Monday, January 09, 2006
Toda ação traz junto uma reação...
Aula de Poções, 10h47min.
ML: O que você tem?
IL: Nada, por quê?
BL: porque não é normal uma pessoa ficar amarela...
IL: Só estou com calor, acho que é essa poção.
AG: Mas nem ta saindo fumaça da sua!
IL: Não me lembro de ter pedido sua opinião!
ML: Não precisa ser estúpido Ian!
Estávamos cozinhando na masmorra do castelo em uma maçante aula de poções. Eu suava frio e apesar de culpar minha poção do sono, tinha certeza que ela não era a responsável. Desde que voltamos do acampamento, não tive noticias de meu pai. Sei que ele recebeu um berrador da professora Milenna, mas não se manifestou. Sim, um berrador! Tem cabimento isso?? Samuel disse que o pai dele ficou uma arara. Mas também não é pra menos, ele é o Ministro da Magia e ministros não deveriam receber berradores. Não sei onde meu pai recebeu o dele, mas onde quer que tenha sido sem duvida foi constrangedor... E é isso que ta me apavorando, porque se conheço bem meu pai, e tenho certeza que conheço, ele deve estar fulo da vida.
Reze suas preces e não conte com ninguém
Veja tudo como se não houvesse amanhã porque
Parece um dia tão normal
Mas em cada esquina você pode vacilar, e então
Vê se se cuida, rapaz
Então, estamos quase quites
DC: Luke vai beber água, você ta suando demais!
BL: É melhor mesmo, antes que comece a desidratar!
IL: Eu to bem... – falei saindo da masmorra afrouxando a gravata.
Era hora do almoço e sentei-me à mesa da Sapientai com Bernard, mas não conseguia comer. Sabe quando a gente ta com aquela sensação de que vai rodar? Pois é, sinto meu fim se aproximando. Marie largou o bolha d’água da mesa da Lux e veio se sentar ao meu lado, parecendo preocupada. Merlin, como esta a minha cara?? Devia estar próxima a expressão de velório pra ela sentar aqui toda carinhosa, depois de passarmos o tempo todo brigando. Contei a eles o que estava me agoniando e tive que aturar sermão da Marie e gargalhada dos meninos. Ta, é bem feito mesmo, quem mandou atear fogo nas barracas? Sai do grande salão direto para o salão comunal e fiquei por lá até a aula de Mitologia no final da tarde. A classe já estava toda acomodada quando entrei e os alunos usavam umas roupas esquisitas.
Se ainda não percebeu isso é uma.
Emboscada, armadilha
Emboscada, armadilha
FR: Ah, que bom que monsieur Lafayette resolveu se juntar a nós, meros mortais... Queira fazer o favor de vestir os trajes da aula e tomar o seu lugar, não vou mandar duas vezes. – disse ríspido e me entregou um troço que mais parecia um vestido.
IL: Tenho que usar isso? Mas por quê??
FR: ISSO se chama toga, eram os trajes dos antigos romanos, que por sinal serão o assunto dessa aula. Portanto vista sua toga, sente-se calado e preste atenção na aula, pois será matéria de NIEMs!
IL: Pra que temos que usar isso? Não bastava copiar a matéria?
ML: Não seja chato Luke, ele só que entrar no clima da Roma antiga.
DC: Sua opinião não conta Marie, todas as garotas dessa escola babam nesse engomadinho...
Dominique soltou um palavrão quando Marie o beliscou e o professor François bateu com o livro em cima do pilar que ele havia construído para decorar sua sala. A turma instantaneamente se calou e ele começou a lecionar. Não o suporto, mas tenho que admitir que essa era a melhor matéria de Beauxbatons! A cada aula dele que termina, tenho vontade de largar o castelo e ir estudar em Heraclion, na Grécia.
Ainda tínhamos um tempo vago até a aula de Astrologia na torra leste, mas subi direto. Precisava de ar fresco e aparentemente só lá em cima eu não me sentiria sufocado. O professor Martin já estava lá, falando sozinho como sempre. Ele ensaiou puxar assunto comigo, mas não deu muita trela. As conversas dele são sempre delirantes demais, tenho medo de me perder em um devaneio e ir parar no manicômio! A turma se juntou a nós dois na torre já perto das 23hs e o doido começou a dissertar sobre os astros. A aula de hoje foi toda voltada pra uma constelação além-plutão, onde me pareceu o melhor lugar pra se estar no momento...
Se cada ação traz junto uma reação
Você sabia que essa hora ia chegar e
Ainda assim se escondeu
E eu, cada vez mais perto, esse jogo é meu
Então é xeque-mate, rapaz
Então, fim de festa pra você
Descia da torre arrastando minha mochila quando paralisei e Bernard trombou comigo derrubando seus livros, olhando intrigado pra mim. Apontei pra frente meio tremulo, mas sem dizer nada: meu pai estava parado na porta do escritório de madame Maxime conversando com ela e parecia irritado. Olhei pros meus amigos e me afastei deles, já prevendo o que viria a seguir. Eles sentaram ao pé da escada receosos e me encaminhei até os dois de cabeça baixa. Meu pai chegou a dar um pulinho quando me viu.
Gerard: Ah, aí esta você! Creio que não precise dizer o que estou fazendo aqui, não é mesmo?
IL: Não senhor...
Gerard: Ótimo! Vá juntar suas coisas, partiremos em exatamente 15 minutos, nem um segundo a mais!
OM: Vá monsieur Lafayette, não se preocupe com o que esquecer aqui, um elfo virá buscar tudo.
Meus amigos saltaram da escada quando passei por balançando a cabeça negativamente e me seguiram até o dormitório, indignados. Juntava minhas coisas triste, sem acreditar que estava indo embora de Beauxbatons. Bernard e Dominique falavam alto algo que soava como abaixo-assinado e protesto na porta da minha casa e Marie chorava sem disfarçar.
ML: Mas como ele vai te tirar da escola? Ele não pode fazer isso, falta menos de dois anos para nos formarmos!
DC: Ele não tem o direito de te forçar a se formar como um trouxa, você é um bruxo puro-sangue!
BL: Deve haver um jeito Luke, não é possível...
IL: Não adianta pessoal, ele já havia me advertido e eu passei dos limites... Mas obrigado pela força e por se preocuparem... Não tenho mais tempo, preciso ir. Dominique, diga ao Samuel o que aconteceu, por favor. Vou escrever pra ele quando chegar à minha casa. Escreverei pra vocês também dando noticias e quero que vocês não esqueçam de mim e contem sempre o que anda acontecendo aqui!
Marie pulou no meu pescoço me abraçando e me perguntei quando teria a chance de dizer a ela o que sinto. Agora não era uma boa hora, justo quando estou indo embora da escola. Abracei os meninos também lamentando profundamente ter incendiado aquele acampamento e desci as escadas do dormitório, dando uma ultima olhada no lugar que foi minha casa por 5 anos e meio antes de me juntar a meu pai e desaparecer dentro da lareira do salão comunal da Sapientai.
Reze suas preces e não conte com ninguém
Veja tudo como se não houvesse amanhã...
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N.A: Trechos da música “Emboscada”, da Pitty
Saturday, January 07, 2006
Vai e Volta...
MK: Acordem! Os dois! Temos que sair depressa ou perderemos metade do dia... Vamos, levantem...
MK: Ha Ha... Levantem logo... O café está esfriando e rosca fria é ruim!
TM: Rosca é? Estou faminto!
GS: Grande novidade essa...
MK: Templo Budista...
TM: Para que?
MK: Oras... Para meditarmos, tentarmos achar nossa paz interior e espiritual!
TM: Ok, já que você insiste... Mas só para constar, eu já estou em total paz com meu interior. O café estava ótimo!
GS: Merlin! Ty, você está com fome de novo?
TM: Ham, são barulhos do meu estômago?
MK: Nunca ouvi barulho nenhum durante uma meditação, Ty...
TM: Podemos almoçar?
GS: Como almoçar? Você comeu seis rosquinhas no café!
TM: Mas mamãe disse que eu estou em fase de crescimento...
MK: Ok, ok, vamos logo almoçar antes que eu seja a responsável pelo nanismo de adolescência dele!
Blein! Blein! Blein!
Virei para trás quando vi Ty sacudindo o sino da porta do templo todo sorridente. Corri com Gabriel até lá arrancando Ty do sino e olhando para o interior do templo ansiosa. As pessoas olharam confusas e sai arrastando os dois pelo caminho acima...
TM: Nunca vi um sino que é feito para enfeite! Hunf... Achei que se tocasse aquele sino eles nos indicariam o restaurante mais próximo!
MK: Mais uma dessas e eu te indico o cemitério mais próximo, ouviu?
GS: Ei, My, o que há? É você ou um alien aí dentro? Você não é nervosa assim! –Gabriel estava rindo tanto que mal conseguia falar.
TM: Sai do alfabetinho ou eu te azaro!
GS: Ty, não podemos fazer magia fora da escola...
TM: Eu sei, mas o alien não sabe! Sai de dentro da alfabetinho ou eu juro...
MK: Parem a palhaçada! Abaixa essa varinha, e alfabetinho é a sua nádega TYRONE!
GS: Ih cara, é a My mesmo... Só ela fala Tyrone com tanta fibra assim!
MK: Acho que ele tem um buraco negro no lugar de estômago...
TM: Já disse, estou em fase de crescimento e faço a digestão rápido. Só isso...
GS: Acho que você nem chega a fazer a digestão Ty!
Quando acordamos hoje, dessa vez sacudidos por mamãe, trocamos de roupas, não mais pelos kimonos, e descemos. Para a grande surpresa de Ty, o padrinho dele, Sergei, estava parado esperando-nos. Ty correu para cumprimentar o padrinho e o carregou até a mesa de café.
Era um homem realmente divertido o padrinho do Ty... Eu e Gabriel descobrimos de onde ele tinha herdado tanto humor. Ele nos disse que tinha ido nos apanhar para acompanhar até o castelo
Terminamos o café e arrumamos as coisas...
YH: Não há de quer! Com sua mãe eu me entendo bem... Mande lembranças a ela! Voltem sempre!
TM: Er... Tia Yulli, desculpe arrombar a sua geladeira de noite ta? Desculpe qualquer coisa...
YH: Foi um prazer ter vocês aqui em casa! Mande lembranças a sua mãe também Tyrone, er, digo, Ty!
