eu também.
- No apartamento de vocês já tem fogão? – perguntei zombadora e ele levantou a sobrancelha.
- Ta brincando? Claro que temos. Inutilizado, mas temos. Podemos improvisar alguma coisa... – ele sugeriu.
- Sem carnes e moluscos?
- Fechado.

~*~

Depois de termos “improvisado” uma lasanha congelada no sabor quatro queijos, fomos para o quarto de Bernard. Estava atualizando-o sobre as novidades do Grimoire e ele escutava com atenção.

- Máxime disse que vai ser bem difícil encontrar um culpado. Já descartamos os alunos do 7° ano, por que todos estavam na quadra conversando com ela. Mas não podemos descartar mais ninguém. Alguém de outra casa pode ter conseguido a senha da Sapientai. E se for mesmo da Sapientai, pode ser de qualquer ano, homem ou mulher. Se os dormitórios ainda não aceitassem homens...

Bernard me interrompeu com um beijo. De um momento para outro, eu estava deitada na cama dele, e ele do meu lado/em cima de mim, me fechando e me beijando. Ameaçou escorregar uma das mãos para minha cintura, e com a mesma velocidade que ele me rendeu, eu consegui me livrar. Levantei recuperando o fôlego.

- Já está na hora de voltar para o castelo, Bê. – disse firme.
- Ainda temos bastante tempo. – ele insistiu me puxando novamente, dessa vez para cima dele. Escapei.
- Não. Melhor eu voltar agora. Você vai me levar?

Ele me encarou um momento, mas sendo vencido, levantou-se.

- Tudo bem. Você quem sabe.

Desaparatamos alguns minutos depois no portão de Beauxbatons. Pelo som que vinha de dentro do castelo, o baile tradicional ainda estava acontecendo. Paramos.

- Não quer entrar? Ainda deve ter algumas tortas de sobremesa. – perguntei, mas ele não respondeu. Estava me olhando de uma maneira interrogativa.
- Qual é o problema?
- Problema?
- De nós dois. Já estamos juntos há mais de um ano, Bel. Nós nunca... você sabe. Qual o problema? É comigo?

A conversa que eu sempre evitava, agora estava jogada entre nós. Não tinha para onde correr.

- Não há problema nenhum. Eu só não sei se estou pronta, ainda.
- Depois de mais de um ano eu ainda não te convenci que eu realmente gosto de você? Bel, eu te amo. Acredite, eu nunca disse isso pra ninguém! – ele falou sério segurando minha mão e eu senti todo o meu corpo amolecer.
- Eu preciso entrar.
- Eu acabo de te dizer que te amo e você diz que precisa entrar? – ele se afastou incrédulo.
- Desculpa. Eu preciso de um tempo. – entrei no castelo. Comecei a caminhar me afastando do portão, mas sabia que ele ainda estava lá, me observando.
- Vou esperar o tempo que você achar necessário, então. – gritou. Parei de andar. Virei para encará-lo, mas antes que conseguisse, ouvi um estalo. Desapareceu. Encarei a estrada deserta um bom tempo me sentindo adormecida.

°°°
As semanas seguintes correram pacatas. Entre aulas e deveres, os alunos do 7° ano agora tinham uma nova “preocupação” na cabeça: a viagem de formatura. Não demorou muito e ela nos alcançou.

Na véspera do dia 7 de março, Máxime despachou todas as nossas bagagens e distribuiu os horários que cada chave de portal sairia. Não se falava de mais nada.
Na manhã da viagem, desci para tomar café da manhã com Brenda e Anne. Isa e Dora não demoraram a se juntar a nós, ambas vestidas com grandes botas de couro e roupas camufladas.

- Para que tudo isso? – perguntei analisando-as.
- Oras. Estamos indo para um lugar cheio de matas, desertos, safáris e sabe-se lá o quê mais. Temos de nos vestir adequadamente, não é? – Isa respondeu com simplicidade. Anne riu e Brenda concordou com ela. Não respondi.
- Se estão dizendo... Que hora vocês vão?
- Dentro de 1 hora, 23 minutos e 46 segundos, exatamente. – Dora consultou o relógio de pulso. – Brendan e os outros meninos do time da Fidei vão conosco. Eles também estão camuflados. – ela completou empolgada apontando para outros cinco ou seis garotos na mesa da Fidei com as mesmas roupas das duas. Eu e Anne trocamos um olhar mudo.
- Que gracinha. Todos em perfeita harmonia. – Ironizei e Anne caiu na risada. Isa sorriu.
- E vocês? Quando saem? – ela perguntou sem responder à provocação.
- Em 25 minutos. – Brenda respondeu empolgadíssima.

Tomamos café com tranqüilidade e nos despedimos das duas “Indiana Jones”, que foram se unir aos outros bonecos da coleção. Seguimos diretamente para a sala de Madame Máxime, que já nos aguardava com um velho guarda-chuva em cima da mesa. Todo o grupo se reuniu para ela dar as instruções.

- Quando chegarem lá, professora Emily vai ampará-los até o hotel. Esperem lá até segunda ordem. Quando finalmente todos os estudantes chegarem em segurança, vocês receberão um roteiro completo com todas as atividades. Entendido?

Concordamos e ela pediu que nos aproximássemos. Toquei um dedo no objeto e esperei até que todos se acomodassem ao redor dele. Anne estava do meu lado, e Brenda do lado dela. Ulisses Bonaccorsso surgiu do meu outro lado, sorrindo. Não correspondi.

- 3... 2... 1...

Aquela velha sensação de ser puxada abruptamente para trás. Um rodopio de cores. Meu dedo grudado no guarda-chuva. A mão de Ulisses grudada na minha. Alguns segundos depois, um baque. As pernas cederam um pouco, mas logo me recuperei. Olhei ao redor. Estávamos em um grande espaço deserto e um sol muito quente acima de nós. Senti algo apertando minha mão. Ulisses segurava ela com muita força e olhava ao redor encantado.

- Será que dá para soltar da minha mão? – perguntei com raiva puxando com violência. Ele sorriu.
- Desculpa Bella. Não percebi que ainda estávamos de mãos dadas. – ele respondeu animado. Fechei a cara. – Essa viagem promete ser ótima, não acha?
- Se você manter uma distância considerável de mim, sim, vai ser ótima.

Me afastei até Anne e Brenda que andavam pelo local observando tudo. Um minuto depois, Emily apareceu seguida por Sir-Shaft. Sorriam.

- Mais um grupo chegou. Ocorreu tudo bem?! Ótimo. Venham, vamos para o nosso hotel.

Emily disse empolgada e os seguimos. Seriam longos e quentes quinze dias na África do Sul.

Wednesday, March 05, 2008

Everybody's looking for that something
One thing that makes it all complete
You find it in the strangest places
Places you never knew it could be

Passei as festas de final de ano na casa de Jaeda e sua família. Eles eram muito hospitaleiros e nos trataram muito bem. Meu pai havia conseguido o divórcio de minha mãe, e até cogitou em mudar-se para ficar perto dos filhos, mas eu o demovi desta idéia, após fazê-lo entender que abandonar seu projeto de produtos orgânicos, que caminhava muito bem, não faria com que eu me sentisse melhor. Muito pelo contrário, isso poderia fazer minha mãe vir atrás de nós e descobrir sobre meu filho com o Ty. Meus irmãos haviam se adaptado bem aos costumes americanos e feito amigos aqui.
Após o beijo de Brian, procurei trata-lo como um amigo deve ser tratado, mas volta e meia o surpreendia me olhando sério. Mas esta expressão logo mudava quando ele encontrava alguma de suas namoradas ou quando Charlene estava perto de nós. No dia dos namorados a escola fez um baile e ele me convidou para ir, mas aleguei estar cansada, e querer descansar. Não sentia nada disso, mas não queria que ele fosse motivo de riso por parte de seus colegas, por chegar a um baile acompanhado de uma garota grávida de um filho que não era dele.
Não, não era isso... Seus amigos não ririam dele, meu receio era se após o baile, ele quisesse me beijar novamente, e eu começasse a vê-lo com outros olhos.