YH: Assim espero! Bom semestre pra vocês meninos...
TM: Não sei... Ele é meio lerdo mesmo! Mamãe não escolheu uma pessoa muito adequada para nos acompanhar né?
GS: Será que se perdeu mesmo nas lareiras? Pode ter se perdido na sua casa My...
MK: Pensei que você não tivesse notado os olhares de mamãe com ele!
Friday, January 06, 2006
Já que é pra cozinhar, então vamos cozinhar direito...
IL: Não tem espaço suficiente e o caderno de receitas que o elfo me deu diz claramente: Misture com firmeza... Se um de nós dois pararmos de misturar vai embolar tudo!
Falando na nossa querida mestra Milenna, ela estava mais insuportável que nunca! Passava na frente da tenda com a varinha em pé e uma expressão de grande satisfação e prazer misturada com ódio reprimido... Reprimido sim, porque eu tenho certeza absoluta de que se ela fosse a diretora de Beauxbatons, nós três teríamos sido expulsos e sem mais desculpas e explicações. Entrava dando ordens e criticando tudo que preparávamos para comer e proibira os elfos de ajudarem. Por grande sorte, antes dela proibir isto, Ian conseguiu arrancar de um dos elfos um caderno de receitas... Então, mais uma vez ela entrou na barraca com um sorriso irônico e parou nos olhando...
IL: Ta louco? Acha mesmo que eu vou ficar aqui rodando esse negócio eternamente e agüentar isso de braços cruzados?
AB: Aprendam: Eu nunca levo desaforo pra casa!
SB: Ótimo! Somos três... O que vamos fazer?
IL: Sugiro marshmallows!
SB: Ham? Ian, já estamos fazendo a sopa...
AB: Eu acho que entendi o que ele quis dizer! Vamos fazer uma fogueira!
SB: Ah sim senhora... Ela está bem ralinha, e as cenouras pequenas e cozidas!
AB: Estamos só preparando uma sobremesa!
MD: Sobremesa?
IL: Marshmallows professora! Já viu um acampamento sem marshmallows? Mas não se preocupe, nós cuidaremos de tudo...
Ela saiu com um olhar desconfiado e falando algo baixo consigo mesma. Levantamos as lenhas e logo uma alta e forte fogueira estava queimando... Servimos o jantar para todos e esperamos todos acabarem de comer. O Professor Pierre se levantou dizendo que daria uma saída e foi para o meio da floresta. Ian e Adhara fizeram sinal positivo com a cabeça. Era a hora de fazermos a sobremesa...
IL: Adhara, me desce aquele marshmallow bem completo?
AB: Agora!
SB: Acho que devíamos cortar esse marshmallow... Ele está tão grande!
IL: Ou quem sabe deixá-lo mais aguado?
IL: Quem quer ter o prazer de calar a boca desse marshmallow?
IL: A senhora está completamente enganada professora... Só estávamos fazendo a nossa função: Cozinhando!
SB: Sim! Buscávamos a perfeição que a senhora nos exigiu e estendemos nosso menu para a sobremesa...
MD: Vocês... Me pagam! Eu quase virei cinza e...
AB: Bom, acho que agora aumentou o seu imenso conhecimento em História da Magia não é mesmo? Seria uma honra morrer como as antigas bruxas!
MD: Vamos embora! Já! Nesse momento... Não fico aqui nem mais um minuto! E todos vocês... – Ela disse olhando ao redor como se quisesse memorizar os rostos de cada um que havia colaborado com passinhos de dança para o ritual – Me pagam! Os pais de todos receberão uma advertência explicando o que seus adoráveis filhos fizeram... Vão, logo, arrumem as coisas! Partiremos em 20 minutos! Preciso falar com Madame Máxime ainda hoje... Absurdo!
Senti meu coração revirar... A sensação de que mais uma vez a brincadeira tinha ido longe demais e que papai saberia me castigar o suficiente por ela. Voltamos para o castelo dois dias antes do previsto... Me senti aliviado de voltar à Beauxbatons, mas me fiz uma pergunta: Madame Máxime me permitiria continuar lá depois que soubesse detalhadamente que tentamos assassinar a professora Milenna em mais uma de nossas brincadeiras?
Thursday, January 05, 2006
Ano Novo e os velhos fantasmas de volta!
Nosso fim de ano no lago Moliets foi super animado. O professor Pierre chamou alguns meninos e se embrenhou no mato trazendo um gordo javali para a ceia. Um dos meninos voltou branco como cera, e o professor, deu pra ele tomar um pouco de conhaque. Tive pena do rapaz, porque a primeira vez que se tira a pele de um animal na floresta é assim mesmo; por sorte os elfos é que iriam assá-lo. Ian, Samuel, Dominique e Bernard garantiram o show pirotécnico com fogos trouxas, e foi quase tão bom, quanto se tivessem usado os fogos Filibusteiros. Bem, tinha as brigas entre Adhara e Ian, mas já faziam parte do clima de acampamento, por sorte não havia ossos quebrados, apenas orgulhos feridos e egos super inflados.
Eu havia saído para buscar um pouco de chá para Marienne que havia brigado com Julian logo cedo, e estava desconsolada.
MD-Não quero saber mais dele, Morgan.
MOH-Calma, Marienne, o que foi?
MD-Ele diz, que está cansado de minha indecisão, que não vai ficar me esperando a vida toda.
MOH-Mas vocês, estão namorando não é? - perguntei meio indecisa achando que havia perdido, algum detalhe da conversa. E como diz a Isa, detalhes fazem a diferença!
MD-Estamos... mas ele quer me apresentar pra família, e eu acho que ainda é cedo.
MOH-E que mal há em ser apresentada para a família dele? Mesmo que vocês não se casem, poderão ser amigos não? Espera que já venho. - sai da barraca e fui buscar um chá na cozinha para ela, mas encontrei Julian e ele também resolveu se queixar da irracionalidade de Marienne, me fazendo demorar mais do que gostaria.
Quando retornei nossa barraca estava toda revirada, chamei por Marienne e não obtive resposta, saquei a varinha e fui procurar em volta, ao longe eu podia ver que Adhara, Samuel e Ian estavam numa espécie de duelo, e todos iam saindo da frente dos feitiços. Comecei a entrar mais pela floresta e ouvi o som de alguém pedindo socorro, não distingui direito, mas podia ser minha amiga precisando de ajuda. Avancei mais rápido e fui me embrenhando mais, sabia que não estava sozinha ali, me sentia observada.
Dei de encontro com um vulto encapuzado. E ambos dissemos ao mesmo tempo:
-IMPEDIMENTA
-PROTEGO.
Um escudo se fez em minha frente, rebatendo o feitiço lançado. E para meu horror era um comensal da morte, que riu sardonicamente quando me viu:
-Ora, ora, ora... Uma das garotinhas de Máxime, solta na floresta... Não tem medo do lobo mau?
MOH-Não tenho medo de nada. - tentei fazer com que minha voz soasse corajosa.
E começamos a lançar feitiços um contra o outro, quer dizer, eu mais me defendia que atacava, ele era muito forte, até que ele foi me empurrando mais para dentro da floresta, e pisei em um buraco, que me derrubou no chão, bati a cabeça numa pedra, ficando zonza, dei um grito quando levei um chute e perdi minha varinha:
CM-Bem... Apesar de você ser bonita, devo fazer o que me foi ordenado pelo Lord das Trevas. Matar algum aluno daquela aberração, e mostrar que somente os sangues puros vão herdar este mundo. – eu ainda via pontos pretos em frente aos meus olhos, quando ele gritou:
-Morsmodre. - e a marca negra se projetou no céu.
CM-E agora, eu posso contar com seus gritos de medo? Não gosto de vítimas que não gritam quando eu as machuco. Quero que implore por sua vida.... - e me chutou novamente, e ouvi o som de alguma coisa se partindo.
Comecei a me arrastar enquanto ouvia sua risada insana, e novamente me chutava, o ar já estava me faltando e minha vista embaçava com as lágrimas que caiam contra minha vontade:
MOH-Eu não vou gritar seu porco. Metido a valentão só com mulher não é?
CM-Tsc, tsc... Sua mãe disse a mesma coisa, antes de morrer.
Olhei espantada para ele e ele continuou:
CM-Fui eu sim, garotinha, que matei seu pai e sua mãe. Ou acha que eu não iria reconhecê-la, como filha daquele puxa-saco do velho babão, amante de trouxas?
Então era ele que havia matado meus pais... A maldade realmente fazia parte daquele ser, mantive os olhos abertos, embora a dor fosse enorme, não iria dar-lhe o gosto de fraquejar, quando o vi levantar a varinha, me preparei para morrer.
CM-Avada....
-EXPELLIARMUS!
Duas vozes gritaram de repente, e vi uma sucessão de feixes de luz, passando por cima de mim, percebi que os "mocinhos" chegaram e iriam pegar aquele bandido. A dor que eu sentia ao lado do corpo era tanta que eu só queria fechar os olhos e dormir só um pouquinho. Ainda ouvi um som de alguém correndo, e uma voz grossa dizendo:
-Eu pego ele, fica com ela....
Senti um toque suave me levantando no colo, e a voz mais doce que eu podia desejar ouvir naquele momento:
-Amor, eu tô aqui. Está tudo bem agora. - e lágrimas caíram em meu rosto, fazendo-me abrir os olhos e dar de cara com Carlinhos me carregando com todo o cuidado que a situação permitia:
MOH-Sabia que você ia dar um jeito de me ver, não ia agüentar ficar longe. - fiz uma piadinha e tentei rir mas doía demais.
PC-O que houve aqui? Mon Dieu, Senhorita O’Hara... E você quem é? O que fez com minha aluna? - disse apontando a varinha ameaçadoramente.
CW-Sou o noivo dela, e ela foi atacada por um comensal da morte. Ele fugiu, mas, um auror foi atrás dele.
MOH-É meu noivo, professor. Estou tão cansada....
CW-Fica acordada Morgan, agüenta firme, já estamos chegando. - e logo eu estava na barraca dos professores sendo atendida por Milena, que usava suas ervas em profusão para que eu melhorasse. Devo reconhecer, a bruxa era eficiente.
Quando ficamos sozinhos, Carlinhos enfaixou minhas costelas, pois os ossos foram consertados, mas, a sensação dolorida ainda persistia, demoraria alguns dias para melhorar.
MOH-Carlinhos, o comensal... ele disse que matou os meus pais. - disse aflita.
CW-Eu sei.
MOH-Como que você sabe? Aliás como você soube que eu estava sendo atacada? - fui perguntado e fiz uma careta de dor ao me sentar rápido demais.
CW-Eu e o Quim estávamos perseguindo este Comensal, aqui em Paris. E as pistas nos trouxeram até o lago, pois a ordem recebeu há poucas horas a informação que ele atacaria vocês. Quando ele conjurou a Marca Negra foi só aparatar no local. Graças aos deuses que chegamos a tempo. - e ele virou o rosto, pois seus olhos estavam brilhando.
MOH-O Quim pegou ele?
CW-Não. Acabou perdendo o rastro dele, próximo da cachoeira.
Eu podia começar a brigar com ele por me esconder uma coisa importante destas, mas eu ainda estava dolorida demais, quando ele veio com uma idéia.
CW-Morgan... Você não gostaria de passar esta ultima semana, comigo no Chatêu? Posso pedir para seus professores te liberarem, depois do que houve no acampamento, acho que você precisa de tranqüilidade, uma cama bem confortável e um enfermeiro VIP cuidando de você, dia e noite.
Sorri e sacudi a cabeça concordando. Apesar de adorar a vida ao ar livre, chega uma hora que você quer o bom e velho conforto da cidade, especialmente se você tem dores para respirar.
E nada melhor do que um belo Chateux em Paris, junto com a pessoa que você mais ama no mundo.
Wednesday, January 04, 2006
Welcome to Japan!
Acordei no outro dia com um sorriso de orelha a orelha e me posicionei diante da lareira esperando. Com um estalinho, alguém de cabelos bem vermelhos brotou nas chamas se espanando e olhando ao redor.
GS: Nossa! Finalmente... Acho que a sua é a última das lareiras do sistema de flú!
MK: Ah, eu nem acredito que sua mãe deixou você vir passar essa última semana comigo...
GS: Nem eu! Pra falar a verdade, eu acho que ela me despachou pra não ter que me matar! Estava de castigo por tempo indeterminado depois o Reveillon... Achei que ela me proibiria de vir.
MK: Acho que ela deixou pela minha insistência também... Fiz mamãe ligar todos os dias para a sua pedindo que você viesse! A mãe do Ty não foi tão difícil como a sua...
Ouvimos um barulho das chamas novamente e lá estava Ty sacudindo a capa e arrumando os cabelos. Ele saiu da lareira nos sorrindo satisfeito.
TM: Como estão? Nossa alfabetinho, que casa legal! Estranho... Quando saí de casa estava de noite, o céu cheio de estrelinhas, e olha lá, mal amanheceu no Japão! Esse negócio do fuso horário é bem interessante...
MK: Vamos logo! Temos muitos lugares pra ir hoje...
Os meninos deixaram as malas no quarto de hóspedes e saímos de casa. O sol tinha acabado de nascer quando chegamos ao centro da cidade... Passávamos pelas lojas e eles faziam comentários dos lugares. Quando passamos em frente de uma loja de kimonos, Ty parou diante a vitrine e um sorriso se estampou. Sem que falasse mais qualquer coisa, nos arrastou pra dentro da loja e olhava as prateleiras...
MK: Er... Ty, pra que você quer kimonos?
TM: Oras, estamos no Japão não é mesmo? Temos que nos vestir adequadamente... Olha só você de kimono! Não quero andar com você e todo mundo me olhando e tendo a certeza de que sou um turista... Anda Gabriel, escolhe um pra você! Já escolhi o meu.
GS: Ah, não, obrigado! Não nego minhas origens... Sou turista, andarei como um!
Ty deu de ombros e saiu todo animado pra dentro do provador. Quando saiu vestindo um kimono que mais parecia roupa de cigano e se achando o máximo com aquilo, Gabriel entrou na onda e pegou um pra ele também... Quando os dois estavam devidamente vestidos, Ty escolheu um kimono de seda pra mãe dele e tentou fazer mímicas para a vendedora, querendo que ela embrulhasse. Depois de ter que falar com a ela e finalmente sairmos da loja totalmente caracterizados, pegamos um metrô até a saída de Tokyo e descemos... Levei-os por uma estrada e a temperatura estava abaixando a cada passo...
TM: Ok, já fiz meus exercícios diários! Podemos voltar?
GS: Ótima idéia!
MK: Ei, calma... Já estamos chegando... Pronto! Olhem pra cima!
Estávamos ao pé do Mont Fuji. A neve havia coberto todo o topo, e no caminho tinham seis marcas de pés que pareciam marcha. Os meninos olharam pra cima chocados... Fizemos guerra de bola de neve e depois, quando já estávamos totalmente molhados, voltamos para Tokyo...
GS: Aonde vamos agora?
MK: Tokyo Tower... Vamos subir até o topo dela! De lá vocês terão uma visão completa da cidade!
TM: Ótimo, tudo que meu pé precisa é de mais escada...
Andamos, andamos, andamos e chegamos aos pés da torre. Pegamos o elevador até o topo e subimos. A vista lá de cima era incomparável... Dava pra enxergar no chão minúsculos pontinhos andando e a linha escura do metrô contornando rapidamente a cidade. Quando chegamos à conclusão de que estávamos com fome, digo, quando Ty nos convenceu de que estava com fome, segui pelo centro da cidade procurando um restaurante... As ruas agora estavam movimentadas e o sol forte. Entramos em um restaurante quase vazio e os levei ao fundo.
TM: Ué, roubaram as mesas do restaurante?
MK: Almoçamos no chão Ty... Senta aí nessa almofada!
Ele e Gabriel sentaram e pegaram os cardápios olhando chocados...
GS: Isso mais parece um caderno de desenhos do que um cardápio! O que são esse monte de desenhos?
MK: Não são desenhos... É o nosso alfabeto!
GS: Ah, agora me ficou claro... Esse aqui parece uma pata! Quer dizer que um dos pratos é pato assado?
TM: Blergh... Não tem McDonald’s?
MK: Tem, mas do outro lado da cidade! Quer caminhar até lá?
TM: Hum... Fico com o pato, agradecido!
MK: Aqui não tem pato! Só comidas japonesas... O que querem? Sushi? Sashimi? Yakisoba?
GS: Dá pra parar de me xingar?
MK: Vou querer sushi... Arroz e peixe enroladinhos como panquecas! O Yakisoba é um macarrão com muitos tipos de verduras e o Sashimi é peixe...
GS: Nada de peixes! Fico com o macarrão vegetariano...
TM: Dois!
Chamei o garçom e fiz o pedido... Ty não demorou muito e viu os dois palitinhos de madeira em cima do vidro. Desenrolou do guardanapo e mostrou pra Gabriel que pegou um da mão dele e eles começaram a duelar com os palitos como espadas...
TM: Legal! Enquanto esperamos a comida podemos começar o treinamento para Samurais...
GS: Isso que eu chamo de valorizar a cultura nacional!
Fiz força pra não rir da cara de bobos deles, mas vendo que o restaurante todo observava os dois e a brincadeira, arranquei os palitos das mãos...
MK: Dá pra vocês dois ficarem quietos um segundo? Isso aqui não é nenhuma espada Ty, é o seu talher, e se você quebrar eu não me responsabilizo!
TM: Você está me dizendo que eu vou ter que equilibrar o macarrão com esses dois palitos?
MK: Sim, é exatamente isso que eu estou te dizendo! A não ser que você queira comer com as mãos, encoste os palitos aí e espere quieto!
Os dois ficaram quietos e calados até o garçom chegar com os pratos... Gabriel pegou os dois palitos e tentou pegar um fio de macarrão que deslizou... Seguiu a tentativa umas cinco vezes e já olhava irritado pro prato. Ty já tinha derramado muitos pedaços de cenoura ao redor e parecia estar se desesperando pelo desperdício da comida. Parei de comer e mostrei aos dois como deveriam segurar e pegar... Eles não aprenderam muito bem, mas desenvolveram uma técnica e conseguiram enrolar o macarrão...
TM: Hum, até que é bom...
GS: Sim... É melhor que o macarrão do tio Scott!
MK: Querem provar Sushi?
TM: Pode ser!
GS: Porque não?
Molhei um rolinho de Sushi no molho e dei a Gabriel... Ele fez cara de quem comeu e não gostou e empurrou pra dentro com dificuldade. Dei um ao Ty e ele fez uma cara ainda pior... Pensei que cuspiria o negócio da boca a qualquer momento, mas com muita relutância ele conseguiu engolir.
TY: Eca, é peixe cru! Esqueceram de cozinhar... Quer um isqueiro Mi?
MK: É peixe cru mesmo, e é uma delícia!
Tuesday, January 03, 2006
No limite da insanidade
Desde que havíamos pisado naquele lago, não havia tido trégua. Quando não éramos Samuel e eu aprontando algo, era Adhara revidando nossas brincadeiras. Já havíamos ido de roubo de roupas a alagamento de barracas, quando a coisa toda atingiu um outro nível.
Estava com Samuel em cima de uma arvore perto do lago, esperando elas aparecerem para atirarmos uma colméia pesada e gorda pra cima delas, quando o galho onde estávamos começou a balançar. Olhamos pra baixo segurando a colméia e vimos Adhara e Bel sacudindo a arvore com os pés, rindo. O galho tremeu violentamente e se partiu, nos derrubando dentro do lago. Só deu tempo de soltar a colméia, que caiu no chão e estourou, liberando dezenas de abelhas. Saímos do lago revoltamos ao mesmo tempo em que as abelhas também revoltadas começaram a nos perseguir. As meninas correram na frente, Samuel e eu encharcados correndo atrás delas e os quatro correndo das abelhas.
Saímos batidos mata afora atrás delas cortando os galhos baixos e esmagando os secos caídos no chão, as varinhas em punho. Alcançamos à clareira onde estávamos acampados e Adhara agarrou Bernard pela gola, que estava passando na hora. Parei de súbito e Samuel esbarrou em mim, as pessoas em volta já paravam de fazer suas coisas e olhavam prendendo a respiração.
AB: Larga a varinha garoto, ou azaro seu amigo.
IL: Larga ele, o Bernard não tem nada com a nossa guerra!
SS: Golpe baixo, mexer com quem ta quieto!
AB: Azara ele Bel! – Adhara atirou Bernard pra cima de Bel, mas a garota recuou.