You'll find it in the deepest friendship
The kind you cherish all your life
And when you know how much that means
You've found that special thing
You're flying without wings

Os dias no Texas passavam rápido, e logo minha barriga chegava primeiro a todos os lugares, gerando comentários engraçados de meus irmãos, Jaeda e Brian. Nestes últimos meses, eu estava mais pesada a cada dia que passava e sentia uma fome absurda. Mas o pior era que à noite, eu me pagava pensando no Ty e rascunhava cartas contando-lhe sobre nosso filho, que no final viravam bolas de papel que eu aprendi a atirar com perfeição nos cestos de lixo, quando minha coragem fraquejava. Comecei a fazer um álbum com fotos nos vários estágios de minha gravidez, e em algumas páginas eu colocava fotos e recortes sobre o Ty, durante os jogos inter-escolares recebendo suas medalhas e em algumas ocasiões com seus amigos. Colei também presentes que havia ganhado dele, como flores, papéis de bombom que dividimos, e até mesmo um pássaro de origami que ele aprendeu a fazer com Miyako. Claro que ele tinha uma asa um pouco torta, mas Ty ficara tão orgulhoso de pelo menos não haver amassado tudo e ter conseguido enfeitiça-lo para que voasse até mim, que guardei com carinho. Outra coisa que guardei foi um mapa estelar que fizemos juntos numa noite em que nos encontramos na torre de astronomia de Beauxbatons. Ali desenhamos as constelações que enxergávamos e falávamos sobre suas lendas, e também sobre nossos sonhos... Bastava fechar os olhos para reviver aqueles momentos. Acabei adormecendo.

- Ty, está é Cisne...
- Não é Quíron???
- E esta é Cassiopéia certo?
- Aham...
- Nunca que vou por o nome de Cassiopéia em uma de minhas filhas. – ele disse.
- Filhas? Quantas filhas você vai ter? – brinquei e ele me abraçou, dizendo em meu ouvido:
- Nós vamos ter uns 4 filhos. Quero uma família grande.
- Nós? Você acha que eu vou ter 4 bebês? Enlouqueceu... - e ele começou a falar de seus planos.
- Eu vou ser campeão de quadribol da Liga Européia, ganhador do bastão de ouro como melhor batedor... Você pode ganhar alguns Pulitzer’s entre uma gestação e outra.
- Sim, claro. Enquanto esquento a mamadeira posso transcrever uma entrevista com o Ministro da Magia. De repente, ele pode ensinar alguma tática secreta de como chegar ao poder enquanto cozinha um pudim. - rimos e ele continuou:
- Nosso menino pode se chamar... Connor ou talvez Julian... Mamãe sempre quis um outro filho com este nome.
- Somos muito jovens para pensar em filhos, Ty.
- Eu sei, mas a gente pode brincar e sonhar não é? Isso não machuca ninguém...
- Sim, podemos sonhar...

So, impossible as they may seem
You've got to fight for every dream
Cause who's to know which one you let go
Would have made you complete

Acordei assustada segurando o álbum. Quando comecei a levantar senti uma pontada no meio das minhas costas que me fez arfar. Percebi algo molhado nas minhas pernas e vi que a bolsa d’água havia rompido. Respirei fundo para me acalmar e guardei o álbum, não queria que Jaeda soubesse quem era o pai do meu filho. Andei com calma até a minha mesinha de cabeceira e peguei minha varinha. Conjurei um patrono e o enviei até o quarto de minha irmã. Não demorou muito e ela chegava correndo com Jaeda, Lucien e Brian em seu encalço. Enquanto íamos para o hospital, meu irmão tratou de avisar ao meu pai, que a o seu neto estava a caminho.
Após algumas horas em que cheguei a pensar porque as mulheres se deixam convencer a ter filhos de homens insensíveis e egoístas, pois na hora H, eles não estão lá para dividir aquelas dores excruciantes e que se a humanidade fosse justa deveria se extinguir devido a esta arbitrariedade, ouvimos o choro alto e forte, e todas aquelas dores foram esquecidas, eu só queria ver o bebê. A enfermeira o trouxe até mim, enrolado em um lençol e ele tinha a cara inchada e avermelhada, mas juro que era o bebê mais bonito do mundo. Passei a mão sobre o monte de cabelos negros que emolduravam seu rostinho e não tive dúvidas quando entre minhas lágrimas de alegria e alívio, ele abriu os olhos azuis e me fitou, parecendo me reconhecer:
- Bem vindo ao mundo Julian! Eu sou a sua mamãe.

And you're the place my life begins
and you'll be where it ends
I'm flying without wings
And that's the joy you bring
I'm flying without wings

N.Autora: música Flying without wings, Westlife

Thursday, February 21, 2008

Trickster

Lembranças de Seth K. C. Chronos

- Luna...

Luna parou enquanto caminhava pelos corredores do quarto andar, mergulhada em pensamentos e na leitura de um exemplar de O Pasquim, já um pouco tarde da noite. Algo na atmosfera havia mudado... Ela parecia poder sentir que o ar estava diferente, mais denso, como se modificado. Ela continuou andando absorta na matéria da revista, esquecendo-se completamente daquela sensação assim que esta se completou em sua mente.

- Luna!

Ela conhecia aquela voz, mas a voz parecia tão distante... Pensou ter visto uma silhueta nas sombras, alguém que ela conhecia muito bem para se confundir.

- Luna, onde você está?!

Novamente aquela voz que ela reconhecia: Seth. Ela olhou em volta, procurando a fonte da voz de seu amado, mas não havia criatura alguma naquele corredor capaz de falar como um humano. A voz parecia agora mais perto, mas ao mesmo tempo mais sofrida. Parecia que ele estava sendo torturado, enquanto tentava se comunicar com ela.

- Arg! Luna me responde, por favor!

- Seth? – Luna finalmente respondeu, segurando o pingente que os dois possuíam com força. Seus olhos brilhavam enquanto ela se concentrava.

- Sim, sou eu, minha querida. Eu fui capturado e torturado, mas consegui escapar. Argh!

Ela prendeu a respiração quando ouviu o grito mental de dor dele. Ele estava sofrendo tanto, mas ela rapidamente se recompôs. Precisava seguir aquela voz. Precisava ir atrás de seu amado. Ela pensou ter visto o rosto dele nas sombras, e quase pulou de susto. O rosto que ela tanto admirava estava cheio de cicatrizes, mas com a mesma velocidade com que surgiu, o rosto desapareceu. Luna ficou apreensiva e correu para o local onde o rosto aparecera, mas não havia nada. A voz chamou seu nome novamente, e dessa vez parecia vir das escadas, como se estivesse descendo as escadas. Luna correu atrás da voz que implorava por ela, chamando seu nome. Os poucos alunos que a viam correndo sequer questionavam a atitude estranha enquanto ela corria e saltitava pela escola, com o que parecia uma mistura de sorriso com dor no rosto. Era só mais uma maluquice da Di-Lua, eles imaginavam, enquanto a ignoravam e continuavam em seus afazeres.

- Luna, na floresta. Ali estarei seguro.

- Estou indo, Seth. Não se preocupe.

- Depressa, por favor!

Ela passou correndo pelas grandes portas do Salão Principal e rumou para a floresta. As luzes do castelo iluminavam o caminho, e ela podia jurar que via um jovem correndo entre as sombras, tropeçando e fraco. Imagens de um corpo totalmente machucado e ensangüentado surgiam na mistura de luz e trevas e de acordo com que se aproximava da floresta, ela via poças de sangue no chão iluminado pela lua.

Ela passou rapidamente pela casa de Hagrid, sem se preocupar em ser vista, apenas querendo achar seu querido Kam. A voz a guiava para a floresta, e depois que ela adentrou por entre as árvores, a voz saiu da trilha, seguindo por caminhos pouco conhecidos pelos alunos. Luna andava mais lentamente agora, seguindo a voz com atenção, olhando cada centímetro de sombra, procurando por Seth. Seus passos agora estavam mais firmes, enquanto ela olhava ao redor, parecendo estar em um sonho. Ela finalmente chegou a uma clareira na floresta, e entrou no amplo espaço aberto enquanto a lua brilhava acima dela.

- Luna, venha aqui. Preciso de sua ajuda... - ela ouviu a voz de Seth vindo das sombras, convidando-a a se aproximar mais da beirada da clareira. Ela, porém ficou parada e das sombras viu emergir Seth. Ele estava machucado e ensangüentado, cheio de hematomas e cicatrizes, com perfurações no abdômen e nos braços. - Luna, meu amor, preciso de você. - Ele tentou se aproximar lentamente, mas ela ergueu a varinha rapidamente e a apontou para ele.
- O que está fazendo? - ele pergunta, e Luna viu o rosto marcado por surpresa e tristeza por ela apontar uma arma contra ele.
- Acha mesmo que eu não reconheceria o meu Kam? – ela falou, com um sorriso leve, enquanto parava de olhar ao redor e encarava aquele a sua frente.
- Do que você está falando? Sou eu! Sou o Seth. Não está vendo com seus próprios olhos que sou eu? Por favor, preciso de você. – Ele novamente avançou, mas ela manteve a varinha apontada para o coração dele.
- Não, você não é ele. Ele é especial, diferente de qualquer outro, e nunca uma ilusão me faria confundi-lo, Hellion, ele me avisou de você. E eu o reconheceria mesmo em uma multidão. Você não passa de uma cópia malfeita do verdadeiro Kam.
- Hellion? Do que você está falando Luna? - Ele tentou se aproximar, mas ela falou rapidamente "expectro patronum", a lebre cor de prata saltou de sua varinha, indo em seguida contra Seth, empurrando-o para trás.
- Quer prova maior? Eu e Kam temos o mesmo patrono, o meu patrono ficaria feliz em vê-lo e não o atacaria. Mostre-se, Hellion.

Ele ficou chocado, mas sorriu e gargalhou. Ele subestimou o ar indiferente, calmo e sonhador dela, e ela havia descoberto sua ilusão. Ele resolveu se mostrar, mas não sem antes tentar brincar mais com a mente dela. Fez o corpo de Seth que ele usava desaparecer no ar, como que queimado pelo sol e pela tristeza, mas ela continuou olhando para o ponto onde estariam os olhos de Hellion, sem mexer um músculo.

- Eu saberia se algo acontecesse a ele. Um vampiro como você não entenderia o amor.
- E de que adianta me reconhecer, garota? Eu a trouxe até aqui. A atrai para fora da escola, para poder vingar-me dos Chronos em você. Ficarei feliz em levar um pedaço de você para o seu querido Kam. - Ele teve que recuar quando uma bola de fogo saiu da varinha dela, atingindo o lugar onde estavam antes os pés dele.
- Não deixo chamarem, meu Kam assim. E você ainda não entendeu? Eu que o atrai até aqui, eu que o confundi.
- Não me faça rir garota! Você enganar um vampiro?! - ele gargalhou, tentando se aproximar, mas a lebre avançou e ele recuou - Não me faça de idiota! Chega disso, você está sozinha.
- Ela nunca está sozinha, Hellion.

O verdadeiro Seth surgiu das sombras, seu olhar com uma fúria como Hellion vira apenas em Alucard. Um olhar gélido e mortal, Hellion sentiu medo ao fitá-los. O verdadeiro Seth trocou um olhar com Luna, e ela relaxou, sorrindo vitoriosa.

- Aqui é um lugar onde Kam poderia aparatar, por isso decidi trazer você até aqui, enquanto avisava a ele. E me diverti bastante conhecendo mais um pouco da natureza de um vampiro completo.

- Quer que eu acredite que uma mera humana me enganou? – Hellion gargalhou, tentando ganhar tempo.

- Sim, Hellion, como você diz, uma mera humana o enganou. Ela o atraiu para as minhas presas. – Seth falou com um sorriso nos lábios, mostrando os dentes pontiagudos. Luna sorriu ao ver os olhos vermelhos dele e baixou a varinha enquanto se sentava no chão, acariciando a lebre aos seus pés. Hellion ficou chocado com a mudança e teve medo de ser uma armadilha, mas ela continuava apenas acariciando a lebre, como se conversasse com ela.

- Esse vampiro se acha muito bom não é, pequena Lebre? Mal sabe ele que notei a ilusão desde a escola. Sim, sim! Ele não sabe que estou acostumado com criaturas tentando me iludir para me atrair para um chá sem açúcar ou para roubar meus sapatos! Tão arrogante que sequer notou que eu que estava confundindo-o. Nem notando as cordas que estou lançando nele.

Quando ela falou, Hellion finalmente viu as cordas que se levantavam do chão para agarrá-lo. Ele se assustou e xingou, saltando de lado, direto para o alcance de Seth, que acertou um soco poderoso na lateral de seu rosto. Hellion voou para o lado e assim que caiu no chão se pôs de pé, sendo atingido por um feitiço vermelho de Luna, ainda sentada. Ela, mesmo sentada, lançava diversos feitiços contra o vampiro. Ela parecia brincar e Hellion sentiu uma raiva enorme, saltando para cima dela. Seth o agarrou no ar, e segurando pela gola da camisa o jogou contra o chão. Seth aproveitou o momento e baixou o braço esquerdo com rapidez de uma lâmina e perfurou o ombro de Hellion. Mas Hellion o chutou para se livrar, e com as garras agarrou o pescoço de Seth, apertando enquanto gargalhava.

A lebre aos pés de Luna saltou para cima de Hellion, enquanto a própria Luna se colocava de pé com uma velocidade surpreendente, e com um brilho nos olhos que contrastava com suas ações anteriores. Ela lançou uma série de feitiços de fogo, cortantes e estuporantes, enquanto falava uma frase, entrecortada por feitiços:

- Como – Ousa – Atacar – O – Kam?

A seqüência de feitiços pegou Hellion desprevenido, acertando-o em cheio na barriga. Ele foi obrigado a soltar Seth, e este se recuperou rapidamente, tendo derrubando Hellion mais uma vez ao chão. Luna conjurou cordas novamente que prenderam os pulsos de Hellion. Seth conjurou duas estacas no ar e cravou nas palmas das mãos de Hellion, causando um grito de dor do vampiro.