BM: Mas ele não fez nada Adhara...
SS: Expelliarmos!
Samuel aproveitou a deixa e desarmou Bel. Automaticamente Adhara lançou um feitiço qualquer e voei pra cima das barracas, destruindo uma delas. Bernard aproveitou a distração e correu para dentro da mata, se juntando aos olhares curiosos e tensos dos demais alunos. Levantei do chão furioso, a varinha já apontada pra ela.
- Rictusempra! – berrei e Adhara voou longe também
Samuel tinha a varinha apontada para Bel, que estava desarmada. Um jato laranja acertou meu amigo no peito e ele caiu rolando na grama, possibilitando Bel de correr. Adhara já estava de pé outra vez e o duelo começou. Só havia sobrado nós três ali, todos os outros se esconderam e assistiam soltando exclamações. Jatos de diferentes cores riscavam o ar, cortando os galhos e o que surgiam na frente. Nós desviávamos dos feitiços e lançávamos o primeiro que vinha a cabeça, sem pensar no efeito. O estoque já estava acabando quando nós três pensamos a mesma coisa e berramos:
- INCENDIO!
Três bolas de fogo saltaram das nossas varinhas e acertaram em cheio as barracas quando nos jogamos no chão para desviar delas. Aconteceu tudo tão depressa que não tivemos tempo de pensar em uma maneira de reverter a situação. O fogo foi se alastrou e em questão de segundos 50% das tendas já estavam em chamas. Os alunos que assistiam calados agora gritavam por socorro, pois nós três estavam cercados pelo fogaréu, sem ter por onde sair. Eu olhava horrorizado para os lados e tudo que passava pela minha cabeça eram meu pai e a ficha de inscrição na escola trouxa de Marseille. Quando parecia que não tinha como as coisas piorarem, a marca negra foi projetada no céu e o pânico acabou de se instalar. Adhara, Samuel e eu tínhamos as varinhas erguidas e olhos atentos, como se esperássemos que o comensal que projetou ela aparatasse ali no meio a qualquer instante.
Quase todas as barracas já haviam virado pó quando duas figuras aparataram no meio da clareira, nos fazendo gritar “Impedimenta” ao mesmo tempo. As figuras se jogaram no chão em defesa e ao levantarem pudemos ver que se tratavam dos professores Pierre e Milenna. Nunca vi o professor Pierre tão zangado... Ele olhava a tudo com uma expressão de incredulidade estampada na cara, seguido pela professora Milenna, que murmurava indignada. Com dois simples acenos de varinha todo o fogo desapareceu. Ele em seguida correu pra mata, seguindo a marca negra que ainda brilhava no céu e nos deixou nas mãos de Milenna.
Ela nos rebocou ate a tenda onde as fadas e os elfos estavam instalados e onde também funcionava a cozinha. Fomos atirados lá e ela nos deu esfregões e baldes, dizendo que teríamos que limpar a sujeira que fizemos. Depois disso, podíamos assumir o lugar dos elfos, pois a partir daquele momento até o fim do acampamento, a comida era por nossa conta.
Oh que perigo isso! Será que ela não pensou que podemos envenenar a gororoba que vamos cozinhar? É... Talvez seja mesmo melhor considerar o veneno, pois ela saiu marchando da cozinha gritando com o elfo que precisava de três berradores...
Sunday, January 01, 2006
Água que passarinho não bebe...é tão boa!
Ai, minha cabeça... Porque tudo tem que girar deste jeito? Porque o Sol tem que brilhar assim? E este gosto na boca de coisa rançosa e estragada? Você deve estar se perguntando o que aconteceu para eu estar deste jeito. Como não estou podendo com luz do Sol neste momento, eu vou contar.
Tudo começou no Natal, e a casa estava cheia de gente, pois alguns primos dos meus pais vieram junto com os filhos, e entre estes primos tinha algumas garotas mais velhas. Não muito velhas, mas têm quase 19 anos...
São adultas... Independentes... E aí o Riven, resolveu "se achar". Claro, que elas olhavam para ele com ares de "dá um pirulito pra ele senão ele chora".
Eu, o Declan, o Alastair e o David ficávamos zoando ele demais, quando ele vinha com o rabinho entre as pernas, porque alguma delas o esnobava. Eu ainda estava com raiva dele por quebrar minha vassoura, mas depois da troca de presentes, em que ele ganhou um conjunto de poções da vovó, e ela ainda o lembrava que como ele não jogava, enquanto ela me dava uma Firebolt, novinha, último tipo..... Precisava ver a cara dele, quase chorou de ódio.
Como tinha muita gente em casa, papai, tio Sergei e os primos coroas ficavam inventando coisas, tipo quadribol, caça ao tesouro, jogos de tabuleiro, e o legal é que muitos pais ficavam brincando com a gente, e numa destas brincadeiras eu fiz amizade com as primas mais velhas Sabrina e Helena, pois Miyako me ensinou um pouco sobre alguns programas trouxas que são os animês japoneses e elas adoravam isto. Riven não gostou, e ficou esperando uma oportunidade de puxar meu tapete.
Pois bem.... Esta oportunidade chegou... E foi ontem na virada do ano que tudo aconteceu.
Estava eu descendo as escadas, terminando de arrumar o meu kilt, quando o Riven veio todo prosa.
RM-E ai Ty, vai deixar de bancar o bebezão e beijar alguma das meninas? Oh, acho que o bebê da mamãe nunca beijou uma mulher de verdade não é?
TM-Riven você é tão infantil... Já beijei uma garota sim. - eu tava tranquilão, não estava a fim de briga no último dia do ano.
RM-Infantil é você que nem bebe como um homem.
Aí era demais. Ele tava merecendo uns socos.
TM-Como assim? Eu bebo cerveja e vinho igual a você.
RM-É, mas não bebe daquela garrafa do seu padrinho.
KM-Aquilo é vodka, e nunca tive vontade de experimentar.
RM-Nunca teve peito de experimentar aquilo. Tem medo que mamãezinha fique brava.
TM-Riven você está confundindo as mães aqui. Tia Patrícia é que ficou fazendo escândalo, quando você, tomou wisky de fogo no Natal.
RM-Mas você não beberia daquilo...
TM-Bebo sim, e hoje vou tomar vodka.
RM-Duvido. - notei o brilho de vitória em teus olhos, mas não me deixei cair fácil.
TM-Pois não duvide, e você vai tomar também. - e vi um olhar assustado nele. Aquilo me divertiu.
TM-Vamos fazer assim: vamos tomar toda a vodka que cair em nossas mãos, para ver quem agüenta mais.
RM-Sim, e se você perder vai ficar na sua, não vai ficar de papinho com a Helena e nem com a Sabrina.
TM-E se eu ganhar. Você me paga 5 galeões. - selamos nosso pacto com um aperto de mão e lá fomos nós.
A festa corria solta, havia todo tipo de comidas e bebidas, as mulheres usavam roupas claras e alguns homens optaram por roupas de suas origens, por isso havia muitos homens de kilt no salão. Meu padrinho Sergei usava uma calça negra, com um casacão vermelho e botões dourados, na cabeça uma espécie de gorro de pele de urso negro. Tudo ia bem, ate que me aproximei da balde onde havia uma garrafa de vodka e servi dois copos.
KM-Vai tomar vodka Ty? - meu pai perguntou.
TM-Sim papai, eu e o Riven vamos tomar vodka. Tudo bem? – perguntei meio incerto.
RM-Eu avisei pra ele, que ele era criancinha demais, tio.
Se o Riven, achou que com isso, meu pai fosse dizer não, ele se enganou.
KM-Claro, pode beber. - e vi quando meu pai piscou para meu padrinho.
Bem, o primeiro copo desceu queimando, o segundo me encheu os olhos d'agua, no terceiro, eu comecei a sentir calor, no quarto comecei a ouvir a música que estava tocando e aí...
Bem... Eu não lembro muita coisa, só o que minha mãe me contou, e foi o seguinte:
Depois de uns 10 copos de vodka, eu comecei a ouvir uma musica russa, e vi meu padrinho dançando. Riven já estava ficando verde, mas como eu estava "ligadão" não se deu por vencido e continuou a beber e me empurrar mais. E eu ia bebendo.
Numa certa hora eu pulei pro meio da roda do meu padrinho e comecei a dançar com ele daquele jeito russo, e abaixa, levanta, dá cambalhota, e pula, e vodka pra dentro, e mais uma e pula, e grita... Minha mãe disse que eu tava o cossaco encarnado ali, pois as palmas estavam me incentivando e aí eu puxei o Riven pra dançar também. Na primeira cambalhota, ele saiu correndo verde, com náuseas terríveis, segundo papai. Quase não chegou ao banheiro. E eu continuei bebendo, dançando, pulando, gritando, dando cambalhotas e a coisa evoluiu de tal forma que eu quis tirar a roupa. Só não tirei, porque o mundo saiu dos eixos e eu caí desmaiado.
Hoje ao acordar e descer para o café da manhã, mamãe me empurrou duas aspirinas e um enorme copo d’agua, mas não está brava; Riven, além da ressaca está de castigo, pois na pressa de correr ao banheiro, ele acabou vomitando em tia Patrícia, que estava sentada no banheiro naquele momento.
Sabrina e Helena, me cumprimentaram com beijos estalados na bochecha, olhando-me de cima a baixo e dizendo que eu prometo...
Fiquei sem entender o que elas queriam dizer com isso, mas papai já avisou que quando minha dor de cabeça passar, ele me explica o motivo do meu sucesso com as primas.... Meu padrinho nesta hora saiu dando gargalhadas da cozinha. Ai céus, o que elas viram??O.O.
Mas o saldo até que foi positivo, pois o Riven, teve que vir ao meu quarto de óculos escuros, e meio esverdeado pagar os cinco galeões da aposta, mas saiu correndo quando ofereci para ele um pouco dos ovos mexidos com bacon, que vovó fez pra mim.
Deixa eu tomar mais duas aspirinas e apagar a luz do mundo, pra ver se minha cabeça pára de girar em cima do pescoço.