- Então, Hellion, que acha de ser derrotado por duas “crianças”? – Seth falou com alegria evidente, cara a cara com Hellion.

- Seu idiota, acha que me derrotou?! – Ele gargalhou e seu corpo se desfez em uma nuvem de morcegos que escapou do que o prendia e alçou vôo rapidamente, indo na direção de Luna.

Os morcegos começaram a tentar morde-la, mas das sombras da floresta, uma matilha de lobos surgiu, abocanhando no ar os morcegos, sem deixar um escapar. Um deles se tornou Hellion novamente, ensangüentado e com o braço preso entre as mandíbulas de um dos lobos. Ele olhou com raiva e com medo seus antigos servos agora sob o comando de um de seus maiores inimigos, e virou soltando um guincho de fúria para Seth. Mas seu guincho tornou-se um guincho de medo quando a figura diante dele se tornava uma nuvem de morcegos, apenas com um brilho vermelho nos olhos.

- Obrigado por me ensinar um truque novo, Hellion.

Seth sorriu e a nuvem desfez o formato humano e atacou Hellion, mordendo-o por todo o corpo. Gritando, ele conseguiu se transformar em um bando de ratos e escapou entre os dentes do lobo, escondendo-se em buracos na terra e pela floresta. Seth assumiu forma humana novamente e se preparou para ir atrás dele com seus lobos, quando Luna segurou sua mão.

- Deixe-o ir, Kam. Já devem estar preocupados conosco não acha? Adeus Sr. Vampiro, até a próxima! – Luna acenava para a floresta com uma das mãos, enquanto com o outro braço ficava abraçada a Seth.

- Por que está se despedindo dele? – Seth perguntou, até ele se surpreendendo.

- Ah, foi divertido. Finalmente vi um vampiro adulto completo! Papai vai adorar! Vamos voltar ao castelo? Você passa a noite aqui hoje? Ai podemos escrever logo um depoimento do ocorrido para papai! Ele vai adorar. Que acha de “Enganando um vampiro”?

- Que tal: “Luna Trickster da Língua-Mágica”? Eu vou passar a noite aqui então. Só preciso avisar na escola. E tem lugar para mim?

- Tem sim, a Corvinal é grande, e você é bem vindo! Você vai dormir no dormitório comigo!

- Luna! Tem uma diferença em eu dormir no seu quarto e eu dormir num dormitório cheio de garotas! Vou dormir no máximo no salão comunal, se não vou para a Grifinória mesmo.

- Vamos logo, Kam. – Ela começou a puxar o braço do namorado, quase como se esquecesse o que ele tinha dito e que ambos estavam cheios de arranhões, apesar de que os de Seth estivessem se fechando e a única marca da luta era a roupa manchada. – Ainda dá tempo até de comermos alguns doces no jantar!

- Tudo bem, vamos então. Eu terei que falar com a Professora Minerva logo, ela precisa ser avisada da invasão e os aurores também. Ainda bem que eu lhe dei aquele pingente e eu havia avisado a você de Hellion.

- Não teria sido necessário. Eu o reconheceria de qualquer forma mesmo. E aquele Hellion é péssimo em hipnoses! Ele tem que treinar mais!

Seth balançou a cabeça com ternura enquanto sorria. Ele a puxou para um abraço e os dois se beijaram, esquecendo-se que estavam na floresta. Só se tocaram onde estavam quando Hagrid apareceu armado com seu arco e flecha e viu ao ouvir os barulhos da briga.

N.A.: “Língua Mágica” inspirado em A Bússola de Ouro, de Phillip Pullman, da Série Fronteiras do Universo. Mais do que isso seria spoiler. E tenho que confessar que o título do texto veio da música de abertura de Death Note...

Saturday, February 16, 2008

Cartas e Amarguras

“Mi,

Deu tudo certo no Kansas! Conseguimos entrar e sair do castelo sem sermos pegos, e de quebra, pegamos o corvo e zoamos os meninos do time.

Como andam as coisas por aí? Qualquer coisa me chama no espelho.
Mande abraços ao Seth e Griffon.

Saudades,
Gabriel Storm Lupin.”

~*~

“Biel,

Fico feliz que tenha dado tudo certo. Você está se saindo um aventureiro rebelde de primeira classe, hein? Assim me sinto até ofendida. Será que fui tão bom exemplo pra você? *sorriso maroto*

Já decidiram o que vão fazer com o bicho? Faça o que quiser, MAS NÃO EMPALHE! Os gêmeos também mandam abraços. As coisas por aqui parecem um pouco mais... calmas. Na medida do possível. Os nossos NOM’s estão chegando, então, já dá para ter uma idéia.

Se cuida.
Saudades. Beijos,
Miyako Alfabetinho.”

°°°

“Mi,

Sei que poderia te alertar pelo espelho, mas acho que não iria conseguir transparecer toda a calma que a situação exige. Hellion me abordou, junto com Reno Kollontai, no vilarejo logo depois de Durmstrang. Foi muita sorte termos conseguido escapar. Antes de entrar em pânico: EU ESTOU MUITO BEM, OK? INTEIRO! 20 dedos, dois braços, duas pernas, e o meu estômago continua daquele mesmo tamanho. A cabeça também continua no mesmo lugar, pelo menos, fisicamente falando.

Sei também que Seth, Griffon e você já estão CARECAS de saber que ele está cercando. Só te peço para tomar cuidado.
Ele quer atingir os gêmeos pegando os amigos deles. E você está na lista, com toda a certeza.

Abre os olhos.
Se precisar de mim, dá um berro!
Espero que os ânimos dos gêmeos já estejam mais pacíficos...
Qualquer novidade, escreva.

Um abraço saudoso de estralar as costelas,
T.J.McGregor.”

~*~

TYRONE JOHN MCGREGOR,

Será que você ainda não aprendeu que tenho um coração muito fraco para uma descarga tão grande de emoção?

Conta que foi abordado por um vampiro homicida e que escapou por pura sorte, como se estivesse contando a história dos três porquinhos! Não faça mais isso! Espero realmente que você esteja inteiro, e não me escondendo mais alguma coisa para me poupar!

Quanto ao Hellion cercando... Bom, Seth e Griffon me falam isso 50 vezes a cada cinco minutos, então, não se preocupe. Não vou dar uma de salvadora do universo e sair sozinha por aí, caçando dentuços. Está tudo sob controle (ou espero que esteja).

Seth e Griff fizeram as pazes, mas ainda estão um pouco secos um com o outro. Com o tempo eles superam.
Qualquer novidade, conte pelo espelho mesmo. Não me mande cartas com esse teor de explosivos, ou posso não sobreviver na próxima.

Beijos com marcas de batom na bochecha,
M.V.H.K.S.”

°°°

“Miyako,

Será que você consegue uma vaga em Beauxbatons para mim? Prometo me esforçar ao máximo para pegar todas aquelas matérias que ainda não vi, mas sinto que se ficar em Durmstrang mais alguns meses, vou acabar surtando!
Não está entendendo o porquê de tamanho desespero, não é? Te explico tudo em uma única frase: Lavínia e Victor terminaram.

Pensei que seria mais uma daquelas brigas idiotas e que em menos de 24 horas os dois acabariam se acertando. Mas dessa vez é diferente. Eles travaram uma verdadeira guerra de egos e orgulhos!

Lavínia não assume que gosta do Victor, muito menos que também errou. Victor, por sua vez, está disposto a fazer ela assumir isso. Está se utilizando das piores armas, mas ela não vai se render tão cedo...
E eu? No meio do fogo cruzado, como sempre. Não estou do lado de nenhum dos dois, e nem posso estar, é claro. Mas isso já está me deixando louco.