O ano termina... e começa outra vez
Depois da noite do Natal, passei quatro dias trancada em meu quarto. Johann ficou preocupado no início, mas eu disse a ele que estava apenas um pouco indisposta... provavelmente seria efeito das coisas que me fizeram beber durante o retiro. Eu precisava ficar sozinha, mas ao mesmo tempo, precisava ocupar minha mente. Queria esquecer a visão do amor, a descoberta, o desejo, a fúria, a desilusão. Nunca desejei tanto ser uma pedra de gelo solta no oceano. Pedras de gelo não sentem, não sofrem. Não se descobrem apaixonadas por suas irmãs pedras. São apenas pedras. E são felizes em sua forma física em seu destino de admirar eternamente o vai e vem das ondas e dos animais marinhos. Ah, se eu pudesse me transformar em um iceberg...
Perdono... si quel che ¨¨ fatto ¨¨ fatto io per¨° chiedo
Scusa... regalami un sorriso io ti porgo una
Rosa... su questa amicizia nuova pace si
Posa... perch¨¦ so come sono infatti chiedo...
Perdono... si quel che ¨¨ fatto ¨¨ fatto io per¨° chiedo
Scusa... regalami un sorriso io ti porgo una
Rosa... su questa amicizia nuova pace si
Posa... PERDONO
Li meu livro de runas da escola três vezes, e quando eu fecho os olhos só vejo símbolos na minha frente. Pelo menos é melhor que ver os olhos de Johann brilhando com fervor fixos aos meus. Passei duas noites em claro observando as estrelas, e desenhei o mapa astral da Isa com todos os detalhes para 1997.
Puisque de nous deux
Il ne reste qu'un secret
Je te demande peux-tu me rendre la clef
De ma raison de vivre que t'as emport¨¦e
Je n'ai que mon d¨¦sir en guise d'amiti¨¦
Je n'ai que mon cœur d'homme pour pouvoir t'aimer
Ta douce folie je ne peux l'apaiser
J'irais sans un bruit analyser tes pens¨¦es
M¨¦me si je t'ai fait mal peux-tu me pardonner
Kalinka também esteve em meu quarto, para conversarmos. E eu repeti a história da indisposição, provavelmente estaria sentindo a diferença da temperatura. No norte da França, onde fica Beauxbatons, é muito mais frio. Me senti péssima por mentir para a minha melhor amiga, mas não podia revelar o meu segredo.
Dire que je me suis tromp¨¦ sonne faux
Dire que je ne peux me passer de ta peau
Le myst¨¨re pose sur moi de ton souffle l¨¦ger
Ton corps si chaud ou si froid abandonn¨¦
Sont toujours pr¨¨s de moit pour me parler
De ta façon d'¨¨tre toi qui me touchait
Et tous tes "je ne sais pas" et de tous tes doutes
Ont fini ¨¤ jamais de tracer ma route
Na tarde do dia 31 de dezembro, Ellyat retornou ao acampamento. Pablo, como sempre fofoqueiro, avisou ao nosso irmão que eu estava com a aura baixíssima, quase negativa, e que tudo ao meu redor estava tornando-se sombrio. Preocupado, ele largou todos os seus afazeres e foi me ver. Ellyat demonstrou-se tão carinhoso e dedicado à mim que tive certeza que sua presença me transmitia paz e segurança. Ele então me convidou para ir a Paris, assistir ao espetáculo do Reveillon. Uma vez que o povo cigano não comemora esta data, já que o nosso ano novo acontece em outra época, não havia problemas. E seria bom me distrair. Afinal, companhia melhor eu não iria arranjar.
Pas ¨¤ pas tu t'¨¦loignes de moi
Mais tu m'a laiss¨¦ ton ego
pas a pas tu marches vers d'autres bras
Pour me pardonner s'il le faut
De toi ¨¤ moi une vie ne sufit pas
Pour l'amour a z¨¦ro d¨¦fauts
Moi sans toi je n'existerais pas
Car tu m'a aim¨¦ tellement trop
Fui obrigada a admitir: o Reveillon de Paris era simplesmente fascinante. Muitas luzes, música dança, o festa!! Participamos da contagem regressiva, assistimos ao show de fogos de artifício, brindamos e desejamos um ao outro “Feliz Ano Novo”. Hora de recomeçar, de fazer planos para o futuro. Que planos e que futuro me aguardam, eu sinceramente não sei. O destino resolveu me pregar peças, e eu não vou lutar contra ele. Apenas terei que encontrar formas de sair de suas armadilhas sem me machucar.
Pardonne je sais bien que tu sais que le temps n'attends pas
Pourquoi de mon sang de mes veines je vais toujours vers toi
Dis-moi comment fais-tu pour vivre le cœur dans le brouillard
Sans toi mes mots sont obsol¨¨tes ne sonnent plus dans le noit
É, apesar de tudo... que Abraim ilumine os nossos passos. E faça deste ano, um ano feliz!
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N.A.: A música citada chama-se Perdono, de Tiziano Ferro. Caso alguém se interessar, a tradução da música pode ser encontrada aqui.
Saturday, December 31, 2005
3...2...1... FOGO!
Da caderneta velha de Samuel Berbenott
SB: Amarra isso firme Ian! Não está me parecendo muito confiável essa fita!
IL: Relaxa Samuel... Quando acendermos esse pavio, todos vão explodir juntos!
O dia estava claro já e ouvíamos as vozes de estudantes empolgados fora da barraca que faziam planos para o próximo ano e sorriam deliberadamente. Os professores haviam saído cedo para arrumar os preparativos da virada de ano que seria na beira do rio. Eles haviam preparado muitos tipos de comidas e bebidas, e o clima de animação contagiava todo o acampamento.
Eu e Ian estávamos camuflados na barraca amarrando um grupo de fogos de artifício juntos. É claro que a nossa virada de ano não passaria em liso não é? Não é só porque estamos no meio do nada (como diz a Isa) que não podemos ter nosso show pirotécnico.
Estávamos tão concentrados em amarrar corretamente os bastões que nem vimos quando Dominique e Bernard entraram na barraca...
DC: Nossa! O que estão fazendo aqui? As garotas hoje estão bem “sociáveis” por assim dizer... A noite vai render! O que é isso?
BL: Ah não, vocês não estão pensando em soltar esses fogos não é mesmo? Vocês sabem soltar isso? E se não forem iguais aos Filibusteiros?
SB: Bernard, nós não estamos pensando... Nós vamos soltar esses fogos! E são todos iguais... Basta acender o pavio e tomar distância!
IL: Querem ajudar? Tem uns ali que ainda precisam ser amarrados, se nos fazem esse favor...
BL: Não, eu fico com a minha leitura! Agradeço a chance...
DC: Ah Bernard, alivia... Vamos alegrar um pouco! Imagina a felicidade de todo mundo com os fogos? São esses para amarrar não é Ian?
Não se passaram nem dois minutos e Bernard se convenceu de que não adiantaria protestar e argumentar e ajudou Dominique a amarrar o restante dos fogos. Deixamos tudo pronto para lançar e saímos para aproveitar o restante do dia...
A expectativa aumentou quando o sol se pôs e todos foram se arrumar. A maioria dos alunos já tinha se dirigido para a beira do rio, para onde os professores os conduziam. Quando não escutávamos mais passos de ninguém e nem conversas, saímos da barraca carregando a caixa de fogos, cada um segurando uma das pontas e andando o mais silenciosamente possível.
Depositamos a caixa atrás de um grupo de árvores, nas proximidades de onde todos estavam... Marie e Antoine que estavam por ali, nos viram saindo de trás das árvores e nos olhando desconfiados se aproximaram...
ML: O que vocês estão aprontando?
IL: Nós? Nada...
ML: Ian, conheço muito bem essa sua cara e ela não me convenceu nada!
IL: Bom, então permaneça com a sua desconfiança!
AG: O que esconderam atrás das árvores?
SB: Nada que seja do interesse de alguém por enquanto... Logo saberão!
ML: Ah, então tem coisa! Espero que não seja mais uma daquelas brincadeiras delinqüentes de vocês senão...
DC: Senão?
ML: Vamos Antoine, vamos deixá-los aí...
Marie se virou de mãos dadas com Antoine e seguiu para onde o resto dos estudantes se encontravam festejando. Ian os encarava com um olhar mortífero e Bernard os olhava sensatamente e sem comentar nada. Fomos até a aglomeração e nos sentamos na areia enquanto bebíamos quentões...
Dominique que até então estava conosco, levantou-se e foi até um grupo de garotas do sexto ano que conversavam animadas. Logo o vimos com uma das meninas em um canto mais afastado conversando.
Ficamos ali papeando e rindo até quando faltavam aproximadamente 10 minutos para a virada do ano, e então, fazendo sinal para Dominique, nos dirigimos novamente até as árvores afastadas... O show ia começar!
Porém, ao chegarmos ao lugar onde a caixa deveria estar pousada não havia nada... Procuramos ao redor e não a encontramos... Quando já estávamos a ponto de amaldiçoar o infeliz que a tinha recolhido, novamente Marie e Antoine surgem com sorrisos de satisfação estampados nos rostos.
ML: Ah, vocês vão soltar fogos! Que coisa mais linda...
BL: Onde está a caixa Marie?
AG: Aqui está...
Antoine apontou para atrás de uma grande rocha ao lado onde a caixa estava escondida e corremos até lá!
ML: Porque não nos contaram logo? Tivemos que abri-la para descobrir!
IL: Fez muito mal sabia? Porque abriu? A curiosidade matou o gato Marie...
ML: O que houve Ian?
BL: Nada, tenho certeza que Ian está ótimo... É só uma tensão momentânea! Vamos nos apressar ou os fogos só serão lançados na próxima hora!
Enfileiramos os bastões de fogos atrás da rocha e nos preparamos para o lançamento. Cada um de nós ficou responsável por um grupo e só o lançaríamos após o término de todos os fogos do antecedente. Marie e Antoine ficaram em pé ao lado aguardando o momento e então pudemos escutar muitas vozes gritarem em uníssono...
5...4...3...2...1...
SB: FOGO!
Eu que era o primeiro da ordem, acendi o pavio e tomei distância... O grupo de fogos subiu fazendo um zunido fino e então, nas alturas, um de cada vez estourou no céu negro e limpo. Assim que o primeiro explodiu, todos aplaudiram e gritaram muito. Os fogos acabaram e pude ver Bernard acender o pavio e correr para onde eu estava... Após os de Bernard foi a vez de Dominique. A platéia aplaudia o espetáculo! Todos gritavam, se abraçavam, choravam, sorriam muito e pulavam. Quando o último fogo de Dominique tomou conta do visual, Ian acendeu o pavio com o fósforo, porém não tomou distância! Ficamos olhando abismados para ele e gritando para que corresse, mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, ele jogou um toco de fósforo para onde Marie e Antoine estavam e correu.
Foi certeiro... O toco de fósforo que estava aceso atingiu a barra da calça de Antoine e começou a queimar. O fogo estava baixo e os dois olhavam para o céu presenciando o último grupo de fogos ser explodido que nem perceberam o fogo subindo e aumentando o ritmo. Ao perceber que sua calça estava em chamas, Antoine correu desesperado para o rio e mergulhou. Marie olhava assustada para a cena e depois nos encarou furiosa.
Ian se contorcia de rir no chão, e nós segurávamos as risadas quando ela veio pisando firme e nervosa para nossa direção.
ML: IAN! Você colocou fogo nas vestes do Antoine! Podia ter machucado ele sabia? Para de rir! Ai, como você é infantil...
SB: Marie, foi um acidente, nós vimos!
ML: Acidente, acidente... Hunf!
Bernard abriu a boca para falar algo, mas desistiu. A menina virou as costas e foi ao encontro de Antoine que estava encharcado da cabeça aos pés, e com metade da barra direita da calça totalmente queimada!
Dominique rindo da situação se afastou desejando Feliz Ano Novo, indo ao encontro da garota. Bernard e eu sentamo-nos e esperamos Ian se acalmar... Ele estava prestes a entrar em crise a qualquer momento, não parava de se contorcer no chão rindo.
Foi assim a nossa virada de ano... Tirando esse “pequeno” incidente, voltamos a festa depois e ficamos nos divertindo até o nascer do sol. Sentamos com Isa e Morgan... Bernard logo se afastou para conversar com o professor Pierre e Adhara e Bel estavam próximas também! Marie e Antoine ficaram olhando atravessado para Ian e esse retribuía um olhar mais frio e seco ainda... O importante é que o nosso show foi ótimo, todos adoraram e aplaudiram, e não ficamos excluídos do resto do mundo sem uma queima de fogos decente!
Adeus Ano Velho... Feliz Ano Novo!
Friday, December 30, 2005
Encerrando o ano com chave de ouro
- Não quero ouvir nem a voz de vocês!
- E contentem-se em apenas ouvir os fogos, porque ninguém sai daí ate amanhecer!
A porta do quarto bateu e ficamos na escuridão total. Estava amarrado em uma cadeira, de frente para os meus dois primos, Lucas e Letícia, que também estavam amarrados. Estávamos os três de castigo por tempo indeterminado e perderíamos a queima de fogos na praia, por causa de um acidente com fogos de artifício. Vou explicar o que aconteceu.
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Dia 31 de Dezembro de 1996, 18hs.
LM: Estou entediado...
GS: E o que eu tenho com isso?
LM: Quero fazer alguma coisa, anda! – disse atirando uma pedrinha no livro que eu lia.
GS: Vai ler, faz bem e não atrofia o cérebro...
LM: Você é chato, vamos brincar de alguma coisa!
GS: Não estou com vontade, porque não vai importunar a Letícia? Olha ela chegando ai...
Um táxi parou em frente à casa e tio Julian, tia Chelsea e a filha deles, Letícia, desembarcaram. Eles estavam vindo de Londres para passar a virada do ano no Brasil conosco e ficar uns dias. Lucas, que era filho da tia Susan, levantou logo e veio arrastando nossa prima ate a arvore onde estava sentado. Meus tios entraram para falar com nossas mães e ficamos no jardim.
LM: Letícia, por favor, me salva! O Gabriel é um chato, não quer fazer nada!
GS: Chato é você! É algum crime querer ler um pouco ao invés de criar confusão?
LS: Ei parem vocês dois! Que coisa irritante, brigam 24hs por dia! Acabei de chegar de viagem e vou ficar poucos dias, portanto decreto o fim da leitura e das brigas idiotas e digo que vamos dar uma volta para achar algo de útil pra fazer!
Letícia arrancou o livro da minha mão, atirando ele na grama e saiu andando pela rua. Como ela não conhecia a vizinhança nova, fomos atrás dela. E como eu já havia previsto, não tinha nada pra se fazer na véspera do ano novo, todos estavam ou viajando ou trancados dentro de casa terminando de arrumar as coisas pra festa. Lucas então parou, como se lembrasse de algo, e traçou uma reta uma velha casa na arvore que tinha em seu quintal. Não subia naquilo há uns cinco anos, nem sabia se ainda passava na porta. Quando chegamos lá em cima, meu queixo caiu: um verdadeiro estoque de fogos de artifício estava guardado lá, bombas de todos os tipos e tamanhos.
LS: Como você arrumou tudo isso??
LM: Anos e anos pegando uns e outros dos que papai compra pra festa de fim de ano. Acho que junto isso há seis anos!
GS: Ele sabe que você rouba os fogos dele?
LM: Não roubei nada, só escondi. E não, ele não sabe. Querem soltar uns?
GS: Não!
LS: Claro!
Olhei piedoso para Letícia, mas os olhos dela já estavam brilhando. Lucas veio arrastando uma caixa contendo morteiros, rojões e flechas árvore abaixo e seguimos para um campo de futebol deserto ao lado da casa dele. Nossos pais estavam tão entretidos botando os assuntos em dia que ignoraram os sons de explosões vindo do terreno ao lado.
A caixa já estava quase vazia quando escureceu. Entramos para nos arrumar e voltamos ao campo para soltar as ultimas bombas. E foi ai que se deu a tragédia. Ao lado do campinho tinha uma igrejinha, onde acontecia uma animada festa de Reveillon, com fitas de papel douradas e prateadas penduradas por toda a extensão do pátio. Subimos no muro com a intenção de soltar a ultima flecha e o ultimo rojão ao mesmo tempo e querendo que eles estourassem mais alto. A garrafa estava presa, ou ao menos era o que pensávamos, no ferro que tinha no muro e acendi o pavio. O idiota do Lucas soltou uma bombinha no mato ao lado e me assustei, chutando a garrafa. Ela girou e com medo daquilo explodir em cima de mim, pulei do muro e corremos rua abaixo. Só que a garrafa não caiu no chão e sim parou deitada, apontando para a festa da igreja.
Não deu tempo de fazer muita coisa a não ser subir no muro de novo e se desesperar. A flecha saiu da garrafa com o rojão amarrado e passou cortando as fitinhas coloridas, ateando fogo nelas. As pessoas pararam para olhar assustados e começaram a gritar quando o rojão se soltou da flecha e deu inicio aos seus estouros no meio do pátio. Eu tinha as mãos no rosto em pânico, observando o estrago. Letícia chorava do meu lado dizendo que tínhamos explodido a festa e Lucas não dizia nada, se concentrava em rir da confusão, alheio ao perigo de alguém se queimar.
LS: temos que fazer alguma coisa! Faz alguma coisa Gabriel!
GS: Você quer que eu faça o que? Tenho cara de caminhão de bombeiro???
LS: Usa sua varinha, apaga o fogo!
GS: Não posso fazer mágica fora da escola... Melhor chamar minha mãe!
LM: NÃO! Tia Louise vai nos devorar vivos. Deixa que os fogos apaguem sozinhos.
LS: Alguém pode se queimar seu maníaco!!
Letícia agarrou a camisa de Lucas e começou a sacudir ele quando ouvimos passos amassando a grama atrás da gente. Minha mãe e meus tios estavam parados logo atrás, chocados com a cena. Aparentemente os gritos os atraíram e dando falta de nós três, vieram correndo. Foi só somar dois mais dois pra saber que estávamos envolvidos com a gritaria e as explosões. Não preciso nem dizer que levamos o sermão do século e saímos rebocados de volta pra casa pendurados pelas orelhas não é? Eles nem pararam para ouvir as argumentações de que foi um acidente, pois não tínhamos autorização para mexer nos fogos de artifício do tio Rogério e muito menos soltar eles pra cima de pessoas. Fomos atirados dentro do quarto de Lucas e proibidos de sair ate o dia clarear. Já que fizemos nossa própria exibição pirotécnica, não precisávamos ver os da praia.
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Pois é, ainda estou aqui, mas agora sem as cordas. Lucas é o menor e mais magrinho, se soltou fácil e depois nos desamarrou. Agora ele esta pendurado na janela gritando no escuro, assustando as pessoas que passam na rua. E esta funcionando, pois alguém sempre grita e depois reclama com ele na rua. Letícia e eu estamos sentados no chão rindo dele. Já são 23h59min, só mais uns segundos pra 1997. Não era o reveillon que eu pretendia ter, mas ao menos da pra ouvir os fogos na praia aqui perto. Fazer o que não é? Feliz Ano Novo de qualquer forma...
Monday, December 26, 2005
Meu natal foi pro brejo, literalmente!
Do diário de Isa McCallister
Longe de casa,
Há mais de uma semana,
Milhas e milhas distante do meu amor...
Momento depressivo? Desde que cheguei no meio desse nada que só tenho momentos como esse! Não que isso esteja com um clima de enterro, longe disso... Ian e Samuel declararam uma verdadeira guerra contra a Bel e Adhara, e isso já me renderam boas gargalhadas. Além disso, Morgan e Marienne fazem de tudo para que eu me divirta aqui também. Já decorei as músicas da viagem, já enfeitamos nossa barraca para o espírito das festas e já descolei algumas roupas com elas. Usar roupas da Bel e ter que alternar três pares de roupas para três semanas não vale, é covardia...
O que está me deprimindo é a falta da minha casa, do meu pai. Tantos planos feitos para nosso fim de ano e estamos à milhas de distância... Se é que podemos medir nossa distância por milhas... Provavelmente ele deve estar estacionado em algum lugar da lua, ou pesquisando vida em Marte.
Será que ela está me esperando,
Eu fico aqui sonhando,
Eu vôo alto, chego perto do céu...
O pior não é pensar no que eu poderia estar fazendo nesse momento, caso meus planos tivessem dado certo, é pensar no que os mosquitos estão fazendo por meus planos definitivamente não terem dado certo! Tenho a impressão de estar no meio de uma sociedade de mosquitos, abelhas, formigas e todos os outros insetos... Quase uma colônia isso aqui. Não sei se já teve a impressão de ser o banquete, mas é essa que tenho! Me sinto como o último ser com sangue doce da face da Terra. Isso aqui é um inferno o dia todo...