Fale com Madame Máxime. Posso dormir muito bem em qualquer canto da cozinha...
Espero que esteja tudo bem por aí.

Abraços,
Ricard S. Dragash.”

~*~

Ricard,

Primeiramente, se acalma!

Aliás, eu nem tenho muitas coisas para dizer, uma vez que você já sabe o que eu acho de tudo isso: Lavínia não passa de uma egoísta/egocêntrica. Victor faz bem em não se render às vontades infantis dela. Quem sabe assim ela não aprende a dar mais valor nas pessoas que realmente se importam, não é?
Entendo que sua situação é muito difícil, e que por mais que diga que não, você vai sempre defender o ponto de vista dos dois. O melhor a se fazer é: cortar eles quando começarem com esse assunto. Diz que você não quer se meter e pronto. É briga entre eles, eles que se entendam.

Mas, se quiser realmente vir para Beauxbatons, será muito bem recebido. Com certeza Madame Máxime improvisa uma cama de armar para você em algum canto da despensa.

Por aqui está tudo... indo. Da melhor maneira possível.
Me mantenha informada do seu estado mental.

Beijos,
Miyako V.H.K. Santai.”

°°°

Miyako Vanderheid Hakuna Kinoshita Santai,

Você por um acaso esqueceu que tem MÃE? Se eu não te escrevo, você não me escreve também. Não quer nem saber se minha gravidez está indo bem, se estou com algum problema, se continuo viva... Muita desconsideração da sua parte!

Como você não me pergunta nada, vou responder assim mesmo: vou indo bem. Já fiz os primeiros exames (nenhuma ultra-sonografia), e por enquanto, está tudo estável.
Já estão rolando algumas apostas sobre o sexo da criança, mas prefiro não me precipitar. Estou morrendo de medo dessa barriga crescendo, crescendo. De certa maneira, sou mãe de primeira viagem. Isso me assusta um pouco.

Como estão as aulas? E os exames? Tudo bem por aí?
Se arrumar um tempinho na sua longa agenda de compromissos, responda.

Beijos, saudade,
Yulli Vanderheid Hakuna Kinoshita (MAMÃE).”

~*~

“Mamãe,

Não te escrevi ESSA SEMANA, então, vamos parar com a dramatização. E por favor, não chore. Sei que grávidas ficam sensíveis, mas você está demais. Vai acabar matando meu irmão/irmã desidratado (a).

Às vezes você se comporta como se você fosse a filha... Mas, vamos lá: será que dá para respirar fundo e ter calma?

Que sua barriga vai crescer, crescer e crescer cada vez mais, é fato. Você não vai escapar disso. Acostume-se.

Quando menos perceber, já está voltando para suas formas de origem, com um bebê para cuidar!
Não precisa ter medo. Pode até ser sua primeira gravidez, mas foi você quem me criou, não foi? Então, se essa criança for tão educada e inteligente quanto a sua primogênita, não há o que temer!

Por aqui está tudo bem. Os exames são no fim do semestre, mas já estão me sufocando um pouco...
Mande lembranças para Sergei, Tias Alex, Louise, Sam, Yhara e tios Ben, Scott, Yuri e Yoshi.

Beijos,
Miyako Vander... (filhinha que te ama).”

°°°

“Miyako,

Vou ser breve e direto ao assunto: acho que sua mãe está arrependida de ter se casado comigo e de estar grávida de um filho meu.

Não sei mais o que fazer para agradá-la e tentar amenizar a situação. Ela anda chorando muito, por qualquer coisa.
Será que essa criança vai nascer achando que não é bem-vinda?

Às vezes acho que seria melhor para a Yulli (e para a criança), se eu simplesmente voltasse a morar no meu apartamento em Paris, até isso acabar. Você pode me indicar uma luz?
Não vou pedir ajuda à Louise e Alex, uma vez que as duas também estão grávidas. Não quero deixar uma legião de grávidas deprimidas e desiludidas comigo. Uma já está me custando muito caro.

Sinto saudades da sua presença nessa casa. Pelo menos você tem um gênio mais forte... Eu que pensei que era o “durão”, estou perdido.
Responda quando puder.

Atenciosamente,
Sergei Menken (o marido/pseudo-pai sem direção).”

~*~

Sergei!

Pelas barbas de Merlin! Não me decepcione! Minha mãe está te deixando maluco, é isso.

Você sabe que se tem uma coisa certa que ela fez na vida, essa coisa foi aceitar que você é o homem da vida dela e se casar. E a gravidez é ótima. Mamãe só está um pouco assustada com a idéia de carregar um bebê dentro dela, mas com certeza não está arrependida de nada!

Continue firme. Você será um ótimo pai, como é padrasto. Esquece o apartamento de Paris. Seu lugar é aí.
Se mamãe chorar muito, deixa. Uma hora as lágrimas simplesmente acabam.
Ela ia chorar muito mais se você fosse embora!

Aprendi a ser durona parte com o Ty, parte com você. Então recupera esse seu estado de total descrença e mostre a que veio.

Carinhosamente,
Miyako.”

°°°
A menina esfregou os olhos parecendo exausta. Quando Hilla sumiu com a última carta no bico, ela caiu deitada na cama.

As últimas semanas foram bem difíceis. A Nox garantira a segunda posição no Campeonato de Quadribol, perdendo somente para a Fidei, que estava 50 pontos na frente. O próximo jogo seria contra a Lux, e o clima de provocação entre as duas casas já começava a pesar.
Ela não se importava com nada daquilo. Muito pelo contrário, se divertia. Mas sua rotina já estava começando a cansar. Assim como seus problemas.

Além de tudo, ainda tinha que agüentar aquele ar de romance solto por todos os cantos do castelo. Querubins, cupidos, elfos entregando cartas de amor, fazendo serenatas. Balões vermelhos, corações, casais apaixonados.
Se perguntava quando é que iria encontrar alguém que realmente valesse a pena e já começava a se incomodar em sempre estar sozinha...

- Pare de se preocupar com isso, Miyako. Você já tem problemas o suficiente para querer um namorado. No mais, sua mãe mesmo diz que "você ainda é tão nova para isso". E o que Sergei iria dizer se te visse agora? Sendo tão firme?! – ela perguntou para si mesma e sorriu amargurada. O dia dos namorados sempre a deixava deprimida.

Monday, January 21, 2008

- A família Bonaccorso é uma das mais tradicionais famílias bruxas da Grécia. Sua trisavó, Leda, foi quem teve a primeira idéia de escrever e organizar um Grimoire, a partir dos feitiços e maldições herdados pelas gerações milenares da família. Ela era muito amiga de Phoebe Damulakis, que se ofereceu para ajudar no projeto. Quando o Grimoire estava pronto, no entanto, Phoebe alterou a memória de Leda e se apossou do livro, registrando suas prenuncias e manuscritos como pertencentes da família Damulakis.

Uma senhora de idade bastante avançada falava com a voz fraca para um jovem. Os olhos dele eram de um verde penetrante e determinado, como os dela. O jovem escutava cada palavra com muita atenção.

- Vovó – ele a interrompeu com a testa franzida. – Como sabe que Phoebe alterou a memória de Leda? Como sabe que o Grimoire é mesmo da nossa família?