E quando saio à noite,
Vou andando sozinho,
Mas não entro em qualquer barra,
Sigo o meu caminho...
Sábado, véspera de Natal, acordei agoniada com o ataque mórfico dos pernilongos. Ainda estava cedo, mal o sol tinha nascido, e todos ainda dormiam... Levantei e fui até uma torneira lavar o rosto. Professor Pierre estava atiçando uma fogueira para preparar o café da manhã, e sorriu quando me aproximei...
PC: Bom dia senhorita McCallister... Porque levantou tão cedo? Ansiosa pelo Natal?
IM: Não exatamente professor! É que sofri um ataque de pernilongos essa noite e estou até ardendo de tanto coçar...
PC: Ah sim, eu entendo... Ai Merlin, não acredito!
IM: O que foi professor?
PC: Esqueci a caixa com comidas dentro do ônibus! Não dá pra fazer o café da manhã só com a fogueira! Vou ter que ir lá pegar...
Ele levantou e de repente parou, me olhou com expressão de alívio e ao mesmo tempo resposta para o dilema dele...
PC: Isabel, você se importaria de ir até o ônibus pegar essa caixa para mim? Ele não fica muito longe daqui...
IM: Hum, claro que não! Por onde devo ir?
PC: Bom, seguindo aquele caminho ali entre as árvores, lá no final, na bifurcação dele, siga pela esquerda e o ônibus vai estar parado no fim! Enquanto isso esquento alguma água...
IM: Tudo bem!
De repente rola uma canção,
E ela me faz lembrar você,
Fico louco de emoção,
E eu já não sei o que vou fazer...
Entrei pelo caminho e as árvores o circulavam... A cada passo que dava, ia ficando mais escuro e silencioso. Continuei pelo caminho um tempo, até chegar à bifurcação... Então parei! A pergunta X veio na minha cabeça: E agora? Tudo bem que o professor Pierre tinha dito em qual deveria ir, mas e quem disse que eu lembrei? Estava tão distraída pensando no que poderia ter naquele mato que esqueci completamente que caminho tomar!
Fui pela intuição, acreditando que o sexto sentido feminino nunca se engana. Pensei comigo: Entre o esquerdo e o direito, eu iria pelo direito, sou destra não é verdade? Lá fui eu, segui pelo direito. As árvores cada vez mais próximas, e a escuridão quase total, sem poder usar varinha... Ia me apoiando nas árvores e não ouvia nada até que...
Ruable! Ruable! Ruable!
As árvores onde me apoiava na lateral de repente sumiram... Mergulhei meu pé em uma gosma grossa e ouvi o coaxar de pelo menos uns duzentos sapos desordenadamente. Ruable! Ruable! Ruable! Aquele som constante e aquela gosma no pé que tinha um efeito de me puxar mais para dentro daquilo... Lutei contra aquele líquido e consegui sair quase ilesa, me apoiando novamente em uma árvore!
Amaldiçoando o Professor Pierre com todos os argumentos que conseguia encontrar, e fazendo vômitos para a minha situação, peguei a varinha e iluminei um pouco o local! Me encontrava na beira de um grande pântano, onde não duzentos, mas pelo menos quinhentos sapos de todos os tamanhos e estilos se aglomeravam. Sai correndo dali, a lama do meu pé me fazendo escorregar, mas eu queria ir bem pra longe daquele local...
Quando cheguei novamente à bifurcação, tomei o caminho da esquerda e corri. Logo as árvores foram se distanciando e estava tudo claro, e lá, no final do caminho, estava o ônibus estacionado.
Com raiva e me sentindo pregada de sujeira, peguei a caixa e voltei ao acampamento. Muitos já tinham levantado e o professor Pierre estava olhando ansioso esperando minha volta.
PC: Ih, pelo visto a senhorita tomou o caminho errado não é?
IM: Sim. Aqui está!
PC: Obrigado...
IM: Não há de quer!
Sai bufando e resmungando e fui novamente até a torneira lavar os pés que estavam grudando... Passamos a noite de Natal em volta de uma fogueira, comendo sanduíches e cantando as mesmas músicas de acampamento e algumas histórias de terror. Meu esmalte já era, mais uma vez, estou dentro de uma barraca sendo atacada pelos pernilongos, com insônia e ouvindo o coaxar daquelas criaturas que ficou impregnado na minha cabeça!
Estou a dois passos do paraíso
Não sei se vou voltar,
Estou a dois passos do paraíso
Talvez eu volte ou fique por lá,
Não sei por que eu fui dizer:
Bye, bye, bye, bye...
*****************************************************
Música: Planta e Raiz - A dois passos do paraíso
N.A.: A música não tem quase nada a ver com o texto, mas quis colocar uma e lembrei a da propaganda! O Ruable é o barulho de sapos que a Mone sugeriu e eu aderi, e o texto é baseado em um fato real!
Saturday, December 24, 2005
NATAL CIGANO
AMOR CIGANO
No silencio da noite,
No brilho das estrelas
Recordei-te...
Abri a porta da imaginação
A brisa da noite de leve
Tocou em meu coração
Trazendo de volta as lembranças
De um passado remoto...
Meio que entre nuvens
Entre uma verdade e um sonho
Encontro-me em seus braços
Sinto seu beijo em meus lábios
As estrelas e a lua são testemunhas
Desta noite de amor tão intensa
De um amor tão verdadeiro
Tão real, sinto suas mãos
Tocarem-me como num toque
Do destino, como num passe de mágica
Num mundo cigano, sem enganos
Sem tempestades, somente nosso amor
Noite após noite perdida em seus braços
Sem querer que o tempo passe...
Foi assim que nos conhecemos...
Como um passe de magia,
Ao som do vento e a brisa da noite
Nos envolvemos e nos amamos...
Como em uma vida cigana...
Um destino duas vidas...
Quem sabe um dia...
Como dizem os ciganos
Nos encontramos a rumo...
De nosso destino...
Acordei com Pablo ao meu lado, cutucando levemente meu braço. Demorei alguns instantes até voltar do sonho, daquela lembrança incauta de uma outra vida que brotara sem pedir licença em minhas entranhas. Abracei meu irmão, há quase dois anos não nos víamos. Pablo é domador de elefantes, e nas últimas férias da escola, ele estivera nas longínquas savanas africanas. Estava com 21 anos e havia se tornado um belo cigano, o meu irmão. Conversamos alguns instantes, mas logo fomos interrompidos. A festa de Natal já havia começado no dia anterior, e hoje era o dia do Renascimento. Esta noite o ritual seria mais uma vez executado, e os cânticos que remetem nosso clã aos mais primórdios antepassados soariam em nossos ouvidos. O Ritual do Renascimento teria início às onze horas e trinta minutos, e durante meia hora Johann e eu dançaríamos sob as mãos de Abraim, oferecendo a ele nossas almas e pedindo estima, proteção e graças a todo o nosso povo. A cigana-mãe estava de pé à nossa frente, e ordenou a Pablo que me deixasse sozinha.
Estava tudo preparado. Todo o povo estava em êxtase, as mulheres cozinhavam, as crianças cuidavam da decoração, os homens afinavam os instrumentos e preparavam as oferendas. Johann e eu havíamos passado os dois dias que antecederam o início das comemorações ensaiando nossa cerimônia de consagração. O primeiro dia de festa foi esplendoroso. Havia muita comida, música e dança em torno da fogueira. A alegria era visível em cada um dos rostos ali presentes. Tudo era muito bonito. Quando faltavam dez minutos para a meia noite, as mulheres mais velhas do nosso clã me levaram para dentro de uma tenda branca. Johann foi levado por nosso pai e pelos velhos conselheiros a uma tenda semelhantes, do outro lado do acampamento.O retiro para a consagração estava começando.
Passei a noite ali, acompanhada de Kalinka e mais duas mulheres, a sacerdotisa e a cigana-mãe da nossa tribo. Vesti uma túnica branca e um véu foi colocado sobre a minha cabeça. Fiz vários exercícios de meditação, com a ajuda de pedras rúnicas e incensos, entoei mantras e recitei orações, buscando a pureza e a paz da minha alma. As mulheres murmuravam preces em voz baixa enquanto eu cantava. Senti a luz das estrelas tomar posse do meu corpo, e entrei em transe. Elas então me deixaram sozinha. Era o momento da entrega, momento em que o cósmico passava a viver em mim e meu espírito viajava pelo céu. Depois disso, adormeci.
Fui despertada pela presença de Pablo que, entretanto, não pôde permanecer comigo mais de três minutos. A cigana-mãe havia permitido a entrada dele na tenda da purificação por alguns poucos instantes, apenas para que pudéssemos nos ver. Ela o conduziu para fora, então, e me deu um grande cálice fumegante para beber. Ao contrário do que imaginei, porém, a bebida era extremamente fria. Senti minha língua arder, mas continuei a tragar o líquido sob o olhar intransigente da cigana.
Tão logo esvaziei o cálice, senti meu espírito abandonar o corpo novamente. A velha cigana entoou um mantra de libertação aos meus ouvidos. A beberragem agora aquecia minhas entranhas, e eu experimentei sensações que jamais imaginara sentir, mas que sem dúvida me levaram ao êxtase, a uma profunda e inigualável paz interior.
Eu podia ouvir a música e as vozes do meu povo que festejava lá fora. Entretanto, tudo aprecia tão distante, tão insignificante frente à liberdade espiritual incondicional a que eu estava submetida, que não hesitei em prolongar ao máximo o tempo do retiro.
Às nove horas da noite, Kalinka e a sacerdotisa voltaram à tenda, com os braços repletos de objetos das mais diversas qualidades. O retiro para a consagração culminava em um banho em pétalas de rosas brancas. Elas banharam o meu corpo, deram-me uma taça de leite de cabra para beber, retiraram o véu branco da minha cabeça e cuidaram dos meus cabelos. A tradição assim mandava, eu deveria manter meu subconsciente o mais afastado possível das coisas mundanas. O perfume das rosas impregnou-se de tal forma à minha pele que eu duvidada que algum dia deixaria de senti-lo em mim. Era o um odor agradável, inebriante. A cigana-mãe trouxe o vestido que eu deveria usar, branco e cravado de cristais. A saia longa, fundamental nos costumes ciganos, trazia uma inscrição rúnica bordada com diamantes. Kalinka ocupou-se em escolher as jóias que eu usaria. Brincos, colares, pulseiras e anéis, todos do mais puro ouro, uma das maiores riquezas do clã.