Helena analisou o neto cuidadosamente e por uns segundos não disse nada. Então, com poucos movimentos, estendeu a mão para a gaveta de sua mesa de cabeceira e de dentro puxou um caderno gasto. As páginas de pergaminho lutavam contra o desgaste natural.

- Sei disso tudo, pois esse é o diário de Leda. Phoebe nunca soube da existência dele, por isso o plano tem falha. Leda confessa nessas páginas, alguns meses antes de começar a escrever o Grimoire, seu desejo de preservar as heranças de nossa família em um livro, que seria passado de geração por geração. Conta da proposta de ajuda que Phoebe ofereceu, e relata todos os passos do livro durante a produção. Dois dias antes de morrer, no entanto, o feitiço de memória termina, e Leda confessou à minha mãe que foi traída por Phoebe. Desde então, a promessa de recuperar o Grimoire para nossa família persiste.

O menino se calou, assim como sua avó. Ele via várias imagens passando por sua cabeça como em um flash.

- Então isso quer dizer que... – ele começou pesando cada palavra. Suspirou.
- Isso quer dizer que você vai para Beauxbatons. As duas trisnetas gêmeas de Phoebe Damulakis estudam lá, mas para o seu alívio você só terá que se preocupar com uma delas: Anabel. Não me pergunte como eu sei de tudo isso. Não interessa. Anabel está com o Grimoire agora, e admito que tenha uma boa base de leitura rúnica... O suficiente para desvendar a maior parte dos segredos. Ela ainda não percebeu, porém, que em algumas páginas a escrita rúnica se torna arcaica, e, portanto, difícil de ser traduzida. Enquanto ela não descobrir isso, estamos bem. O que você deve fazer é se aproximar dela, como amigo, e tomar o Grimoire de volta. Então, lance um feitiço da memória e apague o livro da cabeça dela e da irmã gêmea, Isabel. Essa não oferece nenhum tipo de resistência.
- Como a senhora pode saber se... – Ele começou um pouco inquieto e desconfiado da segurança que sua avó transmitia sobre duas garotas que nem conhecera. Ela o interrompeu com um olhar.
- Confie em mim. O que você já sabe, é mais do que o suficiente para cumprir sua missão. Mais do que isso se torna perigoso para todos nós. Apenas confie.

Sua voz foi serena e definitiva, e Ulisses Bonaccorso percebeu que a conversa estava encerrada, assim como seu destino, determinado.

°°°
- Está ouvindo o que estou dizendo, Bonaccorso? – Anabel Damulakis perguntou impaciente ao terminar de ler o parágrafo sobre as inscrições rúnicas e perceber que Ulisses a encarava e sorria de uma maneira tola e distante.
- Claro que estou ouvindo, Bella. – ele respondeu ainda sorrindo, e o sangue da menina ferveu.
- Já-pedi-para-me-chamar-SOMENTE-de-Anabel!!! Aliás, deveria ser somente Damulakis, mas já percebi que seu cérebro é pouco desenvolvido para tais educações. – ela disse ríspida e fechou o livro grotescamente. Alguns estudantes nas mesas ao redor se sobressaltaram com o barulho, mas a menina não os deu atenção, lançando o livro dentro da mochila. – Acho que você já recebeu aulas suficientes para acompanhar as matérias com todos os outros.
- Do que você está falando? – o sorriso sumiu do rosto de Ulisses. – Claro que ainda não estou preparado!
- Pois eu digo que você está sim. Já até me trouxe uma flor nesta aula. Quem está com o pescoço na corda da forca não se lembra de agradar os outros, ok? Estamos a seis meses do NIEM’s, e eu estou com pouquíssimo tempo para estudar. Nossas aulas já deram o que tinham de dar. – ela disse seca, jogando a mochila sobre os ombros. – Se quiser tirar uma dúvida ou outra, pode me procurar. Caso contrário, converse com os professores, psicólogos, ou... desista!

Foi saindo da biblioteca e o garoto juntou rapidamente suas coisas, correndo em seu encalço.

- Então é isso. Você determina que eu já estou bem instruído, e sai da biblioteca sem dizer nada? Nem um “boa sorte, Ulisses”, ou “foi bom te ensinar alguma coisa, Bonaccorso, mas você já me encheu a paciência”? Que espécie de professora particular é você?

A garota parou de caminhar e se virou com violência para o menino, que parou também, de frente para ela.

- Primeiro: Não sou sua professora particular. Nunca quis ser. Nem tenho didática ou paciência para isso. Segundo: Eu não determinei nada. Apenas constatei, visto que suas duas últimas aulas foram usadas para ficar me olhando e sorrindo para mim. Terceiro: Desde quando tenho que te desejar alguma coisa?

O garoto sorriu. Alguma coisa no jeito grosso e mal-educado daquela menina o atraía como nenhuma outra tinha feito, até então... O que começou como parte de um plano de vingança de sua família, agora se misturava a um sentimento novo que ele ainda não aprendera a lidar.

- Ok. Você está coberta de razão. Não é minha professora. Não me deve satisfações e explicações, muito menos desejos. Mas uma coisa é certa: não consigo parar de te olhar. Você deve ter me hipnotizado. Será que sairia comigo qualquer dia desses?
- Você está falando sério? – a menina perguntou assustada. Ele se aproximou um passo.
- É claro que estou falando sério. Quer sair comigo, Bella? – ele agora estava bem na frente dela, e abaixou seu rosto um pouco. A garota foi mais rápida. Sua mão estalou com força no rosto dele, enquanto ela se afastava vermelha de raiva.
- Eu tenho namorado, Bonaccorso. E mesmo que não tivesse, você não faz meu tipo. Portanto, fique longe de mim! Não te dei nenhuma liberdade. E DE UMA VEZ POR TODAS: PARA DE ME CHAMAR DE ‘BELLA’!

Saiu pisando forte, enquanto Ulisses alisava o rosto ardendo e sorria. Não iria desistir tão fácil.

°°°
- Como estamos indo? – o rosto da senhora estava mais fraco e pálido a cada dia, e Ulisses se assustou ao vê-lo refletido no espelho. Seus olhos, porém, ainda mantinham aquele antigo brilho.
- Não quero fazer isso, vovó. – disse quando finalmente tomou coragem. Sua avó sorriu ironicamente.
- Você se apaixonou por ela, não foi?
- Não! Não me apaixonei. Anabel é legal, só isso...
- É a honra da sua família em jogo, Ulisses. Faça a sua escolha.

°°°
Todos os alunos do sétimo ano estavam reunidos no Campo de Quadribol. Todos, menos um. O salão comunal da Sapientai estava completamente deserto, e o garoto não teve dificuldade alguma de passar despercebido por todos os corredores e chegar ao dormitório que queria. Abriu a porta com suavidade, como se cada movimento custasse um preço alto, e entrou.

‘Lumus’ – ordenou para a varinha, e um brilho ofuscante saiu da sua ponta. – ‘Accio Grimoire’ – tornou a ordenar, e não precisou esperar muito. Ali perto, debaixo de uma cama, um pesado livro saiu voando pelo ar em direção à sua mão. Ele o agarrou com força.

- Sinto muito, Bella.

Foram suas últimas palavras para o quarto vazio, antes de apagar a varinha e sair silenciosamente. A primeira parte do plano estava concluída, e ele ainda não queria pensar em como seria a segunda. Não por um tempo.

Friday, January 18, 2008

– É preciso que saibam que a partir de agora as coisas vão piorar muito para quem realmente está levando a sério. Por que para quem não está levando a sério, vai continuar da mesma maneira: “empurrando com a barriga”. Então, sugiro que quem ainda não começou a pensar no seu próprio futuro, abandone as minhas aulas por livre e espontânea vontade. - Professor Grangier disse seco na frente da sala, que adquiriu um ar pesado repentinamente.

Todos os estudantes se entreolharam receosos, mas ninguém ousou se levantar. As aulas de Beauxbatons haviam voltado com força total, e principalmente para os alunos do 7° ano, a formatura parecia um sonho muito distante. Tão distante que ninguém se quer estava se lembrando. O assunto principal agora eram exatamente NIEM’s, carreira, futuro, escolhas e preferências. E antigos grupos se dissolveram para darem lugar à formação de novos. Tinha o grupo dos “aurores”, o grupo dos “medibruxos”, o grupo dos “indecisos”, e até mesmo o grupo dos “não-estou-nem-aí-para-os-NIEM’s”. A tensão pairava no ar.

- Sempre quis ser medibruxa! – Anne disse com um ar sonhador ao meu lado.
- E eu sempre quis ser auror. – Bel disse séria e por um breve momento eu vi Rebecca sentada ali, da nossa idade, se preparando para formar e entrar na Academia. Sorri.
- “O orgulho da mamãe”. – disse tentando provocá-la, mas ela meramente me lançou um olhar turvo e continuou suas anotações.
- Eu já pensei em ser várias coisas. Jogadora de quadribol, escritora de livros de mitologia grega, criadora de animais fantásticos (quem sabe até dragões!). Mas agora estou invocada na idéia de ser jornalista mesmo. Acho que esse é meu destino final. – Brenda disse sacudindo os ombros e rimos.
- Eu vou ser advogada bruxa. Trabalhar no Ministério da Magia, participar da Suprema Corte, e todas essas burocracias. – Dora falou apoiando as pernas na carteira, despreocupadamente. – No começo, não pensava nessa idéia. Queria ser somente viajante. Conhecer todos os países do mundo, sem dia e hora para voltar para casa. Uma hora você percebe que a vida não é tão simples assim...

Ficamos em silêncio medindo o peso da frase dela. Enquanto éramos estudantes, tudo parecia bastante simples. Mas agora, faltando apenas 6 meses para nos formarmos, a realidade crua nos cobria como um véu e pela primeira vez me peguei preocupada. Nunca havia pensado no que queria exatamente ser depois de Beauxbatons! Quer dizer, por influência do papai, sempre gostara muito de Astronomia. Não o suficiente para ser astrônoma, ou trabalhar como professora da matéria, muito menos na NASA e coisas assim. Talvez mantivesse meu telescópio montado no quarto e observaria as estrelas e planetas todas as noites. Somente isso. Adorava jogar quadribol, mas nunca havia passado pela minha cabeça a idéia de continuar jogando profissionalmente. Minha carreira de jornalista não seria levada a sério. Não gosto de botânica, muito menos de zoologia bruxa. Não sei nada sobre mitologia. Nem falar sereiano para poder me tornar intérprete. Não suportaria ver sangue. Não mataria uma formiga, mesmo que ela tivesse 3 metros e grandes dentes afiados.

- Acho que é melhor eu abandonar transfiguração e abrir um grupo dos “eu-me-preocupo-com-o-meu-futuro-mas-não-sei-fazer-nada”. – disse de repente, quando esses pensamentos passaram pela minha cabeça como um furacão. Todos os meus amigos me olharam surpresos.
- Do que está falando, Isa? – Anne perguntou sorrindo enquanto sua doninha se transformava perfeitamente em um peixinho. Observei a metamorfose com atenção e continuei encarando a mesa enquanto respondia.
- Estou dizendo que não posso entrar para o grupo dos que não estão nem aí para os NIEM’s, por que na verdade eu estou muito preocupada com esses exames, sim. Eu realmente penso em um futuro pleno e satisfatório. O problema é que eu deveria parar de me preocupar, por que mesmo que eu saia super bem nos NIEM’s, eu não sei o que quero ser quando me formar. Nada do que eu já tenha visto ou ouvido falar me atrai ou se encaixa no meu perfil. Não há profissão bruxa para mim!

Dora, Bel, Brenda e Anne se entreolharam em silêncio, e depois senti os quatro pares de olhos me encarando. Levantei a cabeça para olhá-las.

- É isso. – Terminei me sentindo derrotada e nenhuma delas desviou o olhar. Bel foi a primeira a falar.
- Se não há profissão bruxa para você, por que não parte para os vários ramos de profissões trouxas? – ela disse com simplicidade, como se estivesse entediada de ter que me aconselhar. Realmente deveria estar. – Não é você mesma que se orgulha do seu... nosso pai? Não vive falando que ele é o trouxa mais fantástico que existe? E é bem sucedido profissionalmente, não é? Veja só os exemplos da Mad e da Manu! Elas se formaram em Beauxbatons, mas agora estão fazendo História da Arte e trabalhando no Louvre! Quebra de expectativas nem sempre significa algo negativo, Isabel.
- Concordo com a Bel. Não é só por que você é bruxa e vai se formar em uma academia bruxa que precisa necessariamente seguir uma profissão bruxa! – Anne disse empolgada e eu me animei. Elas tinham razão.
- Sempre me vi como estilista. Criando meus próprios modelos, tendo minha própria marca. Sendo reconhecida. – disse sonhadora e Dora sorriu me apoiando. Bel girou os olhos.
- Bem... pelo visto você já sabe o que quer fazer depois que se formar. Vai se dar bem nessa área. É a sua cara. – Bel disse sarcástica e eu tratei como um tremendo elogio.
- Então é isso. Vou fazer faculdade de Design de Moda, em Nova York. Se preparem, pois daqui uns anos vocês visitarão minha loja na Champs Élysées, ladies. – disse animada e elas riram.

°°°
- Alunos de sétimo ano, após a aula de Astronomia dirijam-se todos para o Campo de Quadribol. Temos um anúncio a fazer. – A voz de Madame Máxime soou na sala de Astronomia, e a julgar o horário da reunião marcada, esperava no mínimo algo inspirador. Não estava enganada.

Em poucos minutos o sinal da última aula tocou e nos dirigimos para o Campo de Quadribol, nos acomodando nas arquibancadas mais baixas, onde Madame Máxime, e os professores Sir Shaft, Emily, Françoise e Pierre nos esperavam. Quando todos finalmente se sentaram e fizeram silêncio, a diretora pigarreou.

- Não acha que está muito tarde para nos lembrar dos NIEM’s, diretora? – um aluno da Sapientai disse arrancando risadas de todos, até de Máxime e dos professores.
- Não falaria de um assunto tedioso como exames uma hora dessas, Sr. Mahy. Estou aqui, é claro, para falar da formatura de vocês. Mais especificamente, da viagem de formatura.

A agitação foi instantânea, mas antes que perdesse o controle, Máxime levantou o braço e novamente o silêncio.

- Nós, eu e esses quatro professores, nos reunimos diversas vezes para analisarmos um roteiro de viagem que agradasse à escola, ao ministério, aos seus responsáveis e claro... a vocês! Depois de vários destinos estudados, finalmente chegamos a uma conclusão.

Ela fez uma pausa proposital e todos prenderam a respiração, ansiosos. Sorriu.

- Arrumem suas malas, pois vocês serão mandados a uma incrível aventura na África do Sul!