Fui então conduzida para o exterior da tenda, onde quatro homens, entre eles meu pai, Pablo e Ellyat, carregavam a liteira de madeira nobre. A sacerdotisa pôs-me sentada na condução e os homens a ergueram sobre os ombros. Eu fechei os olhos enquanto vencíamos o pequeno percurso até o centro do acampamento. Só tornei a abrir os olhos quando o silêncio que havia se estabelecido foi quebrado pelos vivas que festejavam a minha chegada. No Natal, os ciganos põem a mesa no chão, com uma toalha branca. Havia uma infinidade de fartos manjares e as mais diversas guloseimas sobre a toalha.
Uma grande fogueira marcava o centro do acampamento, e todo o povo cigano encontrava-se em torno desta, deixando livre uma faixa de aproximadamente 5 metros, formando um imenso circulo humano. De pé, ao lado da fogueira, estava Johann, meu mestre, companheiro, amigo... irmão. Ele trajava magníficas vestes também brancas, e havia em sua camisa, como no meu vestido, a incrustação de diamantes formando uma expressão rúnica digna daquele momento. A liteira foi colocada no chão e então o silêncio novamente tomou conta do local. Apenas o crepitar das chamas podia ser ouvido. Lentamente Johann se aproximou e, depois de curvar-se, estendeu a mão direita, que eu aceitei com um sorriso.
Nossos olhos se encontraram por alguns instantes e vi que meu irmão também sorria, orgulhoso. Os címbalos retiniram e o som da orquestra ecoou. Johann conduziu meus passos em uma espécie de cumprimento a todo o povo reunido. Depois, como em oferecimento a Abraim, ele me tomou nos braços e, com um giro, lançou-me às alturas. A dança cigana é repleta de encanto, liberdade e espontaneidade. Cada movimento, cada rodopio é composto de sentimento, levado pelo ritmo dançando a vida, causa um enorme fascínio a todos que a apreciam. Traduzindo emoções em movimentos, o Rito do Renascimento deixa sua marca pelos seus mistérios, pelo encanto, pela magia, deixando exalar uma energia cativante e contagiante, através dos dedos das mãos, da sedução do olhar, dos giros, das saias, da batida dos pés, das castanholas ao som dos violinos, acordeon, pandeiros e violões. É a dança cigana, é dança presente, é dança viva! Não há quem não seja contagiado pela sua energia, seu magnetismo, sua força.
No fim, quando apenas o som do violino e dos címbalos eram ouvidos, denotando a entrega da alma e a ligação espiritual entre Abraim e cada um dos ciganos, os sinos da Igreja de Le Chambon-sur-Lignon foram ouvidos por toda a cidade. Um festival de luzes surgiu no céu, o que serviu para coroar o Ritual do Renascimento. Os olhares dos ciganos foram voltados para o magnífico espetáculo celeste. As doze badaladas retiniam com poder e glória, anunciando a aurora do Filho de Deus. Era meia noite. Johann me abraçava e olhava para o céu. Em um instante eu olhei seu rosto e ele encontrou meus olhos, e sorriu. Senti meu peito arder em chamas, como se meu coração fosse consumido pela fogueira à nossa frente. "Amor, amor meu. É teu. Somente teu. O meu amor". A décima segunda badalada soou. E só então eu entendi o que a cartomante havia me dito. Ali estava o meu amor. Eu havia pedido a Abraim que me fizesse conhecer o amor que estava tão próximo a mim. E Abraim acabava de realizar o meu desejo. O amor realmente estava bem à minha frente. Johann. Meu próprio irmão.
Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo
Senti as lágrimas tomando conta dos meus olhos, e o pranto inundou cada milímetro da minha alma que até então estava em paz. Sentia uma dor terrível, profunda, incomparável. Era piro do que ter mil facas rasgando minha carne. Meu coração ardia, e meu espírito também. Johann me olhou, percebeu minhas lágrimas e, pensando que eu estava emocionada por termos cumprido o ritual, enxugou meus olhos com suas mãos e beijou meus cabelos. Senti as trevas dentro de mim, o calor do amor que eu tanto ansiara por aquecer meu coração transformava-se em um castelo de gelo. Culpa. Frio. Arrependimento. Medo. Me desvencilhei dos braços de meu irmão, e corri para a tenda de meu pai. A pequena rainha transformava-se em sapo. Eu era a criatura mais suja e indigna sobre a face da Terra. Tinha vergonha do que acabara de descobrir. Mas finalmente tudo fazia sentido. Era por isso que eu não conseguia prever o meu próprio futuro. O destino havia me pregado uma peça, e eu tinha mergulhado nele sem precaução alguma. Percebi que a linha do amor na palma da minha mão estava mais nítida, mas se confundia com a linha do destino, e as duas entrelaçavam-se formando uma terceira. A linha da morte.
Mesmo sem querer eu vou lembrar
Coisas impossíveis de apagar
É pra mim difícil entender
A vida sem você
Johann continuaria sendo meu irmão, mestre e amigo. Mas somente isso. Nunca poderá ocupar o lugar que meu coração clama. Temos o mesmo sangue nas veias, e cultura nenhuma, nem mesmo a cigana, permite o casamento entre irmãos. Essa idéia – irmãos – causava-me náuseas. Seríamos apedrejados até a morte. E eu passaria pelo que fosse preciso pra ver meu irmão vivo.
Vida minha,vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de
me querer
Este seria o meu segredo. Ninguém no mundo jamais iria sequer desconfiar na tempestade que se formava dentro de mim.
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N.A.: Poema “Amor Cigano”, de autoria de Fafá Lima; Música “Amor Cigano”, de Fafá de Belém
Thursday, December 22, 2005
Corram que as formigas vêm aí!
O incidente da poção ilusória me deixou furioso, a escola quase inteira riu da nossa cara quando a gravação dos gritos ecoou pelo acampamento. Com a nossa moral lá embaixo, precisávamos dar o troco na rabugenta engraçadinha. Bernard avisou que não queria se envolver na nossa briga, pois estava disposta a aprender alguma coisa com a viagem. Já Dominique disse que até topava ajudar a bolar os contra-ataques, mas que também não queria se meter. Segundo ele, havia muitas coisas mais interessantes a se fazer num acampamento cheio de garotas com medo de inseto.
Éramos então dois x dois, já que a namoradinha do Bernard estava dando apoio à esquentadinha. Sai da barraca naquela manha com os garotos para nos juntarmos ao resto dos alunos para a aula pratica de Zoologia e Botânica com a cabeça na revanche. Segundo o roteiro do professor, hoje iríamos aprender sobre a vida das formigas que viviam naquela mata. A perspectiva de passar o dia observando formigas tombarem para carregar folhas e segui-las ate seus formigueiros não era animadora, mas fez surgir uma idéia. Ta, era um pouco arriscada, mas valia a pena...
Coloquei Samuel em dia com minhas maluquices e assim que a aula se encerrou, partimos para dentro da floresta, munidos de um pedaço de chocolate, uma jarra de vidro, pedaços de madeira para acertar qualquer coisa que pulasse em cima de nós e nossas varinhas, atrás do ator principal da brincadeira...
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Todos os alunos estavam reunidos em volta da fogueira contando historias idiotas que supostamente deveriam dar medo. O trabalho de Dominique e Bernard era manter todos presos ali com qualquer historia absurda que eles iam inventar, o importante era não deixar ninguém sair ate que Samuel e eu estivéssemos de volta.
Entramos na área onde as barracas estavam montadas e logo achamos a de Adhara e Anabel, era a única sem enfeites pendurados. Samuel abriu o zíper com cuidado e entramos. O processo durou apenas alguns minutos e assim que fiz um pequeno furo na parte de trás dela, saímos depressa, nos juntando ao grupo que prestava atenção nas baboseiras de Dominique, atentos.
O professor logo ordenou que nos recolhêssemos e todos seguiram para suas barracas sem questionar. Fingíamos que também estávamos indo, mas ao invés de entrarmos, pegamos o pote de vidro que levamos para a floresta e esperamos escondidos no mato.
Adhara e Bel entraram na barraca e dava para ver a sombra delas se arrumando para entrarem nos sacos de dormir. Samuel correu ate a brecha que havíamos feito e abriu o vidro, liberando milhares de formigas de todas as espécies que conseguimos encontrar, fazendo todas entrarem na barraca. A qualquer momento agora...
- Aaaaaaaaaaaaargh QUE PORCARIA É ESSA?
- Ecaaaaa, ta grudando! Ai que nojo, o que é isso???
- Calma Bel, é chocolate derretido...
- Quem passou chocolate nos nossos sacos de dormir??
- Ah, eu tenho uma vaga idéia...
- Adhara? Adhara... ADHARA! – Bel falava enquanto puxava a manga do pijama da amiga.
- O QUE FOI?
Bel apontou para o chão e gritou ao ver todas as formigas que soltamos subindo em suas pernas e nas de Adhara. O chocolate que passamos por todos os cantos as atraiu e em questão de segundos a barraca amarela delas ficou preta. Pela luz da fogueira ainda acesa dava para ver as duas correndo de um lado para o outro, sacudindo os cabelos e gritando, pois algumas eram daquela espécie que morde e deixa marca. Uma delas tentou abrir a barraca, mas as trancamos lá. Quanto mais elas esfregavam a mão nos braços e pernas para tirá-las, mais espalhavam o chocolate que havia grudado nelas dentro dos sacos de dormir e mais formigas surgiam.
Acho que foram mais ou menos 5 minutos de gritaria e pânico, onde podíamos ouvir Adhara falar todo o vocabulário de palavrões que conhecia e Bel berrar desesperada que suas pernas estavam coçando, quando corri ate a barraca e soltei o lacre. As duas saíram em disparada lá de dentro, se atirando direto no lago para se livrar da pasta e das formigas. A essa altura a escola inteira já havia acordado com os gritos e todos riam abertamente ao verem as duas saírem de pijama do lago, ensopadas e empoladas.
Samuel e eu estávamos deitados no chão, rolando de rir da cara de ódio que Adhara lançava a nós dois. O professor expulsou todos dali, dizendo que o show tinha terminado, e as duas voltaram para a barraca ainda preta de tanta formiga para começarem a limpar a sujeira. A noite delas vai ser longa...