A desordem estava armada. Empolgados, vários alunos se levantaram, soltaram gritos e começaram a fazer planos. Olhei para minhas amigas incrédula. África do Sul me lembrava safáris, e esses me lembravam... leões! Novamente o braço de Madame Máxime foi ao ar, mas dessa vez demorou um ou dois minutos até que o silêncio fosse retomado. Ela estava sorridente.

- Pela pequena demonstração, já vi que aprovaram a idéia e fico muito satisfeita. Um formulário de autorização, assim como o planejamento de viagem, já foi mandado para seus responsáveis. Vocês receberão o planejamento também, é claro. A viagem durará duas semanas, e será em março. Sairão de Beauxbatons no dia 7 e voltarão no dia 21, por chave de portal. Os professores Sir Shaft Zambene e Emily McGregor serão os responsáveis por sua segurança durante todo o tempo. A professora Françoise Defossez, muito educadamente, aceitou meu pedido para acompanhá-los e mantê-los organizados e comportados. – Alguns alunos começaram um protesto, mas um olhar gelado da diretora os fizeram calar. Recomeçou. – E foi o professor Pierre Coussot o grande responsável pela sugestão do país. Já preparou roteiros para todos os tipos de gostos: safáris, praias, esportes radicais e até mesmo compras e cultura local. Garanto que todos aproveitarão.

Novamente a algazarra, mas ninguém interrompeu logo. Me senti muito mais animada com a idéia de ter vários roteiros, e todos ao meu redor pareciam bastante contentes com a escolha. Após vários minutos, Madame Máxime pediu silêncio.

- Viagem decidida, próximo tópico é a festa de formatura. Mas quanto a isso, ainda não há nada decidido. Por isso, pedi que Françoise e Emily ficassem responsáveis para escolherem e liderarem a comissão de formatura. Os alunos que elas indicarem, poderão representar os demais na comissão, frente às professoras. Juntos decidirão tema e demais detalhes da festa. Quem tiver interesse em participar da comissão, deve se inscrever nas salas das duas professoras até a semana que vem. Alguma pergunta?

Ninguém se manifestou e a diretora nos liberou. O caminho de volta ao castelo foi eufórico. Uns falavam da viagem, dos roteiros, e dos planos para lançarem a Françoise como isca para leões e leopardos. Outros trocavam idéias de temas para a festa de formatura.

- No que está pensando, Isa? – Brendan perguntou se emparelhando comigo na caminhada e percebendo meu sorriso no rosto.
- Vou me inscrever para a Comissão.
- Não esperava nada menos de você. E com certeza você entra! Françoise te idolatra! – ele disse parecendo enjoado e ri.
- Que exagero!
- Exagero nada. Vai falar que não é verdade?
- Ela não me idolatra! Só puxa um pouco meu saco, mas por que sou a única aluna que realmente ouve o que ela diz nas aulas. E uma das poucas que continuou na matéria dela, mesmo sem precisar. – Me defendi e ele sacudiu os ombros.
- Como preferir. Já tem alguma idéia para o tema da festa? Escutei alguns interessantes no caminho...
- Já. Vários. Mas não vou falar nada agora. Não antes de estar realmente dentro da comissão.
- Você e seus mistérios. A propósito... – disse consultando o relógio. – Feliz Aniversário! – disse sorridente me puxando para um abraço e o efeito foi colateral. Não deu tempo de entender que já era meu aniversário, pois depois de Brendan, Anne, Brenda, Dora, e os outros meninos do time de quadribol me puxaram para abraços longos e animados. Procurei Bel.
- Viram a Bel? – perguntei finalmente me dando conta da ausência dela. – É aniversário dela também.
- Ela voltou correndo para o castelo. Deve estar com medo de pegarmos ela para um abraço sanduíche! – Anne disse e rimos. Típico da Bel fugir de grandes comemorações onde ela fosse o centro.

Despedi de Brenda e Anne, e acompanhei os outros para o Salão Comunal da Fidei. Mal eu e Dora entramos no dormitório e senti o bolso das vestes esquentar. Alguém estava me chamando no espelho de duas vias. Já o peguei sorrindo, e o rosto de Henrique me encarava do outro lado do vidro.

- Feliz Aniversário! – foi a primeira coisa que ele disse, sorrindo. Senti o coração saltar.
- Obrigada. Pensei que só me chamaria mais tarde...
- Não resisti. Ainda bem que estava acordada. – sorri. – Seu pai e eu mandamos um pacote para você hoje, mas estava um “pouco” grande. Acho que vai demorar uns dias a chegar.
- O que mandaram?
- Acha mesmo que vou estragar nossa surpresa? – ele perguntou levantando a sobrancelha.
- Ok. Eu espero.

Conversamos mais alguns minutos e eu contei sobre a novidade da viagem de formatura e comissão. Nos despedimos e pousei com cuidado o espelho na cabeceira, sorrindo. Dora apareceu na porta do banheiro.

- Henrique? Quer dizer... nem precisa responder. Esse seu sorriso denuncia. – ela disse e rimos.
- Realmente brilhante essa idéia de espelho de duas vias. Você e Sávio que me inspiraram.
- Pelo menos podemos ver os rostos deles, não é? Mais próximo do que cartas.

Abri a boca para responder concordando, mas a porta do quarto foi aberta abruptamente e dei um salto na cama. Bel entrou pálida, parecia nervosa.

- Dora, será que posso falar um minuto com a Isabel, a sós? – ela perguntou seca e Dora olhou de uma para a outra confusa. Sacudi os ombros e ela concordou, saindo do quarto e fechando a porta.
- O que aconteceu?
- Sumiu!
- O quê?
- O Grimoire! Sumiu!
- COMO?
- Se eu soubesse, não teria sumido, Isabel! Hoje mesmo eu estava decifrando algumas páginas. Saí atrasada para a aula de Astronomia e só o joguei embaixo da cama... Então, no campo de quadribol, eu senti uma coisa estranha. Não sei explicar, mas é como se eu estivesse sentindo que alguma coisa ia acontecer com ele, sabe? Tipo uma premonição. Então, assim que Máxime nos liberou, eu corri de volta ao castelo, e quando entrei no dormitório e procurei embaixo da cama, simplesmente havia desaparecido. Claro, eu procurei em todos os lugares (tinha esperança de ter me enganado sobre o lugar onde o havia deixado), mas sumiu! E eu sei, não foi ninguém do sétimo ano! Eu fui a primeira a voltar para o castelo.

Ela parou de falar ofegante e eu não sabia o que dizer. Nunca fora muito preocupada com o livro, mas para a Bel ele não representava somente um livro antigo e interessante, escrito em runas. Era a única herança da família Damulakis, passado por várias gerações. Escondia segredos horríveis e se caísse em mãos erradas, poderia ser usado até mesmo como arma.

- Quem mais sabia do livro?
- Só você e Bernard. Você não disse para mais alguém, disse?
- Claro que não!

Ela se sentou na cama exausta e tensa. Me sentei ao seu lado.

- Você tem que dar queixa à Máxime. Se esse livro foi roubado no seu dormitório, está em Beauxbatons. Foi alguém daqui.
- Vou dar. Só não sei como... – ela falou devagar pesando as conseqüências daquela denúncia. Ficamos em silêncio uns minutos, até ela se levantar e me encarar séria. – Se você souber de alguma coisa, me avisa. – concordei.
- Faça o mesmo. E escreva para Rebecca. Acho que ela gostaria de saber disso. - Ela balançou a cabeça e começou a sair do quarto. – Bel... Feliz aniversário.
- Espero que sim. – disse ainda de costas, com a mão na maçaneta. – Para você também.